As Fitas da Retaliação
5 Capítulo 5 - Rota Alternativa
Notas iniciais
"Whenever the end is
Do you think you can see it? Well, until you get there
Go on, go ahead and scream it
Just say it."
— Say (All I Need), One Republic
Jenny veio falar com Fawn na hora do intervalo.
— Que bom que você conseguiu vir! — Jenny sorriu, abraçando-a. — Está se sentindo melhor?
Fawn assentiu, mesmo sabendo que aquela não era a pergunta que Jenny ansiava em fazer.
—... Como chegou aqui?
Pensou em mentir, mas Jenny descobriria, de qualquer modo.
— Blake me deu uma carona. Acabou que ele mora perto da minha casa e me encontrou na rua.
Jenny abriu a boca para falar, mas depois percebeu que não fazia sentido acusar Fawn Roth Jensen de nada.
—... Afinal, ainda vai conhecer a amiga do seu pai amanhã?
Jenny balançou a cabeça.
— Adiaram para Domingo. Hoje é...sexta? Bem, isso me dá mais dois dias para morrer.
— Vai ficar tudo bem, Jenny.
— Como tem certeza?
Fawn abraçou a amiga.
— Não tenho.
Às vezes Jenny odiava a sinceridade de Fawn.
* * *
— Cara, você está bem? — Cody ergueu uma sobrancelha para Blake, que sentava em sua frente na aula de Química.
Blake assentiu, mas sua mente estava longe dali.
— Tem a ver com a Stanford? — perguntou Cody.
— Hã... Indiretamente, eu diria. É que tem essa... garota.
Cody suspirou.
— Sempre tem.
— E ela é... Sei lá. Eu fico pensando nela, mas não deveria. Temos começado a nos falar mais, e... Sei lá.
— Quem é?
— Hã... Melhor não dizer. Você não vai gostar da ideia.
— Mas você gosta da Cassidy?
— Gosto, mas essa coisa de namoro à distância está me dando nos nervos. Especialmente porque aquela merda de cidadezinha para onde ela se mudou só pega internet em determinadas partes do dia, e eu me mato para estar online nessas horas, só que a Cass ou esquece ou responde sem o menor entusiasmo e vira interrogatório. Enfim. São só devaneios. Eu amo a Cassidy.
Cody assentiu. A professora ameaçou mandá-los para a coordenação, então trataram de parar de conversar.
* * *
— Como você tem vindo para o colégio? Quero dizer, sua casa é longe — perguntou Blake a Fawn quando eles e Jenny estavam conversando na hora da saída.
— Hmmm... Como sabe onde é minha casa?
— Você costumava ir no ônibus escolar, eu lembro — ele desviou o olhar. — Faz algum tempo. Você nunca falava com ninguém.
— Eu odiava ir naquele ônibus — confessou ela. Revirou suas memórias, mas não conseguia lembrar-se de Blake no ônibus.
— É, você ficava sentada no fundo com seus fones de ouvido, e eu pensava "Cara, essa menina deve ser muito convencida".
— E agora?
Ele abriu um sorriso torto.
— Agora eu tenho certeza.
Ela empurrou-o de leve.
* * *
Fawn estava se sentindo tão mal que desejou estar no inferno. Sua mãe chamara uma psiquiatra para vir em casa, e a mulher ficava dizendo que ela era depressiva apenas porque disse que o borrão que a mulher lhe mostrou parecia uma borboleta. Fawn não sabia que borboletas podiam fazer tão mal.
Mas quando a mulher sugeriu uma clínica para deslocados ou sei lá o que, a paciência de Fawn se foi.
— Vocês não me conhecem! Nenhuma das duas! Não podem fazer isso! O único problema que eu tenho é o fato de ter nascido nessa família!
Quando Fawn bateu a porta do próprio quarto, a mãe gritou:
— Não vai sair daí enquanto não fizer o teste de drogas que está em cima da sua cama!
A vida dela era uma piada.
Fawn ouviu a chave sendo virada na maçaneta pelo lado de fora. Ela estava presa. Deitou-se em sua cama e comprimiu a vontade de chorar de novo. Mandou uma mensagem para Mark.
Sem resposta.
Cassidy.
Jenny.
Danielle.
Peter.
Até mesmo Liam.
Sem resposta.
Depois de ligar para basicamente toda a sua lista de contatos, engoliu o orgulho e ligou para sua última opção:
— Alô?
— Blake?! — chamou ela, mas soou como um ganido.
— Hmm... Quem é?
— É a — ela fungou. — Fawn.
— Fawn?! Você não soa bem.
— Hã... Eu tenho duas perguntinhas.
— Sim?
— Estava falando sério quando disse que sabe onde é minha casa?
— Estava.
— E estava falando sério quando disse que eu poderia desabafar com você?
— Estava. — E... Essa segunda promessa tem horário de funcionamento?
Ele riu. Eram três perguntas, mas não ligou.
— Estou indo aí.
— Mais uma coisa...
— Já estou me arrependendo.
— Ai meu Deus, eu sinto m...
Ele riu novamente.
— Estou brincando, sua boba. O que foi?
— Érrr... Vou precisar de uma ajudinha para dar o fora daqui.
* * *
Blake desligou o telefone e desceu as escadas, pegando a chave do carro.
— Se for para voltar bêbado, nem volte — avisou o sr. Diggory, sério.
— Certo, isso não vai acontecer — prometeu Blake e saiu de casa.
Deviam ser perto de nove da noite quando ele chegou à casa de Fawn. Parou o carro algumas casas atrás. Pulou a pequena cerca e foi até a janela dela, que se abriu rapidamente.
— Blake! — disse ela, e depois tampou a boca com as mãos.
— Jensen, custa usar a porta?
— Estou trancada — ela bufou. Blake riu. — É sério, idiota.
A risada dele sumiu.
— Fawn, o que...?
— Me segure se eu cair.
Ela apoiou-se na janela, depois no pequeno toldo e pulou. Blake a segurou. Caso contrário, teria caído de cara. Ele soltou-a logo depois.
— Obrigada — disse ela e arrastou-o até o carro dele.
Ele fitou-a por um minuto, sem saber o que fazer.
— Podemos dar o fora daqui? — pediu ela.
— Para onde?
— Sei lá. Só dirija.
— Vai me contar tudo no caminho?
Ela assentiu. Blake tirou o próprio cabelo escuro do rosto, suspirando, e deu partida.
* * *
— Minha mãe está realmente considerando essa tal clínica, sabe — disse Fawn, com os olhos na avenida. — Ela até preencheu a ficha de inscrição. Só falta assinar.
Blake apenas assentiu.
— Por favor, diga alguma coisa — ela pediu. — Você está muito quieto.
— Meu pai acha que tenho problemas com bebida — ele disparou, não conseguindo mais esconder aquilo.
— E você... tem?
— Sei lá. Talvez. Acho que comecei a ter por causa dele. De tanto ele dizer, comecei a ficar bêbado em festas para esquecer que posso acordar na reabilitação qualquer dia.
— Cassidy nunca me contou isso.
— Ela não sabe.
— Parece ser o tipo de coisa que ela deveria saber.
— Claro, todo mundo quer descobrir que seu namorado é um bêbado.
— Ela não julgaria você. Aposto que te ajudaria e seria um grande apoio.
— Entendi, você é educada demais para dizer que não quer ter esse peso nas costas.
— Não é isso — ela corrigiu rapidamente. — É que... deveria ser ela. Sabe, sua conselheira.
— Se eu posso aconselhar você, por que você não pode me aconselhar?
Fawn pareceu considerar a ideia por um momento.
— Você está certo, eu não deveria ter ligado.
— Jensen. Relaxa. Está com fome?
— Não.
A barriga dela roncou em protesto. Blake riu.
— Ceeerto... — e desviou o caminho.
— Aonde vamos?
— No centro do consumismo americano. Espero que não esteja de regime.
Ele parou o carro no estacionamento do Mc Donald's.
— Faz tempo que não como aqui — comentou ela.
— Está brincando.
— Não.
— Vamos tirar esse atraso.
Blake empurrou-a para dentro da lanchonete. A fila estava meio grande — Mc sem fila não é Mc —, o que deu-lhes tempo para pensar no pedido.
— Um Big Mac, batata média e Coca grande — pediu Blake, e depois virou-se para Fawn. — O que vai querer?
— Fecha seu pedido, depois eu peço.
— Eu pago, Jensen.
— Nem pensar, eu tenho dinheiro aqui.
— Foda-se, eu pago.
— Mas...
— Eu sou um cavalheiro, beleza? Deixe-me torrar minha mesada em lanches noturnos para garotas que mal conheço.
— Blake, eu já disse que...
— Cale a boca e deixe o menino bonito pagar — a atendente bufou, impaciente. — Já viram o tamanho da fila? Além do mais, aproveite enquanto eles pagam, menina. Porque depois que você ficar velha e feia, quero ver quem vai pagar o seu sanduíche.
— Hã... Obrigada?
— Agradeça-me fazendo o seu pedido.
— Uma salada. Batata média. Coca pequena. E... Hm... Uma maçã.
— Jensen, você não precisa jejuar só porque eu vou pagar.
— É que eu... sou vegetariana.
A atendente riu.
— Era só o que me faltava — Blake suspirou. — Escuta, moça, dá para fazer o Mc Chicken... Sem o frango?
— Está tirando uma com a minha cara, moleque?
— Hã... Não, senhora.
— É fácil — Fawn sorriu. — Pãão... Queeeijo... Salaaada... Pão. Entendeu?
— E esqueça a maçã — disse Blake. — As maçãs daqui são caras, pequenas e ruins. Descobri isso no Mc Lanche Feliz do meu irmão. Ele ficou com o brinquedo e eu ainda tive que engolir aquela merda de fruta.
Ele entregou o dinheiro e a atendente imprimiu o comprovante de pagamento.
— Sumam da minha frente, pelo amor de Deus. E vocês vão pagar pelo frango mesmo assim!
Blake e Fawn se entreolharam e riram. Então foram para a fila de retirada.
* * *
— Moça, eu pedi sem frango — Fawn estendeu-lhe seu Mc Chicken.
A atendente bufou.
— Inferno — e então abriu o sanduíche, jogou o hambúrguer para trás (caiu em algum lugar da cozinha) e fechou de novo.
— Pronto, fresca.
— Você... lavou suas mãos?
— Moleque, tire a sua namorada daqui antes que eu jogue carne nela.
— Ela não é minha namorada.
— Sorte a sua.
Blake revirou os olhos e empurrou Fawn até a mesa. Eles começaram a comer.
— E então... Como está seu pão com queijo e salada que custou mais do que um quilo de pão, queijo e salada do Wal Mart?
— Bom — ela sorriu. Tinha um pequeno alface no canto do lábio. Ela mantinha os olhos fixos no hambúrguer dele.
— Por favor, não comece um discurso do GreenPeace.
— Nem passou pela minha cabeça — ela mentiu, rindo.
Quando eles estavam voltando para o carro, Fawn comentou:
— Eu odeio sair à noite.
— Por quê?
— Porque nunca quero voltar para casa. Dá vontade de viver uma aventura louca ou sei lá. — ela abriu a porta do carro.
— Bem, vamos logo para casa.
— Espere. Você vai estar muito encrencada quando chegar, não vai?
— Bem... Sim.
— Então vamos fazer essa noite valer a pena, colega — ele entrou no carro.
— Aonde vamos?
Ele deu partida.
— Sei lá. Tem algum lugar que queira ir?
— Bem... Tem um... Mas ele fecha à noite.
Blake sorriu, acelerando o carro.
— Melhor ainda.
Ligou o rádio. Um rock dos anos 70 começou a tocar, e ele se surpreendeu quando Fawn começou a cantar junto.
— Carry on my wayward son... There'll be peace when you are done... Lay your weary head to rest...
Eles se entreolharam por um momento.
— DON'T YOU CRY NO MORE! — berraram juntos.
Blake aumentou o volume e eles continuaram cantando. Por fim, chegaram ao Miller Park.
— Dizem que tem um grupo de caras que invade o parque toda sexta-feira à noite para assombrar casais que vem trepar aqui depois que fecha — ela abriu um sorriso maníaco.
— Hã... E o que estamos fazendo aqui?
— Primeiro, eu quero saber se é verdade. Segundo, quero encontrar esses caras.
— Vamos assustá-los ou ajudá-los a assustar?
— Não sei bem.
— Fawn, não sei se é uma boa id...
— Ah, qual é, Diggory! Vai me dizer que está com medo?
— Claro que não.
— Cassidy sempre disse que você era medroso.
Blake ergueu uma sobrancelha.
— Disse, é?
— Um ratinho assustado, ela descrevia — Fawn abriu um sorriso desafiador. — Eu vou, com ou sem você.
— Então vai.
— Vai mesmo me deixar sozinha na floresta... no escuro?
Blake fitou aqueles olhos grandes pidões por um minuto.
— Maldito seja meu coração mole — ele bufou e a arrastou pelo pulso. Rodearam um pouco as laterais do parque, até encontrar uma parte da grade que era mais baixa. E então pularam.
— Segure minha mão — pediu ela. — Eles têm que acreditar que somos um casal.
Blake riu.
— Certamente não é assim que eu imaginava essa noite.
Eles caminharam por alguns minutos. Nada.
— Acho que eles estão esperando que façamos algo a mais — sussurrou Blake.
— Certo, isso não vai acontecer. Ideias?
— Talvez eles... Sabe... Não existam.
Ela bufou.
— Sua fé é admirável.
— Hã... Fawn...
— Sim?
— Lembra daquela Coca enorme que eu tomei? Ela quer ir embora.
— Agora?!
— É, agora, Jensen.
— Bem... Tem um monte de mato para lá — ela apontou. — Um lugar bem longe de mim, pelo amor de Deus.
Blake riu e correu para a floresta. Estava calmamente... Hum... Fazendo o que tinha que fazer quando olhou para o lado e viu algo em cima de uma árvore. Não, não algo. Alguém. Dois caras vestidos totalmente de preto.
O que ele fez a seguir foi a coisa mais máscula em que pôde pensar. Ele gritou.
Fechou o zíper da calça e correu até Fawn.
— Fawn, eu achei! Achei!
A garota nem fez perguntas, só saiu correndo atrás dele. Claro que, quando eles chegaram no ponto onde Blake achava que vira pessoas, não tinha mais ninguém. Eles bufaram e voltaram para a trilha.
— Tem certeza de que viu uma pessoa?
Foi quando um barulho veio de um arbusto próximo.
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