Tudo se tornou ainda mais confuso como se já não estivesse confuso o bastante. Simeon já tinha passado pela experiência de viajar inexplicavelmente uma grande distancia uma vez, mas aquilo era ridículo. Há poucos minutos eles tinham atravessado esta porta deixando para trás um corredor extenso e agora quando voltam se veem no alto de uma colina e logo abaixo há uma pequena cidade. Não havia muro em volta da cidadela. Apenas um amontoado de casas simples em sua maioria construída com argila e madeira. Pelas estreitas ruelas podiam-se ver poucas pessoas indo de lá para cá sem ter um rumo certo aparentemente. Simeon olhou para cima e pôs a mão sobre a testa para gerar sombra para seus olhos. Devia ser aproximadamente meio dia e o céu estava claro e convidativo. Perry que se apoiava em Simeon por sua dificuldade de caminhar após a batalha contra Lamuria sentiu seu corpo revigorar-se rapidamente no tempo de uma respiração profunda. Ele se firmou sobre os pés enquanto Simeon falava.

–E eu que pensei que não tinha como isso ficar pior.

Perry nem sabia o que dizer. Ainda estava espantado com a forma com que suas dores desapareceram. Simeon voltou seu olhar para Perry e percebeu.

–Seus hematomas no pescoço. Sumiram.

Perry apalpou seu pescoço certificando-se de que realmente não sentia mais dor alguma Nada parecia estar certo. Eles se perguntavam qual o motivo de tudo isso. Seria possível que tudo isso fosse decorrente da busca pelo Portão do Infinito? Será que tudo isso era por causa do livro ou talvez de algo ainda mais poderoso? Não havia ninguém que pudesse respondê-los naquele momento.

–Acho que mais uma vez ficamos sem escolhas.

Perry comentou.

–Temos que descer até a cidade e ver o que descobrimos.

Simeon não pensava diferente. E passava longe dele a ideia de duvidar do julgamento de Perry de novo. Eles começaram a descer a ladeira tentando não escorregar na grama. Simeon olhou para trás e viu que a porta por onde tinham passado agora pertencia a uma espécie de estábulo há muito abandonado. Ele tentou não pensar mais em quão estranho era tudo aquilo e continuou. Assim que desceram a colina, estavam há apenas alguns passos da cidade. Simeon tomou a frente e entraram. Caminhavam rapidamente, mas prestavam atenção em tudo a sua volta. Cada casa, cada pessoa. Parecia uma cidade normal. Em alguns pontos, comerciantes ofereciam suas mercadorias dos mais variados tipos, desde frutas a panelas e perfumes. Algumas pessoas ficavam em frente de casa conversando com expressões felizes e contagiantes. Foi quando alguém em especial chamou a atenção de ambos os garotos. Um homem de aparência misteriosa encostado junto a uma barraca que vendia legumes. Ele vestia um sobre tudo azul escuro que se estendia até a altura do joelho. Mais abaixo podia-se ver sua calça preta de algodão tingido. Calçava sandálias simples e na altura do pescoço ostentava um vistoso pingente dourado preso a uma corrente de prata. Seu rosto era sereno. Um fino bigode partido no meio ficava em baixo de seu nariz pontudo. Aparentava ter entre cinquenta e sessenta anos. Seu cabelo era curto dos lados e dava espaço à calvície bem no meio de sua cabeça. Seus olhos enrugados estavam fixos em Simeon. O homem fez um movimento com a cabeça indicando que se aproximassem. Simeon aguardou para ver o que Perry faria. O garoto achou por bem ir até o homem. Até porque duvidava que ele tentasse fazê-los mal no meio da cidade. Perry foi à frente desviando de um casal que passava carregando um enorme saco cujo conteúdo não interessava a ele. Ele parou junto ao homem. Simeon logo atrás. Perry analisava o homem de cima abaixo. O homem em contra partida analisava Simeon friamente. Finalmente o homem se pronunciou.

–Não é um bom lugar para conversarmos. Venham comigo.

O homem virou-se e caminhou já tendo certeza de que seria seguido. Simeon hesitava. Já não tinha mais tanta confiança nas pessoas como tinha antes. Mais uma vez esperou para ver o que Perry faria.

–Você vem ou não?

Perry perguntou enquanto já dava o terceiro passo.

Simeon se viu obrigado a segui-lo. O homem misterioso caminhava rapidamente dobrando numa esquina e depois em outra até que Perry perdeu as contas. Só pararam quando chegaram a frente a uma casinha simples mal tratada. Suas paredes externas já estavam cheias de buracos onde a argila havia caído. A porta de madeira já parecia frágil e não oferecia segurança alguma. O homem tirou uma chave do bolso e destrancou a porta. Enquanto entrava acenou com a mão convidando os garotos a entrarem. Perry entrou logo após o homem e Simeon o seguia por não ter outras opções. Lá dentro pareciam estar em um lugar totalmente diferente do que a fachada aparentava. Simeon até temeu ter sido magicamente transportado novamente, mas se certificou que não ao olhar para trás e ainda ver a mesma cidade enquanto o homem trancava a porta. A casa era muito bem mobiliada com móveis de alto requinte. Uma lareira encontrava-se apagada ao lado. Várias obras de arte e itens raros encontravam-se espalhados por todos os lados. Quadros, vasos, armaduras, lanças. Ali havia de tudo um pouco. O homem pediu para que se acomodassem nos sofás de pele de javali. Eram mais confortáveis do que o que se espera a primeira vista. O homem foi até a lareira e ateou fogo a madeira. Após isso ele tomou um banco de eucalipto totalmente trabalhado em detalhes e se sentou em frente aos dois garotos. Os meninos olhavam para ele esperando alguma coisa. Um longo silencio se instalou até que o homem perguntou:

–Posso ver o livro?

Simeon tremeu. Levou a mão direita até a bolsa e apalpou o livro certificando-se de que ainda estava ali.

–Como você sabe do livro?

Simeon perguntou indignado.

–Não se preocupe.

Respondeu o homem.

–Sou um amigo. Só quero ajudá-los.

–Você não respondeu minha pergunta.

Simeon Retrucou.

O homem fez uma pausa.

–Eu fui avisado de sua chegada. Pediram-me para ajudá-los.

–Quem pediu?

Simeon continuava perguntando.

–Isso eu não posso lhe falar agora.

Silencio mais uma vez. Apenas o som da madeira estalando nas chamas da lareira era ouvido. Simeon abriu a bolsa e tirou o livro de lá. Com receio o ofereceu ao homem. Ao receber o livro o homem o segurou com firmeza entre as mãos e o ficou observando longamente como se fosse algo que o fizesse ter boas lembranças.

–Você sabe alguma coisa sobre o livro?

Simeon perguntou.

–Sim meu jovem. Eu mesmo escrevi boa parte dele.

Os olhos de Simeon e Perry se arregalaram. Não esperavam ouvir aquilo. O homem continuou.

–Quando eu soube que procuravam pelo Portão do Infinito fiz questão de falar com vocês. Desculpem-me não ter me apresentado antes. Me chamo Jhony Mercy.

Ambos estavam boquiabertos. Nem sabiam o que falar. Quando Simeon saiu do embasbacamento em que se encontrava conseguiu perguntar.

–Então a assinatura no início do livro é sua? Eu tenho tanta coisa pra perguntar para você. Posso começar com onde nós estamos e como viemos parar aqui?

Simeon mal se continha com o tanto de coisas que passavam pela sua cabeça.

–Vá com calma.

Respondeu Jhony.

–Eu não vou sair respondendo todas as suas perguntas. Só tenho permissão de ajudá-los um pouco.

A expressão de Simeon foi de euforia a frustração.

–Vocês já devem ter notado que o livro não mostra a vocês todo o seu conteúdo. Pelo menos não de uma só vez.

Jhony continuou.

Simeon e Perry apenas acenaram com a cabeça.

–Isso é porque o livro só revela aquilo que a pessoa precisa saber e não o que ela quer saber. Se aprenderem a tirar proveito do livro as possibilidades são infinitas. Mas se por outro lado tentarem usar de forma leviana ele de nada servirá.

–Acho que entendi.

Disse Perry finalmente.

–Quando encontrei Covarde, o wyvern, eu precisava saber alguma coisa sobre ele para poder ajudá-lo. Daí as informações sobre ele no livro se tornaram visíveis para mim. E quando Simeon viu o livro ele não só queria voltar para casa. Ele precisava voltar para casa. Por isso o livro o revelou o Portão do Infinito.

–Isso mesmo garoto. A lógica é exatamente essa. Mas eu não os chamei aqui para explicar sobre o livro. E sim para pedir um favor.

Os garotos olhavam ansiosos.

–Preciso que vocês destruam o Portão do Infinito quando chegarem lá.

Simeon não entendeu o pedido.

–Porque quer que ele seja destruído? E ainda mais. Como podemos destruí-lo?

–Uma pergunta de cada vez. Vocês não foram os primeiros a buscar o poder do portão. Há muitos anos um homem chamado Derbi procurou o portão. Mas ele não tinha boas intenções. Ele pretendia usar seu poder para se apoderar de seu país Tangor. Por sorte seus planos foram descobertos a tempo e eu pude impedi-lo. O fato é que se usado por pessoas más intencionadas o portão pode se tornar uma arma poderosíssima. Ele precisa ser destruído.

–Muito bem agora você vai ter que responder minhas perguntas.

Se impôs Simeon.

–Em primeiro lugar como alguém pode dominar um país com o portão? Ele apenas leva você para qualquer lugar. Como isso pode ser uma arma?

–Meu jovem. O portão não pode lhe levar apenas a qualquer lugar neste mundo ou em outro. Ele também pode lhe levar a qualquer lugar no tempo. O portão lhe permite voltar em algum ponto no tempo e, se feitas mudanças drásticas a nossa realidade pode ser totalmente alterada. E essa é apenas uma das formas como o portão pode se tornar uma arma.

A resposta foi bem convincente para Simeon. Mas ele precisava saber mais.

–E se é tão perigoso porque você mesmo não o destruiu quando teve chance? Quero dizer, você já esteve lá. Por que não o destruiu se era tão perigoso?

–É complicado.

Jhony respondeu.

–Eu queria ter destruído. Mas a mesma pessoa que me avisou de sua chegada me impediu de fazer isso. Ela disse que o Portão ainda tinha um papel a cumprir no futuro. E que depois de completar essa tarefa ele seria destruído.

–E quem é essa pessoa?

Simeon insistiu.

–Já disse. Não posso contar-lhes agora. Mas vocês vão acabar conhecendo-a mais cedo ou mais tarde.

Simeon não estava satisfeito, mas desistiu de tentar arrancar a informação de Jhony. Já Perry era um bom ouvinte. Apenas escutava.

–Eu agradeço pelas informações Jhony Mercy.

Disse Simeon.

–Pode me chamar apenas de Jhony.

–Jhony.

Corrigiu-se Simeon.

–Mas será que você não poderia nos dar mais alguma dica? Para onde devemos ir agora? Nem fazemos ideia de que cidade é essa.

–Eu conheço alguém que pode ajudá-los mais do que eu. Vou levá-los até ela.

Jhony se levantou e fez sinal com a mão para que os garotos o seguissem novamente. Eles juntaram suas coisas e foram atrás dele. Caminharam pela cidade ainda calma e monótona. Eles seguiam para leste a passos largos. Quando finalmente estavam fora da cidade encontravam-se em uma planície relvada. Algumas vacas pastavam mais a frente. O ar era puríssimo e fazia com que Simeon e Perry se sentissem muito bem. Jhony apontou mais para a esquerda onde se via uma construção destacando-se ao brilho do sol. Em sua volta o que parecia ser um grande jardim.

–Lá vocês encontrarão a ajuda que precisam. Se conseguirem voltar ao Mundo dos Sonhos algum dia me procurem. Ficarei feliz em recebê-los com mais calma e tempo para conversar. Agora vocês tem uma tarefa a realizar. Não se esqueçam do meu pedido.

Jhony apertou a mão de Simeon e Perry e voltou para a cidade. Os garotos ficaram observando até que o perderam de vista entre as casas. Eles olharam para a construção rodeada pelo jardim e caminharam em sua direção. Conforme se aproximavam um cheiro agradável enchia o ar. Eram as flores. Muito mais perfumadas do que qualquer flor que já tivessem conhecido. A certa distancia conseguiram distinguir alguns detalhes. A construção não era estranha. Parecia que já tinham visto em algum lugar. De repente lembraram-se onde já tinham visto. A estátua da coruja acima do arco de pedra não deixava dúvidas. Era o mesmo templo no bosque do Vale da Lua Minguante. Mas aqui ele estava intacto. As pedras ainda tinham brilho e os vitrais ainda eram belíssimos refletindo a luz do sol. No lugar dos olhos da coruja estavam duas esmeraldas brilhantes. Era encantador. Uma mulher estava ajoelhada no meio do jardim cuidando das flores. Seu cabelo era de um loiro brilhante e se estendia até tocar o chão. Usava um lindo vestido de um azul tão claro quanto o céu acima deles. O vestido alargava-se e se estendia por 5 metros. Ele ziguezagueava como se evitasse machucar as flores. Eles pararam a poucos metros da mulher e o cheiro já era quase que entorpecente. A mulher falou com uma voz delicada e tão calma que fazia com que os garotos sentissem vontade de bocejar.

–Finalmente chegaram aqui. Pensei que não conseguiriam encontrar esse lugar.

Os garotos não sabiam o que dizer. O vento soprava ruidoso e era o único a quebrar o silencio. Então Perry finalmente falou.

–Nos disseram que você poderia nos ajudar.

–De certa forma sim.

Ela respondeu.

–Permitam que eu me apresente. Eu sou Lanara. A deusa dos sonhos.

Nenhum dos dois acreditava que realmente estavam diante de uma deusa. Não sabiam como reagir. Fizeram várias reverencias desajeitadas, mas respeitosas. Simeon já ia se ajoelhando quando a deusa o interrompeu.

–Não faça isso, por favor. Não há necessidade.

Simeon se endireitou e perguntou.

–Grande deusa. Poderia nos ajudar? Estamos perdidos e não sabemos como chegamos aqui e nem para onde devemos ir agora. Nós procuramos o...

–Eu sei o que vocês procuram.

Lanara o interrompeu mais uma vez.

–E eu posso dizer onde estão. Já que fui eu quem os trouxe para cá.

Simeon ficou chocado. Não entendia os motivos que levariam a deusa a fazer isso. Já Perry estava muito hipnotizado com a beleza de Lanara e o cheiro das flores para pensar.

–Com todo respeito minha deusa.

Simeon continuou.

Mas porque nos trouxe aqui? Nós quase morremos e ainda por cima perdemos o rumo de nossa busca. Nós teríamos conseguido o item que o livro nos disse para pegarmos se não tivéssemos caído naquele buraco e então acabado em lugares totalmente desconhecidos e sem lógica em sua ligação.

A deusa se levantou. Dois metros de altura com uma elegância sem igual mesmo entre os deuses. Ela virou-se na direção dos garotos. Seu rosto era perfeito. Pele clara e macia, as sobrancelhas finas e delicadas, seus lábios carnudos eram avermelhados naturalmente. Seus olhos azuis faziam Simeon se sentir insignificante.

–Eu não tinha intenção em interferir em sua busca, mas me pediram que testasse vocês dois. E devo dizer que vocês passaram no teste com sucesso.

–Do que a senhora está falando?

Simeon perguntou.

–Era preciso saber se vocês estavam aptos a encontrar o Portão do Infinito. Como Jhony deve ter explicado, nas mãos erradas é um poder que pode causar sérias mudanças em seu mundo. Por isso o teste. Você Simeon demonstrou ter grande coragem, mas tinha confiança demais nas pessoas. O teste o ensinou que muitas pessoas podem ser perigosas e traí-los apesar de qualquer ajuda que você a ofereça. E Perry provou ter grande lealdade arriscando sua própria vida quando tinha a chance de escapar. Mas não tem poder suficiente para proteger aqueles que ama. Por isso hoje vou lhe dar forças para que você possa cuidar daqueles que merecem sua proteção.

Ela se aproximou do garoto com passos graciosos. Sua mão direita brilhava com um leve brilho amarelado. Ela pôs sua mão sobre a cabeça do menino e falou em seu ouvido.

–Você é pode fazer qualquer coisa se acreditar e tentar enxergar o que é invisível aos outros.

Perry sentiu seu corpo esquentar com um calor agradável. Ele reverenciou a deusa.

–Agora está na hora de vocês seguirem seu caminho. É hora de acordar. Mas antes deem uma olhada no livro. Os garotos abriram o livro coincidentemente ou não bem na página do Portão do Infinito onde novamente as informações estavam visíveis. Novas letras surgiram e se posicionaram logo abaixo das instruções anteriores. Era o próximo passo.

“Nas montanhas a fera aprisiona a dama. Seu chifre dá poder e ilumina seu caminho.”

–Simeon.

Disse a deusa.

–Perry tem uma habilidade valiosíssima e que pode ajudá-los em sua jornada. Ele pode ver as pessoas além de sua aparência. Ele pode ver o caráter e as intenções e assim julga as pessoas com justiça. Confie nele. Ele é um amigo inestimável.

Simeon olhou para Perry. Aquele garoto maltrapilho e sujo, mas com um olhar tão puro. Tudo que Simeon mais queria era estar com ele e protegê-lo.

–Eu sei disso.

Simeon respondeu.

–Seja lá quem tenha me feito chegar naquele templo me fez o maior bem. Pois não fosse isso eu não teria encontrado o único amigo que já tive.

Os garotos se abraçaram. No mesmo instante sentiram seus olhos pesarem e sua visão ficar turva.

–Nunca se esqueçam de que apesar de esse mundo estar em meio aos sonhos, tudo que aconteceu aqui foi real. Boa sorte.

Olharam para a deusa que sorria para eles até que tudo sumiu na escuridão de suas pálpebras fechadas. Quando acordaram não podiam acreditar que tudo aquilo havia acontecido em seus sonhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.