As Fendas da Máscara

1 As Cinzas de Velkarith


A fortaleza de Velkarith erguia-se sobre as montanhas negras do norte como uma cicatriz deixada pelos próprios Infernos. As muralhas escuras estavam constantemente envolvidas por nevoeiro e pelas cinzas trazidas pelos ventos frios das terras devastadas, enquanto tochas azuis alimentadas por minério demoníaco iluminavam os corredores de pedra antiga. Naquela região esquecida do Santuário, a guerra nunca desaparecia verdadeiramente. Apenas adormecia durante algum tempo.

O som apressado de passos ecoou pelos corredores do salão administrativo até que um mensageiro surgiu diante das portas principais da câmara real, ofegante, coberto de lama e sangue seco. Os guardas cruzaram as alabardas por reflexo, mas bastou o homem erguer o selo imperial para lhe abrirem caminho imediatamente.

No interior da sala, a princesa Azenha observava vários documentos espalhados sobre a mesa de madeira negra. Mapas militares, relatórios de aldeias destruídas, nomes de nobres corruptos e listas intermináveis de mortos. A sua juventude contrastava demasiado com o peso que carregava nos ombros. Ao lado dela encontrava-se Naak.

A presença da Sorcerer dominava a sala sem esforço. Vestida com uma armadura escura adornada por runas prateadas, mantinha os braços cruzados enquanto observava em silêncio os administradores locais discutirem impostos e reconstrução de estradas destruídas por demónios semanas antes. O título de War Lord não lhe fora dado apenas pelas vitórias em batalha. Existia algo nela que fazia até os homens mais experientes evitarem cruzar-lhe o olhar durante demasiado tempo.

O mensageiro ao entrar na sala ajoelhou-se imediatamente.

— Alteza… — disse entre respirações pesadas. — O Warlock… foi capturado.

O salão mergulhou num silêncio absoluto. Azenha ergueu-se tão depressa que a cadeira deslizou para trás.

— Tens a certeza?

— Sim, Alteza. Foi apanhado perto das fronteiras orientais. Está preso nas celas inferiores da fortaleza.

Os administradores começaram imediatamente a murmurar entre si, nervosos. O nome daquele homem, espalhara medo por diversas regiões. Um utilizador de artes proibidas, acusado de pactos demoníacos, desaparecimentos e massacres. Muitos acreditavam que ele nem sequer era humano.

Azenha virou-se para Naak com os olhos iluminados por determinação.

— Eu quero acompanhar o transporte até à capital.

A reacção da Sorcerer foi imediata.

— Não.

A princesa franziu o sobrolho.

— Isto não foi um pedido.

— Mesmo assim, continua a ser uma má decisão, princesa.

Azenha aproximou-se dela lentamente.

— O reino precisa de ver que a futura rainha não teme enfrentar os monstros que ameaçam o Santuário.

Naak manteve-se imóvel.

— Mas o reino também precisa que a futura rainha sobreviva.

Os administradores observavam a troca de palavras sem coragem para interferirem. Apenas a Naak conseguia falar daquela forma com a Azenha.

— Ainda existem assuntos pendentes em Velkarith — continuou Naak. — Tribunais militares, redistribuição de mantimentos, conflitos entre casas nobres locais… Não devias abandonar a região agora.

— Os administradores, podem muito bem tratar desses assuntos.

Um dos homens presentes engoliu em seco ao perceber que fora involuntariamente incluído na conversa. Naak soltou um suspiro discreto.

— Azenha…

— Vou partir amanhã. — interrompeu a Azenha, num tom firme.

A Naak permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Depois acabou por desviar o olhar, dando um suspiro. Ela conhecia demasiado bem aquela expressão da princesa. Quando decidia algo, era praticamente impossível fazê-la voltar atrás.

— Muito bem, então irei contigo. — Azenha sorriu levemente. — Seria imprudente não acompanhar-te.

— Eu sabia que irias dizer isso.

Mais tarde, já perto da meia-noite, as tochas das masmorras iluminavam os corredores húmidos da prisão subterrânea. O cheiro a ferrugem e a humidade misturava-se com sangue velho impregnado nas pedras.

Azenha desceu acompanhada por Naak e por vários guardas de elite, onde no fundo da última cela encontrava-se o homem que tantos procuravam.

Akael.

Estava sentado contra a parede, preso por correntes negras encantadas com runas de contenção. Os cabelos escuros caiam-lhe parcialmente sobre o rosto e os pulsos estavam marcados pelo ferro. Apesar disso, não parecia derrotado. Parecia apenas… à espera.

Quando ouviu os passos, próximos da sua cela, ergueu lentamente os olhos.

O olhar dele pousou primeiro na princesa, onde a satisfação estampada no rosto dela era evidente. Finalmente tinham capturado alguém considerado uma ameaça ao reino.

Mas depois os olhos dele moveram-se para Naak. E permaneceram nela. A Sorcerer observava-o com absoluta frieza. Sem ódio. Sem arrogância. Sem prazer. Apenas vazio.

O tipo de olhar que só alguém habituado à morte conseguia ter. Akael reconheceu imediatamente quem ela era, a War Lord.

A mulher cuja presença em batalha fazia exércitos inteiros recuarem. Mesmo ali, imóvel, ela parecia mais perigosa do que todos os guardas juntos.

— Então és tu a War Lord — disse Akael finalmente, com a voz rouca.

Naak não respondeu. Azenha aproximou-se das grades.

— Amanhã partiras para a capital, onde serás julgado pelos teus crimes diante do conselho imperial.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto do Warlock.

— Julgado…

Azenha irritou-se com a calma dele.

— Ainda achas que és intocável?

— Não. — Os olhos dele voltaram para Naak. — Apenas acho curioso quem decidiram enviar para me guardar.

A Sorcerer virou costas sem responder.

— Partimos ao amanhecer. — disse apenas.

Naquela noite, uma tempestade caiu sobre Velkarith. No quarto real, o som da chuva batia contra as janelas altas enquanto a lareira iluminava parcialmente o espaço.

Azenha encontrava-se sentada junto da cama, já sem os adornos reais, parecendo durante breves instantes apenas uma jovem cansada. Naak permanecia junto à janela, observando a escuridão lá fora.

— Achas… que vou ser uma boa rainha?

A pergunta surgiu inesperadamente e Naak olhou para ela por cima do ombro.

— Porque perguntas isso agora?

— Porque todos esperam algo de mim. — Azenha baixou os olhos. — E às vezes tenho medo de não ser suficiente.

Naak aproximou-se devagar. A amizade entre ambas existia muito antes da política, dos títulos ou das guerras. Cresceram juntas dentro dos muros dourados da capital. Mas com os anos aprenderam também os limites impostos pelo estatuto. Ainda assim, quando estavam sozinhas, certos momentos permaneciam iguais.

— Azenha, tu vais ser uma grande rainha. — respondeu Naak calmamente.

— Tens assim tanta certeza?

— Tenho.

Azenha sorriu levemente.

— E tu? Vais continuar ao meu lado quando isso acontecer?

Naak ficou em silêncio por um instante, onde depois ajoelhou-se diante dela, algo que raramente fazia.

— Sim, — firmemente. — aconteça o que acontecer… eu permanecerei ao teu lado.

Os olhos da princesa suavizaram-se.

— Obrigada… Naak.

Na manhã seguinte, o céu permanecia cinzento quando o transporte prisional foi preparado diante da fortaleza. Os Guardas montados cercavam a carruagem reforçada enquanto correntes eram verificadas uma última vez.

Akael foi conduzido para o interior sob vigilância apertada, ao subir os degraus metálicos da carruagem, virou ligeiramente a cabeça. Os olhos dele encontraram novamente os de Naak. A Sorcerer manteve-se imóvel ao lado do cavalo da princesa.

Fria. Impassível. Mas havia algo naquele olhar dele que a incomodava ligeiramente sem perceber porquê.

A viagem começou pouco depois.

A carruagem avançava lentamente pela estrada antiga enquanto a floresta densa de Draal'Mor se fechava ao redor do caminho, onde árvores gigantescas impediam quase toda a luz de atravessar as copas negras, criando sombras inquietantes entre a neblina.

Durante grande parte do percurso, Azenha permaneceu em silêncio e Naak cavalgava sempre ao lado dela, atenta a qualquer movimento.

O instinto da War Lord raramente falhava, e naquela floresta… algo parecia errado.

Foi então que surgiu, um homem,sozinho, no meio da estrada. Vestia roupas rasgadas e mantinha a cabeça baixa. O cavalo dianteiro parou imediatamente, obrigando a coluna a toda a parar.

— Identifica-te! — gritou um dos guardas.

Não houve nenhuma resposta, por parte do homem que continuou imóvel. Naak estreitou os olhos e notou que os lábios dele mexiam-se lentamente, é como se estivesse a recitar algo. Um encantamento. O coração da Naak apertou-se imediatamente.

— Protejam a princesa! — ordenou de repente.

Azenha virou-se surpresa.

— Naak?!—

— AGORA!

Os guardas obedeceram imediatamente, levando a princesa para trás da coluna enquanto Naak avançava com o cavalo em direcção ao desconhecido. O homem ergueu finalmente a cabeça, onde os olhos dele estavam completamente negros.

Num movimento rápido lançou algo contra Naak, uma pequena esfera envolta em energia vermelha. A Sorcerer desviou-se sem dificuldade, onde a esfera tocou-lhe muito de leve no braço, não dando sequer importância.

Saltou do cavalo e desembainhou a lâmina enquanto fogo começava a envolver-lhe parcialmente os braços. Mas o homem não tentou verdadeiramente lutar, ao ponto de se recusar ou até mesmo a defender-se. Aquela atitude fez com que Naak hesitasse.

— Quem te enviou?

Não obteve nenhuma resposta. Apenas aquele murmúrio contínuo, estranho e errado, onde o homem sorriu, e posteriormente caiu morto no instante seguinte, como se a própria vida lhe tivesse sido arrancada.

O silêncio instalou-se e Naak franziu o sobrolho. Após alguns segundos foi então que sentiu, uma dor violenta a atravessar-lhe o peito. O ar pareceu desaparecer-lhe dos pulmões, a sensação de queimadura espalhou-se rapidamente pelo corpo inteiro.

Ela deixou cair a espada e caiu de joelhos sobre a terra húmida. Havia algo dentro dela. Algo maligno.

Tentou respirar, mas a dor aumentava cada vez mais, onde ao longe ouviu os guardas a gritarem e depois correntes a partirem-se. Os olhos dela abriram-se lentamente, viu que a porta da carruagem estava aberta.

Viu Akael caminhar na sua direcção. Livre. Naak tentou levantar-se, mas o corpo recusava-se a obedecer, onde começou a ficar com a visão turva.

A última coisa que viu antes da escuridão a consumir foi o Akael ajoelhar-se diante dela enquanto os olhos dele observavam o símbolo vermelho que começava a espalhar-se pelo peito da Naak.