Era um campo aberto. À frente uma grande extensão coberta por grama de um verde extremamente saudável. Não se viam muitas árvores. Apenas algumas macieiras distantes umas das outras uns trezentos ou quatrocentos metros. Aparentemente não havia se passado tanto tempo desde que Simeon entrara na floresta como ele imaginara. Pela posição em que o sol era avistado no céu poderia se dizer que eram umas quatro horas da tarde. Enormes nuvens branquíssimas deslizavam logo acima da campina. Assim que se deu conta de que deixara seu tio Tamir ferido na caverna, Simeon cambaleou para trás tentando fazer o caminho de volta. Não chegou a andar nem dez metros quando percebeu que não havia como voltar. Não há palavras para descrever a frustração que ele sentiu naquele momento. No lugar onde deveria existir a passagem de volta para a caverna, existia apenas uma parede de mármore puro. Simeon olhou em volta e percebeu que estava numa espécie de salão. O piso abaixo dele era de concreto e alguns candelabros pendiam vazios nas paredes de mármore amarronzado. Ele olhou para o teto e viu alguns desenhos e inscrições antigas. Os desenhos remetiam a seres que aparentemente desciam do céu e combatiam criaturas gigantescas. Já as palavras eram ilegíveis, pois eram de uma língua que Simeon não conhecia. Ele se voltou novamente para a parede de mármore e começou a chutá-la e esmurrá-la. Ele estava em total desespero. Socou até os nós de seus dedos sangrarem. Então quando não aguentava mais, sentou-se no chão frio e começou a chorar. Logo vários pensamentos lhe ocorreram e só serviram para piorar sua situação. Imaginou o que Tamir faria ao perceber que ele havia sumido. Pensou se Tamir poderia encontrar o mesmo caminho e chegar até ele. Pensou que se não voltasse, seus pais deduziriam que ele havia morrido na floresta e entrariam numa tristeza profunda por causa dele. Simeon sabia que tinha que voltar. Só não sabia como. Ele nem mesmo sabia onde estava. Talvez não estivesse tão longe de casa e pudesse seguir por outro caminho até voltar à Jaku. As lágrimas continuavam a encharcar seu rosto e ele soluçava freneticamente. Foi quando uma voz ecoou em volta dele.
–Porque você esta chorando?
Simeon interrompeu o choro imediatamente. Infelizmente não era a mesma voz que o fizera seguir até ali. Mas a sensação de saber que não estava sozinho era reconfortante. Ele se virou lentamente e viu que alguém estava logo na entrada olhando para ele. Pela estatura era uma criança com cerca de dez anos. Ela então começou a se aproximar. Caminhava de forma lenta. Parecia exausto e arrastava as sandálias no chão como se tivesse poucas forças para erguer os pés. Vestia algo que mais pareciam trapos do que roupa. As calças já estavam velhas e gastas e o tecido de sua camisa estava todo desbotado. O cabelo era meio acinzentado. Parecia que já tinha sido liso um dia, mas agora estava duro e sujo, totalmente embaraçado. Apesar de tudo isso sua expressão era calma e serena. Agradável até. Carregava um cesto velho cheio de maçãs. Simeon se pôs de pé e viu que se tratava de um garoto. O menino fez uma reverência demorada e se apresentou.
–Me chamo Perry. Será que posso ajudá-lo de alguma forma?
Simeon ficou mais alguns segundos analisando o garoto à sua frente até que conseguiu falar.
–É... Talvez você possa me dizer onde estou. Já seria de grande ajuda.
O garoto pareceu estranhar a pergunta, mas respondeu.
–Você está no templo de Raiza. A grande deusa do tempo e do espaço. Você está perdido, perdeu a memória ou coisa parecida?
–Não. Em absoluto. Eu poderia lhe contar como cheguei até aqui, mas duvido que você acreditasse. Digamos que pode parecer loucura aos seus ouvidos.
–De forma alguma. Histórias que parecem loucura para a maioria das pessoas são de fácil aceitação para mim. Vá em frente.
–Tudo bem então.
Disse Simeon. E começou a contar a história desde a hora em que se levantou pela manhã até o momento em que a voz misteriosa o fizera seguir pelo caminho da caverna até aquele lugar e que agora a passagem de volta já não existia.
A expressão do menino não era de descrença. Ele virou a cabeça um pouco para o lado e se pronunciou.
–Então acho que a resposta para a minha pergunta é que você está realmente perdido.
–Mas a sua resposta para a minha pergunta não tirou todas as minhas dúvidas.
Respondeu Simeon.
–Saber que estou em um templo não ajuda a saber o quão longe de casa eu estou.
–Me perdoe por isso.
Desculpou-se o Perry.
–Estamos nos campos ao sul de Merag. Uma das cidades intermediárias. E onde fica sua cidade?
–Minha cidade é Jaku. Fica bem a leste de Odrite entre as Montanhas de Jade e a Grande Floresta.
–Você fala realmente de Jaku? A fortaleza além das montanhas? Se for assim sua volta para casa será muito demorada. A menos que encontre outra passagem mágica por aí. Merag fica no extremo norte da província humana, Vondar. Mais alguns quilômetros para o norte e você estará em Aundar, província dos dragorados.
Simeon estava pasmo. Se o garoto estava certo, e parecia estar, levaria semanas até que conseguisse voltar a Jaku, ainda mais se fosse a pé. Perry voltou a falar.
–Você deve estar com fome e cansado. Se quiser pode vir até minha casa e comer alguma coisa. Não fica longe daqui.
Simeon ainda não tinha certeza se confiava em Perry. Mas algo em seu rosto, talvez sua expressão sempre serena, o fazia acreditar nas palavras que lhe saíam da boca. Além disso, ele estava realmente cansado e a fome e a sede lhe afligiam.
–Acho que um pouco de comida e algum descanso não são uma ideia ruim.
–Apenas me deixe prestar minhas reverências à deusa e poderemos ir.
Disse Perry.
Ele largou o cesto de maçãs e caminhou até uma das paredes do templo. Juntou as mãos em frente ao rosto, ajoelhou-se e começou uma prece quase inaudível. Após uns poucos minutos ele se levantou e disse.
–Agora podemos ir. Siga-me.
Perry tomou a frente e Simeon pegou seu arco e sua bolsa que estavam junto à parede. Antes de saírem ele perguntou:
–Você sabe o que significam essas inscrições no teto?
Perry parou e avaliou longamente as palavras acima deles. Então disse lentamente.
–Não há força que se oponha ao panteão sem que seja reduzido a cinzas e lembranças.
Ele fez uma pequena pausa.
–Se refere ao poder incontestável dos deuses. Sua soberania sobre o mundo que conhecemos.
Após responder ele voltou a caminhar em seus passos lentos e arrastados.
–Onde você aprendeu essa língua?
Simeon indagou.
–Eu não conheço. Minha mãe me disse o significado muitos anos atrás e eu nunca esqueci.
Simeon chegou a se oferecer para carregar as maçãs, mas sua proposta foi recusada. Quando saíram e se afastaram do templo, Simeon pode ver o quão belo ele era. Havia um grande arco de concreto sustentado por duas grandes colunas feitas do mesmo mármore encontrado nas paredes do interior. Acima do arco estava uma estátua de Raiza feita de bronze. O metal já estava bem escurecido devido à ação do tempo, mas a imagem da deusa ainda era imponente. Vestida com uma armadura completa de cujas costas projetavam-se asas belíssimas. Em sua cabeça um arco de flores diversas. As pedras nas laterais do templo estavam quase que totalmente cobertas pelos ramos das trepadeiras que se amontoavam. O sol acabara de ser encoberto por uma nuvem que agora projetava sua sombra sobre o gramado. Eles seguiram por trás do templo e caminharam em direção ao norte. Dali já era possível ver a silhueta de Merag ao longe.
–Você vive em Merag desde que nasceu Perry?
Perguntou Simeon tentando quebrar o silêncio.
–Na verdade não moro na cidade propriamente dita.
E apontou mais ou menos para noroeste onde uma casinha de madeira assomava solitária acima de uma discreta colina.
–Aquela é minha casa. É pequena, mas é bem aconchegante não se preocupe.
Caminharam por uns quinze minutos até chegar à soleira da porta da casa de Perry. Assim como aparentava a distância, não era muito grande. Feita totalmente com madeira de pinheiro, possuía umas duas ou três janelas nas paredes. Alguns pontos já pareciam ter sido atacados por cupins. Porem por trás da casa existia um grande cercado cheio de cabras e bodes berrando e pulando. Deviam ser uns trinta ou quarenta no total.
–Esta é a criação do meu padrasto. É assim que nos sustentamos.
Simeon já estava mesmo para perguntar sobre a família de Perry, mas a pergunta se mostrou desnecessária. Perry avançou e abriu a porta que nem sequer estava trancada. Ele colocou as maçãs sobre uma mesa quadrada no meio do que seria a sala de estar e começou a abrir as poucas janelas para que a luz do sol iluminasse o lugar. Enquanto isso Simeon entrava devagar observando tudo em volta. Dentro da casa havia poucos cômodos. A sala, um banheiro, uma cozinha e dois quartos. O cheiro de mofo era forte. Na sala encontrava-se uma mesa sobre a qual Perry depositara o cesto, em volta da mesa três cadeiras aparentemente meio bambas, alguns quadros na parede que remetiam a paisagens diversas e uma espécie de sofá de palha mal tratado encostado num canto. Depois de todas as janelas estarem abertas Perry falou.
–Sente-se. Vou lhe servir alguma coisa.
Simeon colocou suas coisas debaixo da mesa e acomodou-se da melhor forma que pôde em uma das cadeiras. A cadeira estalou algumas vezes enquanto ele tentava deixá-la aprumada. Logo Perry voltou com um pequeno odre cheio de água e dois copos de argila. Colocou sobre a mesa e fez um movimento com a cabeça sugerindo que Simeon se servisse das maçãs enquanto ele punha água nos copos. Não era uma refeição com a qual Simeon estivesse acostumado. O ambiente também era estranho. Estava acostumado a sua casa grande e confortável e a comer do melhor que existia em Jaku. Ali ele começava a perceber as dificuldades que outras pessoas vivenciavam. Em especial Perry. Ele não negou a oferta. Comeu três maçãs seguidamente e depois entornou o copo de água e pediu para que Perry o enchesse de novo. O garoto parecia satisfeito em poder ajudar. Simeon agradeceu e pôs-se a perguntar.
–E a sua família? Onde está agora?
A expressão de Perry tornou-se mais triste. Ele respirou fundo e disse:
–Minha mão morreu quando eu tinha seis anos de idade. Hoje eu vivo com meu padrasto. Ele foi para a cidade. Todos os dias ele leva alguns animais de sua criação para negociar no mercado. Ele só chega tarde da noite não se preocupe. Mas você não deve mais estar aqui quando ele chegar.
Simeon se sentia meio culpado pela pergunta. Não imaginava que Perry havia perdido a mãe.
–Perdoe-me por ter perguntado. Eu não imaginava. Mas porque não devo estar aqui quando seu padrasto chegar?
Indagou Simeon.
–Ele não gosta muito de visitas. E com certeza não vai gostar de lhe ver aqui.
–Entendo.
Disse Simeon em um suspiro.
–Então não irei me demorar. Apenas peço para dar um pequeno cochilo e seguirei até Merag para tentar encontrar alguém que me leve de volta a Jaku.
Perry parecia nervoso ou ansioso. Talvez um pouco dos dois. Parecia querer dizer algo mais. Ele batia os dedos contra a mesa até que ele reparou os punhos machucados de Simeon e disse.
–Sua mão. Está ferida. Vou providenciar um curativo.
–Não há necessidade.
Respondeu Simeon.
–Vou ficar bem.
–Nada disso. Vou arranjar algo para tratá-lo.
E Perry saiu ás pressas em direção à cozinha.
Simeon continuou fazendo sua observação até que notou no chão de madeira o que pareciam ser gotas de sangue ressecado. Antes que ele pudesse deduzir do que se tratava, Perry voltou com uma pequena vasilha cheia de um líquido esverdeado e pegajoso e alguns trapos no ombro que se confundiam com os que ele estava vestindo. Ele sentou-se em frente à Simeon e pediu que ele estendesse a mão. Simeon estava meio relutante, mas ofereceu a mão. Perry começou a pegar um pouco do líquido e esfregar sobre os ferimentos.
–É sumo de eucalipto misturado com mel e um pouco de sal. É um ótimo cicatrizante.
Apesar do mau cheiro, Simeon não conseguia sentir aversão a Perry. O garoto era uma ótima pessoa, bondoso e disposto a ajudar mesmo um desconhecido. Enquanto Perry cuidava das feridas dele, Simeon pode ver por baixo da manga da camisa do garoto algumas manchas rochas na pele.
–Você se machucou também?
Simeon perguntou.
O garoto ficou visivelmente nervoso.
–Isso? Não foi nada. Apenas caí de uma macieira um dia desses. Estou bem.
Depois de aplicar a mistura, Perry envolveu a mão de Simeon com os trapos. Não ficou lá um curativo perfeito, mas era melhor do que nada.
–Quantos anos você tem Perry?
Perguntou Simeon.
A expressão de Perry mudou novamente para algo mais entristecido. Ele pôs a vasilha sobre a mesa e respondeu.
–Pra falar a verdade eu não sei ao certo. Depois que minha mãe morreu meu padrasto nunca comemorou meu aniversário. Com o passar dos anos acabei por perder as contas. Acho que dever ser algo entre dez e doze anos.
Simeon sentiu pena dele.
–Me desculpe novamente. Estou me intrometendo muito em seus assuntos
–Tudo bem. Eu já me acostumei.
Ele fez mais uma de suas súbitas pausas e continuou.
–Me aguarde aqui mais um pouco. Tenho que lhe mostrar algo.
Perry se levantou e levou consigo a vasilha e o odre já vazio. Simeon mais uma vez ficou meio perdido imaginando o que viria a seguir. Cerca de cinco minutos se passaram e lá estava Perry voltando às pressas. Dessa vez trazia consigo algo envolto em um lençol azul de seda. Ele depositou o objeto cuidadosamente sobre a mesa e pelo formato já se podia imaginar do que se tratava. Quando ele desembrulhou viu-se que realmente era um livro. Media cerca de quarenta por trinta centímetros. Sua capa de couro tingida de escarlate não trazia nenhum desenho ou inscrição que pudesse indicar do que se tratava. Perry ofereceu o livro a Simeon.
–Abra e me diga o que vê.
Simeon olhou desconfiado. Pegou o livro entre as mãos e abriu na primeira página. O papel estava em branco exceto por uma assinatura no canto inferior direito. Estava escrito Jhony Mercy. Então ele continuou a folhear as páginas seguintes, mas não via nada além de papel amarelado sem nenhuma informação.
–O que eu deveria ver aqui?
Perguntou Simeon.
Perry tomou o livro de volta e passou as páginas até parar mais ou menos no meio. Ele colocou o livro escancarado sobre a mesa e apontou o centro da página em branco.
–Não consegue ver?
Insistiu Perry.
–Infelizmente não consigo ver nada de relevante aqui. Você consegue?
Perry respirou e disse.
–Feche os olhos, pense naquilo que você mais deseja e olhe novamente.
Simeon não indagou. Fechou os olhos e começou a pensar em sua casa. Em Marine o chamando para o almoço, seu pai contando alguma de suas histórias de guerra ao lado de uma fogueira numa noite de inverno, em Tamir abrindo a porta de supetão e soltando sua gargalhada exagerada, mas que agora parecia muito agradável. Pensou em como queria voltar e fazer com que tudo continuasse como sempre fora. Ele abriu as pálpebras devagar e fixou os olhos no livro. De repente algo estranho começou a acontecer. Na página onde antes não havia nada, letras e desenhos começaram a surgir das bordas e dançar pelo papel. Ziguezagueavam sem rumo até que aos poucos iam assumindo suas devidas posições. Logo a página estava cheia de informações e um título que intrigou a Simeon no primeiro instante.
–O Portão do Infinito.
Leu Simeon em voz alta quase que soletrando.
No meio da página, cercado por letras estava o desenho de um arco de pedra de onde se originavam várias estradas e caminhos que seguiam nas mais diferentes direções pelo papel. Simeon voltou sua atenção para os olhos agora brilhantes de Perry cuja felicidade era incontestável.
–Agora você vê não é? O caminho para aquilo que você mais deseja está descrito nessa página não está?
–Como o livro fez isso?
Simeon se indagava em voz alta.
–Não sei ao certo se ele me mostrou o que eu queria. Eu pensei que desejava voltar para casa. Mas em vez disso o livro mostrou um portal de rochas.
–Talvez você devesse ler o resto das palavras.
Sugeriu Perry ainda com um sorriso incontrolável nos lábios apontando para o papel.
Simeon pôs-se a ler novamente. As linhas que ele leu diziam o seguinte
–Este é um guia minucioso para encontrar e fazer uso da magia do portão do infinito. Seu poder é capaz de conduzir qualquer um para o lugar que desejar ir. Seja em nosso mundo ou em outro qualquer. As instruções devem ser seguidas a risca e qualquer erro no processo resultará em falha no objetivo final e todo o processo deverá ser reiniciado. Aconselho ainda que esteja preparado, pois chegar até o portão do infinito não é tarefa fácil. Porém para aquele corajoso o suficiente para trilhar por esse caminho será recompensado com a possibilidade de, como o nome sugere, visitar uma infinidade de lugares em instantes e assim burlar as leis que limitam nosso espaço.
Simeon interrompeu a leitura antes de iniciar o passo a passo que supostamente levaria ao portão do infinito e voltou a encarar Perry que tentava parar de sorrir. Observou bastante aquele sorriso que, apesar de ser quase contagiante, também era amarelado e deixava que duas ou três cáries ficassem a mostra.
–Você está me dizendo que esse lugar realmente existe?
Perguntou Simeon finalmente.
–Se você viu a mágica neste livro não deve ser difícil acreditar em magias ainda maiores.
–E com certeza você vai me propor a procurar por este lugar estou certo?
Perguntou Simeon já sabendo da resposta.
–Sei que não tenho o direito de lhe pedir nada. Mas sei também o quanto você deseja voltar para casa. Seria vantajoso para ambos.
Disse Perry.
–E para onde você iria se encontrasse o portão?
–Eu procuraria uma forma de rever minha mãe. Mas infelizmente eu não posso partir nesta busca. Por isso gostaria que você fizesse isso por mim.
Simeon não sabia bem o que responder.
–E como você sabe que sua mãe pode ser encontrada por este meio? Aqui diz que pode ir para qualquer lugar, mas não diz que pode trazer os mortos de volta a vida.
Perry refletiu por alguns segundos.
–Este livro me foi dado pela minha mãe no meu aniversário de seis anos. O último que comemorei. Estranhei as páginas em branco, mas guardei bem o livro. Alguns anos após sua morte, eu estava folheando o livro como sempre fazia até que vi que em uma das páginas estavam escritas algumas palavras. Eu tinha certeza de que não estavam ali antes. Elas perguntavam: O que você mais deseja?
Foi aí que aconteceu comigo o mesmo que aconteceu com você agora a pouco. Pensei no que mais desejava que era uma forma de reencontrar minha mãe. Então as palavras fluíram pela página até que o guia para o portão do infinito estava diante de mim.
–E porque você não pode ir atrás dele? Se este é seu grande desejo porque ainda não foi buscá-lo?
–É mais complicado do que parece.
–Eu sinto muito Perry. Gostaria muito de ajudar, mas tenho pressa em voltar para casa. Não posso perder tempo em uma busca que nem sei se vai me levar realmente a algum lugar.
Disse Simeon com firmeza.
–Leia um pouco mais.
Sugeriu Perry.
Simeon voltou os olhos para a folha e leu mais algumas linhas.
–A busca pelo portão do infinito dura exatamente cinco dias. Não importa seu ponto de partida. Nem mais nem menos.
Simeon parou e voltou a encarar o garoto.
–Seria mais rápido do que tentar voltar para casa por meios convencionais. Apenas cinco dias e você estaria em casa.
Sugeriu Perry.
Simeon se preparava para contra argumentar quando foi interrompido.
Neste momento ouviu-se o galopar de um cavalo se aproximando rapidamente. A cor fugiu do rosto de Perry. Uma expressão de desespero se instalou em sua face paralisada.
–Qual o problema Perry? Você está bem?
–Meu padrasto voltou mais cedo. Você tem que sair daqui imediatamente.
Simeon não entendia os motivos de Perry que desesperadamente o puxava pelo braço enquanto ao mesmo tempo tentava pegar o livro que estava sobre a mesa. Não deu tempo de fazer nenhum dos dois. Alguns segundos após o galope do cavalo morrer junto à entrada, a porta se abriu com um rangido lamentoso. Perry não esboçava reações. Ficou ali parado segurando o braço de Simeon com uma mão e o livro com a outra. Simeon olhou para o homem entre o portal de madeira. Diferente de Perry o homem parecia limpo e elegante. Os cabelos negros ondulados estavam um pouco despenteados por causa da cavalgada. Vestia um colete de seda azul sobre uma camisa de algodão puro impecavelmente branca. A calça era de pele muito bem costurada e com um requinte encontrado apenas nas vestimentas das autoridades. Seus sapatos de couro apenas estavam sujos de lama, mas de resto pareciam novos. Apesar disso sua expressão era amedrontadora. Parecia um psicopata prestes a ter um surto. Sua barba estava bem feita, mas perecia que ele havia se cortado com a lâmina, pois havia um curativo do lado esquerdo do rosto. Ele olhou para os garotos como se pensasse qual dos dois mataria primeiro. Mas ele simplesmente disse com uma voz calma e educada.
–Olá Perry. Vejo que temos visita. Quem é este que você segura?
Simeon soltou seu braço da mão de Perry que continuava em choque. As marcas dos dedos eram visíveis e então falou.
–Me chamo Simeon senhor. Sou amigo de Perry.
–Um amigo Perry? Você nunca me disse que tinha amigos.
Perry tentava falar, mas as palavras não saiam pela sua boca.
–Eu me chamo Silas.
Apresentou-se o homem.
–Espero que aprecie a estadia em nossa humilde residência Simeon.
Simeon não gostava nada daquele homem. Mesmo que ele bancasse o bonzinho sua natureza má não podia ser escondida tão facilmente.
–Perry.
Disse Silas.
Perry tremeu.
–Sim senhor.
–Poderia me acompanhar até o meu quarto. Tenho que conversar algo importante a sós com você. Pode deixar seu livro com seu amigo.
Perry olhou para Simeon tentando disfarçar o desespero enquanto lhe oferecia o livro. Silas avançou e pegou Perry suavemente pela mão. Então o conduziu até o quarto. Simeon ainda pôde ouvir o som de duas bofetadas. Ele sentiu um sentimento que nunca havia experimentado antes. O ódio. Sua fúria apenas se agravou quando alguns segundos depois Perry saiu do quarto com sangue nos lábios cortados e Silas vinha logo atrás com um sorriso malicioso. Silas se aproximou de Simeon que se segurava com todas suas forças para não partir contra aquele homem e matá-lo.
–Você pode ficar conosco esta noite meu rapazinho. Não seria apropriado deixá-lo partir por estas estradas sendo que a noite já vai cair sobre Odrite. Perry irá providenciar para que o quarto de hospedes esteja pronto para o seu repouso.
Simeon não respondeu. Apenas olhou para Perry que lançou-lhe um olhar como se dissesse que era melhor aceitar a proposta. Silas encarou Perry que partiu imediatamente para fazer uma rápida limpeza no quarto enquanto Silas sentou perto de Simeon e começou a fazer várias perguntas como, de onde ele viera e como conheceu Perry. Ele disse ter perdido a memória e ter sido encontrado por Perry naquela tarde. Nada mais que isso. Silas ainda fez mais um monte de perguntas sem sentido como, que tipo de comida Simeon preferia, ou se apreciava cavalgadas pelo campo. A cada palavra Simeon tinha mais certeza de que Silas era completamente louco. Quando Perry terminou, Silas acompanhou Simeon até o quarto de hospedes.
–Espero que esteja do seu agrado. Tenha uma boa noite.
Disse Silas com sua voz irritantemente falsa.
Mal Simeon havia entrado no cômodo; Silas fechou a porta abruptamente e passou a chave. Simeon estava trancado. Ele ainda chegou a bater na porta e vociferar, mas era inútil. Diferente do resto da casa a porta parecia bem firme e resistente. Ele olhou em volta e analisou o quarto. Era bem apertado. O teto era baixo e devia ter no máximo um metro e meio. Uma cama velha estava posta num canto. Apesar de antiga, Perry havia coberto-a com uma espécie de colcha nova. Uma estante empoeirada e vazia estava logo à frente. Duas baratas miúdas passaram por entre as pernas de Simeon com muita pressa. Não havia janela e Simeon se sentia sufocado. Ele se deitou sobre a cama e tentou relaxar. Ele não conseguia nem cochilar. Algo lhe dizia que Silas não tinha a intenção de deixá-lo sair dali. Temia por Perry a mercê daquele maluco. Logicamente ele não tinha muita noção de tempo, mas pelos seus cálculos já deviam ter se passado umas cinco horas quando algo mexeu na fechadura. Ele se sentou e ficou na espera. Quando a porta abriu devagar sem fazer nenhum barulho ele pôde ver Perry entrando sorrateiramente com os pés descalços. Simeon nunca havia se sentido tão aliviado como naquele momento.
–Que bom ver você Perry.
–Shiu... Não faça barulho.
Advertiu Perry.
–Você tem que sair daqui imediatamente.
–Eu sei disso. Mas porque você vive com este desequilibrado?
–É uma longa história. Não há tempo de ser contada agora. Silas não permitirá que você parta nunca mais. Provavelmente fará de você um escravo. Não haverá outra oportunidade de fuga. Mas quero lhe pedir um favor.
Perry entregou a Simeon o arco, a aljava e a sua bolsa que agora estava pesada com alguma coisa dentro. Era o livro de Perry.
–Busque o portão do infinito por mim, por favor.
Simeon segurou a bolsa e fez silêncio por uns instantes.
–Então venha comigo.
Respondeu Simeon enfim.
–Ou você quer passar o resto dos seus dias servindo a este imundo e apanhando dele como se você fosse algum tipo de animal? Venha comigo e vamos fazer isto juntos.
Perry tremia.
–Não posso. Silas me jurou que se algum dia eu tentasse fugir, ele me caçaria e me mataria no ato. Preciso ficar.
–Eu juro pela minha vida que não deixarei que ele te machuque nunca mais.
Disse Simeon encarando Perry duramente.
–Como você mesmo disse, não haverá outra oportunidade de fuga.
Perry não sabia o que responder. Ele temia, mas também já estava cansado desta vida que levava. Então num ímpeto de coragem motivado pelo olhar confiante de Simeon ele disse:
–Então vamos de uma vez.
Simeon seguia Perry que caminhava descalço na ponta dos pés para não fazer barulho. Silas dormia no quarto logo ao lado e qualquer ruído poderia colocar tudo a perder. Perry fez um sinal para que Simeon o esperasse na porta. Enquanto isso Perry foi até a cozinha para tentar encontrar um velho lampião que deveria estar lá. Simeon obedeceu e ficou ali junto à porta. O coração quase lhe saía pela boca. Para seu alívio logo Perry estava de volta. Com o lampião velho já quase sem querosene. Ele ofereceu o lampião para Simeon e tirou do bolso fósforos. Com o lampião aceso Perry tratou de tirar do bolso a chave da porta. Era pequena e ele tinha conseguido roubar do bolso de Silas pouco antes deste ir para a cama junto com a chave do quarto em que Simeon estava. A chave virou na fechadura com um estalo. Os dois ficaram paralisados. Podia-se ouvir Silas revirar na cama, mas felizmente ele não acordou. O rangido da porta também era um problema. De forma silenciosa Perry contou até três e abriu a porta de uma vez. O barulho foi grande e com certeza Silas despertara. Eles não esperaram para ver. Se enfiaram porta a fora e correram desesperadamente. Simeon ia à frente iluminando o caminho sem saber para onde ir.
–Siga para a direita.
Gritou Perry.
–Continue e só pare quando atingirmos uma alta colina.
Simeon seguia sem diminuir o ritmo. Pisoteando a grama e dando rápidas olhadas para trás para ver se Perry ainda estava ali ou se eles estavam sendo perseguidos. Depois de cinco minutos, apesar de ainda desesperado já que Silas podia já estar em seu rastro, as pernas de ambos os garotos já doíam. Perry encorajava para que continuassem no mesmo ritmo, mas era obviamente difícil. Dez minutos se passaram e eles já estavam quase caminhando. Simeon se encheu de esperanças ao avistar ao longe a colina escura que sobressaía uns cinco metros acima do nível do solo. Tiveram que apressar o passo até que novamente estavam correndo. Não só por causa da vista da colina, mas bem atrás já se ouvia o som de um cavalo correndo a toda velocidade. Não fosse o terreno totalmente plano eles jamais teriam conseguido a tempo. Finalmente chegaram aos pés da colina. A lua brilhava timidamente no céu escuro logo acima. O cavalo a apenas quinhentos metros de distancia.
–E agora?
Perguntou Simeon ofegante.
Perry apontou para o que parecia a entrada de uma gruta. Ele acenou para que Simeon entrasse. Mais uma vez Simeon tomou a frente com o lampião em punho. Sua respiração podia ser ouvida de longe. A entrada levava a um corredor de três metros de altura por uns cinco de largura e que se inclinava para baixo. O chão agora era pedregoso e dificultava a caminhada.
–Ainda não entendo para onde você está nos levando. Pensei que a intenção era fugir e não se esconder.
Reclamou Simeon.
–Confie em mim. Eu sei o que estou fazendo.
Garantiu Perry.
Após dois minutos de uma leve descida, Simeon ouviu algo parecido com um respiração pesada. Ele olhou para traz e viu que Perry o incentivava a prosseguir. Ele apressou o passo até finalmente chegar a um ‘’cômodo”. Simeon parou e travou totalmente. O lampião caiu no chão. O pouco que ele pode ver foi devido a chama do lampião que fazia o péssimo trabalho de iluminar o lugar. Recostado a um canto e meio enrolada, estava uma criatura de aparência reptiliana. Tinha um rosto comprido e a maior parte de seu corpo era coberta por escamas acinzentadas que deviam ter uns dez centímetros de espessura. Simeon calculou que da cabeça até o fim de sua longa cauda o animal devia ter uns seis metros. As asas estavam encolhidas, mas deviam ter uma enorme envergadura. Quando Simeon pensou em correr, a criatura abriu os olhos e o encarou friamente. Perry parou ao lado de Simeon
–Isto é um dragão?
Perguntou Simeon tentando colocar as palavras para fora.
–Na verdade não. Ele é um Wyvern.
Respondeu Perry tranquilamente.
–Mas não se preocupe. As pessoas costumam confundi-los com dragões. Por isso eles foram massacrados e quase extintos durante a era da caça aos dragões. Apesar de ter certa semelhança existem muitas diferenças.
Ele falava enquanto caminhava de um lado para o outro.
–Wyverns são bem menores que dragões. Suas escamas são três vezes mais finas e frágeis. Ao contrário dos dragões que possuem quatro patas e asas que saem de suas costas, os wyverns só possuem duas patas traseiras e onde deveriam ser as dianteiras sobressaem suas asas como se fosse um morcego ou um pássaro. Além de quê eles não possuem um sopro de gelo ou fogo, por exemplo, como os dragões. Mas sua saliva é altamente venenosa e às vezes pode chegar a ser muito ácida e corrosiva. Em resumo é isso.
A esta altura o wyvern já estava de pé abrindo suas asas como quem estica os braços de manhã ao acordar e Perry estava junto dele acariciando sua perna. Simeon recolheu o lampião e perguntou.
–Como você sabe tudo isso?
–Está tudo aqui no livro.
Respondeu Perry.
–Depois que eu encontrei este wyvern, umas das páginas em branco se encheu de informações sobre esta criatura magnífica.
–Como assim você o encontrou? E porque ele é tão dócil?
–Foi há cerca de duas semanas.
Continuou Perry.
–Eu estava caminhando pelos campos pela manhã quando vi alguma coisa caindo do céu sobre a colina. Corri para ver do que se tratava e ainda pude ver enquanto ele se arrastava para dentro da gruta. Havia um rastro de sangue. Voltei para casa, peguei este mesmo lampião que está em suas mãos e adentrei em busca dele. Ao encontrá-lo ele estava abatido e machucado. Nem reagia a minha presença. Fiquei com ele até o anoitecer esperando para ver se ele ficaria bem. No outro dia peguei uma das cabras de Silas e trouxe para ele. No início ele não demonstrou interesse. Mas no terceiro dia em que eu trouxe a cabra, ele a atacou e a devorou em duas mordidas. Eu então comecei a visitá-lo todos os dias. Depois de uma semana ele já aparentava estar saudável, mas não demonstrava intenção de sair daqui. Às vezes eu tentava conversar com ele e sentia que ele podia me entender, pois sempre que eu perguntava por que ele não ia embora, ele recuava até o canto e ficava lá enrolado. Logo percebi que ele tinha medo de sair. Então dei a ele o nome de Covarde.
Ainda era difícil para Simeon entender e aceitar tudo aquilo. Nunca imaginou que um animal como aquele ainda pudesse existir e que estivesse ali bem na sua frente.
–Venha até aqui.
Convidou Perry.
–Faça um carinho nele. Ele vai gostar.
Simeon não tinha nenhuma intenção de ir até lá. Mas como sempre a voz de Perry era encorajadora. Ele então começou a dar alguns passos para frente. Sempre pronto para correr em desespero. Quando estava a um metro do wyvern, Perry o puxou pela mão livre e colocou sobre o focinho da criatura que se aproximou de bom grado. As escamas eram ásperas e quentes. A essa distancia era possível ver o reflexo da chama do lampião nos olhos de Covarde. Após se acostumar com a situação Simeon falou.
–Isso é tudo muito incrível, mas temos que nos apressar. Logo Silas nos alcançará.
Perry riu.
–Você ainda não entendeu? Esse é o plano.
–Acho que realmente não entendi.
Respondeu Simeon.
–Qual é o plano?
Passos podiam ser ouvidos vindos do corredor atrás deles. Uma luz também já podia ser notada.
–Covarde vai nos levar embora em segurança.
Concluiu Perry com seu sorriso amarelado.
–É nossa única chance.
–Mas você mesmo disse que ele não sai da caverna.
Retrucou Simeon.
–Como ele vai nos ajudar?
Neste instante Silas surgiu com uma tocha e uma besta nas mãos. Sua expressão foi idêntica a de Simeon ao ver Covarde. Mas ele não se abalou por muito tempo.
–Então é assim que você passa seu tempo moleque? Visitando monstros com seu amigo estranho? Eu te avisei o que aconteceria se você tentasse fugir. Agora todos vocês vão morrer aqui.
Ele jogou a tocha acesa junto a seus pés e preparou a besta que já tinha um dardo engatilhado. Ele mirou no peito de Perry. Neste momento Covarde se precipitou para frente e rugiu. O som ecoou de forma vibrante e aterradora. As pernas de Silas tremeram e ele disparou contra o wyvern. O dardo acertou em baixo de sua asa direita. Covarde pulou para frente e com um giro atingiu o tórax de Silas com a cauda lançando-o contra a parede já desacordado e com algumas costelas quebradas.
Perry abraçou uma das pernas de Covarde e o agradeceu. Simeon estava maravilhado com tudo aquilo.
–Muito abrigado meu amigo.
Disse Perry.
–Será que você poderia nos acompanhar em nossa jornada? Precisamos muito de você.
Para tristeza de Perry, Covarde correu para o canto e voltou a se enrolar como se tentasse se esconder.
–Não adianta Perry.
Disse Simeon.
–Ele já nos ajudou bastante. Se ele não quer sair não podemos forçá-lo.
Perry tentou segurar uma lágrima.
–Você tem razão. Ele já fez muito por nós. Pode me ajudar a tirar o dardo do corpo dele?
Simeon assentiu. Perry pediu permissão para se aproximar e o wyvern levantou a asa. O dardo estava fincado até a metade. Com algum esforço os dois conseguiram remover para alívio de Covarde. Perry acariciou seu focinho novamente e se despediu.
–E quanto a Silas?
Simeon indagou.
–Devemos matá-lo?
–Melhor não.
Perry respondeu.
–Ele já teve o que merecia. Quando acordar já estaremos longe e Covarde vai estar aqui caso ele precise apanhar mais um pouco.
Simeon concordou com um sorriso. Perry pegou a tocha de Silas. Eles acenaram para Covarde e voltaram corredor acima. Ao chegar à saída viram várias nuvens encobrindo a lua e uma coruja que sobrevoava em busca de alimento.
–Para onde devemos ir agora?
Simeon perguntou.
–Vamos ver o que o livro nos diz.
Respondeu Perry enquanto abria o livro na página do portão do infinito.
Abaixo da parte que Simeon havia lido estava descrita apenas o seguinte: Passo 1. Sempre para o sul seguindo. No lugar onde a deusa adormece. A pena da coruja deve ser encontrada.
–O que quer dizer?
Simeon parecia confuso.
–Não sei ao certo.
Perry respondeu.
–Mas sei que temos que ir para o sul. Vamos indo então.
Simeon temia que essa busca fosse em vão e que perdesse o tempo em que poderia estar caminhando para Jaku. Mas em seu íntimo ele sentia um desejo incontrolável de seguir com Perry até o lugar que o livro indicava. Antes que eles se pusessem a caminhar ouviram um barulho como que de esbarrões vindos da gruta. Eles se afastaram justo na hora em que Covarde saltou para fora rugindo e abrindo as asas como se tentasse tomar voo.
–Você decidiu vir conosco?
Perry indagou.
Covarde apenas se balançou e fez um movimento indicando que eles deveriam subir em suas costas. Perry estava mais animado que nunca. Jogou a tocha fora e puxou Simeon pelo braço. Os dois se acomodaram da melhor forma que podiam sobre as costas do wyvern.
–Pelo menos agora temos uma carona.
Gritou Perry enquanto sorria como se seus lábios fossem se partir.
Simeon apenas balançou a cabeça e se agarrou com todas as forças nas escamas abaixo dele.
–Para o sul.
Gritou Perry.
Covarde preparou um impulso e se lançou para cima batendo as asas com força incrível. O chão foi ficando mais distante e eles partiram seguindo cheios de esperança.
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