As Irmãs Scarlet
1 O Funeral
Era uma sexta feira, nove da manha. Sam, uma jovem ruiva, muito doce. Que não havia ido a escola naquele dia, trajava longas botas e meias de cor preta que lhe cobriam os joelhos, e seu inseparável pulôver cor de rosa. Parecia até um tanto berrante para onde ela e sua família se dirigiam.
Um funeral. Exatamente, um funeral. Mas especificamente o de seu avô Reed, a quem não era muito ligada, mas como muitos ali, lhe tinham com muito respeito e carinho.
Ao lado de Sam, estava sua mãe que estava aos prantos, e do outro, estava sua irmã do meio, Kenneth. Usando um lindo chapéu coco, e um vestido de renda preto, que não chegava a tocar-lhes os pés. Vestes lhe caiam muito bem, com seus longos cabelos avermelhados.
Kenneth, de todos, provavelmente, era a que possuía uma ligação mais forte com o vovô Reed. Pois ele sempre esteve lá, nos primeiros passos, primeiras falas, primeiras feridas, primeiras desilusões amorosas... Sempre. Então, pode se imaginar como ela estava.
Ainda era fresca, na memoria, a lembrança do dia em que, Kenneth, resolveu se assumir para o mundo. E claro vovô Reed foi o primeiro, a saber. As exatas palavras foram “Não existe certo ou errado, nem neste mundo e nem em nenhum outro. Apenas o amor, que aquece os corações e vidas. Para bem ou mal. Mas o que realmente importa, não é quem você ama, mas sim se você ama SI mesma, a cima de tudo...”.
Ao lado da senhora Rose, mãe das meninas, estava a mais velha. Adélia.
Adélia estava fazendo seu terceiro período na faculdade de moda, em Paris. Ela usava uma roupa colada cor de rosa, tão rosa quanto o pulôver de Sam, e óculos escuros, com as lentes que mais pareciam lábios. Adélia havia perdido sua bagagem no aeroporto, então por hora teria de usar aquilo, já que não aceitava usar as vestes da senhora Rose ou de Kenneth. Contudo, ela era a única ali, que não demonstrava nenhum tipo de comoção, apenas tedio.
Após terem caminhado por um caminho de terra, que fazia os saltos de Adélia afundar, chegaram à cova já aberta.
Era muito difícil para Sam, ver a tristeza de alguém ir embora, principalmente daquela maneira. Mal podia imaginar a dor que sua mãe ou sua irmã Kenneth, poderiam estar sentindo. Ou pior sua avó Berta, que mal teve forças para continuar a caminhar sozinha, e teve de ser carregada, pois não queria deixar de se despedir do amor de sua vida.
E enquanto se descia o caixão de madeira lacrado, o Padre Jhones dizia algumas palavras. Porem, nenhuma das três irmãs Scarlet lhe deu atenção. Kenneth estava a chorar por demais, para até mesmo pensar. Adélia estava concentrada demais em seus saltos sujos de terra. Já Sam, olhava fixamente para o caixão, e de repente sentiu um leve frio na barriga, seguido de um forte puxão no peito. E foi ai, quando viu, por uns estantes, uma espécie de figura se formar a partir de um tipo de pó dourado, soprado pelo vendo. Quando olhou atentamente, tal figura lhe era familiar. Era seu avô Reed, porem mais vivido e lívido também, mas com seu ar de calmaria e olhar de que “vai ficar tudo bem, no fim das contas”.
Então, imediatamente, piscou e esfregou seus olhos para ter certeza de que não estava vendo coisas. A figura lhe sorriu com bondade. Sam olhou a volta, e todos pareciam não perceber. Então, cutucou Adélia que sibilou em resposta “Não enche pentelha”. Logo, Sam sussurrou ao ouvido de Kenneth, que não parava de molhar seu ombro com lagrimas, aparentemente, infinitas.
Lentamente, Kenneth, levantou a cabeça e se forçou a fitar a irmã. Seus olhos estavam tão vermelhos que pareciam estar pegando fogo.
– O que foi? – Ela perguntou, com a voz rouca.
– Só queria que visse uma coisa. – Disse Sam, baixinho.
– Eu não consigo...
– Por favor, você não vai acreditar. – Sam esboçava um sorriso no rosto.
– OK. — Kenneth forçou-se a olhar, e quando abriu um pouco mais os olhos, sua visão ficou bem mais clara. E então, também pode ver, quando o mesmo lhe vez um sinal de silencio. – Vovô?!- Gritou ela, e sem perceber, com um passo em falso, afundou seu sapado na beira da cova. E para espanto de todos, Kenneth caiu para o fundo da cova, dando de cara com o caixão. O que fez Adélia soltar uma risada grotesca, enquanto todos, ou se desfaleciam, ou se prontificavam a ajudar a jovem caída.
Com o empaqueto, mais tarde naquele dia, todos acreditavam que Kenneth estava sob efeito de drogas. E estava as dividindo com Sam, pois ambas contaram aos outros, o que haviam visto. Mas como já era de se esperar, ninguém acreditou.
Às sete da noite, naquela sexta feira, Sam e Kenneth encontravam-se empoleiradas sobre suas camas, tendo de dividir o quarto com Adélia. Que fez Sam dormir no chão, para não ter que entrar com contato com o chão frio.
Nenhuma das irmãs mais novas conseguia dormir, por causa dos roncos de Adélia, que mais parecia o som de uma mãe porca tendo um bebe.
Em estantes, ouviram o som da porta se abrindo. E foi quando a mãe das meninas adentrou pelo quarto. Com os pensamentos girando em sua mente, do porque Sam estar dormindo no chão, ao em vez de Adélia. Mas ai Sam e sua mãe se entre olharam profundamente, e a senhora Rose, simplesmente assentiu com um sorriso.
– Bem, só vim para lhes dar boa noite.
“Boa noite, mãe” disseram as meninas em uni som.
– Mas também queria lhes contar uma coisa. – Senhora Rose, esfregou os nós dos dedos, e sentou-se ao pé da cama de Kenneth. – Então, não sei se é uma boa hora, mas amanha será lido o testamento do vovô. E a vovó gostaria que fossem. Não se sintam obrigadas a ir, mas estou, literalmente, fazendo um convite. Pois... – Pesadas lagrimas escorreram dos grandes olhos de cor âmbar da senhora Rose – Eu não gostaria de ir sozinha... Pois eu... Sinto tanta... Bem, não me sinto confortável com isso. E muito menos estou com cabeça para isso, mas a avó de vocês pediu, então, vocês já sabem.
Por uns segundos, Sam e Kenneth se entreolharam, e observaram sua mãe esconder seu rosto molhado por traz de seus longos dedos finos. Como uma forma de defesa.
Senhora Rosa, era sem duvida, uma linda mulher. E para Sam e Kenneth, era uma visão dolorosa vela neste estado. Afinal perder o pai isso era algo duro, e isso era algo que elas entendiam bem, mesmo que não exatamente da mesma forma. Então, logo se viam encostando junto de sua mãe, e se abraçaram forte.
– Eu vou mãe, fique tranquila. – Disse Sam.
– Vai ser difícil, mas eu também vou. – Arfou Kenneth.
Na cama em cima a de Kenneth, Adélia havia acordado. Porem manteve-se em silencio. Ouvira a palavra “testamento” e seu lado ambicioso e egoísta lhe incomodou. Contudo, por mais que tentasse não pensar, lhe doía ver sua mãe naquele estado, e não ter coragem de se juntar a ela.
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