As Fendas da Máscara

4 Ecos de Sangue e Cinzas


Os primeiros raios de sol atravessaram lentamente as cortinas pesadas dos aposentos de Naak, desenhando linhas douradas sobre o chão de pedra escura.

Naak abriu os olhos devagar, ainda envolvida pela estranha tranquilidade da noite anterior. Durante alguns segundos permaneceu imóvel, observando o tecto enquanto o silêncio preenchia o quarto.

Depois virou ligeiramente a cabeça para o sofá, estava vazio. Akael já não estava ali.

Naak ficou alguns instantes a olhar para o espaço onde ele dormira horas antes. Ainda conseguia recordar a respiração calma dele durante a noite, o calor da presença dele no quarto e, acima de tudo, a tranquilidade e ausência completa daqueles sonhos perturbadores.

Aquilo incomodava-a mais do que devia.

Levantou-se lentamente e começou a preparar-se para o dia. Cada peça da armadura foi colocada com precisão mecânica, como sempre fazia antes de enfrentar o mundo exterior. Quando terminou, observou-se por breves segundos ao espelho. A máscara tinha regressado e com ela o rosto frio, o olhar distante.

A War Lord estava novamente presente.

Saiu do quarto em silêncio e caminhou pelos corredores do castelo até aos aposentos da princesa. Assim que entrou na divisão percebeu imediatamente que já havia várias pessoas reunidas no local. Nobres, estrategas militares, capitães e membros da guarda real discutiam em voz baixa.

Encostado discretamente junto à parede estava Akael. Os olhos dele moveram-se imediatamente para Naak assim que ela entrou. Ele reparou em algo curioso. Toda a sala ficou em silêncio durante alguns segundos. A simples presença dela bastara para calar toda a multidão.

Akael observou-a atentamente. Na noite anterior vira uma versão completamente diferente daquela mulher. Fragilidade, com emoções escondidas, medo e saudade. Mas agora… Nada disso existia.

Era como se aquele lado de Naak tivesse desaparecido novamente atrás de muralhas impossíveis de atravessar. A própria postura dela parecia diferente. Mais distante, mais intocável.

A porta principal abriu-se então e Azenha entrou acompanhada por dois guardas pessoais.

— Obrigada pela presença de todos — começou a princesa enquanto se aproximava da mesa central. — Recebemos novas informações sobre o culto.

Vários mapas foram espalhados diante dos presentes. Azenha continuou:

— A investigação será liderada por Naak e Akael.

Como esperado, aquilo gerou imediatamente murmúrios desconfortáveis. Um dos homens presentes soltou um comentário em tom provocador:

— Que reconfortante… entregar uma missão destas a alguém que perdeu o controlo no campo de treinos, recentemente.

O silêncio caiu imediatamente na divisão. Naak virou lentamente o rosto na direcção do homem. O olhar dela era gelado.

— Queres ficar no meu lugar? Já que achas que estás apto para o executar.

O homem hesitou imediatamente.

— Não foi isso que—

— Então foi o quê? Responde.

A firmeza fria na voz dela fez o homem engolir em seco.

— Eu…Eu… — Sem conseguir formular uma resposta.

Naak manteve o olhar preso nele mais alguns segundos antes de responder.

— Então é bom saberes o teu lugar.

A tensão na sala tornou-se pesada. Akael reparou imediatamente no ódio estampado no rosto daquele homem. Mas Naak já nem sequer lhe prestava atenção. Azenha decidiu interromper antes que a situação escalasse.

— O vosso transporte já está preparado, para viagem. Podem partir quando desejarem.

Naak virou costas sem responder e saiu da divisão. Akael acompanhou-a pouco depois.

Nos estábulos dois cavalos negros já os aguardavam preparados para viagem. Naak montou primeiro, segurando firmemente as rédeas antes de Akael montar depois o segundo cavalo negro.

Ao longe, Azenha observava ambos a partir do pátio principal do castelo. A preocupação no olhar dela era impossível de esconder.

A viagem decorreu em silêncio durante as primeiras horas. As estradas antigas atravessavam planícies secas e pequenas aldeias esquecidas pela guerra. O vento trazia cheiro a terra húmida enquanto nuvens escuras começavam lentamente a cobrir o céu.

Foi numa pequena povoação quase abandonada que Naak viu o velho cartaz, desgastado pelo tempo. Preso torto numa parede de madeira.

O rosto da sua irmã mais velha, Mawiza, ainda era visível apesar das marcas da chuva, onde por baixo, estava escrito em letras grandes: ASSASSINA DO SANCTUARY

Naak ficou imóvel. O olhar endureceu instantaneamente. Sem pensar, desmontou do cavalo e arrancou o papel da parede com violência antes de o amarrotar na mão.

Akael observou-a em silêncio sem comentar nada.

Perto dali existia uma pequena taberna onde decidiram entrar para comer algo rapidamente. Como esperado, vários olhares fixaram-se imediatamente neles.

Mas nenhum dos dois parecia minimamente incomodado. Comeram em silêncio, pagaram e saíram pouco depois.

Foi então que perceberam que cá fora não estavam sozinhos. Várias pessoas aguardavam por eles.

Homens, mulheres e velhos armados com ferramentas agrícolas improvisadas. Todos observavam Naak com hostilidade.

Ela suspirou lentamente.

— O que querem?

Uma mulher idosa deu um passo em frente.

— Sabemos quem és.

Naak manteve-se imóvel.

— E?

— És irmã daquela assassina.

Os olhos de Naak tornaram-se ainda mais frios.

— O que têm com isso?

A velha apertou a vassoura com força.

— Queremos vingança pelas mortes que ela causou.

Naak nem sequer hesitou. Num gesto rápido ergueu a mão e um muro de fogo surgiu violentamente diante do grupo. O calor espalhou-se imediatamente pela rua.

— Saiam do caminho. — disse ela friamente. — Ou queimarei todos vocês vivos.

O grupo recuou de imediato. A velha percebeu rapidamente que aquela ameaça não era vazia. Acabou por fazer sinal aos restantes que ainda bloqueavam o caminho para abrirem passagem.

Naak e Akael voltaram a montar os cavalos sem olharem para trás, onde a viagem prosseguiu.

Durante bastante tempo apenas o som dos cavalos preenchia a estrada. Até que Akael finalmente falou:

— O que aquela mulher queria realmente contigo?

Naak demorou alguns segundos a responder.

— Conheces a história da assassina do Sanctuary?

Akael pensou por breves instantes.

— Não, não conheço.

Naak soltou uma pequena gargalhada seca.

— Talvez devas ser o único no mundo que não conhece.

O olhar dela perdeu-se momentaneamente no horizonte enquanto continuava:

— O que as pessoas sabem… é apenas metade da verdade.

Akael manteve-se em silêncio.

— O destino das mulheres da minha família sempre esteve trançado, desde da nascença. Onde é incumbido-nos sermos alvo de casamentos políticos, formar alianças entre nobres, mas principalmente estabilidade entre nações.

A voz dela endureceu ligeiramente.

— Mawiza foi prometida ao filho do Rei do Norte.

As memórias começaram lentamente a surgir-lhe na mente.

— Eu, o meu pai e a minha irmã assistimos à cerimónia dela. Ela parecia… feliz.

Naak fez uma pequena pausa.

— Durante os primeiros anos enviava-nos cartas constantemente. Falava sobre a sua nova vida… dizia o quanto tinha saudades nossas.

Os olhos dela escureceram ligeiramente.

— Depois as cartas começaram a diminuir. De três em três meses, para seis em seis meses, até que deixaram de existir.

O vento soprou mais forte naquele instante.

— O meu pai percebeu que algo estava errado.

A voz dela tornou-se mais baixa.

— Foi após anos depois que recebemos a notícia.

Ela apertou ligeiramente as rédeas.

— Mawiza tinha sido condenada à morte por massacrar várias vilas do norte.

Akael observou-a atentamente sem interromper.

— O meu pai recusou-se a aceitar aquilo e investigou durante anos mesmo depois da execução dela.

Naak fechou brevemente os olhos.

— E descobriu a verdade.

A voz dela tornou-se fria.

— O verdadeiro assassino era o filho do Rei do Norte. Um homem que por fora aparentava ser uma pessoa normal mas por debaixo era perturbado e cruel. O rei sabia de tudo e encobriu os crimes do filho.

Ela parou o cavalo abruptamente e Akael fez o mesmo. Naak baixou ligeiramente o olhar.

— Precisavam de um culpado.

O silêncio pesou entre ambos.

— E usaram a minha irmã como bode expiatório.

Akael continuou sem dizer nada. Naak ergueu finalmente o olhar para o horizonte.

— É por isso que gosto de recordar aquele tempo antigo. Antes de tudo. — Dando um pequeno sorriso amargo.

Os olhos dela encontraram os dele por breves segundos. E, pela primeira vez naquele dia, Akael viu uma tristeza genuína no olhar da Naak.

Olhar fixo de Akael surpreendeu-a onde Naak desviou o olhar quase de imediato.

— Não vale a pena pensar no passado. O que aconteceu… aconteceu, não há volta a dar.

Akael respondeu calmamente:

— Certo, apenas não devemos esquecê-lo.

Naak não respondeu. Continuaram a viagem novamente, até que uma mulher surgiu subitamente na estrada correndo na direcção deles.

Naak colocou imediatamente a mão perto da arma. Os olhos dela analisaram toda a área ao redor. Possível emboscada.

A mulher aproximou-se ofegante.

— Por favor! Ajudem-nos! A minha vila está a ser atacada por bandidos!

Naak inclinou ligeiramente a cabeça. Depois sorriu discretamente.

— Diz-me, quantos viajantes já enganaste com esse teu teatro barato?

A mulher ficou visivelmente surpresa.

— O… quê?

— Eu explico, ponto número um, não existe nenhuma vila aqui perto e ponto número dois, a vila mais próxima fica a oito quilómetros daqui.

A expressão da mulher mudou imediatamente. Ela recuou um passo e fez sinal para a floresta. Vários criminosos saíram das árvores armados com espadas enferrujadas, arcos e machados.

Naak analisou-os rapidamente. São poucos em números, mal organizados, sem treino real. Perda de tempo.

— Saiam da frente. — advertiu Naak.

Ninguém se moveu. Num movimento rápido Naak lançou uma bola de fogo para trás sem sequer olhar.

O projéctil atravessou uma árvore e atingiu um arqueiro escondido. O homem caiu morto no chão imediatamente.

O grupo ao ver aquilo congelou. Foi então que a mulher arregalou os olhos.

— Tu… és… a War Lord…

O medo espalhou-se instantaneamente entre os criminosos, onde vários começaram a recuar. Mas a mulher gritou:

— Ouçam!!!! Se matarmos a War Lord seremos respeitados por todos os bandos! Deixaremos ser uns zés ninguém.

Naak desmontou lentamente do cavalo e Akael fez o mesmo. Poucos segundos depois ambos estavam cercados. Instintivamente posicionaram-se costas com costas.

Era a primeira vez que lutavam juntos. E Naak percebeu imediatamente algo importante. Akael não era nenhum novato, mas um Warlock perigoso.

Os demónios que controlava moviam-se como extensões naturais do corpo dele. Sombras surgiam do chão, correntes demoníacas atravessavam inimigos e criaturas espectrais obedeciam-no sem hesitação.

Ao mesmo tempo, Akael observava impressionado a forma como Naak manipulava os elementos. Fogo, gelo e eletricidade. Tudo parecia obedecer-lhe naturalmente.

A batalha terminou em menos de dez minutos. Vários corpos espalhavam-se pela estrada, onde apenas restava apenas um criminoso.

Naak ergueu lentamente a mão pronta para acabar com ele, quando uma mulher saiu da floresta correndo desesperadamente. Atirou-se para a frente do homem.

— POR FAVOR! NÃO O MATES!

Akael baixou imediatamente a arma. Mas Naak não. O olhar dela permanecia frio e vazio.

Foi então que Akael segurou-lhe o pulso. Naak virou imediatamente o rosto para ele.

— O que estás a fazer?

— A dar-lhes passagem.

A mulher agarrou imediatamente o criminoso e fugiu com ele.

Naak soltou bruscamente o braço.

— Tens consciência do que acabaste de fazer?

— Tenho.

Ela estreitou os olhos.

— Eles eram criminosos.

— E ela era inocente.

Naak soltou um pequeno riso de desaprovação, onde Akael continuou.

— Era apenas uma mulher preocupada com a pessoa que ama.

O olhar dele endureceu ligeiramente.

— Não consegues ver isso?

Silêncio. Depois Akael afastou-se alguns passos de Naak.

— O teu corpo pode ter saído do campo de batalha. — Ele olhou directamente para ela. — Mas a tua mente ainda continua lá.

As palavras atingiram-na mais do que ela gostaria de admitir.

A viagem continuou em silêncio, antes do cair da noite Akael encontrou um bom local para acamparem junto a um lago. Acendeu uma fogueira enquanto preparava algo simples para ambos comerem.

Quando terminaram a refeição, Naak permaneceu alguns segundos em silêncio antes de finalmente dizer:

— Por mais que não queira admitir, tu tens razão.

Akael ergueu ligeiramente o olhar.

— A minha mente ainda continua no campo de batalha, apesar de já não estar em nunhuma há alguns anos. — Depois levantou-se. — Vou tomar banho ao lago.

A noite estava calma. O luar reflectia-se na água enquanto o som dos grilos preenchia o ambiente. Naak observou o próprio reflexo durante alguns momentos antes de começar lentamente a despir-se.

Entrou na água fria e deixou-a percorrer o corpo. Por breves instantes conseguiu relaxar, mas quando saiu e observou a cicatriz que atravessava o corpo desde a cintura até perto do ombro, os pensamentos regressaram imediatamente. Aquela marca era o último vestígio da mulher que existira antes da ser War Lord.

Depois de sair da água, secou o corpo usando magia de fogo, onde então que sentiu uma presença atrás dela. Virou-se imediatamente.

Ukho. Os olhos dourados dele percorriam lentamente o corpo dela.

— Gostei de observar-te.

Naak sentiu imediatamente o desconforto a crescer. O demónio aproximou-se rapidamente sem lhe dar tempo de reagir.

— Tens cicatrizes interessantes.

A mão dele deslizou lentamente pela cintura dela.

— Mas esta… é a minha favorita.

Naak agarrou imediatamente o braço dele tentando afastá-lo, mas em vão. A força dele era esmagadora, onde então começou a tocar-lhe lentamente no corpo, em locais sensíveis, mais ìntimos. A respiração dela tornou-se involuntariamente irregular.

O demónio aproximou os lábios do ouvido dela.

— Quando foi a última vez que um homem te tocou?

Aquilo fez Naak reagir violentamente, onde libertou-se abruptamente. Mas o demónio surgiu imediatamente diante dela, empurrando-a contra uma árvore e prendendo-lhe os braços acima da cabeça com apenas uma mão.

O olhar dele tornou-se perigosamente intenso.

— Deixa de resistir.

A outra mão começou lentamente a desapertar a armadura dela. Naak tentou libertar-se inutilmente. O demónio expôs lentamente o peito dela enquanto os dedos percorriam-lhe a pele com provocação calculada.

Depois segurou-lhe o queixo. Os olhos dele fixaram-se nos lábios dela, onde o polegar deslizou lentamente sobre eles. Naak fechou os olhos antecipando o que viria.

— O espectáculo termina aqui, Ukho.

A voz de Akael ecoou pela floresta. Naak abriu imediatamente os olhos. O demónio soltou-a e desviou-se rapidamente do ataque de Akael, recuando.

Akael aproximou-se de Naak, onde colocou-se imediatamente diante dela numa posição defensiva. O olhar dele estava frio e firme.

O demónio observou ambos durante alguns segundos e depois desapareceu na escuridão.

O silêncio caiu sobre o lago. Naak deslizou lentamente até ao chão, encolhendo-se sobre si mesma. Akael aproximou-se sem dizer nada e foi buscar uma manta ao acampamento. Quando regressou ajoelhou-se diante dela.

— Naak…

Tocou-lhe cuidadosamente no ombro, mas Naak não lhe deu resposta. Então pegou nela ao colo, onde nesse momento reparou melhor na enorme cicatriz que tinha na cintura, onde a preocupação atravessou-lhe o olhar.

Naak ergueu lentamente os olhos para ele. E encontrou algo inesperado no olhar do Akael. Segurança e protecção.

— Estás segura agora. — disse ele calmamente.

Ela baixou ligeiramente a cabeça.

— Obrigada…

Sem pensar muito, acabou por encostar a cabeça ao peito dele. O calor do corpo dele era estranhamente confortável.

Quando regressaram ao acampamento, Akael sentou-a cuidadosamente junto à fogueira. Naak ficou em silêncio observando as chamas, onde Akael aproximou-se e agachou-se diante dela.

— Preciso de ver essa cicatriz.

Ela abanou lentamente a cabeça.

— Não, será necessário. Não foi o demónio quem me fez.

O Akael ficou imóvel.

— Foi o meu marido.

Aquilo surpreendeu-o genuinamente, onde Akael sentou-se ao lado dela sem interromper. Naak observou o fogo antes de continuar:

— Deve ser um pouco estranho imaginar alguém como eu, tenha sido casada. E com sentimentos.

Um pequeno silêncio instalou-se.

— Casei poucos anos depois da Mawiza.

O olhar dela endureceu lentamente.

— No início era tudo como um conto de fadas, mas tudo mudou após a morte dela.

A voz tornou-se mais fria.

— Assim que a notícia da minha irmã espalhou-se pelo Santuary, as pessoas que eu chamava de amigas, traíram-me. Mas o que me surpreendeu mais foi a traição do meu marido.

Ela apertou lentamente os dedos.

— A pessoa a quem dei tudo de mim, onde fiquei sempre ao dele, queria-me ver morta. Onde a desculpa que ele me deu, foi para não manchar mais o nome da sua família por causa da minha irmã. — Fechando a mão com força — Ele conseguiu o que queria, quando atacou-me, parecendo um acidente.

Akael permaneceu em silêncio.

— Mas o que ele não contava, foi que o meu pai salvou-me.

Naak ergueu ligeiramente o olhar.

— Foi ele quem me transformou naquilo que sou hoje. Onde o meu marido após alguns anos teve a paga que mereceu. — Dando um ligeiro sorriso, antes de se levantar lentamente. — Acho que por hoje já houve emoções o suficientes, não achas?

Naak ao afastar-se, Akael segurou-lhe cuidadosamente no pulso. Naak sentiu imediatamente o coração acelerar, mas desta vez sabia que não era o demónio e virou-se para ele.

— Eu assisti ao que aconteceu no lago. — disse Akael calmamente. — Não intervi de imediato porque precisava de perceber melhor o comportamento do Ukho.

Os olhos dele fixaram-se nos dela.

— O demónio alimenta-se das emoções mais profundas, das memórias mais escondidas, que tens. — Fazendo uma pausa. — Ele ira continuar a escavar cada vez mais fundo, se tiver oportunidade, por isso….

Mexendo na pequena bolsa que trazia consigo, tirando de lá algo. Um colar.

— Isto ajudará a proteger-te quando estiveres sozinha.

Naak observou o objecto em silêncio.

— Posso, por-te ao pescoço?

— Sim — Assentiu Naak lentamente.

Akael levantou-se, colocando-se atrás dela e prendeu cuidadosamente o colar no pescoço dela.

Quando voltou para a frente, ela observou por breves segundos como o colar ficava nela. Naak baixou ligeiramente o olhar.

— Obrigada.

Akael sorriu discretamente.

— Eu fico de vigia esta noite. Descansa.

Naak acabou por se deitar perto da fogueira, de costas para as chamas. O som da madeira a crepitar embalou lentamente os pensamentos dela.

E naquela noite, mais uma vez sentiu paz. Uma sensação tão distante que quase se esquecera de como era.