Benji precisou de um tempo para assimilar todas as implicações do que Rebeca acabara de lhe dizer. Ela não estava rondando o gramado. Ela não era o vulto que eu vi. A conclusão que se podia fazer daquilo era óbvia e assustadora: outra pessoa estivera rondando sua casa ainda naquela noite. E, a julgar pela expressão que se desenhara na face de Rebeca, isso não era nem um pouco esperado ou positivo.

- Benjamim, você... Você está dizendo que havia alguém circulando pelas redondezas da sua casa antes de eu chegar? Você viu alguma coisa? – Rebeca falava com uma urgência nervosa na voz, e ela voltara a cravar os olhos nas brilhantes luzes lá em cima.

Ela pode estar mentindo. Até onde Benji sabia ou podia supor, tudo naquela mulher poderia ser uma grande farsa. Quais seriam os verdadeiros objetivos dela com aquilo tudo? Dadas as circunstâncias do encontro dos dois, e levando em consideração todos os acontecimentos daquela noite até então, continuar confiando naquela mulher poderia ser um risco grande demais para se correr. Enquanto esperava uma resposta, Rebeca arrancou aquele relógio estranho da bolsinha de contas e começou a dar voltas enquanto observava em seu visor.

- Eu... Eu ouvi alguma coisa, e tinha um vulto também... – Ele começou a falar, mas a simples menção do avistamento de uma figura em seu gramado foi o bastante para atrair novamente a atenção da estranha.

- Um vulto? E como ele era?

Era uma pergunta difícil. Ele não o havia visto com clareza suficiente, pelo menos não o bastante para fornecer uma descrição precisa.

- Eu não sei... Era, sei lá... – Benji foi forçando a memória visual enquanto tentava encontrar palavras pra descrever a vaga sombra que avistara correndo pelo seu gramado. Pra que ela quer saber isso? Que diferença faz? – Era alto, esguio... Eu não sei Rebeca, ele era muito rápido!

Algo naquela descrição, no entanto, bastou para que o rosto de Rebeca perdesse completamente a cor. Enfiando o artefato de volta na bolsinha abarrotada, a mulher começou a andar em círculos enquanto praguejava repetidas vezes, agitando o seu bastão no ar displicentemente.

- Merda, merda, merda... – Rebeca parou repentinamente e voltou a encarar as luzes, fazendo uma careta. Por que ela insiste em olhar pra elas? Elas ainda estão na mesma posição! Ela, porém, não se demorou muito em sua observação, e logo alcançou Benji, que ainda estava perto do bosque escuro. – Benjamim, veja bem... Se isso que você está me dizendo for verdade... A nossa cota de problema simplesmente acaba de triplicar...

- Quê? Por quê? – Uma ideia repentina surgiu na mente de Benji, e, apesar de ela ser relativamente óbvia, ele temeu a resposta que poderia vir de Rebeca quando falou: — Você acha que eles já mandaram alguma unidade para checar o terreno?

Ela encarou-o longamente, como se estivesse decidindo se devia ou não responder àquela questão. Feliz ou infelizmente, Rebeca optou por responder.

- Não. Eu acho que o nosso problema aqui é ainda pior... – Ela fez uma pausa e pareceu ponderar alguma coisa enquanto, uma outra vez, observava as luzes. – Olhe, isso não é problema seu. Nós precisamos agir rápido, mais do que nunca.

- Como assim não é problema meu? Seja lá quem for, estava rondando a minha casa!

- E isso apenas serve para nos alertar da urgência de nossos atos. Benjamim, eu prometo que, se você quiser, quando isso acabar, eu vou lhe dar uma explicação completa sobre tudo o que está havendo. Embora, na minha singela opinião, quanto menos você souber, melhor... – Rebeca fez uma breve pausa enquanto buscava uma entrada pelas árvores do bosque, fazendo gestos com a mão para que Benji a seguisse. Ela então abriu a bolsinha outra vez e tirou de lá um objeto azulado e pequeno, que Benji logo identificou como uma lanterna. Rebeca apertou um discreto botão e um longo feixe de luz branca surgiu na extremidade do objeto, o qual ela apontou na direção do bosque. – A questão é que esse vulto que você viu nos traz um problema que eu terei de resolver. Você, Benjamim, deve se ater ao que você veio fazer.

O objeto, claro. Ele havia quase esquecido que fora arrastado até ali para procurar algo que ele nem sabia o que era. Conforme ele e Rebeca andavam pela orla do bosque, porém, uma dúvida foi assolando a sua mente. Esse objeto... Ele está aqui? No bosque? Antes que pudesse verbalizar esse pensamento, no entanto, ele foi surpreendido por um som que se assemelhava à estática, como uma interferência em um televisor. O ruído vinha de todas as direções, e parecia crescente. Rebeca parou abruptamente e voltou os olhos para o céu, visivelmente assustada, e Benji perguntou-se se aquela madrugada tinha como ficar ainda mais anormal. A resposta veio quando o som da estática foi substituído por um silvo agudo e extremamente alto, que lembrava um apito. O som cortou o ar ao redor de Benji e Rebeca, que se viram obrigados a cobrir os ouvidos para aguentá-lo. Enquanto as ondas sonoras vindas de lugar algum insistiam em penetrar os ouvidos dele, Benji sentia um crescente arrepio dançar pela sua pele, e ele teve a nítida impressão de que o interior dos seus ossos havia congelado. Decorridos alguns segundos, porém, o som sumiu sem deixar qualquer vestígio ou indício de onde poderia ter surgido.

- Que raios foi isso...? – Indagou o garoto, voltando-se em todas as direções, buscando a origem do ruído.

- Benjamim, temos de nos apressar. – Chamou a voz de Rebeca, e o garoto podia jurar ter sentido um leve tremor nela. Quando Benji se virou novamente para encará-la, ela estava parada diante de uma pequena abertura nas árvores, de onde parecia partir uma pequena trilha acidentada que conduzia ao interior do bosque. – Você sabia que, em 1966, um objeto voador não identificado teria supostamente caído aqui em Laranjeiras?

A pergunta pegou-o completamente desprevenido. Um OVNI caiu aqui? Em Laranjeiras? Era de se esperar que ele tivesse, de alguma forma, ficado sabendo daquele caso. Quedas de objetos voadores não identificados eram largamente noticiadas pela imprensa em geral, ainda mais em locais pacatos como Laranjeiras. Os sites de ufologia que ele frequentava provavelmente trariam informações, ainda que escassas, sobre um evento daquela proporção. Se um objeto daqueles tivesse atingido o solo ali naquela localidade, Benjamim tinha certeza que isso faria parte do folclore local.

- Eu achei que não. – Rebeca deve ter notado a confusão que se formou no rosto dele. Após dar uma breve olhada rotineira nas luzes, a mulher voltou-se para ele e começou a falar o mais apressadamente que podia, exigindo que Benji esforçasse-se ao máximo para tentar acompanhar o que ela dizia. – O prefeito da cidade, à época, era militar, e ele sabiamente fez o possível e o impossível para abafar o caso. Felizmente o objeto caíra bem longe do centro da cidade, e durante a noite, de forma que praticamente não houve testemunhas. As poucas pessoas que viram o fenômeno acontecer... Bem... Eu não sei dizer o que aconteceu com elas.

Ela fez uma pausa para tomar fôlego e lançou um olhar na direção do bosque.

- Paralelamente aos eventos daquela noite, era finalizada aqui, na periferia de Laranjeiras, a construção do Hospital São Lucas, o primeiro da cidade. No entanto... Os militares não sabiam muito bem o que fazer com os destroços, Benjamim. O país não tinha, na época, a estrutura que temos hoje para lidar com esse tipo de caso. Enquanto o prefeito lutava para manter tudo em sigilo, os restos do objeto foram levados ao hospital e largados lá, onde ficaram até ser recolhidos pela FAB em 1972. Dispensável comentar que o hospital nunca foi ativado, certo? Depois disso, boa parte do prédio foi implodida e a história ficou esquecida.

Rebeca agora estava parada completamente diante da entrada do bosque, com a lanterna apontada para o que havia lá dentro.

- Uma ala do hospital, no entanto, permaneceu em pé, e os militares acharam que era uma ideia inteligente plantar um bosque em torno dela, para escondê-la. – Agora ela virou-se para encarar o garoto, fitando-o diretamente nos olhos. – Benjamim, nós já sabíamos desde aquela época que nem todo o material encontrado aqui em Laranjeiras havia sido levado pela FAB para Brasília, conforme os relatórios oficiais afirmavam. Mas achávamos todos que o hospital não existia mais, o Exército nos confirmou essa versão. Eu não sei dizer por que eles nos ocultaram uma informação valiosa como esta... Mas o fato é que, recentemente, nós descobrimos que ainda havia ruínas do complexo na cidade... A suposição mais lógica a se fazer é que o material que faltava só podia estar aqui.

Silêncio. Então era isso. Os restos da queda de um objeto voador não identificado. Restos alienígenas escondidos rudimentarmente em um hospital abandonado, que foi ocultado da população com um maldito bosque plantado artificialmente. E, para coroar, a mulher que o arrastara até ali nem mesmo tinha certeza de que o que eles procuravam estava ali.

- A aparição dos OVNIs sobre Laranjeiras esta noite apenas confirma a nossa teoria, e assim que os primeiros objetos foram captados sobrevoando o espaço aéreo brasileiro, nós nos mobilizamos para entrar em ação e investigar o hospital. É o que eu vim fazer aqui, além de outras coisas que, como já lhe expliquei, não lhe dizem respeito. – Ela agora se aproximou do garoto e abriu a bolsinha de contas, cujo volume diminuíra consideravelmente após a extração da lanterna. De lá, Rebeca tirou um pequeno objeto que estendeu a Benji. – Os militares trancaram o que sobrou em um quarto, e só Deus sabe por que eles deixaram isso aqui por tanto tempo. O que interessa é que você precisa chegar até o quarto, entrar lá e... E, bem. Encontrar o que eles querem de volta.

Benji fitou o objeto que a mulher lhe estendia. Era uma pequena chave dourada, com os números 2-4-2 gravados no corpo. Relutantemente ele a apanhou, examinando-a com cuidado. Ela parecia gasta, enferrujada, e ele ficou se perguntando o que os aliados de Rebeca haviam feito para pôr as mãos naquele objeto.

— Certo... Olha... Tem um milhão de coisas que não fazem sentido nessa história e que eu queria perguntar... Mas eu acho que... Hã... Você não me responderia nada, não é mesmo?

- Precisamente. – Ela fechou a bolsinha e virou-se, ficando de costas para o bosque, forçando os olhos para avistar a cidade ao horizonte, que estava obscura como o manto da noite.

- Ok, olhe... Quando eu achar... Hã... Isso. Eu faço o quê? Eu tiro de lá, entrego para você...?

- Destrua. – A resposta simplória pegou-o completamente desprevenido. Ela me arrasta até aqui simplesmente para destruir alguma coisa? Por que esses militares malditos não demoliram o maldito hospital inteiro de uma vez? Porque ela e os amiguinhos dela não tacam fogo nesse bosque de uma vez e acabam com tudo?

- Como assim...?

- Eu não sei Benjamim! Ateie fogo, sei lá, dê um jeito. – Ela virou-se para encará-lo outra vez, e o garoto pode detectar a preocupação nos olhos cinzentos dela. – As ordens que eu recebi quando vim para cá eram recuperar o material e levá-lo em segurança para Brasília. Mas as coisas mudaram, Benjamim. O vulto que você viu mudou absolutamente tudo. As coisas adquiriram uma faceta preocupante demais, e os fins não justificam os riscos que correríamos se esse material fosse retirado do prédio. Você precisa destruir o que você vai encontrar lá dentro, está me entendendo? Não me interessa como você vai fazer isso, mas você precisa destruir aquilo. Por mais que você ache que é errado, por mais que você se sinta, sei lá, atiçado a esconder esse material ou preservá-lo... Você deve acabar com ele. Se eu soubesse que as coisas adquiririam esse aspecto eu teria trazido um isqueiro... Mas tanto faz, deve haver alguma coisa lá dentro.

Ela se calou por alguns instantes, e, como se lembrasse subitamente de um detalhe importante, Rebeca estendeu o bastão e a lanterna para o garoto.

- Tome. Algo me diz que você vai precisar mais do que eu. – O comentário deixou-o tenso. A lanterna tudo bem, mas o bastão... Aquilo só podia significar que ele encontraria alguma forma de... Resistência. A ideia era assustadora demais para ser concebida, então ele simplesmente agarrou o instrumento e segurou-o, surpreendendo-se ao constatar que ele era deveras mais leve do que aparentava ser. Depois, enfiou a chave no bolso do celular e agarrou a lanterna. – Se alguma coisa ameaçar você... Não hesite em atacar. Eu queria que as coisas tivessem sido mais simples, como eu havia planejado... Olhe, eu não estou dizendo que você vai necessariamente precisar dele, mas... Nunca se sabe. Eu repito: Se você precisar, não hesite em usá-lo. Eu garanto que ele funcionará muito bem em qualquer coisa. No mais... Boa sorte.

Após passar o bastão para o garoto, Rebeca acenou levemente com a cabeça e virou-se, caminhando vagarosamente na direção de Laranjeiras, deixando para trás um Benjamim com mais incertezas do que quando a encontrara sentada em sua árvore. Como um simples vulto pode ter mudado totalmente as regras do jogo? Se ele achava toda aquela viagem uma insanidade sem tamanho antes, agora ela adquirira todas as características de uma missão suicida e impossível. Engolindo em seco, ele preparou-se para dar o primeiro passo na direção do bosque, mas lembrou-se de algo.

- Rebeca! – Ele gritou, e, à distância, a mulher parou sua caminhada, mas não se voltou. – Você não me disse exatamente o que eu estou procurando.

Um momento de silêncio.

- É porque não é o quê, Benjamim. É quem.

E, dizendo isso, Rebeca seguiu sua marcha e desapareceu na escuridão das sombras projetadas pelas casas de Laranjeiras.

Notas finais
Me perdoem se eu apressei os acontecimentos ou algo assim, não foi minha intenção :p Mas, como diria Rebeca, não podemos perder tempo h0h0h0 '-'
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.