As If It Were The Last Day - 2ª Temporada.
3 Sup, JC? 'Takin Requests?
Notas iniciais
O pulo que Marie e Ana dão com as batidas de Drake no vidro da frente do carro quase as fazem bater a cabeça no teto, o amigo solta uma gargalhada antes de virar as costas e sair.
– Jeito Drake de acordar serenamente as pessoas — murmura Ana grogue coçando a cabeça.
Marie se espreguiça, e busca sua mochila nos pedais do carro, pegando seu desodorante, ela limpa o rosto no espelho retrovisor e põe os tênis, Ana nem se moveu ainda.
– Eu dormi bem. Nossa! — ela diz e então rasteja até a parte de baixo do painel do passageiro e pega a mochila.
– Ana…
– Hm?
– Aconteceu uma coisa…
Ela se vira preocupada — Meu Deus, você tá bem, tá doente, sentindo alguma coisa?
– Não! Acho que foi uma coisa boa.
– Ai, que susto! Conta logo.
– O… — trava, dá um sorriso e fala tudo de uma vez — O Daryl me beijou ontem a noite.
Durante a frase os olhos esbulhados azuis da amiga vão ficando ainda maiores, e a boca se abrindo — Meu Deeeeeeus! E ai, como foi? O que rolou depois?
– Se eu dormi aqui com você não rolou nada né, Ana.
– Ai… Pode ter sido rapidinho.
– Ana! Que mente poluída.
– Marie! Que mente sem criatividade. Dez mil carros por ai e não agarrou ele?
– Agarra você!
– Olha, você sabe que quando eu me interesso, eu agarro mesmo e foda-se se ele me acha bonita ou não, os homens fazem isso, porque nós não…? Como eu não agarrei o Daryl, não me interessei por ele, ele não faz o meu estilo… É muito… bronco, desengonçado. Sei lá.
– Não sei qual é meu estilo… — Marie pensa.
– Te conheço a quatro anos, nesses quatro anos você namorou um surfista e um empresário… Você não tem estilo.
– Hm…
As duas descem do carro, caminhando até o Toyota Camry preto que Marie e Daryl dividiram noite passada onde Drake está.
– Cade o Rick? — Marie pergunta.
– No trailer, vindo. Dale fez um café.
Elas se sentam ao lado dele, Ana toma um gole da xícara que o amigo tem na mão e esperam, Rick desce os degraus do trailer, com Lori, Carl, Shane e Daryl logo atrás. O Dixon olha para Marie, ele esconde, mas está morrendo de vergonha e quando ela o olha, ele olha para os pés.
É claro que Ana percebe e sorri sozinha.
– Vamos juntos — falou Rick — Daryl conhece bem florestas, pode rastrear, não cortem o caminho dele, não atrapalhem a trilha e vai dar tudo certo. Acho melhor T-Dog ficar, está ferido e Dale tem o trailer… — ele olha cada um do grupo — Mais cinco minutos.
Ana pula do capô e corre para dentro do trailer, precisa usar o banheiro. Quando sente que Daryl continua olhando para ela e desviando quando ela encara de volta, Marie bufa e segue a amiga, deixando Drake totalmente perdido. Andrea, Dale, Carol, T-Dog e Glenn estão lá dentro.
– Posso dar uma olhada no seu braço? — ela pede
T-Dog o estica e ela levanta o curativo mal feito, faz cara de nojo e depois o solta — Dale, dentro do meu carro, no porta-malas, tem um maleta prata, lá tem algumas coisas que vai poder ajudar — ela tira a chave do bolso e entrega a ele.
Dale agradece, Ana sai do banheiro e Marie entra.
***************
– Eu quero ir, sou amigo da Sophia, vou ajudar — Carl diz convicto
Ana tenta esconder o sorriso. Esse é dos meus, teimoso. Ela pensa.
Lori olha para Rick — Você decide, não posso ser a vilã sempre.
Rick maneia a cabeça de um lado pro outro.
– Acho que ele estaria bem a salvo, com o grupo todo — diz Dale
– Tá bom — Rick bagunça o cabelo do filho — Mas fique sempre perto.
O garoto sorri, ele tira do bolso o canivete suíço que herdou da July e abre a faca, enquanto faz movimentos ninjas.
– Ei — chama Drake, o garoto o olha — Cuidado aí, isso não é brinquedo.
– Eu to treinando. Pra matar esses Caminhantes.
Os dois riem e seguem o grupo que já entra na floresta, Daryl vai na frente, Rick logo atrás com Lori e Carol. Depois Glenn e Andrea, depois Marie, Ana Drake e Carl. Quando Daryl para, o grupo para e olha em volta, ele mexe nas folhas, tira algumas do lugar com os dedos fazendo uma pinça, tira folhas de cima da terra seca e volta a andar, muito concentrado.
– Qual a idade de vocês? — Carl pergunta
O grupo todo olha pra trás e depois volta a olhar pra frente.
– Perguntar idade é baixaria — Drake diz sorrindo — Eu tenho trinta e dois.
– Vinte e oito — diz Marie
– Vinte e cinco — diz Ana
– Eterna bebe — Drake murmura, empurrando ela para o lado de leve.
Daryl aguçou sua audição e ouviu quando Marie disse sua idade, não que isso importe, claro que não! Mas é legal saber a idade dela, só isso. Mais a frente ele vê uma barraca, grande, fechada, por cima do ombro ele vê que Rick também viu e levam o grupo até lá. Daryl se prepara para abrir a barraca, a faca na mão, o corpo curvado.
– Carol? — chama Rick — Chame ela, se ela estiver ai, é sua voz que ela deve ouvir primeiro.
Carol, curvada pra frente, apertando o casaco diz suavemente — Sophia? Sophia é a mamãe… Estamos aqui, querida.
Daryl espera mais um pouco, então começa a puxar o zíper da barraca. O grupo, apreensivo. Quando dá o espaço para ele entrar, ele passa pela lona e no mesmo instante seus pulmões são invadidos pelo cheiro de carne pútrida, um cadáver está sentado numa cadeira, a cabeça estourada, a mão pende pra fora segurando um arma. Daryl a pega e guarda no cós da calça.
– Daryl? — chama Lori
Ele sai — Não é ela — diz para Carol.
Carol suspira, aliviada por não ser a filha, triste por ela não estar lá. O grupo continua, eles percorrem quietos um longo caminho, e todos se sobressaltam com um barulho alto, que ecoa pela floresta, um sino tocando. O grupo se entreolha
– Pode ser alguém avisando que encontrou a Sophia — Lori fala baixinho olhando em volta
– Ou ela mesma tá tocando — diz Glenn
– Tá. Aonde? — pergunta Ana olhando em volta.
Marie fecha os olhos, pessoas que não vêem tem seus outros sentidos aguçados… Ela gira, depois aponta para a direita — Lá.
– Tem certeza? — Rick pergunta
– Não.
– Então vamos — ele começa a correr primeiro, Marie logo o alcança e ultrapassa, ela guia o grupo agora.
Todos eles percebem que o som tá aumentando e que mais a frente, uma pequena construção branca é vista, num campo fora das árvores, eles se apressam mais, os músculos queimam.
– SOPHIA! — grita Drake ao chegar lá com a arma em punho, ele roda a igreja estourando com um tiro a caixa de som que emite o barulho de sino — É programado.
– Ela pode ter achado esse lugar, vamos entrar — avisa Rick
Eles se posicionam na frente da porta, Drake entrega à Ana a escopeta e puxa o facão de cozinha do cinto, que ele pegou no primeiro dia na casa da Marie. Rick mete o pé na porta e por um segundo, eles ficam olhando a imagem de dentro da igreja.
– O que é? — pergunta Marie num sussurro olhando por cima do ombro de Glenn.
Cadáveres errantes sentados, olhando para frente, como se estivessem numa missa.
– Vai! — ela empurra Glenn e eles entram, são poucos, dá pra dar cabo.
Drake entra com o facão pra frente, ele empurra o cadáver masculino bem vestido para a parede e enfia a lamina na testa dele, sem muita dificuldade puxa de volta. Marie entra e vai para a porta da lateral esquerda e a abre, nada, ela dá pra lado de fora.
– SOPHIA!
Com os mortos no chão, Carol se senta e põe a cabeça nos joelhos, Ana no outro banco, com a escopeta 12 no colo, as duas escopetas recortadas pendem na lateral da calça, no coldre que pegaram na loja do Jimmy, junto com a faca e a glock 9mm.
Marie e Drake saem da igreja, pela porta dos fundos, ele se senta no degrau e Marie fica em pé.
Daryl para em frente a imagem de Jesus na cruz — E ai, JC? Tá aceitando pedidos?
Ana acompanha ele sair pela porta dos fundos e depois olha para Jesus, com um olhar de desdém, e a boca curvada, uma careta de desafio a Ele. Nunca foi muito religiosa, não fez catequese, não conhece um versículo da bíblia, nem sabe se pode dizer se já acreditou em Deus, mas ela sabe que agora, definitivamente, não acredita. Se levanta e segue o amigo porta a fora, ele está parado de um lado da escada, Drake sentado no degrau e Marie do outro lado, ela senta do lado do amigo.
– A gente devia esperar um pouco — ela diz — Sophia pode ter escutado o sino
Daryl olha para ela — Ela e todos os errantes do país, vai saber onde aquele bando tá.
– Pois é… O que foi aquele bando, foi duas vezes maior que o do acampa…
Drake chuta o pé dela, ela olha Marie — Desculpa.
Todos eles vêem ela piscando várias vezes, contendo lágrimas — Eu vou falar com o Rick — ela diz, jogando a franja pro lado — Sobre ficarmos aqui um pouco mais.
Ela contorna Daryl e vai para a frente da igreja. Ana olha para ele, os imensos olhos azuis penetram em sua alma e ele se sente desconfortável — Vai falar com ela — ela manda — Acha que não sei o que rolou?
Ele pigarreia, pega a besta do chão e sai rapidinho. Drake olha para ela confuso.
– O que rolou?
Ana ri.
– Não me diga que…
– Não digo nada, fale com a Marie.
Daryl encosta na porta e observa Marie falar com Rick, ele olha para baixo, e assente com um olhar suave, uma mão pende ao lado do corpo e a outra está na arma, o xerife olha para a porta
– Vamos esperar mais um pouco.
Daryl concorda com a cabeça, Marie não o tinha visto ali.
– Faremos o que pede — Rick toca o braço dela — Fique tranquila.
Então sai, tocando de leve no ombro do Dixon. Ele caminha pela igreja e senta onde pouco antes Ana estava, olhando para ela e depois para o banco, Marie se senta ao lado dele.
– Tá tudo bem com a gente?
– Tá sim, Daryl. Porque não estaria?
– Sobre ontem…
– Esquece…
– Não vou te pedir desculpas.
Ela franze a testa. Ele se aproxima dela, quase juntando as testas e diz baixinho:
– A gente só pede desculpa por algo que não quis fazer, não é?
Ele se levanta e sai pela porta da frente, deixando ela sorrindo sozinha, as bochechas fervendo como um adolescente apaixonadinha, ela olha Cristo na cruz.
– Que piada é essa, Jesus? — ri e depois sai da igreja.
É óbvio que Ana percebe que ela está corada, ela procura Daryl e sorri para ele, ele só revira os olhos.
Daryl fica a beira da floresta, com a besta, as vezes ele olha pela mira e bem ao longe vê um errante andando, tão longe que até pela mira ele está pequeno.
– Hey, Daryl…
Ele baixa a besta e olha pra trás — Rick…
– Será que você pode dar um olhada? Como está a situação, logo vamos embora, não podemos perder tempo aqui.
– Posso sim.
Rick acena com a cabeça e Daryl olha acima do ombro dele, Marie que vem em sua direção.
– Vai uma força extra?
– ‘Bora.
Os dois se embrenham entre as árvores, Ana sorri de lado com a cena e Rick percebe, ele olha para os dois na mata, olha a morena na escada e balança a cabeça quando entende.
Jovens…
Marie fica de olho nas costas de Daryl por um caminho curto, mas cheios de curva, pelo o que ela entendeu, ele está circulando a igreja, olhando as folhas no chão, o horizonte pela mira da besta.
– O que você vê?
Ele olha para trás e então aponta um ponto logo abaixo dos pés dela — Tá vendo essas marcas de pé em linha reta?
– Sim.
– Meu pé. Vê essas marcas tortas ao lado, ou até mesmo por cima?
– Sim.
– Seu pé. Você quase anda igual a um dos mordedores… A diferença é que eles arrastam o pé de leve.
– Se me visse andando de manhã, seria assim. Mas como você sabe? — ela volta a seguir ele
– Fala baixo. A necessidade me fez aprender. Eu precisava caçar… E quando as coisas estavam em paz em casa, eu saia com meu pai e um amigo dele, era um jeito de me distrair enquanto o Merle estava na cadeia.
– Você é todo misterioso.
– E você então? Eu te conheço a dois meses e nem sei seu sobrenome.
– Não é grande coisa saber o sobrenome, Dixon.
Ele vira para ela e ergue uma sobrancelha, depois se volta para a trilha.
– D’Jacques… Bathelemy.
– Cheia de frescura… As armas, como vocês tinham?
– Loja de armas né…
– A habilidade pra viver no morro?
– Montanhismo. Aventuras — ela diz a ultima palavra num tom animado infantil.
– Porque?
– A July era uma menina muito má e levada… Meu tio começou a levar ela às aulas de caça dele, como castigo… E a capetinha gostou. Ai ela me convenceu a ir também. Meu tio trazia a gente aqui nos Estados Unidos, aqui na Geórgia, nas nossas férias, a gente costumava caçar por Greenville, e aí conhecemos o Jimmy.
– O gordo?
– É!
– Sei… Por que se mudaram pra cá?
– Minha tia Emília morreu quando eu e a July tínhamos dezenove anos, sofreu um AVC, e o meu tio morreu dois anos depois, ataque cardíaco… Enquanto caçava com a July, ela tentou levar ele pra um hospital… A gente herdou a casa de campo e a da cidade e vendemos, ai viemos pra cá…
– Por que você morava com seus tios?
– Não sei se você lembra… dia 26 de junho de 1988, eu estava quase completando seis anos, o Airbus do voo 296 da Air France caiu... por erro do piloto ou falha nos motores...
Daryl força a memória, ele devia ter um nove, dez anos, sim… Se lembrava. Ele move a cabeça indicando que ela continue.
– … Pois é… Meu pai era piloto...
Ele para de olhar a grama e se vira para ela.
– Minha mãe, uma das aeromoças…
– Lamento. Tudo bem, não precisa falar se não quiser…
Ela puxa de dentro da regata larga o pingente do colar, um avião azul, um tanto infantil, num formato gordinho.
– Meus pais me deram antes da última viagem deles… Disseram que quando eu fosse moça trocariam por um mais adulto…
– Se eu achar um… Eu troco pra você.
Ela sorri, ele continua olhando para ela com a cabeça meio baixa, até dar um leve meio sorriso forçado. Os dois viram num susto com um barulho de folhas farfalhando, Marie reprime um pequeno gritinho, Daryl ergue a besta e mira o errante que caminha totalmente disperso da presença dos dois. Mas antes de apertar o gatilho, ele para e olha Marie que toca o braço dele, ela o olha, depois a besta e estica as mãos. Relutante, ele a entrega.
Marie endireita as costas, estica bem o braço de apoio, deixa o outro braço, que permanece dobrado bem alto, nivelando o cotovelo com o ombro, respira fundo e espera o angulo certo. Daryl se encosta numa árvore e cruza os braços esperando… Ela fica muito sexy naquela posição segurando a arma, ele a olha de cima a baixo e novamente admite a si mesmo que a quer muito. A imagem de Marie se contorcendo de prazer embaixo dele, gemendo seu nome aparece em sua mente e se vai quando ela dispara a flecha…
… que atravessa a cabeça do moribundo que um dia foi um garoto estiloso, e fica presa na árvore, sustentando o corpo da coisa-menino em pé, a boca ainda aberta e os olhos vidrados em alguma coisa.
Daryl bate uma palma enquanto caminha até a flecha, retirando ela da cabeça e deixando o cadáver cair.
– Muito bom, moça.
– Sua besta que é boa.
Ele move os ombros tomando o arco da mão dela — Ela é velha.
– Deve ser por isso…
– Vamos voltar… — ele toca o ombro dela empurrando ela para a direção contrária.
– Sua besta velha dá firmeza… Fica mais fácil, mas ela é bem mais pesada do que as outras.
Fale com o autor