As Lástimas da Melancolia

1 Primeira Carta - 07 de outubro de 1509.


Meu Caro Leitor,

Finalmente consegui a coragem de falar tudo que domina minha alma e meu pensamento. Para um leitor desconhecido, perfumarei esta carta com o doce aroma das orquídeas brasileiras. Escreverei com a caligrafia falha e borrada, as redundâncias que assolam meus dias. Como disse, não tenho um destinatário, apenas vomitarei as angustias e tristezas num pedaço amarelado de papel de carta. Talvez alguém leia a melancolia que sinto, talvez coloque fogo neste conteúdo ou lance os papeis ao vento em direção ao Tejo. O importante é tirar aos poucos o punhal que me introduziram ao peito, na delicada literatura.

Tudo começou em uma amena tarde plúmbea, as poeiras dançavam pelos meus aposentos ao som da melodia da harpa que dedilhava. Era o dia em que as caravelas voltariam do Brasil, trazendo madeira e aves exóticas, sempre tive medo delas, elas imitavam sons e tentavam falar como humanos, isto era medonho. Veria novamente o grande Capitão Leopoldo, as historias mirabolantes que causavam medo em todos me intrigavam, gostaria de conhecer o mundo.

Uma ama bateu a porta e trouxe ao meu quarto um vestido azul de seda oriental, ela abismou-se ao ver-me trajando trapos, e logo me despiu deixando nua diante do vazio. Fechou as cortinas rapidamente. Murmurava coisas como os vários rapazes que dariam dotes, pois agora era núbil. Nunca me importará muito com isso, mas diante de quaisquer ordens do meu pai, deveria obedecer.

Meu amado pai, um homem valente, que sempre faz tudo para dar o melhor para as suas três filhas. Casou a mais velha com um conde infiel que veio a falecer por causas naturais, agora minha irmã, Maria ensina etiqueta a garotas destinadas a casar-se com nobres ricos. Agora o objetivo dele era lidar com as duas mais novas. Uma mimada que carrega uma gata preta para todos os lados da mansão e eu, alguém que não consegue se opõe a nada, tenta ser o exemplo de perfeição, independente de quanto isso doa.

Devo também falar da minha mãe, uma mulher arrogante que sempre quer ser a dona da verdade. Ela não gosta de desrespeito e mima o filho mais novo de sua irmã como se fosse ela quem deu a luz. Talvez isso seja ciúme da minha parte. Nunca consegui manter grandes conversas com ela, mas depois de tudo, ficou cada dia mais difícil.

Minha ama conseguiu acabar de me vestir, era uma roupa quente, acompanhava as formas do corpo. Penteava as madeixas do meu cabelo de forma sutil e deixou a cascata cair pelos meus ombros. Deu-me um leque de penas de arara e mandou-me descer. Pegaria a carruagem para ir até as estufas de senhorita Abigail, onde as comemorações aconteceriam.

Parada a frente de casa, estava à carruagem, um belo rapaz a guiava, meus familiares já esperavam lá, todos com uma feição indiferente. Comentários vagos surgiram, mas nada me tocou tanto quanto o comentário de mamãe... “Está muito bela hoje e logo conseguirá um marido, será uma boca a menos para seu pai sustentar.” Aquilo cravou o fundo da minha alma como o bebida bate no fundo do estomago de um bêbado. Eu era um estorvo para ela? Provavelmente sempre fui, mas agora ela exibia isso.

Logo chegamos às estufas, mesas com vários doces estavam despostas e a musica soava para aristocratas e nobres que dançavam de forma sincronizada. Consegui ver distante o capitão, por mais que fosse acusado de ser um saqueador da Espanha, acreditava na sua inocência e gostaria de conversar com ele, mas me impediram disto puxando-me pelo braço. Um rapaz que nem sabia o nome me tirou para dançar.

Tentei com toda perfeição possível, mas logo pisei em seu pé. Ouvi risos de algumas garotas, mas ignorei e continuei a rodopiar segurando os saiotes do meu vestido. A música logo finalizou e escutei duas batidas de um garfo numa taça. Era meu pai, falando a todos que as ofertas pela minha mão estavam dispostas... Apenas sorri forçadamente, não era o que queria, mas era o necessário.

O pestinha do meu primo corria para todos os lados, carregando em sua mão um pedaço de bolo de limão com mel, que propositalmente, voou para meus cabelos. Senti creme branco escorrer pelo meu rosto, tentei rir da situação como todos faziam. Mas a única atitude que tive, foi correr chorando para dentro de uma das estufas, esbarrando nas arvores.

Sentei em um canto, minha cabeça doía e os olhos ardiam, aquela peste havia estragado tudo, não conseguiria um casamento e continuaria sendo um estorvo para meus pais. Eu era um erro para todos. Ouvi alguém se aproximando, parou diante de mim e perguntou com a voz grossa e calma: “Posso sentar com você?”. Era o cocheiro. Com ajuda de um lenço, tentou de maneira falha limpar meus cabelos. Um rapaz gentil, com um sorriso lindo e encantador. Casaria com ele sem pestanejar. Infelizmente isso nunca seria permitido.

Perguntei seu nome. Benjamin. Não consigo tirar sua feição de minha cabeça. Mas minha mãe, senhora Antonieta, chegou bufando me puxando com brutalidade e aos berros. Gritou comigo, na frente de todos, que eu era uma irresponsável, que deveria ser mais cuidadosa como uma dama e tirar a cara dos livros de romance e das partituras e dedicar-me de corpo e alma ao casamento, que talvez não acontecesse, pela burrice e asneiras vindas da minha pessoa. Não resiste, e como sopro do vento nas folhas de uma arvore de outono, rebati os insultos colocando a culpa na criança. Recebi um tapa, tão forte que os dedos dela marcam meu rosto até hoje.

Voltei caminhando, enchi a barra do vestido com lama. Afinal, havia chovido nos dias anteriores. Entrei pelos fundos da casa, já era noite. Fui ao meu quarto e ela me esperava lá, com um chicote de adestrar os cavalos. Rasgou minhas roupas e jogou-me na cama. Rapidamente açoitou-me, acertava em qualquer lugar do meu corpo, ela nunca fez isso antes. Segurei as lagrimas e não chorei. Alguns empregados e meu pai chegaram ao momento em que isso aconteceu. Os lençóis brancos estavam tingidos de vermelho. Ouvi comentários do tipo “Se for para deixar neste estado, mate de uma vez.”.

E foi isto que aconteceu, tenho medo de comer e ser envenenada. O relacionamento que já era vago tornou-se vazio. Toda noite chorava e dormia pensando na humildade de Benjamin, aquilo era a única coisa que me acalmava. Desde então, tudo isso parece um inferno, rezo todos os dias para que vá morar com Maria.

Guardarei esta carta como se fosse um tesouro pirata das histórias de Bartolomeu, com receio, escreverei todas as noites, as lastimas melancólicas da minha vida, que um dia talvez, alguém venha a ler.

Atenciosamente,

L.N.A.G.

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