As Filhas de Aigam
2 A Lua e o Sol
NOVA YORK, ATUALMENTE
EU BEBO MEU CAPUCHINO SEGURANDO a xícara com as duas mãos. O bolinho de amora permanece intocado sobre a mesa. Eu tento me distrair lendo o cardápio uma, duas, três vezes. Pego o celular na bolsa e encaro o visor: dia 10 de abril, sábado, 04:57 da tarde. Havia deixado claro que nos encontraríamos às quatro e meia. Como sempre, está atrasada.
Olho para os lados para me certificar que ela ainda não está à vista. A mesa em que estou é a única ocupada do lado de fora do café, e observo as pessoas andarem apressadas do outro lado da rua. Esse é um dos muitos motivos de eu não gostar nem um pouco de Nova York: as pessoas sempre estão com pressa, nunca têm tempo para nada, nem mesmo para dizer um simples “olá” ou “como vai?” para alguém que cruza seu caminho.
— Ei! — a menina atravessa a rua e se aproxima da minha mesa, sentando-se a minha frente. Está sorrindo de forma radiante, como de costume. Eu também sorrio.
— Oi, Emma.
— Trouxe um presente pra você — ela tira da mochila uma caixinha pequena, coberta por um embrulho azul escuro, quase preto. — Não é grande coisa, eu sei, mas é de coração. E você também não me dá muito dinheiro pra eu poder escolher algo legal, então a culpa é na verdade sua se não gostar... — ela abre ainda mais o sorriso. — Feliz aniversário, Lu.
A encaro com os olhos semicerrados, sorrindo, e pego a caixa. Com todas as minhas preocupações, nem me importei com o fato de hoje ser meu aniversário de vinte e um anos.
— Abra logo, Luna!
A caixa é pesada e redonda, um pouco menor que a palma da minha mão. Desembrulho com cuidado, para não rasgar o papel, e abro devagar. Dentro há um bracelete dourado rodeado pelo que parece ser minúsculas estrelas, que dançam quando ponho no meu braço direito. É maravilhosamente lindo.
— Obrigada! Eu adorei.
— Fico feliz que gostou — Emma dá mais um rápido sorriso antes de ficar séria. Sempre que faz isso, uma ruga se torna visível em sua testa. — Desculpe o atraso.
— O que aconteceu? Algum problema?
— Não, só me distrai um pouco demais na biblioteca.
— Como sempre.
— Não se pode negar os livros — diz cantarolando, enquanto pega meu bolinho de amora. — E então? Foi no joalheiro?
Respiro fundo.
— Fui. E nada. Isso já está virando maluquice!
— Eu concordo. Como todas as joalherias de Nova York não sabem a origem disso? — questiona ela de boca cheia, exibindo o seu colar por cima do suéter azul bebê. — Quer dizer, eles sempre falam que nunca viram material ou designer parecido. É doideira!
— Pois é... Mas a gente não pode desistir. São as únicas coisas que temos dos nossos pais.
— Eu sei, eu sei — Emma revira os olhos, o que sempre me faz fazer o mesmo. — Mas não compreendo por que quer encontrá-los. Eles nos abandonaram, certo? Em uma droga de estrada em Cleveland! Eu sei que são meus pais também, mas não tenho a mínima vontade de saber quem são.
— Mas, Emma... Você não entende. Eu tinha cinco anos. Tenho lembranças, mesmo que elas sejam confusas e duvidosas. E eu sinto que eles nos amavam, e que nós os amávamos. Eu os amava...
— Certo. Não toco mais no assunto — ela encara os sapatos. — Só queria saber o que você pretende encontrar. Sabe... Se por acaso os achasse.
Eu ponho a mão no peito, a procura do meu colar. O colar exatamente idêntico ao da minha irmã. A brilhante, vívida e enigmática metade de um sol.
— Respostas — digo, deixando oito dólares na mesa e caminhando de volta para casa junto a Emma, sob o enorme e azul céu nova-iorquino.
A porta range quando a abro. Emma, como de costume, entra primeiro, jogando a mochila no chão da cozinha e se esparramando na cama velha que compartilhamos, fazendo as molas balançarem numa dança maluca. O apartamento todo se resume a dois cômodos, se contarmos com o banheiro, e todas as nossas coisas — em maioria livros e roupas — estão organizadas, na medida do possível, em uma cômoda pequena e caindo aos pedaços no canto da área limitada que chamamos de quarto.
— Então, vamos pedir uma pizza pra comemorar?
Tento abrir a janela mais próxima, mas ela insiste em permanecer fechada. Solto um suspiro longo e frustrante por si só. Está emperrada. Desisto dela fechando de uma vez a cortina, e jogo-me na cama ao lado da minha irmã, encarando o teto sujo e deprimente enquanto subimos e descemos com o movimento do colchão.
— Sinto muito, Emma, mas não podemos nos dar ao luxo. Ainda não recebi o salário dessa semana e só tenho umas vinte pratas na carteira. E você sabe que o aluguel será cobrado daqui a alguns dias.
Longa pausa até ela sussurrar, como se houvesse mais alguém lá que pudesse ouvi-la:
— Eu sei, Luna. Só achei que fosse uma boa ideia. Sinto muito.
— Sinto muito — repito em um sussurro ainda mais baixo.
Passo a encarar por uma hora e meia a sombra da janela no carpete, à medida que o sol se vai no mundo lá fora. Lá tudo é movimento. Aqui tudo é parado. Lá tudo acontece. Aqui é quieto e monótono. Lá, cheio de vida. Aqui, tudo parece morto. A impressão que tenho é que esses mundos estão separados por milhas de distância, e não por uma simples parede de tijolos.
Emma já dorme ao meu lado, seus óculos tortos em seu rosto curvo e pálido. Passo então a observá-la, e sei que, se eu pudesse, faria isso o dia inteiro. Tão delicada e frágil, mas também forte e indestrutível. Ela tem o que eu nunca tive. Um brilho próprio e bonito, capaz de me deixar tão orgulhosa, mas também com tanta inveja. Porque desde pequena, enquanto crescíamos juntas orfanato por orfanato, eu sempre soube de uma coisa: eu era a Lua, e ela sempre seria o Sol.
Fale com o autor