As Letras Mortais
2 Capítulo extra
Notas iniciais
A propósito... Essa coisa toda é uma metáfora tripla, mas não se preocupem com ela, ninguém vai entender no começo (a menos que seja um puta gênio, daí merece um troféu joinha), mas no final tudo será explicado
Enjoy ^^
Mantendo os olhos fechados, o loiro enxergava o vermelho; sim, vermelho era a única coisa captada em seu campo de visão; provavelmente culpa da luz. Era um vermelho tão forte e profundo, intenso, que parecia querer sugar sua vitalidade.
Vermelho, da cor do ódio.
Da cor da paixão.
Da cor do seu amor.
Da cor do inferno.
Por um instante, Mello chegou a cogitar que seu plano tinha dado certo e ele estava realmente no inferno, para pagar pelo que fizera com Matt. Mas algo estava errado; para começo de conversa, aquele vermelho era tão aconchegante e conhecido que não poderia ser característico de tal lugar. Segundo, ele não sentia calor ou dor, apenas uma brisa fresca que lhe massageava o rosto. E estava sentado em algum lugar macio.
Passou algum tempo meditando. Aquele não poderia ser o paraíso, poderia? Não, era impossível. Ele definitivamente não merecia. Então o que? Perdido em sua falta de respostas, o loiro, hesitante mas impaciente, abriu os olhos.
Estava em uma praia. Aquilo o surpreendeu. Sentava-se na areia, de frente ao mar de um azul brilhante, profundo e gélido como os olhos que o encaravam. Isso surpreendeu Mello, que levou a mão ao rosto, sentindo a brisa parar de roçar neste para fazê-lo no obstáculo. Acima de si, o sol brilhava, apesar de também queimar, mas o loiro não se importou. Era, de certo modo, agradável. Como qualquer praia comum, só que sem os vendedores irritantes berrando coisas aleatórias no seu ouvido.
Sério mesmo, por que ele estava em uma praia?
E ainda, com as mesmas roupas de couro de sempre?
Enquanto devaneava, o loiro sentiu algo quente e macio tocar-lhe o ombro.
Levantou o olhar, para ver quem era, mas não por curiosidade. Ele reconhecia aquela sensação, aquele estremecer interno, misto de tranquilidade e calor, e reconheceria-o em qualquer lugar.
Não, não foi por curiosidade que Mello levantou o olhar.
Foi por saudade.
Mas a culpa logo se tornou pesada demais sobre sua cabeça, e ele voltou a olhar pra baixo.
– Matt... — sua voz rouca sussurrou.
Ele notou que o ruivo abaixava-se, e logo estava sentado ao seu lado.
Matt também estava com as roupas de sempre: calças jeans, botas de couro, camisa listrada e os típicos óculos de natação sobre a cabeça. Mello quase sorriu com isso. Caíam, de alguma forma, bem em seus cabelos bagunçados, e realçavam os seus olhos verdes.
Olhos verdes e calmos que agora o encaravam com tanta compreensão que quase o sufocava.
– Mello — o ruivo respondeu, e este pôde perceber o seu sorriso mesmo sem vê-lo — tudo bem — tocou novamente seu ombro, desta vez mantendo a palma ali — não foi sua culpa.
O loiro quase riu. Nem cinco segundos, e Matt já sabia exatamente o que ele sentia. E pior, se importava. Mesmo com tudo o que Mello tinha feito a ele. Mas que ridículo o chocólatra era, afinal.
Porém, ele não riu. Apenas balançou a cabeça de forma negativa.
– Se isso fosse verdade, você não estaria aqui.
O ruivo sorriu, ainda calmo.
– Eu ia morrer algum dia, Mello. Você sabe que é predestinado, os shinigamis nos ensinaram.
Teimosamente, o loiro apenas balançou a cabeça negativamente de novo. Ele que colocara Matt nesse destino. Se nunca tivessem se conhecido, seria tudo diferente.
Mas a vida do loiro, e ele próprio, seriam também.
Droga, como ele era egoísta!
Matt, cansado de ser ignorado, segurou o queixo de Mello entre o polegar e o indicador, puxando-o em sua direção para que o encarasse. O loiro não resistiu. Não conseguia. Os olhares dos dois se chocaram e pareceram se fundir em algum ponto no ar, calmaria e tempestade, daquele jeito que sempre acontecia e deixava Mello tão sem graça.
– Não foi sua culpa, Mello — Matt repetiu. Este apenas olhou para o lado, não aguentando aquela troca de olhares.
– Meu nome é Mihael Keehl — ele o corrigiu. Sabia que era inesperado, mas e daí? Estava morto mesmo e Kira não fazia a diferença. Além disso, o seu nome era a única coisa de si que o ruivo não sabia. E se alguém tinha esse direito, esse alguém era Matt.
O maior ficou surpreso com essa declaração repentina, mas logo se recuperou. E sorriu. Era brilhante como Mello se lembrava.
– Mail Jeevas.
Mihael bufou.
– Mail? Parece e-mail. Será possível que esse seu vício em tecnologia tá até no nome?
Matt riu, e o loiro quase o acompanhou, de tão musical e adorável que aquilo soava.
– Isso não foi minha escolha, idiota — provocou, mas no fundo estava feliz. Se Mello estava agindo normalmente, isso queria dizer que se sentia melhor. Ele sabia disso.
Mas logo percebeu que tinha usado as palavras erradas, porque o sorriso do loiro sumiu. Droga. Ele tentou olhar para baixo de volta, mas Matt, que ainda não tinha largado seu queixo, o impediu.
Ainda calmo, o ruivo se aproximou, inclinando-se em sua direção. Mello ficou automaticamente envergonhado, e corou um pouco. Matt riu.
– E eu ter morrido não foi sua escolha, então pare com isso.
Os olhos do loiro se encheram de lágrimas, mas ele se recusou a deixá-las sair.
– Matt... Mail... Eu... Me desculpe... — começou hesitante, sua voz fraca falhava.
– Eu acabei de dizer que não é sua culpa — interrompeu, não aguentando tudo aquilo.
O loiro não pôde evitar sorrir.
– É... Mas... Ainda assim, eu te mandei para morrer... E depois de tudo o que você fez por mim... Eu não fui capaz de te fazer nada, estava só tentando te salvar, mas falhei... — e aqui sua voz também falhou, e ele repetiu — falhei...
As lágrimas retidas enfim se libertaram, escorrendo e correndo livremente em sua face. Matt, muito pacientemente, as secou, como sempre fazia. Mas o loiro não conseguiu mais parar de falar.
– Eu não pude fazer nada... Merda, Matt! Eu só pude ficar lá, assistindo, me perguntando se doeu... E não fiz nada pra evitar, droga. Eu te amava, Matt, e mesmo assim...
– Cala a boca, Mello.
A ordem o surpreendeu. E então o chocólatra percebeu o que tinha dito.
Oh. Mas. Que. Merda.
Ele corou enormemente, tingindo as bochechas alvas com uma cor que lembrava a dos cabelos do maior.
– Ah... Desculpe... Simplesmente saiu... Desculpe, foi sem querer, eu...
– Cale a boca, Mello — ele repetiu.
E o loiro o fez, surpreso demais para falar.
Satisfeito em ser obedecido, Matt limpou os rastros de suas lágrimas calmamente, em seguida descendo as mãos em uma trilha pelo seu rosto até o pescoço, sem soltá-lo, até por fim instalá-las em sua nuca. O loiro, confuso e envergonhado, novamente tentou falar.
– Olha, eu...
– Mandei calar a boca, Mello — disse, e lentamente começou a se aproximar do loiro, puxando-o para perto pela nuca, até enfim tocar seus lábios com os dele, de forma suave e calma como o resto de seus movimentos. Mello ficou surpreso, mas logo correspondeu, deslizando com a língua em direção à boca dele, e quando lhe foi concedida passagem, as duas línguas se entrelaçaram como se valsassem, lentamente girando como se qualquer movimento brusco pudesse romper seu contato.
Os dois se separaram, respirando fundo. Pelo brilho no olhar de Mello, era possível supor que ia começar a chorar de novo. O ruivo segurou sua mão, sorrindo.
– É... Acho que está perdoado, Mello — disse divertido, para logo depois ficar sério — e... Eu te amo também.
O loiro corou, mas bem quando ia responder, um homem num barco, que tinha acabado de chegar, o interrompeu.
– Vão embarcar?
Mello franziu o cenho, confuso.
– Vão embarcar? — o homem repetiu.
– Está indo para onde? — o loiro retrucou.
O velho olhou ao redor, sorrindo.
– Não sei. O mar é revolto e faz o que bem entender. Podemos ir a diversos lugares. Mas se vocês não embarcarem, vão ficar presos por muito tempo nessa praia. Vocês tem que ir, independente do destino. Não teriam o que fazer se ficassem.
Os dois se encararam. Matt se levantou e estendeu a mão para ajudar o loiro a fazer o mesmo, mas este hesitou.
– Matt... E se isso aí levar você pro inferno?
O ruivo sorriu, indiferente.
– Ficar preso aqui não vai adiantar nada, Mello. É melhor ir ao desconhecido que ficar preso na mesmice. É como viver. Não adianta viver por muito tempo e não fazer nada que valha a pena. De qualquer forma, não acho que esse barco seja a morte. Vamos.
O loiro não sabia por que, mas ficou mais calmo com aquilo. Pegou sua mão e se levantou. O homem sorriu.
– Vocês são sábios, meus jovens — comentou.
Os dois embarcaram, de mãos dadas, sorrindo, e o barco partiu com eles ao desconhecido naquele exato instante. Mesmo porque, ele só poderia ir para a frente se os dois entrassem juntos.
Notas finais
Bem... A ideia era que fosse Mello-centred, mas eu amo, amo e amo o Matt, e fico meio viciada nele, e quando eu fui ver já estava Matt-centred, então tá mudando de centro. Sinto muito por isso.
De novo, meus parabéns, Guardian-sama, que provavelmente só vai ler o extra daqui a 4 dias.
Espero que tenham entendido os três significados da metáfora... Se não, deixem um review e eu explico
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