As Fendas da Máscara
2 O Símbolo da Contenção
O cheiro a sangue foi a primeira coisa que Naak sentiu ao despertar. Um odor espesso, sufocante, impregnado no ar como uma doença impossível de remover. A cabeça latejava-lhe violentamente e o corpo parecia pesado, como se tivesse atravessado dias inteiros de batalha sem descanso. Durante alguns segundos permaneceu imóvel, tentando perceber onde estava, mas tudo à sua volta parecia desfocado.
Quando finalmente abriu os olhos por completo, o silêncio atingiu-a de imediato. Não existiam vozes, nem vento, nem animais, simplesmente nada, apenas a morte.
Naak ergueu-se lentamente do chão coberto de cinzas e lama seca. À sua frente estendia-se uma pequena vila praticamente destruída. As casas de madeira encontravam-se reduzidas a esqueletos carbonizados, algumas ainda libertando fios finos de fumo. Carruagens partidas bloqueavam parte das ruas e manchas negras cobriam o chão de pedra. Mas naquele cenário o que chamou atenção a Naak e a fez parar, foi os corpos. Corpos de pessoas idosas, de mulheres, de homens, de crianças, onde até os animais tinham sido mortos.
Alguns corpos estavam tão mutilados que mal pareciam humanos. Outros tinham marcas profundas de queimaduras, enquanto certos cadáveres permaneciam agarrados uns aos outros, como se tivessem tentado proteger-se nos últimos momentos.
Os olhos de Naak endureceram instintivamente, porque aquilo não parecia um ataque comum, parecia mais um massacre.
Ela avançou devagar entre os destroços, tentando encontrar sinais de sobreviventes, mas cada passo apenas revelava mais destruição. O silêncio daquela vila era pior do que qualquer campo de batalha onde já estivera.
Nesse momento reparou nas suas próprias mãos. Estavam cobertas de sangue, não apenas com manchas pequenas. O sangue vinha até aos seus pulsos. Naak ficou imóvel.
A confusão atravessou-lhe o olhar pela primeira vez em muitos anos, onde tentou-se lembrar do que tinha acontecido após a floresta.
O que ela lembra-se foi de um o homem, da dor, do fogo no peito e depois… mais nada. Era como se alguém tivesse arrancado aquele fragmento inteiro da sua memória.
Ela fechou os olhos com força, tentando puxar alguma lembrança de volta, mas apenas flashes desconexos surgiam na escuridão da mente. Gritos, fogos, sombras e algo a rir-se dentro dela.
Abriu os olhos imediatamente, aquilo tudo não fazia sentido. Continuou a caminhar entre os restos da vila até que um movimento ao longe lhe chamou a atenção. Um vulto desapareceu rapidamente atrás de uma carroça destruída.
Naak avançou sem hesitar para o vulto, onde contornou os destroços encontrado uma criança pequena escondida entre caixas partidas. Devia ter pouco mais de oito anos de idade. O rosto estava sujo de fuligem e lágrimas secas, e o corpo tremia violentamente.
Ao ver Naak aproximar-se, a criança encolheu-se imediatamente, os olhos dela estavam cheios de puro terror. Naak ajoelhou-se lentamente.
— Está tudo bem… — disse num tom mais baixo do que o habitual. — Já passou.
A criança começou imediatamente a abanar a cabeça em pânico.
— Não… não… não…
Naak tentou aproximar a mão, mas foi então que a criança gritou.
— MONSTRO!!!
Antes que Naak pudesse reagir, a criança levantou-se e fugiu entre os destroços da rua. A Sorcerer permaneceu imóvel, olhando na direção por onde ela tinha desaparecido.
A palavra “Monstro" ecoou-lhe na cabeça de uma forma desconfortável.
Levantou-se lentamente enquanto a mente tentava desesperadamente encontrar respostas. Mas continuava sem memória alguma daquilo que acontecera, antes da vila. Mais uma vez, era como se uma parte dela tivesse simplesmente desaparecido.
Foi então que reparou num símbolo que tinha nas costas da mão direita. Naak franziu imediatamente o sobrolho, enquanto observava.
A marca parecia recente, desenhada directamente na pele como uma runa antiga gravada a fogo. Linhas negras entrelaçavam-se num padrão complexo que ela nunca tinha visto antes. Observou o símbolo durante longos segundos e aquilo definitivamente não estava ali antes.
A concentração dela foi interrompida por um som atrás de si, de um galho a partir-se. Naak virou-se imediatamente, onde encontrou Akael alguns metros atrás dela, onde reparou que estava livre das correntes, e a criança estava escondida atrás da perna dele, agarrando o tecido escuro da roupa enquanto olhava para Naak com medo evidente.
— É ela… — murmurou a pequena. — O monstro…
Akael manteve os olhos fixos em Naak onde percebeu imediatamente algo estranho no olhar dele. Não existia arrogância, nem medo, apenas observação. Como se estivesse a tentar perceber alguma coisa nela.
— Tens alguma lembrança do que se passou? — perguntou ele calmamente.
Naak demorou alguns segundos a responder.
— Lembro-me, da floresta. — A voz dela saiu mais seca do que esperava. — Do homem… da dor… mas depois disso não lembro-me de nada, apenas que acordei aqui.
Akael permaneceu em silêncio.
— Lembro-me de te ver a sair da carruagem — acrescentou ela. — Não faço ideia de como te soltaste.
— Sabes o que aquele homem te lançou, Naak?
Naak abanou a cabeça.
— Não, não sei.
— Sabes como chegaste aqui?
— Não.
— Sabes o que aconteceu a esta vila?
Naak apertou lentamente os dedos, porque todas as perguntas que Akael, fazia, simplesmente não sabia dar resposta, onde mais uma vez tentou forçar a memória, mas nada vinha, o vazio continuava lá.
Durante alguns momentos o silêncio instalou-se entre ambos enquanto a Naak tentava organizar os próprios pensamentos. Foi então que levantou novamente a mão direita.
— Sabes que símbolo é este?
Akael respondeu sem hesitar.
— Um selo de contenção.
Naak franziu imediatamente o sobrolho.
— De contenção? Mas para conter… o quê, exatamente?
Akael observou-a durante alguns segundos antes de falar.
— Tudo começou naquela floresta.
No instante em que ele pronunciou aquelas palavras, um flash atravessou violentamente a mente de Naak, onde viu o homem a sorrir subtilmente, a esfera vermelha, o fogo dentro do seu peito, uma presença.
Os olhos dela arregalaram-se subitamente, onde a respiração tornou-se pesada e então percebeu. Algo vivo estava dentro dela.
Fechou os olhos durante um instante e soltou um suspiro lento.
— Aquele homem… — murmurou. — Ele… ele… deu-me um demónio.
A criança atrás de Akael encolheu-se ainda mais ao ouvir aquilo. Akael assentiu lentamente.
— Sim.
Naak abriu novamente os olhos, sem conseguir acreditar.
— Quando o demónio despertou dentro de ti, as correntes que me prendiam foram destruídas pela tua magia. — Akael olhou para a marca na mão dela. — Eu consegui parar-te antes que o demónio consumisse completamente a tua mente.
— O quê?
— Tu inconscientemente sabias que podia ajudar-te.
Naak ficou imóvel e apertou lentamente a mandíbula.
— Então foste tu quem fez isto? — Apontando para o símbolo.
— Sim.
Ela voltou a olhar para a vila destruída ao redor, onde o silêncio daquela terra morta parecia agora ainda mais pesado.
— Então quer dizer que fui eu… quem fez isto? — A pergunta saiu quase num sussurro.
Akael não tentou suavizar a verdade.
— Sim.
Naak permaneceu imóvel, os olhos dela percorriam lentamente os cadáveres espalhados pelas ruas. Ela já tinha matado milhares em guerra. Mas aquilo… Aquilo não fora uma batalha, mas carnificina.
— O demónio parece ter adquirido um gosto por ti. — acrescentou Akael calmamente.
Naak fechou imediatamente a mão marcada com força, a raiva começou a subir-lhe pelo peito. Não apenas pelo demónio, mas por si própria. Durante anos jurara nunca mais permitir que alguém a manipulasse. Nunca mais permitiria perder controlo sobre a própria vida. Não depois do passado, com o homem com quem casara.
Ainda conseguia recordar os anos em que fora usada como arma política, manipulada lentamente por alguém que fingira amá-la apenas para obter poder através dela. Quando deixara de ser útil, fora descartada sem hesitação.
Naak sobrevivera àquilo tornando-se fria, impenetrável, intocável e e agora… agora existia algo dentro dela capaz de lhe roubar novamente o controlo. A ideia fazia-a sentir nojo.
— Este demônio tem algum nome? — perguntou finalmente.
— Ukho, é o nome dele.
— Sabes, posso contenho-lo? — perguntou firmemente.
Akael respondeu de imediato.
— Enquanto eu estiver perto de ti, o demónio não despertará.
Naak ergueu o olhar para ele.
— Só isso?
— O símbolo também ajudará a limitar o crescimento do poder dele. Mas o símbolo sozinho não será o suficiente.
Naak não gostou daquela resposta, nem um pouco. Mas por mais que detestasse admitir… ela conseguia sentir o poder Akael. Uma presença estranha e pesada emanava dele. Diferente de qualquer magia comum. Havia escuridão nele, mas uma escuridão controlada, dominada.
Os olhos dela permaneceram presos aos dele durante alguns segundos, onde Akael não desviou o olhar. O momento terminou abruptamente quando ambos ouviram cavalos aproximarem-se rapidamente da vila.
Naak virou-se imediatamente e em poucos segundos depois vários cavaleiros surgiram entre o nevoeiro. No centro vinha Azenha, onde a princesa desmontou rapidamente assim que viu o cenário. Os olhos dela percorreram a destruição enquanto o horror lhe endurecia lentamente a expressão.
— Pelos Altos Céus…
Os guardas começaram imediatamente a verificar os arredores.
Azenha aproximou-se de Naak.
— O que aconteceu aqui?
A Sorcerer hesitou apenas durante um segundo, mas depois respondeu friamente:
— Quando chegámos já não havia muito a fazer, aqui.
O olhar dela moveu-se discretamente para a criança atrás de Akael.
— O Akael encontrou a única sobrevivente. — Apontando para a criança. — Eu apenas o ajudei-o.
Azenha observou-a em silêncio durante alguns instantes, é como se tentasse perceber algo escondido naquela resposta, mas acabou apenas por assentir. O regresso à capital foi feito sob um silêncio pesado.
Ao chegarem ao castelo imperial, a criança sobrevivente foi imediatamente entregue aos cuidados das damas reais. Azenha garantiu pessoalmente que tivesse um quarto seguro para descansar. Nos aposentos privados da princesa, apenas permaneceram ela, Naak e Akael.
A princesa sentou-se lentamente na cadeira diante da lareira enquanto observava a Naak, percebeu imediatamente a hesitação nela. Algo raro nela.
Naak respirou fundo, antes de falar com Azenha.
— Preciso de reportar algo importante.
Azenha cruzou calmamente as mãos sobre o colo.
— Então fala.
Naak manteve-se em silêncio durante um breve instante antes de finalmente dizer.
— A vila não foi destruída por monstros… nem por homens.
Azenha permaneceu imóvel, atenta ao que Naak dizia.
— A vila… foi destruída por mim.
O silêncio instalou-se na sala, mas mesmo assim, a princesa não demonstrou choque, apenas escutava. Naak continuou:
— O homem da floresta que encontramos na floresta colocou um demónio dentro de mim, onde perdi o controlo, mas o Akael conseguiu conter-lo através deste símbolo. — Mostrando o símbolo na mão. — Contudo a presença dele é necessária para impedir que o demónio desperte novamente, com poder ao máximo .
Azenha soltou um pequeno suspiro.
— Era o que suspeitava.
Naak franziu o sobrolho. A princesa levantou-se lentamente.
— O homem da floresta fazia parte de um novo culto. Temos recebido rumores sobre eles já há alguns meses, mas faltava-me algo mais concreto. Essas pessoas acreditam que os demónios devem ser “amigos”, em vez de serem dominados pelos humanos de modo a ser utilizados como armas.
Akael aproximou-se então.
— Já faz alguns anos que ando atrás desse culto.
Azenha virou-se para ele.
— Explica, Akael.
— Antes de ser capturado estava no ponto de descobrir onde fica a sede desse culto e qual seria o verdadeiro objectivo deles. — O olhar dele endureceu ligeiramente. — O que fazem vai contra tudo o que significa ser um Warlock.
Naak observava-o em silêncio.
— Demónios não são para fazer amizade, — continuou Akael. — são para serem dominados e controlados. A maioria das pessoas não possui essa capacidade para isso e acabam por ser consumidas… manipuladas… ou mesmo mortas.
Os olhos dele moveram-se brevemente para Naak, o que Azenha percebeu imediatamente e sorriu ligeiramente.
— Então tudo está alinhado.
A princesa aproximou-se do Akael.
— Akael… gostarias de trabalhar para mim até encerrarmos este assunto do culto de uma vez por todas?
Ela lançou um breve olhar a Naak.
— E considerando que a tua presença é necessária para ajudar a conter o demónio que a Naak tem… parece-me a solução mais lógica.
Akael observou ambas durante alguns segundos, ao qual depois respondeu firmemente:
— Aceito, com todo o gosto.
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