As Fitas da Retaliação
15 Capítulo 15 - Tóxico
Notas iniciais
"My heart is paralyzed
My head was oversized
I'll take the high road like I should
You said it's meant to be
That 'it's not you, it's me'
You're leaving now for my own good"
— 50 Ways To Say Goodbye, Train
As pílulas desceram como espinhos pela garganta de Fawn. Ela não sabia se era psicológico, mas isso não a preocupava. Talvez estivesse acostumada a travar batalhas com os próprios sentimentos, ou talvez estivesse apenas drogada.
— Faaawn, vamos nos atrasar para o lanche! — Ela ouviu Courtney gritar de dentro do quarto.
Fawn revirou os olhos.
— Deus, Courtney, vá logo comer. Não é como se fôssemos grudadas ou algo do tipo, que inferno.
Quando abriu a porta do banheiro, encontrou os olhos castanhos pidões da colega de quarto.
— Eu fiz alguma coisa? Você parece chateada. Não quero que fique chateada.
— Estou fantástica — resmungou Fawn, batendo a porta e se arrastando para fora do quarto. — Vamos logo, comilona.
Elas sentaram-se numa mesa do refeitório com um garoto cujo nome Fawn não sabia.
— Você está bem? — indagou ele de repente.
Fawn percebeu que estava tamborilando incessantemente na mesa por dez minutos de forma involuntária. Parou com o movimento, entrelaçando uma mão na outra, mas depois de dois minutos começou a mexer os pés. Suspirou.
— Estou bem.
— Não vai comer?
— Não estou com fome. Vou pegar um copo d'água — quando levantou-se, cambaleou um pouco. Sua visão saiu de foco por um momento. — Estou bem.
* * *
— Digo, acho que você gosta mais de Humanas, então... — discursou Jenny, perdida nas próprias palavras. — Hmmmm... Em Nova York tem a...
— Podemos continuar depois — sugeriu Blake. — Você parece dispersa.
— Não, não, estou bem. Então, temos algumas universidades em Nova York, como a Columbia e a NYU, e... — ela suspirou. — É, talvez eu precise de uma pausa. — ela percebeu que os olhos verdes desconcertantes dele estavam cravados nela. — O que foi?
— Me diga você.
Ela deu de ombros.
— Nada importante. Só alguns problemas... familiares.
— Não parece o tipo de melancolia familiar, se quer minha opinião. Parece o tipo que envolve um garoto.
— É complicado — ela murmurou. — E quanto à sua melancolia, Blake Diggory?
Ele se mexeu na cadeira, surpreso.
— Não estou melancólico.
— Qual é. Parece não dormir há dias, e quer mesmo que eu acredite que de repente está super interessado na faculdade?
Apesar das olheiras, da fala cansada e do cabelo que parecia ter sido arrumado por um guaxinim raivoso, ele continuava absurdamente atraente. Mas Jenny não disse isso em voz alta.
— Estou interessado. É o meu futuro, afinal. Tenho que cuidar bem dele, porque as coisas geralmente explodem na sua cara quando você não lida direito com elas.
— Nem me fale — ela suspirou.
— Bem... Eu vou beber por isso — ele se levantou e cravou os olhos verdes nela. — Quer vir?
Jenny hesitou, mas temeu que fosse chegar em casa e ter de lidar com o drama todo com Luke, então assentiu
* * *
Blake não deixou que o álcool ressaltasse o quanto os olhos de Jenny eram interessantes, porque ele aprendera do pior jeito que dormir com garotas bonitas que eram melhores amigas de sua ex-namorada nunca dava certo.
Mas, bem, os olhos dela eram muito interessantes. Ele balançou a cabeça. Não, merda. De novo, não. Mantenha seu maldito zíper fechado.
Então ele fez isso. Ele levou Jenny até em casa e fitou-a por um longo minuto antes de dizer:
— Tchau.
— Tchau, Blake — ela abriu um leve sorriso e entrou em casa.
* * *
Considerando que o dia de visitas começara há três horas, Fawn já se convencera de que a mãe não compareceria. Não tomava as pílulas há dois dias, pois queria estar se sentindo bem caso ela de fato viesse. A sensação foi totalmente surpreendente. Ela se esquecera de como aquelas pílulas faziam mal a ela. Por que as estava tomando, mesmo? Jamais sairia de lá sob o efeito delas.
Até que uma figura conhecida com um buquê de flores entrou no quarto.
— Blake? — os olhos dela brilharam de surpresa e animação.
O garoto sorriu, afastando o cabelo castanho do rosto.
— Oi, Jensen. Aparentemente, dei sorte. Havia um espaço vago no seu dia de visitas.
Ela apertou os lábios e o abraçou.
— Não acredito que trouxe flores!
— Peônias — ele estendeu o buquê. — Suas favoritas. Bem, foi o que Danielle disse.
Ela riu e cheirou as flores, sentindo o aroma doce invadir suas narinas.
— Vamos, me conte tudo. O que eu perdi?
Blake sentou-se ao lado dela na cama.
— Bem... Danielle está um pouco tensa, considerando... Você sabe. O rumor é que você está em um spa sei lá onde. Estive vendo umas faculdades, Jenny tem me ajudado.
— Isso é ótimo, Blake!
— Sobre isso... Hmmm... Fawn...
— Sim?
— Como nós estamos?
— Nós?
— Eu e você.
Ela franziu o cenho.
— Por que a pergunta?
Ele apertou os lábios.
— É que eu tenho sentido um pouco de... Sei lá. Só... tenho passado muito tempo com a Jenny. Mas, você sabe, não quero repetir história. Não aconteceu nada entre ela e eu.
Fawn deu de ombros.
— Sustento o que eu disse quando nos despedimos. Não espere por mim, Blake. Se gosta da Jenny, tem minha benção. Vá em frente.
— Mas... Nós...
— Não existe nós, Blake.
— Você disse que me amava, Fawn.
Ela hesitou.
— Naquele dia... Eu fui falar com você porque queria acabar com tudo. Gosto de você, Blake, mas Cassidy... — ela lançou-lhe um olhar compadecido. — Preciso mais de uma amiga do que de um namorado, Diggory.
Ele preferiria ter levado um soco no estômago do que ouvir aquilo, principalmente porque sabia que ela estava certa. Mas ela não via? Fawn ganharia Cassidy de volta, mas Blake... Blake não ganharia nada. Ele parecia estar sempre correndo na lanterna, pondo sua vida em função das garotas bonitas que conhecia.
Não mais.
O silêncio reinou por um minuto antes de Blake quebrá-lo:
— Você parece bem. Esse lugar lhe está sendo bom?
— Torna mais simples clarear a cabeça — admitiu ela.
— Vou ligar para Cassidy. Quem sabe ela consegue vir hoje?
Fawn fitou-o por um momento, tentando identificar se ele estava realmente sendo prestativo ou se só estava magoado.
— Tem falado com ela?
— Não desde que terminamos.
— Não precisa fazer isso.
— Bem, você não tem acesso a telefone.
— Diggory, sério... Não quero te machucar.
— Não me machucou. Vou ficar bem. Vou clarear a cabeça também, procurar umas faculdades.
Ela sorriu.
— Isso parece bom. E Blake...
— Sim?
— As fitas?
— Não recebi mais nada desde que você veio para cá.
Eles se despediram, um pouco desajeitados, e Blake beijou a bochecha de Fawn. Foi estranho, ele não tinha feito isso muitas vezes, já que eles transaram mais ou menos uma semana depois que começaram a se falar.
De repente ele se lembrou de que havia tirado a virgindade dela. Merda foi seu primeiro pensamento. Por um momento, ele se permitiu admitir para si mesmo que o relacionamento deles era tóxico: era do tipo que simplesmente tirava coisas. Melhores amigos, virgindades reputações, sanidades...
Quando Blake saiu de Salutem, sacou o telefone e digitou o número 3. Ainda não tirara o número dela da discagem rápida. Cassidy atendeu depois de quatro toques.
Foi uma conversa rápida, do tipo que você tem com o colega de classe com quem foi obrigado a fazer um trabalho escolar na hora de decidir hora e local. Blake sentiu como se o mundo estivesse mudando muito rápido em frente aos seus olhos e ele não conseguisse acompanhar. Depois de dez minutos, Cassidy concordou em ir a Salutem visitar Fawn. Blake deu seu trabalho como concluído.
* * *
Cassidy estava falando há pelo menos quinze minutos e Fawn ainda não conseguia olhar para ela. Ela tinha todas essas ideias de segundas chances, e renovação, e deixar o passado para trás. E ela estava certa, era isso que Fawn queria, mas será que era possível? Será que Cassidy podia realmente perdoá-la por uma traição tão baixa e horrível? Será que Fawn podia perdoar a si mesma? Ou a visão de Cassidy seria sempre um lembrete terrível que a fazia desviar o olhar?
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