As Garotas De Hogwarts
57 Acabou
Notas iniciais
Os sons da noite ainda estavam presentes no momento em que o grupo de jovens adultos decidiu por um fim naquela estranha comemoração. Não, não há dúvidas que nessa festa houve risos sinceros, momentos de amizade verdadeira e de diversão. Porém, a tensão que pairava no ar, entre os corpos dançantes e suados, era tão pesada e densa que não deixava possibilidade alguma de disfarçar o gosto amargo que surgia na boca de não só um, mas de todos os presentes, e não tinha nada relacionado com o gosto amargo das bebidas que eles tomavam.
A festa começara relativamente bem, mesmo em meio a provocações constantes vindas de todos os lados, porém, com o passar das horas e dos copos vazios de bebida, as provocações se tornavam cada vez mais sérias. Ódio entre irmãos, insultos entre casas, mentiras entre amigas, traição, culpa, corações partidos e muito medo manchavam a noite que deveria servir para comemorar a pequena vitória que fora o roubo do medalhão.
Essa pequena vitória, no entanto, servia para obscurecer ainda mais as mentes dos participantes. O que era esse acontecimento comparado aos problemas que eles estavam fadados a enfrentar? A alegria, naquele momento, assemelhava-se a um crime grave. E, por conta disso, cada um se afundou em sua culpa, procurando as merecidas dor e tristeza. E eles as encontraram.
O quarteto de garotas que compartilhava uma forte amizade conseguiu manter-se sóbrio enquanto as horas torturantes passavam, mas isso não as tornava imunes à tensão. Pelo contrário, elas podiam ver cada consequência causada por ações delas. Bem, apenas algumas delas.
Luna Lovegood dançou.
Gina observou Harry Potter durante grande parte da festa, já que o moreno passara horas em um canto, com um copo de bebida na mão e o olhar longe, repleto de tristeza e arrependimento. Ela não era alheia ao fato de que causara aquilo, e, por um lado, adorava ver o resultado de sua vingança. Mas não queria só aquilo. A ruiva sabia que a hora tinha chegado. Ela devia isso a ela mesma, devia isso ao Cormac. Ambos precisavam da resposta.
Luna se divertiu.
Já o divertimento de Hermione direcionado ao ciúme de Rony não foi duradouro. No máximo, aguentou as primeiras duas horas da festa. Por mais que fosse delicioso de assistir, aquilo estava a torturando. Não sabia se era por causa de Fred, por estar fazendo-o ir contra seu próprio irmão, ou se por causa de Rony e um sentimento enterrado a sete palmos que a fazia querer agarrar aquele bonito rosto e encher de beijos até fazer toda a dor causada por ela ir embora.
A morena quase decidiu naquele momento ela já havia passado dos limites. Que vingança já tinha sido concluída. Que aquilo que estava fazendo já era de pura maldade. Antes que pudesse se arrepender, sua mente trocou de alvo, e terminou repousando sobre sua amiga ruiva, e a tristeza do que teria que contar a ela inundou seus pensamentos.
Luna foi apenas... Luna.
Astoria Greengrass não pode esquecer-se do que fizera naquela noite nem se esforçando. O incomodo leve entre as pernas era um lembrete constante do que fizera, sua mente confusa, outro. O garoto que passara a festa inteira ao seu lado trouxe um pouco da loira para o momento, mas parte dela ainda estava rolando na cama com Draco Malfoy, e a outra parte ainda estava beijando o estranho e generoso homem misterioso.
Ah, que noite!
Pansy partiu para Hogwarts logo após pisar dentro d'A Toca, apenas parando para pegar o medalhão, pegar emprestado uma bolsa de Hermione e se despedir de forma genérica, imersa em pensamentos que não deveria estar tendo naquele momento.
O trajeto não foi simples, porém rápido o suficiente para ela estar andando pelos largos corredores de Hogwarts quando os raios de sol começaram a iluminar o castelo. Ela utilizara pó de flú na lareira dos Weasley, falando em alto e bom tom o endereço de Aberforth Dumbledore.
Abe, em toda a sua magreza, altura e cabelos, estava sentado em seu sofá espaçoso, recostado em uma das almofadas, tomando seu café matinal de forma relaxada. Olhou a garota que descia sua escada em caracol, vinda do quarto onde se localizava a lareira.
Seus olhares se encontraram quando Pansy já estava na metade da escada. O velho senhor não pareceu surpreso, já esperava essa visita, mais cedo ou mais tarde. A loira fez um sinal de confirmação com a cabeça, esperando que ele compreendesse que estava ali por ter conseguido pegar o medalhão.
Antes que pudesse ter certeza que o senhor havia entendido, e sem falar uma palavra nem com ele, nem com Ariana, garota do quadro que adornava a sala e a olhava de forma curiosa, ela puxou o quadro, abrindo a passagem secreta e entrando por ela.
—Bom dia para você também. –Murmurou ele entre goles de sua xícara de café, sabendo que ela não escutaria. O som da passagem se fechando veio em confirmação.
A garota andava em passos ritmados pelos corredores, seus olhos vidrados estavam fixos no horizonte, como se olhasse parta o futuro e não gostasse do que via. Seus pensamentos, porém, estavam presos naquele aterrorizador passado recente. Ela implorava, suplicava, para que Draco não tivesse dito nada.
Ela seria morta caso ele tivesse falado.
A cada minuto, ela ficava mais desesperada. Mais arrependida de não ter sido cuidadosa. Mais arrependida de ter se metido naquilo. Mais arrependida de ter se voluntariado a trazer o medalhão para Hogwarts. Se ninguém a matasse em dez minutos, ela se consideraria sortuda.
Ela poderia jurar que a cada passo que dava seu coração batia pelo menos umas dez vezes, e ela não andava lentamente. E, a cada passo, ela ficava mais perto de seu destino. Estaria ela mais segura lá? Ou ainda mais perto do perigo? Ela não saberia dizer.
O bolso de seu casaco pesava uma tonelada. Mais que isso até. Tinha o peso de vidas, a dela inclusive. Ela e Astoria haviam sido pegas mais de uma vez, por mais de uma pessoa. Por Merlin, Bellatrix colocara o medalhão em sua mão na noite passada, e a loira tinha quase certeza que nesse momento a bruxa louca já tinha tomado conhecimento da troca que havia sido feita. Iriam suspeitar dela. E ainda tinha Draco. E ele.
Pansy poderia ter feito Astoria vir no lugar dela, visto que grande parte da culpa de terem sido pegas era da outra loira. Porém, não tivera coragem de jogá-la assim para a morte. A outra sonserina havia feito o medalhão brilhar quando o tocara, Pansy não sabia exatamente como, mas aquilo havia trazido a atenção para ela. Ela dançara com ele. Ela recebera o medalhão das mãos dele.
Eventualmente, durante a festa, Astoria terminou contando para ela como conseguira o medalhão. Pansy duvidava que a outra loira conhecesse quem era o belo homem com quem dançara, mas ela sabia muito bem quem ele era. E com quem ele estava relacionado. Já ouvira diversas histórias sobre este homem e de como ele chegara tão de repente quase um ano antes e tomara o lugar que seria o sonho da maioria dos bruxos que foram designados para a sonserina. Um laço que muitos acreditavam não ser apenas pelo poder que claramente emanava das duas partes, mas sim um laço familiar.
Se Marvon Gaunt era definitivamente uma ameaça, porque as ajudou?
A garota estava tão imersa em pensamentos que terminou chegando ao seu destino rápido demais. Ficou tentada a dar mais uma volta no castelo, mas apagou essa ideia quando lembrou-se do risco de vida que poderia estar, e provavelmente estava, correndo.
De forma hesitante, passou por todo o processo para adentrar na sala do diretor e o encontrou esperando por ela sentado em sua cadeira cuidadosamente posicionada atrás de uma bonita mesa de madeira. Ele estava com seus trajes usuais, e parecia basicamente o mesmo, porém muito mais envelhecido. Parecia que vários anos de vida foram somados no espaço de dias.
—Bom dia, senhorita Parkinson. –Cumprimentou-a em um tom de voz sério e alto o suficiente para ela escutá-lo da porta.
Pansy se aproximou em passos normais, tentando controlar o nervosismo claro que estava sentindo. Sentou-se na cadeira que havia sido colocada na frente dele e retornou o cumprimento o mais educadamente que podia.
—Sem a intenção de parecer muito pessimista, mas estou realmente feliz de ver que está viva. Assumo que Astoria também esteja. –Com essas palavras do diretor, Pansy soltou um risinho amargo.
—Da ultima vez que eu a vi, Astoria estava muito viva e muito bêbada. –Comentou séria, e viu o diretor engolir em seco. Era mentira, sim, mas ela não se importava. Qualquer coisa para tirar a mente dela do possível derramamento de sangue do seu lindo corpinho.
—Bom... –Albus falou e pigarreou antes de mudar de assunto. –Conseguiram o que foram buscar?
—O que fomos roubar, voc... O senhor quis dizer. –Contrapôs, soltando outro risinho. Diria que tinha acordado do lado errado da cama, mas não havia acordado naquela manhã. –Sim, conseguimos. Estou disposta a contar o que aconteceu se for necessário. –Pansy falou, se sentindo obrigada a se colocar a disposição para atualiza-lo sobre a situação.
—Não será necessário. –O diretor respondeu, fazendo a loira estreitar os olhos. Talvez ela estivesse começando a entender o porquê de Hermione se sentir tão desconfortável perto de Dumbledore recentemente.
Pansy deu de ombros, decidindo que era melhor ignorar aquilo ao invés de mergulhar naquele mundo de pensamentos que viriam com um simples questionamento sobre a quantidade de informação que Dumbledore possuía. Se Hermione não conseguira desvendar aquilo, quem era ela para fazê-lo?
Colocando a mão em seu bolso, tateou brevemente em busca do medalhão. Quando o achou, tirou-o cuidadosamente de dentro do tecido e o assentou na frente do velho senhor que a olhava atentamente.
—Bem, aqui está. –Adicionou tais palavras a sua ação, e esperou ansiosamente pela reação.
Dumbledore examinou o medalhão sem tocá-lo, e, após alguns minutos, assentiu em silêncio. Pegou o objeto nas mãos ossudas e deu um sorriso fraco para a aluna.
—Bom trabalho, senhorita Parkinson. –Afirmou docemente arrancando um sorriso sincero da menina. –Você deve ir agora, o mais rápido possível, e para um lugar seguro. –Disse. O medo em sua voz era palpável, e nesse momento ela realmente começou a acreditar que morreria. -Tome muito cuidado. -Acrescentou.
Pansy engoliu em seco e assentiu. Ajeitou o casaco, pôs-se de pé e se direcionou para a saída, porém, ela a parou antes que ela desse mais um passo.
—Posso pedir um favor à senhorita? –A voz dele estava agora em um tom completamente diferente. Ela, mais uma vez, se limitou a só assentir. –Não importa o que aconteça, não volte nem as deixe voltar aqui antes da hora certa. E transmita meu adeus e os meus mais sinceros sentimentos.
Sem saber o que dizer, Pansy só emitiu alguns barulhos e murmurou um "okay", já andando para a porta, querendo sair dali e do castelo o mais rápido possível.
A loira correu pelos corredores, não se importando com as poucas pessoas presentes neles. Ela precisava sair dali. Se sentir em segurança.
Ao chegar no seu quarto, lembrou-se de verificar se Daphne já havia voltado. Para sua sorte, não havia nem sinal da sua antiga melhor amiga. Suspirando de alívio, começou a jogar todas as suas coisas dentro da bolsa encantada que Hermione emprestara.
Não soube ao certo quanto tempo demorou em guardar tudo o que tinha, mas fez isso na maior velocidade possível e quando acabou a adrenalina queimava em suas veias.
Após uma breve inspeção no quarto, decidiu abrir o armário de Daphne e pegar algumas roupas que ela sabia serem suas favoritas, assim como um par de sapatos, jogando junto com suas coisas. Talvez ela e Astoria pudessem queimar as peças depois, ou talvez não. Apenas saber de fato que a Greengrass mais velha iria enlouquecer com aquilo já lhe era suficiente.
—Não deveria ter mexido comigo, sua vadia. –Proferiu com raiva enquanto saía do quarto.
A alegria excruciante de ter se vingado de alguma forma acabou no momento em que ela bateu os olhos nas pessoas que estavam no salão comunal da Sonserina. Tentou, de alguma forma, entrar na personagem que interpretou durante anos. A fria, irônica e segura de si Pansy Parkinson, não aquela adolescente tremendo de medo que roubara seu lugar.
Quando os olhos frios de Draco bateram nela, ela soube que aqueles seriam seus últimos momentos de vida. Não por eles estarem carregados de ameaça, até por que, pela primeira vez, eles não estavam. Porém, o loiro não estava sozinho. Severus Snape, Igor Karkaroff e Viktor Krum também estavam lá. Todos com os olhos nela.
Pansy fez o melhor possível para descer a escada de forma altiva, carregando a bolsa como se esta fosse apenas um complemento a sua vestimenta, não como se ela estivesse preparada para deixar Hogwarts para sempre.
—Senhorita Parkinson. –Cumprimentou Snape no seu tom usual. Pansy pode ver os olhos de Draco se estreitando para ela, ao mesmo tempo em que ela quis estreitar os olhos para Viktor. Não era ele um amigo, ou até mais que isso, de Astoria? O que ele estaria fazendo ali?
—Professor Snape. –Falou de volta, e cumprimentou os outros com um simples aceno de cabeça. –Aproveitaram o baile ontem?
—Sim, foi de fato uma comemoração interessante. –Krum respondeu. Depois, num tom de confusão que Pansy achou extremamente falsa, ele continuou. –Não lembro ver você durante grande parte da festa. Algum motivo para seu sumiço? –Ele sorriu. Merda.
É, tinha acabado para ela.
Pansy ainda estava raciocinando para encontrar uma resposta que não sucedesse no corpo dela morto no tapete quando Draco falou por ela, num tom monótono que normalmente a tirava do sério.
É, tinha realmente acabado para ela.
—Pansy subiu comigo num ponto da festa. Não preciso ser óbvio sobre o que aconteceu, mas eu a deixei... Desarrumada demais para voltar para o salão, então voltei sozinho. Depois que o baile chegou a um fim, ficamos juntos a noite toda. -Disse. –Não há razão para desconfiarmos dela, visto que já sabemos quem foi. -Ele não estava à vontade culpando Astoria, mesmo após o que ela fez, porém era necessário.
Normalmente, ter sua intimidade exposta dessa maneira a deixaria demasiadamente chateada, especialmente na frente de dois professores. Porém, aquela mentira viera numa boa hora. Uma ótima hora, na verdade, visto que Pansy estava certa e Bellatrix já havia notado a troca dos colares.
Sorrindo lasciva, aproximou-se de Draco de depositou um caloroso, porém simples beijo em sua boca que ela lembrava muito bem ser maravilhosa. O loiro seguiu com a atuação, escondendo a surpresa e parecendo contente pelo ato. A garota arrastou os lábios em direção a sua orelha dele, passando por todo o maxilar marcado.
—Obrigada. –Murmurou o mais baixo possível, adrenalina tomando mais uma vez seu corpo, o que a fez forçar um risinho provocador. Draco imitou o caminho de seus lábios, também os aproximando da orelha dela, porém do lado oposto, escondendo o que iria falar dos olhares desconfortáveis.
—Proteja. –Sua voz era tão baixo que Pansy teve dificuldade de entender. –Asty. –Completou num suspiro.
Pansy revirou os olhos, rindo novamente para manter a atuação, e depositou outro beijo simples em sua boca, aproveitando mais a sensação dessa vez.
Talvez, só talvez, ela fosse sobreviver.
Severus Snape pigarreou mostrado sua irritação e logo os dois se afastaram.
—Não irei tolerar que isso se repita novamente. –Seu tom de voz mostrava claramente que ele não estava brincando. –Senhorita Parkinson, peço que se retire.
—Desculpe. –Ela murmurou envergonhada, porém por dentro ela ria de alegria como uma louca. Pansy se perguntou se era assim que Luna se sentia o tempo todo.
Antes que pudesse se afastar do grupo completamente, seu olhar ficou preso no de Igor Karkaroff. Sua coluna ficou gelada com um arrepio repentino e ela afastou os olhos, saindo dali o mais rápido possível tentando não levantar suspeitas.
Quando chegou à sala que continha a passagem secreta, ela sabia que sua intuição estava certa, mas, seguindo as ordens de Dumbledore, abriu a passagem e saiu de Hogwarts para nunca mais voltar.
Alguém morreria naquele dia, mas não seria ela.
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Os pensamentos que Pansy Parkinson teve durante a manhã podem ter sido influenciados pelo medo que sentia, e sua percepção final de que alguém de fato morreria naquele dia pode parecer apenas fruto da sua imaginação somada à adrenalina e ao próprio medo, mas infelizmente, ela estava certa.
Em algum ponto durante a tarde, Albus Dumbledore destruiu a horcrux que havia sido lhe entregue mais cedo. O velho homem, agora mais cansado do que nunca, encarava os restos do medalhão destruído enquanto buscava forças para se sentar direito. Ficou ali por minutos que logo se transformaram em horas. Esperando calmamente o seu destino, o qual, é claro, ele já conhecia.
Preparara-se para aquele momento durante toda a sua vida. Preparara outras pessoas também. Manipulou-as como argila. Aguentou peso de segredos que agora destruíam suas costas. E nesse momento não havia mais nada, ele só tinha que esperar.
Quando a porta de sua sala abriu com um estrondo, ele não se sobressaltou, não tinha forças para reagir. Esperou e esperou e esperou o que pareceu uma eternidade para o homem que entrara se aproximar de sua mesa.
—Já está na hora? –Sua voz saiu baixa e falha quando falou.
—Sim. –Karkaroff respondeu.
No cair da noite, Dumbledore encontrava-se morto no chão de sua sala.
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