Aquela manhã nasceu como sempre costumava ser durante todos os dias do verão. O sol ainda tímido se escondia por trás das Montanhas de Jade e o céu ameaçava se tingir de um belo azul claro à medida que a alvorada despontava no horizonte. Umas poucas nuvens podiam ser avistadas e indicavam que o dia seria quente e convidativo. O vento soprava frio e ruidoso enquanto um bando de pássaros sobrevoava a pequena cidade de Jaku. A cidade era localizada bem entre as montanhas e a Grande Floresta, o que tornava o local perfeito para quem buscava sossego e discrição. Há cerca de vinte anos do dia em questão, Jaku serviu como refúgio para muitos soldados que queriam fugir do terror das batalhas decorrentes de uma guerra civil entre as principais raças que habitavam o reino de Odrite. Eram elas dragorados, centauros e os humanos. O conflito ficou conhecido como a Grande Guerra das Raças. Após o fim da guerra, Odrite teve seu território dividido em três partes. O dragorados por terem saído da guerra com menos perdas e com superioridade indiscutível, apropriaram-se da maior parte das terras situadas ao norte que ficou conhecida como Aundar. Os Centauros ocuparam as terras do sul conhecidas então como Dovstar. E aos humanos ficou o domínio do território central, bem menor que os outros e foi chamado Vondar. As outras raças que sobreviveram passaram a viver entre essas três províncias em fronteiras chamadas de Terras Intermediárias. Durante a guerra muitas vidas foram salvas graças ao difícil acesso a Jaku. Porém, pouco antes do fim da guerra Jaku foi invadida e os soldados escondidos nela (todos humanos) foram massacrados. Poucos acontecimentos do reino são tão obscuros e desprovidos de detalhes. Apesar do histórico de violência e tragédias ocorridas em Jaku, cerca de trinta guerreiros humanos e suas famílias atravessaram as Montanhas em busca de um lugar para se estabelecer após o fim do conflito. Quando chegaram, a cidade estava totalmente abandonada e muito danificada devido à violenta batalha travada no local. Casas em ruínas, queimadas, o portão principal era um amontoado de madeira pelo chão. Manchas de sangue seco ainda estavam espalhadas junto de vários restos mortais deixados lá para apodrecer. Foi um trabalho árduo e demorado, mas que no final valeu o esforço. Após vários reparos e modificações, os guerreiros com sua incrível habilidade em trabalhos manuais e de edificação tornaram o lugar habitável mais uma vez e viviam ali desde então. Jaku era rodeada por um muro de rocha espesso, porém não muito alto, que tinha resistido aos anos e impedia a entrada de alguns animais que saíam da floresta á noite. As casas eram feitas de grandes pedaços de rocha polida, o que dava uma aparência rústica ao local. A praça principal era pequena adornada com ladrilhos coloridos em volta do Poço de Lyra que ficava bem no meio da praça e era a única fonte de água potável em quilômetros. Na grande maioria dos dias Jaku era um lugar tranquilo, onde apenas as crianças saíam para brincar enquanto suas mães iam até o poço para lavar as roupas e pegar água que seria utilizada na preparação dos alimentos e para o consumo pessoal. Um grupo seleto de homens revezava na caça e na busca de madeira na floresta. Entrar na Grande Floresta era um trabalhado unicamente dos mais experientes e corajosos que eram intitulados de Hunters, pois, apesar de ser habitualmente um lugar calmo, vez ou outra aconteciam coisas estranhas na floresta que deixavam muitos relutantes em se aventurar por entre aquelas árvores. Para selecionar aqueles que teriam o dever de desbravar a floresta, a cada dois anos era realizada uma cerimônia chamada de Rito da Caça. As crianças entre doze e quinze anos que tivessem o desejo de se tornar um Hunter poderiam participar da cerimônia. Os que fossem bem sucedidos seriam nomeados com o título ao completarem seus dezesseis anos de idade em outra cerimônia chamada de Rito da Passagem. Era o décimo quinto dia do verão do ano setecentos e vinte cinco da era Tangoriana. Todos em Jaku haviam se levantado junto com o sol para iniciar os preparativos da cerimônia que ocorreria neste dia. Em dias como esse; calma e tranquilidade passavam longe da cidade. Por todos os lados viam-se mulheres carregando grande quantidade de comida para o banquete cerimonial logo mais. Os homens carregavam enormes mesas de madeira e depositavam junto ao grande altar que era erguido próximo ao portão principal. Eles também enfeitavam as casas com chifres de alce, ramos de azevinho e amontoados de flores silvestres. Por todos os lados burburinho e algazarra. A felicidade era contagiante. Logo surgiu um homem por entre a multidão para inspecionar os preparativos. Era Radhael, líder do grupo. Nomeado por todos com o título de lorde de Jaku, era um homem já com seus quarenta e poucos anos. Belo, apesar de possuir algumas cicatrizes em seu rosto adquiridas durante a guerra. Tinha um longo cabelo escuro preso em um rabo de cavalo e sempre exibia um olhar de tranquilidade. A barba era impecavelmente bem feita e nesse dia em especial parecia satisfeitíssimo. Nunca foi arrogante e prezava manter amizade com cada um dos moradores. Por isso sempre foi respeitado e admirado por cada um na cidade. Como sempre fazia pela manhã ele estava vestindo roupas de tecido fino muito confortável. Durante os preparativos do evento ele sempre caminhava lentamente pela cidade verificando todo o trabalho, instruindo e intervindo caso fosse necessário. Radhael vivia com sua esposa Marine na maior residência de Jaku. Era construída com uma rocha mais escura que era cravejada com pequenas pedras brilhantes que lembravam diamantes apesar de não terem nenhum valor comercial. Mas que em termos de adorno embelezavam sem deixar a desejar. Marine era uma mulher de uma beleza rara e estonteante. Possuía cabelos naturalmente ruivos que lhe caíam até a altura dos ombros. Seus olhos castanhos eram tranquilizantes e sua postura perfeita a tornava extremamente elegante. O filho do casal chamava-se Simeon. Um garoto saudável e esbelto. Tinha cabelos curtos e escuros e seus olhos eram castanhos como os de sua mãe. Acordara tão cedo quanto os demais, mas demorou um pouco para reunir disposição o suficiente para se levantar da cama. Logo que pôde ele apareceu na cozinha com os cabelos embaraçados e vestindo suas roupas de lã acinzentada. Marine estava preparando o desjejum e Simeon sentou-se junto á mesa esperando a refeição. Seus olhos ainda estavam pesados e sua expressão era de total falta de ânimo.

-Bom dia meu filho.

Disse marine sorridente ao lhe entregar um copo de chá de hortelã bem quente.

Simeon nem chegou a responder e bebeu rapidamente conforme a temperatura da bebida lhe permitia. Assim que terminou já se sentia revigorado. Seu corpo se enchera de ânimo e o cansaço lhe deixara.

-Obrigado mãe.

Respondeu Simeon finalmente.

-Seus chás nunca falham.

Marine riu e serviu sobre a mesa um vistoso cesto de frutas. Simeon não hesitou em atacar as frutas sem piedade. Parecia que não comia há semanas.

-Cuidado para não se engasgar desse jeito.

Advertiu Marine.

-Você parece seu pai quando está comendo.

-Por falar nele...

Simeon fez uma pequena pausa para engolir.

-Onde está o meu pai?

-Está lá fora com os outros como sempre. Se estiver tudo em ordem deve voltar logo.

Simeon não demorou a esvaziar o cesto. Limpou a boca com a mão e se ajeitou na cadeira para descansar um pouco.

-Nem acredito que finalmente participarei do Rito da Caça.

Disse Simeon esperançoso.

-Depois de tantos anos de espera esse dia finalmente chegou.

Marine o olhava com preocupação. Simeon completaria quinze anos dali a cinco dias. Marine não permitiu que ele participasse na cerimônia anterior, pois achava que ele ainda não estava pronto. Na verdade Marine nunca quis que ele se tornasse um Hunter. Ela considerava uma tarefa perigosa e não queria que seu filho se arriscasse assim como Radhael. Apesar disso, ela respeitou o desejo dele, mas só permitiu que ele participasse no ano em completaria quinze anos.

-Sei que vai se sair bem meu filho.

Disse ela.

-Se este é o seu sonho então com certeza você será bem sucedido. Nada pode nos impedir quando estamos cheios de determinação.

Simeon respirou fundo e disse.

-Sei que você se preocupa comigo mãe. Mas também sei que esse é o meu destino. Tornar-me um Hunter assim como meu pai. Não são todos que tem a coragem suficiente para receber a oportunidade de se aventurar na Grande Floresta em busca de alimento para todos nós. Sempre admirei a forma como meu pai realiza essa tarefa com satisfação e é por isso que quero ser como ele.

-E você será.

Garantiu Marine.

De repente a porta foi aberta se supetão. Marine se assustou e recuou se apoiando no forno a lenha. Simeon se endireitou na cadeira pronto para se levantar e correr se necessário. Sob o umbral da porta estava um homem alto com cerca de dois metros. A cabeça não possuía nenhum único fio de cabelo, mas cultivava uma barba grossa e desleixada. Era muito forte e teve que se ajeitar para passar pelo portal estreito. Vestia um corselete de couro sujo e as botas estavam cheias de lama. Marine respirou aliviada e disse.

-Quando você vai aprender a bater na porta e pedir permissão Tamir?

Simeon se levantou e correu até o homem recepcionando-o com um grande abraço.

-Que bom ver o senhor bem cedo tio Tamir. O senhor como sempre nos assustou.

Tamir soltou uma de suas famosas gargalhadas meio engasgadas e se desculpou.

-Peço perdão pelo susto. Mas vocês sabem que gosto de surpreendê-los com minhas visitas.

-Mas se você vem aqui todos os dias mais de uma vez não é mais surpresa nenhuma.

Disse Marine com o coração ainda acelerado.

Simeon finalmente o soltou.

-O que faz aqui há essa hora tio? Pensei que estivesse ajudando meu pai.

-Eu estava. Mas ele se vira bem sem mim não se preocupe. Eu vim aqui para ver como vocês estão nessa maravilhosa manhã. Espero que esteja pronto para a caçada Simeon.

-Mais pronto do que estou acho que é impossível.

Os dois trocaram risos e sentaram em volta da mesa.

-Eu quero te dar alguns conselhos importantes Simeon.

Disse Tamir.

-Sei que você está empolgado, mas tem algumas coisas as quais você tem que prestar atenção.

Simeon dedicava toda a sua atenção às palavras de Tamir.

-A floresta é sempre imprevisível. Na maioria das vezes nosso trabalho é muito tranquilo, mas você sabe que ano passado um de nossos homens desapareceu misteriosamente. Isso ainda me irrita. E também os animais que vivem lá podem ser perigosos e nos atacam sem aviso prévio. Enfim. Cautela nunca é demais. Por isso hoje serei seu parceiro no Rito. Para me certificar de que você ficará bem e que consiga passar no desafio.

A satisfação de Simeon era incontestável. Há dias ele planejava convidar seu tio para ser seu parceiro, mas duvidava de que ele fosse aceitar o convite. Já imaginava que teria como ultima opção o parceiro voluntário. Que é qualquer um que na hora da partida se dispusesse a acompanhar um participante sem parceiro. O fato de Tamir ter se oferecido o deixava ainda mais entusiasmado.

-Eu não poderia querer um parceiro melhor. Talvez o meu pai, mas ele não pode participar.

-Seu pai?

Disse Tamir com um tom irônico.

-Seu pai é forte, mas comparado a mim ele é só um chorão qualquer. Já perdi as contas de quantas vezes já salvei a vida dele.

-Se me lembro bem não foram tantas vezes assim.

Disse uma voz que vinha da porta.

Todos olharam naquela direção e lá estava Radhael em pé com cinco metros de corda enrolada embaixo do braço.

-Sempre se vangloriando não é mesmo Tamir?

Continuou ele.

-Me vangloriando sim. Mentindo jamais.

Os dois se encararam e então os dois desabaram em risos. Marine e Simeon acabaram contagiados.

-E além de tudo está aqui enrolando enquanto deveria estar nos ajudando lá fora.

Advertiu Radhael.

-Só vim conversar um pouco com minha irmã e meu sobrinho. Não há crime nenhum.

Retrucou Tamir.

-Realmente não há. Mas agora que já conversaram você pode vir comigo e me ajudar a montar as barracas.

Tamir respirou fundo e se levantou sem muita empolgação.

-Acho que não vou conseguir escapar dessa vez. Espero você mais tarde Simeon.

Simeon acenou para o pai e concordou com Tamir com um movimento da cabeça. Radhael e Tamir saíram, e ficaram Marine e Simeon ali na cozinha.

-Você deveria tomar um banho e esperar até o início da cerimônia.

Aconselhou Marine.

Simeon concordou, pediu licença e deixou a mesa em direção a um pequeno compartimento que servia como banheiro que ficava ao lado de seu quarto. Um enorme barril de madeira cheio de água estava disposto num canto. Simeon se despiu e com uma espécie de cabaça banhou-se demoradamente. Todos os tipos de pensamento passavam por sua mente. Depois de já seco ele vestiu as roupas que usaria no rito. Uma calça de pela cinzenta, uma camisa de linho branco sobreposte por um colete de couro tingido de preto. O calçado era uma distribuição perfeita de couro e peles. Ele seguiu até seu quarto, pegou seu arco recostado na parede e sentou-se na cama admirando a arma. O arco tinha sido um presente de seu pai. Ele recebera um dia antes do começo do treinamento básico de arquearia que sempre acontecia nos quarenta dias que antecediam a cerimônia. Era um arco curto de madeira de carvalho. Não possuía muitos detalhes. Apenas a palavra coragem esculpida na madeira. Ele então se pôs a olhar pela janela de seu quarto cuja vista dava para o muro da cidade. Mais acima desse podia-se avistar o cume das Montanhas de Jade encoberto pela névoa. Simeon sempre imaginava o que havia em Odrite além das montanhas. Que tipo de aventuras ele encontraria se um dia decidisse sair de Jaku e buscar novas experiências. Talvez ele nunca descobrisse, mas isso não o impedia de imaginar. Acabou por cochilar deixando seu arco cair no chão. Ele dormira tarde na noite passada tentando escutar a conversa que Radhael e Tamir tiveram durante a madrugada. Mas só o que ele conseguiu entender foi algo sobre vozes e neblina. Nada que fizesse muito sentido. Logo Simeon foi acordado com seu corpo sendo balançado por Tamir.

-Isso lá é hora de dormir garoto.

Esbravejou ele.

-Vamos logo. Estão todos esperando.

Simeon se pôs de pé num pulo. Ainda não estava totalmente desperto. Tamir apanhou o arco e o entregou.

-Vai precisar disso também.

Simeon acenou com a cabeça e seguiu Tamir pelo corredor até a saída. Quando passaram pela porta Simeon parou um pouco para admirar tudo a sua volta. Simeon já vira o evento do Rito da Caça várias vezes, mas sempre ficava impressionado em como a cada nova edição ele parecia reinventado. O ar estava cheio pelo som dos instrumentos dos músicos que tocavam melodias dançantes em seus alaúdes, tambores e ocarinas. Todas as casas estavam adornadas e as flores nos umbrais das casas liberavam um cheiro agradável. Os moradores se alegravam conversando, dançando e assistindo a pequenas lutas coreografadas exibidas por alguns homens. Junto ao portão estavam montadas três barracas brancas em volta de um enorme altar de madeira. O altar mais lembrava um palco. Erguido sobre pedestais e com uma plataforma horizontal. Em cima do altar uma estátua de mármore de três metros retratava Pandor, deus das armas e da coragem. A estátua assomava imponente. Radhael estava aos pés do altar ao lado de Marine que acenava na direção de Tamir e Simeon. Tamir puxou Simeon pelo ombro para que ele continuasse caminhando. Enquanto se aproximavam Radhael subiu no altar seguido por dois Hunters uniformizados. Vestiam botas próprias para caminhar em terreno pantanoso, calças de pele de urso e um corselete de couro batido tingido de verde. Nas costas os arcos sobressaíam. Um dos Hunters tocou uma pequena corneta de chifre que carregava junto à cintura. O som ecoou agudo e demorado. Imediatamente instalou-se silencio geral. Todos que estavam dispersos se reuniram junto ao altar. Tamir e Simeon foram para junto de Marine que estava entre a pequena multidão. Radhael olhou em volta como se verificasse algo e começou a falar.

- Povo de Jaku. Em nome de Pandor declaro iniciada a décima cerimônia do Rito da Caça da cidade de Jaku.

O povo explodiu em aplausos e gritaria. Radhael ergueu a mão direita e o silencio se reinstalou.

Ele continuou.

-Esse ano temos três pretendentes a honra de se unir ao seleto grupo dos Hunters. Grupo esse que hoje é composto por doze homens e que nesses últimos vinte anos tem se aventurado e muitas vezes se arriscado dentro da Grande Floresta para garantir a segurança e o sustento de todos. Agora chamarei para se apresentar ao meu lado os corajosos competidores. Com apenas doze anos de idade. Filho de Cezar e Faia Fólis, Zurk.

Abrindo caminho por entre os moradores surgiu subindo as escadas um garoto baixinho que deveria ter no máximo um metro e meio. Cabelos escuros encaracolados e uma feição bondosa. Usava vestes de pele de lobo cinzento e trazia na mão direita um arco curto talhado cuidadosamente. Aproximou-se de Radhael, fez uma longa reverência e se pôs ao lado do senhor de Jaku.

Radhael fez um gesto desenhando um “x” na testa do garoto com o indicador que simbolizava a benção de Pandor. Então ele voltou-se para frente novamente e continuou.

-O próximo apresenta-se aos seus quinze anos de idade. Filho de Torn e Lizandra Bauhrn. Marcu.

O menino já estava bem à frente e não teve dificuldades de chegar ao altar. Ao contrário do outro ele trazia consigo uma expressão de soberba e superioridade. Seus lisos cabelos cor de mel balançavam conforme ele subia os degraus. Vestia roupas de linho fino e carregava nas costas um arco de metal prateado forjado há séculos atrás e que recebera como herança de seu falecido avô. Fez uma breve reverência a Radhael e também recebeu as bênçãos. Radhael correu os olhos pelo povo e parou fitando Simeon. Depois de uma longa inspiração ele concluiu.

-E também se apresentando aos quinze anos. Meu filho e filho de Marine Brendan. Simeon.

A multidão aplaudiu freneticamente. Tamir deu um tapinha nas costas de Simeon que fez com que ele se projetasse vários passos a frente. As pessoas abriam caminho e ele fez uma pequena pausa na base da escadaria. Olhou para cima, respirou e continuou em frente. Parou em frente a seu pai e recebeu as bênçãos enquanto Radhael lhe falava baixinho.

-Boa sorte.

Simeon se pôs ao lado dos outros dois. Marcu o olhava de relance com perceptível desprezo. Assim que o povo se acalmou novamente Radhael continuou seu discurso.

-Então aqui estão nossos competidores. Antes que possamos seguir para o banquete, gostaria que cada um dos participantes anunciasse quem será o seu parceiro de caça para que sigam até suas respectivas barracas, recebem sua refeição apropriada e sejam instruídos nesses minutos antes do desafio.

Zurk deu um passo à frente e anunciou.

-Meu parceiro é meu pai Cezar Fólis.

O pai do garoto subiu as escadas eufórico. Carregava um arco igual ao do filho só que numa versão maior. Cumprimentou Radhael e segurou a mão de Zurk.

-Vocês podem se dirigir para a barraca a direita do altar. Está tudo arrumado para recebê-los.

Disse Radhael.

Eles concordaram e seguiram até adentrar a tenda.

Então Marcu precipitou-se a frente e disse.

-Meu parceiro de caça será meu irmão, Thalus Bauhrn.

Thalus apresentou-se rapidamente. Era um jovem bem apessoado de vinte e dois anos de idade. Também possuía um arco metálico muito leve apesar da aparência. Era um Hunter muito estimado por todos. Bem diferente do irmão aparentava ser bem mais simpático, mas também mantinha uma postura severa e respeitosa. Apresentou-se a Radhael de quem recebia grande apresso e confiança.

-A barraca central é de vocês. Podem seguir até ela.

Disse Radhael.

Thalus fez um sinal para Marcu que o seguiu imediatamente.

Simeon aparentava nervosismo. Teve que receber um cutucão do cotovelo do Hunter ao seu lado para se dar conta de que ele era o próximo. Ele foi à frente e tentou desengasgar as palavras.

-É...

Ele olhava em todas as direções.

-Tamir. Tamir Aucurni é meu parceiro.

Radhael não pareceu surpreso. Na verdade sempre soube que Tamir se ofereceria para ajudar Simeon. A multidão abriu caminho significamente largo para que Tamir passasse. Ele era muito respeitado e depois de Radhael sua palavra era definitiva. Ele não carregava um arco. Ia desarmado adiante acenando para os outros como uma grande celebridade. Ao subir no altar se ajoelhou para receber a benção em sua testa. Depois se levantou e disse.

-Eu cuidarei de Simeon. Não precisa se preocupar.

-Não estou preocupado.

Respondeu Radhael.

-A barraca a esquerda é de vocês.

Tamir puxou Simeon pelo braço e o fez segui-lo até a barraca. Atrás deles Radhael encerrava seu discurso.

-Agora que os competidores estão temporariamente dispensados vamos ao banquete. Vamos nos divertir.

Imediatamente a música voltou a ser tocada. Os moradores seguiam alegremente em direção as enormes mesas de madeira postas por trás do altar de Pandor. Eram três mesas de madeira de eucalipto. Cada uma com pouco mais de dez metros de comprimento. Sobre elas uma enorme variedade de comidas e bebidas. As carnes eram as mais diversificadas. Leitões, alces, condores e até mesmo javalis. Várias garrafas de vinho, hidromel envelhecido, rum e leite à vontade. Além dos cestos de frutas incrivelmente coloridos e perfumados. Depois de todos devidamente acomodados, Radhael tomou seu lugar na cabeceira da mesa central com Marine ao seu lado. Ele olhava orgulhoso de tudo que haviam conquistado e que podiam aproveitar neste dia. Fez um sinal para que se encerrasse o burburinho e tornou a falar.

-Há vinte anos não tínhamos nada disso. Apenas dor e mortes causadas pela guerra. Uma guerra em que fomos tratados como ameaça maior e quase fomos dizimados. Mas nós resistimos. Sobrevivemos bravamente e hoje posso dizer que somos um povo forte. Capaz de passar pelas piores desgraças e se reerguer quando todos dizem que já não há esperança. Além de ser uma forma de selecionar nossos melhores guerreiros, o Rito da Caça é a prova de que ficamos cada vez mais fortes e que a raça dos humanos subsistirá durante os próximos séculos. Peço que Pandor continue olhando por nós no alto da morada dos deuses. E que nos garanta a paz pelos anos que virão. Agora comam. Regozijem, pois após nosso banquete o desafio da caça irá finalmente começar.

Todos se puseram de pé e aplaudiram energicamente. Logo após se acomodaram e se serviram das delicias do banquete. Enquanto isso em sua barraca, Tamir e Simeon se preparavam para sua própria refeição. Simeon deitou seu arco no chão e perguntou.

-Acha que eu posso mesmo conseguir?

Ele perguntou com um olhar distante e desconfiado.

-Que conversa é essa agora?

Retrucou Tamir

-Pensei que você estava confiante. Não foi por esse momento que você sempre esperou?

-Sim, mas...

Ele fez uma longa pausa.

-Agora que estamos a apenas alguns minutos de entrar na floresta tenho sentido um mau pressentimento. Algo que me incomoda.

-Escute garoto.

Disse Tamir enquanto se ajeitava no banco.

-Eu vou estar lá com você. Não tem com o que se preocupar. Se for para entrar lá tão desmotivado lhe aconselho a desistir agora. Este é um trabalho de homens e não de crianças.

Simeon se sentia mais aliviado ao ver seu tio ali com ele. Era sempre gratificante saber que podia contar com a ajuda dele.

-Você tem razão. Vou conseguir não importa o que encontremos entre aquelas árvores. Vou fazer o melhor que posso.

-É assim que se fala.

Concordou Tamir.

-Agora vamos comer. Você não vai querer desmaiar de fome durante o desafio ou vai?

Eles se aproximaram da pequena mesa circular no centro da barraca. Carne de pato assado e vinho estavam postos apenas esperando para serem deglutidos. A refeição não durou nem dez minutos e Tamir comeu a maior parte do que estava à mesa. Depois de um arroto nada discreto e de agradecer aos deuses por sua satisfação, Tamir seguiu até um baú comprido no fundo da barraca. De lá ele retirou um arco belíssimo. Feito de prata cuidadosamente polida tingido de vermelho em seus detalhes e uma fina corda de aço flexível. Parecia emanar um tímido brilho enquanto era manuseado.

-Eu mesmo fiz questão de trazê-lo para cá pela manhã. Já passamos por muita coisa juntos.

Disse Tamir pensativo enquanto prendia o arco nas costas.

-Foram tantas batalhas e caçadas. Bons tempos.

-Eu estava me perguntando quando você iria se armar.

Comentou Simeon enquanto limpava a boca com a toalha da mesa.

- Cheguei a pensar que caçaria com as próprias mãos.

Os dois trocaram risadas e a trombeta voltou a soar.

-Está na hora. Espero que esteja realmente pronto para isso.

Tamir pegou as duas aljavas cheias de flechas e uma bolsa de couro com umas poucas maçãs e dois lampiões bem pequenos dentro dela que também estavam no baú. Ele entregou a bolsa e uma aljava a Simeon. Então saiu na frente seguido pelo garoto que agora se sentia mais confiante apesar de ainda sentir um mau pressentimento.

Ao saírem viram Zurk e Marcu junto de seus parceiros. Marcu passou por Simeon e disse baixo.

-Você não devia participar Brendan. Ainda não é um homem.

E seguiu soltando um leve sorriso de canto de boca.

-Não ligue para ele.

Advertiu Tamir.

-Está tentando te intimidar.

Quase todos já estavam de volta aos pés do altar. Radhael lá em cima mais uma vez junto dos dois Hunters ordenou.

-Abram o portão.

Imediatamente quatro homens que estavam junto às grandes portas de madeira começaram a puxar o portão que se abriu ruidosamente. Há uns quinhentos metros da entrada da cidade podiam-se avistar as arvores amontoadas.

-Como todos já devem saber...

Exclamou Radhael.

-As regras são simples. Durante a manhã três cervos marcados a ferro com o emblema do tigre de Jaku foram soltos na floresta. Um para cada um dos competidores. Então só o que precisam fazer é matar um dos animais e trazer seu corpo até dentro da cidade. Fazendo isso terão hesito em sua tarefa e estarão aptos para serem nomeados Hunters ao completarem dezesseis anos. Caso falhem poderão tentar na próxima cerimônia se ainda tiverem idade para se candidatar ao desafio. A tarefa parece fácil, mas a Grande Floresta pode ser traiçoeira. Seus parceiros irão dar-lhes o suporte necessário para que consigam voltar em triunfo. Lembrando ainda que não é permitido interferir na caçada de seus companheiros nem ferir outro competidor. Desde o momento em que existe uma caça para cada, uma disputa entre os concorrentes é desnecessária. Deduzindo que todos estão prontos assim que a trombeta for tocada novamente podem partir em direção a floresta. Boa sorte a todos e que Pandor os acompanhe.

Simeon revezava seu olhar entre seu pai e a entrada da cidade. Sua respiração estava mais acelerada e seu coração batia forte. Enquanto ele respondia a si mesmo as ultimas duvidas que passavam pela sua mente. A trombeta soou. Marcu e seu irmão dispararam a toda velocidade. Logo atrás Zurk e seu pai. Simeon parecia desnorteado. Então Tamir o pegou, colocou-o sobre o ombro e saiu correndo rumo ao portão. Marine olhava preocupada, mas esperançosa de que tudo acabasse bem. O sol estava bem alto no céu e castigava com o forte calor. Passaram pela entrada incentivados pelos homens ao lado do portão que gritavam palavras encorajadoras. Simeon já ciente de tudo a sua volta pedia para que Tamir o largasse, mas ele parecia não dar atenção e não reduzia o ritmo. Tamir só parou a dez metros de entrar na floresta enquanto via os outros quatro seguirem pela trilha entre as arvores. Ele finalmente colocou Simeon no chão.

-Se continuar tão desatento não vamos conseguir. Foco no que está fazendo garoto. Isso é essencial.

-Eu sei disso. Me desculpe.

-Está tudo bem.

Disse Tamir.

-Agora vamos entrar. Fique atrás de mim.

Avançaram. Os primeiros passos dentro da floresta foram mais tranquilos do que Simeon imaginou. Seguiam pela trilha principal. Era estreita porem não era difícil de seguir por ela. À volta o clima parecia ter mudado. As copas das arvores eram muito fechadas e apenas uns filetes de raios de sol passavam entre a folhagem. O ar era úmido e era bem mais agradável respirar ali dentro. Eles iam seguindo as pegadas dos que tinham entrado primeiro até o ponto em que eles provavelmente deixaram a trilha.

-Não vamos sair da trilha ainda.

Disse Tamir.

-Mais a frente será melhor.

Simeon apenas concordou e continuou caminhando. Continuaram por cerca de mais trezentos metros até chegar a um ponto em que a trilha se dividia em duas.

-Não vamos seguir por nenhum desses caminhos. Vamos sair da trilha pela esquerda e ver se encontramos algum sinal do nosso cervo.

Disse Tamir enquanto tirava o arco das costas e colocava em punho.

Simeon fez o mesmo e seguiu o tio deixando a trilha. Eles foram caminhando por entre urtigas e algo que lembrava capim, mas era bem mais escuro e possuía alguns espinhos. O ar em volta ficava cada vez mais úmido e a floresta parecia escurecer. Ouvia-se o canto de pássaros, mas não os que Simeon costumava escutar. Esse era mais melancólico e sem vida. Passaram por árvores cujos troncos eram três vezes mais grossos que os das demais até chegar a um ponto onde Tamir viu alguns ramos amassados.

-Espero que o cervo tenha feito isso. Se for, estamos na trilha certa.

Foram em frente até achar um terreno mais arenoso. Lá havia pegadas de cascos. Tudo levava a crer que não demoraria a encontrar o animal que caçavam. De repente ouviu-se um uivo. Simeon sentiu um calafrio que lhe subiu a espinha até a nuca.

-É apenas um lobo.

Disse Tamir tentando acalmar Simeon.

-Não sei o que ele faz a essa hora do dia, mas não deve estar em busca de alimento. Além disso, ele está longe. Vamos continuar.

Os minutos de busca começaram a se transformar em horas. Eles agora pareciam caminhar em círculos e mesmo Tamir não tinha muita certeza se ainda sabia para onde estava indo. Uma névoa começava a se formar em volta deles o que não facilitava em nada.

-Eu não queria questionar.

Pronunciou-se Simeon finalmente.

-Mas me parece que estamos perdidos.

-Infelizmente temo que tenha razão garoto.

Respondeu Tamir.

-Não sei como, mas não reconheço essa parte da floresta.

-Talvez devêssemos tentar fazer o caminho de volta e...

-Silencio.

Ordenou Tamir colocando a mão sobre a boca de Simeon.

-Ali na frente olhe.

Apesar da neblina podia-se ver bem à frente a figura de um cervo. Caminhava lentamente por entre as arvores e parecia não fazer ideia da presença deles.

-Não tem como ter certeza se é o nosso animal.

Disse Tamir.

-Mas não custa tentar. Atire.

Simeon ergueu seu arco relutante. Pegou uma flecha de sua aljava e a posicionou na corda. Puxou até que o fio estivesse totalmente tensionado

-Lembre-se do treinamento.

Falou Tamir calmamente.

-É só respirar fundo, mirar e disparar com firmeza. Você consegue fazer isso.

Simeon olhava fixamente para a imagem do animal. Não tinha tanta confiança, mas se seu tio dizia que ele era capaz então ele também acreditaria nisso. Tamir levantou um pouco o arco de Simeon antes do disparo. Simeon respirou longamente e então soltou a flecha. Ela viajou pelo ar e atingiu em cheio as costas do animal que fugiu galopando numa velocidade incrível.

-Muito bem garoto. Ótimo tiro. Agora vamos segui-lo. Ele está ferido e não vai conseguir ir muito longe.

Começaram a correr por sobre poças de lama, troncos caídos e em certas partes um terreno cheio de pedras que machucava os pés já doloridos. A neblina se tornava mais espessa, então os tropeções eram inevitáveis. Em certo ponto perderam o rastro do animal.

-Não acredito nisso.

Reclamou Simeon.

-Como ele pode se mover tão rápido com uma flecha cravada nas costas?

-Não adianta se enfurecer Simeon.

Disse Tamir.

-O jeito é reduzir o passo e prestar mais atenção nos detalhes.

Ouviram de repente alguma coisa correndo em sua direção vindo por trás deles. Tamir puxou o braço de Simeon e os dois se esconderam entre as raízes grossas e emaranhadas de uma arvore. Simeon olhava pela brecha entre as raízes enquanto o animal parava a cinco metros de distancia deles. Sua garganta parecia querer se fechar tamanha foi a angustia que sentiu ao ver a criatura. Lembrava um lobo, exceto pelo fato de ter uns três metros de altura enquanto estava sobre as quatro patas, talvez um pouco mais ou um pouco menos. Tinha um pelo ralo e escasso que deixava boa parte de sua pele avermelhada exposta. Vários de seus ossos, principalmente as costelas, sobressaíam perfurando sua pele ficando uns trinta centímetros à mostra. Também não possuía olhos. Sentia o que estava à volta através do faro e da audição super aguçada. A criatura passou farejando. Simeon sabia que era só questão de tempo até que fossem descobertos. Ele tremia e Tamir o segurava pra que não fizesse movimentos bruscos. Quando o focinho do animal estava a apenas trinta centímetros deles e o hálito quente da criatura já tocava o rosto de Simeon, um som como que de galhos se quebrando veio de algum lugar bem mais a frente. O som chamou a atenção da fera que se virou e correu na direção do barulho. Simeon recuperou a respiração e se lançou de lado.

-O que era aquilo?

Perguntou Simeon ainda tremulo.

-Um dargum. Deveriam estar extintos e mesmo que ainda existissem em grande número deveriam estar há dezenas de quilômetros daqui. Eles eram encontrados em regiões de deserto ou nas montanhas.

Disse Tamir que também estava assustado, mas disfarçava bem.

-Tivemos muita sorte. Lutar com uma coisa dessas é muito difícil e geralmente resulta em morte para nosso lado. Temos que encontrar logo nossa caça e sair da floresta.

Simeon quase chegou a propor que desistissem e que voltassem imediatamente, mas depois de já ter chegado tão longe desistir estava fora de cogitação. Simeon teve a impressão de ouvir uma voz lhe chamando. Era indistinta se era masculina ou feminina, mas foi bem nítida. Como parecia que Tamir não tinha ouvido nada ele preferiu não comentar, mas propôs que seguissem na direção de onde a voz supostamente viera. Tamir não discutiu. Achava ótimo Simeon estar se envolvendo com a missão. Parecia estar tentando tomar a frente da busca. Não demorou para que encontrassem marcas de sangue na vegetação que crescia alta. Já estavam exaustos, mas o novo rastro os encheu de novas forças e ânimo. Mais quinze minutos de caminhada. Sempre olhando para os lados temendo que o dargum reaparecesse. Até que finalmente avistaram o que estavam procurando. O terreno fazia uma grande subida formando uma espécie de colina. Lá no alto o que parecia ser a entrada de uma caverna onde o cervo atingido pela flecha de Simeon entrava bem devagar, quase sem forças.

-Agora tenho certeza de que não faço ideia de onde estamos.

Comentou Tamir.

-Nunca vi aquela caverna aqui na floresta antes.

Aquilo não importava para Simeon. Sentia que faltava pouco para finalmente poder deixar a floresta carregando seu premio. Mas eles não estavam sozinhos ali. Ouviram um barulho e olharam para trás. Correndo a toda velocidade aquilo que eles menos queriam ver. O dargum voltava furioso e aparentemente faminto. Tamir pulou sobre Simeon tirando os dois do caminho e o dargum passou por eles como um tiro parando a dez centímetros de trombar contra uma arvore.

-Eu vou distraí-lo enquanto você corre para a caverna.

Disse Tamir não tirando os olhos do animal que caminhava para o lado farejando o ar.

-Nem pensar. Vou lutar ao seu lado.

-Não entende que não estou pedindo?

Gritou Tamir com um ar furioso.

-Estou ordenando que corra para a caverna ou ambos vamos morrer aqui.

Simeon engoliu as palavras que pretendia falar e concordou. O dargum partiu para o ataque. Tamir disparou uma flecha contra o rosto do animal enquanto Simeon correu colina acima sem conseguir olhar para trás. Ainda pôde ouvir a criatura guinchar ao ser atingida, mas com certeza não tinha sido fatal. Também ouviu a criatura atacar e Tamir gritar de dor. Só parou na pequena entrada da caverna e olhou na direção da luta. Tamir vinha correndo com o braço esquerdo ensanguentado. Virou-se rapidamente e disparou outra flecha contra o animal que o perseguia. A flecha atingiu o alvo o que atrasou a criatura. Tamir acelerou o passo e pulou para dentro da caverna empurrando Simeon com seu peso. O dargum também tentou entrar, mas seu corpo era grande demais para a entrada e esbarrou entre as rochas. Ele grunhiu e uivou. Ficou dando voltas na entrada até que desistiu e foi embora. O coração de Simeon batia descompassadamente enquanto via seu tio recostado à parede da caverna com o braço esquerdo ferido.

-Tio. Seu braço.

-Isso? Nada demais. Só um arranhão.

Respondeu Tamir soltando um sorriso forçado.

-Mas confesso que pensei que não fosse conseguir. Esta caçada está mais difícil do que eu esperava. Vamos logo capturar esse maldito cervo. Quero logo voltar para casa.

Apoiando-se na parede Tamir conseguiu se levantar. Além das marcas de sangue que vinham do braço de Tamir, uma trilha de sangue seguia caverna adentro e provavelmente vinha do animal ferido.

-Por aqui.

Disse Tamir apontando o caminho.

Simeon tirou de sua bolsa os dois pequenos lampiões que achara que seriam desnecessários, mas que no fim foram de suma importância. Com um fósforo ele acendeu as chamas. Ofereceu um lampião ao seu tio que foi na frente pelo corredor de rochas e seguiu logo atrás. A passagem era tão estreita quanto a entrada. O chão possuía algumas poças de água que gotejava de alguns pontos no teto. Umas pedrinhas brilhantes podiam ser vistas vez ou outra nas paredes. Caminharam por cinco minutos e ainda podiam-se ver marcas de sangue no chão. Tamir estava visivelmente afetado pelo ferimento, pois várias vezes fazia uma pausa de trinta segundos ou mais para recuperar as forças. Eles passaram por uma entrada à direita na parede, mas Tamir a ignorou e seguiu o rastro de sangue. Apenas cinco metros após a entrada porem Tamir teve que fazer mais uma parada. Foi nessa parada que Simeon ouviu novamente a voz lhe chamar. Falava claramente seu nome e era muito convincente em sua convocação. Ele olhou para trás para o buraco na parede. A voz com certeza vinha daquela direção. Ele não tinha a intenção de entrar ali, mas o efeito da voz o impulsionava a procurar sua origem. Olhou para Tamir ainda se recuperando e pensou que não faria mal dar uma espiadela. Voltou alguns passos e parou bem em frente à entrada. A voz agora ecoava mais forte e fazia Simeon se mover como se suas pernas tivessem um desejo próprio. No começo o corredor era como o resto da caverna. Cheio de poças e com pedrinhas brilhantes em volta. Até que num determinado ponto as paredes pareciam feitas de algo que lembrava o mármore. O chão estava revestido de pedras de granito e um vento soprou-lhe o rosto. Neste momento sua mente estava tão embaraçada que ele não se lembrava de Tamir, nem do cervo, nem de qualquer outra coisa. Apenas queria encontrar o dono daquela hipnotizante voz. Ao longe se podia ver uma fonte de luz. Devia ser uma saída. Então ele começou a correr até que quando se deu conta havia saído da caverna. A luz do sol o ofuscou e o efeito hipnotizante da voz passou totalmente. Quando sua visão se adaptou à luminosidade e ele olhou em volta e teve certeza de duas coisas. Ele não deveria ter seguido esse caminho e com certeza não estava mais na floresta.