As Fagulhas de Hugo
2 Capítulo 2 - Strangers In The Night
Notas iniciais
— Dasoku! J’en peux plus! Aquele con de uma figa! Isso era responsabilidade dele e não minha… Ah! Mas se eu vê-lo… Ah! Ele que se prepare para ouvir! — Ouvia a voz reclamar enquanto recobrava aos poucos a minha visão. Seja lá quem fosse a pessoa de quem ele estava falando, tinha pena do que ela teria que escutar dele, porque, sendo bem sincero, pelas duas falas que escutei, o sotaque e a mistura de idiomas dele já estavam me torturando.
Inicialmente a minha frente via uma grande caixa marrom escura, depois ela começou a ficar mais modelada e pude ver que ela tinha vários nichos, cada um com várias tiras de uma cor específica: em cima estavam tons quentes, no meio estavam tons mais esverdeados e em baixo colorações mais frias. Aquilo era uma enorme estante repleta de livros. Conseguia ler alguns títulos que tinham letras maiores: “Frankenstein”, “O Retrato de Dorian Gray” e “Hamlet”. É, alguém por aqui gostava de literatura fina.
Aproveitando que voltei a enxergar perfeitamente, olhei para o lado: havia um papel de parede verde pistache com um bando de pétalas que formavam um desenho abstrato repetitivo e pendurado nessa estrutura via-se um quadro que bem poderia ser do Salvador Dalí. Decidi dar um giro para avaliar o restante do espaço, acima da minha cabeça posicionava-se uma grande tábua de madeira escura, estava deitado em uma cama com dossel com belos detalhes ondulados e diga-se de passagem, ela era extremamente confortável. Havia até uma coberta de camurça roxa com desenhos em dourado me cobrindo. Isso de fato parecia o quarto de um rico de séculos passados. Então, observei o outro lado: sentado em uma poltrona roxa pomposa estava ele, o dono da voz. Ele parecia tudo aquilo que eu tive a impressão ao escutá-lo falando: rebuscado e refinado, extremamente rebuscado e refinado. Usava roupas formais: um paletó cor vinho, por baixo uma camisa branca, calça social de mesma cor, sapatos pretos muito bem polidos e uma gravata de laço dourada. Ele estava distraído olhando para um canto qualquer da sala enquanto bebericava um chá de canela (porque era impossível não sentir o cheiro de canela no ar) em uma xícara que deveria ser mais cara que a minha vida.
De repente, os olhos dele se voltaram para mim, fiquei fitando-o por tempo demais, atraí a atenção dele. Desconfortável por ele agora estar me encarando de cima, sentei-me.
— Oh, vejo que se recuperou, mon cher. — Ele disse dando um sorriso cortês. — Aceitaria um chá? Afinal, é uma das melhores formas de começar uma conversa desagradável.
Sem nem esperar eu responder, ele já me entregou uma xícara cheia daquele cheiro forte. Ele realmente gostava de canela. Mas, depois de todas aquelas experiências nada convidativas, confesso que fiquei preocupado em tomar um gole e aquele chá se transformar em um bando de insetos nojentos ou quem sabe até surgir um olho boiando. Por isso, eu apenas fingi que tomei um gole da bebida.
— Então, você disse que tudo aquilo foi um… teste? — Eu tinha muitas perguntas, mas não é como se ele fosse confiável para respondê-las. Talvez não fosse, talvez tudo aquilo fosse outro evento sinistro, nada até agora parecia querer me comer ou querer me matar, mas eu acumulei medo o suficiente para ficar receoso agora. Assim, decidi partir daquilo que ele já havia me revelado.
— Antes de tudo mon cher, quero que fique claro que não era eu quem deveria estar lhe contando essas coisas. Na verdade, isso era função do seu pólux. Mas, como ele é um morveux inútil e irresponsável, eu estou aqui. — Certo, mais uma dúvida: o que raios é um pólux? Eu sabia que essa palavra não era nem do francês e nem do japonês, simplesmente porque, quando ele a pronunciou, o sotaque misto dele não apareceu nela. — Dito isso, vamos começar!
Ele colocou a xícara em cima de uma pequena mesa com um abajur que encontrava-se ao lado da cama. Feito isso, ele posicionou-se com a poltrona para ficar completamente de frente para mim. Então, ele uniu as duas mãos e se encurvou um pouco, ficando em uma posição claramente focada. Até demais.
Pela proximidade, foi inevitável não reparar no seu rosto. Ele tinha cabelos avermelhados grandes o suficiente para ele poder fazer um pequeno rabicho para a frente. Sua pele era clara, o que destacava ainda mais a cabeleira. Tinha olhos cor de âmbar, que pareciam ser feitos de puro pó de ouro. É, ele exalava nobreza.
— Hugo, estou ofendido. — Não era como se o fato de ele saber o meu nome fosse mais assustador do que todas as outras situações que vivi. Mas foi o bastante para saber qual seria a minha segunda pergunta. — De acordo com os modos que supostamente um garoto como você deveria ter pela sua boa criação, sua primeira dúvida deveria ser sobre como me chamo. Você perdeu pontos comigo mon cher, mas pelo menos é mais fácil de lidar com você do que com o seu pólux problemático. Por isso, darei-lhe um desconto e me apresentarei: prazer Hugo Davoglio, sou Frank.
O rapaz, que agora sabia chamar-se Frank, saiu da poltrona e fez uma mesura de apresentação. E, logo depois, voltou a sentar-se novamente. Eu achei essa uma ótima deixa para soltar a segunda questão, contudo, ele ainda precisava me responder a primeira.
— Agora podemos prosseguir. Bem, Hugo, você foi presenteado com um dom. E seres humanos presenteados com esse dom podem entrar e transitar conscientemente no mundo no qual você encontra-se agora para realizar um trabalho deveras importante que só esses agraciados, como você, podem fazer. — Então, em outras palavras, tirando todo o rebuscamento usado, eu fui sequestrado para trabalhar sem o meu consentimento. Legal isso, você dorme e quando acorda vira um escravo. — Mas, para ter certeza de sua aptidão, você, automaticamente, antes de entrar aqui de forma definitiva, passa por um teste no qual você vivencia alguns dos seus medos em situações que parecem ser reais, mas na verdade são apenas uma ilusão muito bem elaborada. Acredito que você lembre-se bem do que aconteceu. E, você foi bem sucedido no exame. Prova disso é que está aqui, neste exato momento, me ouvindo.
Após sua fala, Frank parecia satisfeito com a maneira que explicou e bebericou alegremente o chá forte.
— Próxima pergunta, mon cher. — Ele proferiu dando mais um gole depois.
O Frank poderia estar mentindo eu sei, mas isso agora parecia improvável dado que ele confessou ter agido de maneira ilegal comigo, usando uma boa retórica para evitar uma admissão nua e crua, mas a verdade ainda estava lá. Se ele estivesse mentindo, ele poderia usar de uma desculpa que não revelasse o crime.
Agora, eu precisava agir rápido, sabendo do meu destino se continuasse lá, precisava achar alguma maneira de sair dali. Frank estava muito tranquilo para alguém que está no mesmo cômodo de um prisioneiro sem correntes que pode agredí-lo a qualquer minuto. Ele, provavelmente, deveria estar armado , assim como também deveriam haver guardas do outro lado da porta do quarto. Fora que quando se trata de depender do meu físico, a porcentagem de sucesso é pequena. Então, tudo o que me restava era tentar negociar. Mesmo que eu não estivesse em vantagem para isso.
— Olha, Frank, vamos ter uma conversa franca: você me raptou, me drogou para eu ter aquelas alucinações apavorantes e me trouxe para este lugar, que eu não sei onde é, para trabalhar com uma coisa que você acredita eu ser apto. — Falar desse jeito, mostrando que a retórica dele não funcionava comigo, poderia pegá-lo de surpresa e contribuir ao meu favor. — De onde eu venho isso soa como algo criminoso. Então, vou te propor um acordo para sairmos todos bem dessa: você me leva para casa e eu finjo que nada aconteceu.
Frank não conseguiu segurar e soltou uma risada alta. Pelo menos ele não ria como um rico esnobe. Eu não sabia como reagir, talvez ele estivesse rindo pela minha audácia e logo depois me daria um golpe certeiro como punição por ir contra ele. Então decidi ficar quieto até ele decidir parar de rir para não irritá-lo mais.
— Essa foi boa. — O rapaz comentou colocando a xícara na mesa e enxugando uma pequena lágrima. — Como eu posso dizer… Primeiro: ninguém aqui, muito menos eu, te sequestrou ou te drogou, você veio parar aqui sozinho e naturalmente. E segundo: Hugo, este lugar em que estamos agora não é na Terra que você conhece.
Claro, porque existe outro planeta Terra que eu não conheço, satirizei mentalmente, visto que toda aquela conversa confusa já estava me deixando com os nervos dilatados. Falar isso alto, por mais que quisesse, não seria uma boa ideia, porque ainda precisava que o Frank me contasse mais coisas e se o deixasse irritado, talvez ele se calasse.
— Mas eu sei que não será fácil acreditar em mim se eu somente te contar. Então, que tal irmos lá fora para apreciarmos a vista? — Frank estendeu a mão para me ajudar a levantar.
Fiquei receoso sobre o que poderia acontecer se eu segurasse a mão dele. Talvez ele não me largasse e outro defunto horripilante igual o meu professor de matemática surgisse. Por isso, cauteloso, levantei-me sozinho. Frank não pareceu achar ruim, como se compreendesse a situação silenciosamente, logo dirigiu-se à porta e abriu-a para que eu passasse.
Não tinha nenhum guarda vigiando a entrada do quarto. Estava errado. Talvez Frank estivesse falando a verdade. Talvez… Deixei de lado a paranóia e decidi ficar na paisagem ao meu redor. Se o quarto em que estava parecia ser de algum duque, esse lugar era de um rei.
— Bienvenue ao Alis Noctem o dirigível mais magnifique de todos os tempos! — Exclamou Frank com um toque de orgulho.
Tudo naquele lugar ostentava grandeza. O piso era claro e limpo a ponto de poder ver o seu reflexo nele. O parapeito que permitia você visualizar os outros andares sem cair tinha grades pretas e um corrimão que bem podia ser banhado em ouro com vários detalhes que tornavam tudo ainda mais luxuoso. Ampliando meu campo de visão, acima de mim era tudo vidro e barras de sustentação douradas que criavam uma bela cúpula steampunk. Podia ver a noite lá fora e suas estrelas. Era muita beleza. Tanta que eu até esqueci por poucos instantes tudo o que havia acontecido comigo até então.
— Eu moro aqui há um tempo já, mas, mesmo assim, ainda não consigo olhar para tudo isso sem ficar um pouco maravilhado. — Confessou. — Mas vamos logo, preciso te fazer acreditar em tudo o que digo antes que o meu mestre venha te buscar.
Para me apressar, ele segurou na minha mão e foi me puxando para algum lugar que não tinha nem ideia de onde poderia ser. Estava anestesiado demais com tudo aquilo para recusar.
— Frank, eu não sou nenhum especialista, mas acredito que seja impossível para esse dirigível se manter no ar… — Comentei tentando acompanhar o ritmo de caminhada do rapaz.
— Bem observado mon cher, por isso mesmo te digo que não estamos na Terra que conhece. — Pelo que olhei no céu, tinha a constelação de Órion na região que ela supostamente deveria estar olhando de Civitas Forward, é óbvio que eu estou na Terra Frank. É isso que eu diria se eu quisesse fazê-lo parar o tour.
Enquanto estávamos andando pelo corredor reparei que havia muitas portas de madeira escura, mas todas com desenhos abstratos diferentes, poderiam ser quartos como o que eu estava, ou sabe-se lá o que essas fechaduras estavam escondendo... Mas, não havia ninguém além de nós dois transitando por aqui, uma máquina com essas proporções deveria ter mais gente dentro. Suspeito.
Depois de percorrer o trajeto por mais alguns minutos, Frank parou de frente a uma porta cuja decoração era intraduzível, extremamente abstrata. O rapaz então, colocou sua mão nela. De repente, todos aqueles traçados de madeira começaram a se mover em uma complexa ordem. Em poucos instantes, na porta estava, enfim, algo que fazia sentido: SACADA. Cada sílaba empilhada uma em cima da outra em letras detalhadas.
— Acredito que as portas na Terra que você conhece não funcionam assim. — Pontuou Frank com um sorriso, segurou a maçaneta e a abriu.
Tratava-se de uma grande plataforma com o mesmo parapeito da parte de dentro do dirigível. Meus cabelos balançavam com o vento forte.
— Nós estamos em Civitas Forward? — Perguntei agarrado com a maior força que pude ao corrimão para não cair olhando com cuidado para baixo e percebendo semelhanças com a minha cidade. Deveríamos estar a mais de 500m do chão.
— Estamos e não estamos. — Explicou Frank apoiado nas grades despreocupado, como se fosse inexistente a possibilidade de ele escorregar e acabar caindo para fora do dirigível. — Observando assim, tudo aqui é igual ao que tem na Civitas Forward em que o mon cher vive. Mas se prestar bem atenção aos pequenos detalhes, verá que há diferença.
Nesse instante, Frank apontou para um canto da cidade. Eu conhecia aquele prédio. Era antigo, deveria ter mais de 30 anos e tinha seis andares. Quase toda semana ia lá entregar algum pedido da cafeteria da minha tia Nicole. Entretanto, quando foquei no terraço, havia algo bem estranho nele: uma raposa dourada gigante estava deitada lá. Podia vê-la respirando calmamente enquanto parecia assistir alguma coisa qualquer na rua e balançava devagar a cauda de um lado para o outro.
De repente, algo passou de raspão na minha frente: uma grande ave que parecia ser feita de pó de ouro na qual estava uma pessoa mascarada montada. Os dois, mal ligaram para o fato que quase me acertaram e seguiram o caminho até encontrarem-se com a raposa.
— Aquilo é real Hugo, eu também os vejo. Não trata-se de alucinação ou qualquer outra explicação lógica o suficiente para existir no seu mundo. — Pontuou Frank. — Você está na Terra, mas em uma dimensão diferente dela, estamos em Invisiblia.
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