As Fagulhas de Hugo

3 Capítulo 3 - Sozinho Com Todo Mundo


Notas iniciais
Olá leitores e leitoras! Desta vez fui mais rápida hehe Só para eliminar qualquer confusão que ainda possa vir, este capítulo não é narrado pelo Hugo. Boa leitura ♥

Durante os acontecimentos do último capítulo, na outra extremidade do magnífico dirigível Alis Noctem, uma interessante cena ocorria.

— Não pode ser! Droga! Não acredito que aquele fedelho conseguiu passar por tudo aquilo sem acordar! — Lamentei batendo meus braços, inutilmente, contra a parede enquanto cedia ao chão feito um derrotado. O que de fato eu era.

Ah mundo cruel! Injusto! Agora, tudo por culpa daquele infeliz, precisaria conviver o resto dos dias da minha vida ao lado dele. As estrelas deveriam gostar de me ver sofrer…

Retomando um pouco de fôlego, ergui-me e aproximei-me da pequena bancada existente no cômodo. Nela havia uma garrafa de vinho e uma taça. Coloquei-as lá para celebrar minha missão bem sucedida. Entretanto, agora, serviam apenas para afogar as minhas dores. Sem hesitar, tomei um gole generoso. Podia sentir a minha garganta queimando com o efeito alcoólico. Respirei fundo.

Após beber mais um pouco, tornei a andar pelo pequeno ambiente. Este era apenas mais um dos vários ambientes existentes neste dirigível. Deveria funcionar como uma sala de reuniões informais. Além do bar, havia uma mesa de sinuca próxima dele, uma porta de vidro que levava a uma varanda, dois sofás de estilo barroco mais ao canto e um simples palco com alguns instrumentos clássicos, incluindo um piano de cauda.

Subi um degrau e dei alguns passos.

Diante de mim estava o único recurso que poderia expressar como me sentia naquele momento. Alisei o instrumento com um olhar distante, impossível não lembrar de algumas histórias passadas. Depois, sentei-me no banquinho de frente a ele. Bastou poucos instantes para se ouvir uma melodia. Era como se pequenos pingos de chuva encostassem os fios de postes soltando notas agudas e adocicadas.

— I get along without you very well… — Minha intenção era guardar a música apenas na minha mente, mas não foi preciso nada para já soltar as palavras dessa clássica de Chet Baker.

Meus dedos corriam hipnotizados pelas teclas do piano.

— Of course I do…

De repente, escutei o som da porta de madeira batendo devagar.

— Eu não acredito... Todo mundo está te procurando e você está aqui se embebedando e tocando piano como se tivesse acabado de levar um fora. — Interrompeu uma voz que conhecia bem. — Você é o rei da melancolia sem sombra de dúvida.

— E você é a rainha da sinceridade, Beg. — Repliquei sem muito humor.

Ela subiu no palco. Suas sandálias gladiadora faziam barulho nas tábuas.

— Basta a gente tirar os olhos de você dois minutos e você desaparece por horas. Estaria tudo bem se fosse uma situação comum, mas você sabe bem que ocasião é hoje. Ele precisa de você.

Eu sabia bem que ela estava certa em tudo que falou. Mas, não era só por ser o certo para todo pólux fazer que eu o faria. Eu tinha princípios mais importantes. Eu não tinha vontade de passar a minha vida agindo como alguém da minha espécie deveria. Simplesmente não era para mim.

— Levi, às vezes parece que você não gosta da nossa companhia. — Ela prosseguiu vendo que não iria proferir uma só palavra. — Sabe, eu reparei que você está se afastando cada vez mais de mim e de todos...

Olhei para ela: seus olhos cintilantes carregavam um sentimento de apreensão. Ela ansiava uma resposta, por mais dura que pudesse vir a ser. Conhecia-a há muitos anos e nunca me arrependi disto. Embora, se estivesse no lugar dela, já teria desejado não ser amigo de um sujeito como eu. Beg falava a verdade ao apontar que eu estava me afastando.

Então, segurei as mãos dela com as minhas e olhei-a no fundo da íris.

— Beg, desde da época que nos conhecemos você sempre foi observadora assim… Mas, isso não significa que você está certa em tudo.

Fiz uma pausa. Silêncio. Ela não disse uma palavra sequer. Mesmo que eu tenha acabado de dar um toque de realidade em suas habilidades, ela não pareceu chateada com isso. Tudo o que ela fez foi dar um suspiro, soltar suas mãos das minhas, resmungar palavras que não fui capaz de discernir e me encarar, como se estivesse me esquecido de algo.

— Enfim, é isso. Você venceu. Seu joguete emocional esgotou o restante das minhas energias. — Admiti. — Voltarei para a salão de encontro.

Foi o que bastou para ela parar de me extorquir com os olhos.

— Levi... — Beg começou a dizer me empurrando para o lado e sentando-se comigo no banco. — Eu entendo que deve ser difícil para você tudo isso… Também me dói um pouco.

Begônias eram tão espinhosas quanto rosas. Ela voltou seu olhar para as teclas do piano e começou a dedilhar a mesma melodia que havia tocado.

— Except when soft rains fall… And drip from leaves that I recall… — Cantou e logo depois me cutucou, esperando que eu continuasse.

Eu não queria. Contudo, ela começou a me encarar novamente com seus olhos dourados brilhantes.

Beg deveria gostar de me torturar. Só podia.

— The thrill of being sheltered in your arms… Of course I do. — Complementei e logo já fugi daquele banco, antes que os sentimentos embriagassem a minha razão.

— Ela gostava dessa música. — Lembrou a garota suspirando com a mente distante.

— É… — Soltei involuntariamente.

Clec, clec… Clec, clec… Clec, clec… Pude ouvir passos se aproximando. Mais alguém chegaria a esse cômodo em poucos instantes.

— Capitu. — Identificou Beg. — Todo mundo se separou para te procurar. Você dá trabalho.

— Eu sei. — Confessei.

— Mas pode ficar aqui mais um pouco e se arrumar. Afinal, quando você for para o salão de encontro, você vai enfim conhecê-lo. Precisa dar uma boa primeira impressão. O que significa nada do estado deplorável em que você está agora. — Afirmou a garota dirigindo-se ao bar e jogando o líquido da garrafa de vinho e da taça pelo ralo da pia que havia lá. “Estraga prazer”, pensei. — Eu vou diz a ela que já o encontrei e que você já está indo para o salão de encontro. E se você estiver me enrolando, prometo que eu venho te levar a força até lá. Você tem exatamente uma hora antes de eu te caçar e te fazer passar vexame.

Para alguém com nome de flor, ela não tinha nada de delicado quando queria. E, com uma batida de porta, voltei a minha própria companhia.

Eu não contei à Begônia, mas não era só por causa dela que eu estava assim. Hugo Davoglio, você não deveria ter entrado neste mundo. Sei que nada mais poderia ser feito em relação a isso. Não há volta quando trata-se de Invisiblia. Entretanto, sendo pó do seu pó, se depender de mim, seu tempo aqui será um pesadelo. Quer queira ou não.

Olhei para minhas mãos, minhas luvas estavam em perfeito estado. Tirei-as com cuidado e as posicionei sobre o balcão do bar. Aproximei-me da pia e enxaguei o rosto. Espelho. Lentamente, fui enxugando o meu rosto com os guardanapos que estavam guardados em um armário próximo.

Meus olhos, antes de um amarelo fosco, estavam reluzentes como ouro, iguais aos da Beg. Triste fato. Isso era um vestígio simples da verdade: meu lux agora estava aqui. Compartilhávamos, neste exato momento, da mesma dimensão. Afrouxei a gravata esticando o pescoço de modo que o pudesse ver sua imagem refletida. De preto, minha marca de nascença transformou-se em dourada. Um coelho dourado. Isso acontecia com todo pólux, claro que comigo não seria diferente, quero dizer, não exatamente a parte do coelho, as marcas de nascença referiam-se ao poder específico de cada um, mas quanto à cor, era sempre a mesma coisa. Amarrei novamente a gravata.

Coloquei uma pastilha de menta na boca, afinal, precisava esconder o odor de álcool. Era incrível como aquele bar estava bem equipado. Com mais alguns toques aqui e ali, estava apresentável. Fiquei de frente ao espelho uma última vez.

“Inspire”, mentalizei enchendo os meus pulmões. “Expire” pensei relaxando o meu diafragma. Precisaria de toda a minha calma para lidar com o que estava por vir.

— Posso não ser um lux, mas agora é a hora de vestir a minha máscara. — Falei comigo mesmo.

Com um passo de cada vez, cheguei na porta. Lá estava eu, ali, de pé, de frente a ela... Tentar atrasar-se para algo que certamente acontecerá não é uma maneira de evitar os problemas que virão, mas sim de sofrer mais do que se precisa. Então, decidido, Apanhei a maçaneta e a girei.

Por mais exuberante que fosse o interior do Alis Noctem, nada neste dirigível conseguia me distrair nesta noite. O céu expunha sua coleção de milhares de estrelas, isso sem ser interrompido por uma nuvem se quer e, mesmo assim, tudo o que eu pensava era no trajeto que fazia para o salão de encontro. Segundo andar, terceira porta depois das escadas do lado direito. Por sorte, a sala de reuniões que eu estava já ficava no segundo piso. Já aproximava-me do local quando reparei em duas pessoas paradas lá de frente.

— Você veio! — Disse Beg com um tom aliviado correndo para me abraçar. Mas, eu, gentilmente, me esquivei. — Nhaaa, você deveria ser mais grato comigo Levi!

Eu sabia que se eu não deixasse ela me abraçar, ela iria ficar me importunando até eu me arrepender disso. Como já teria muitos problemas de agora em diante, seria melhor, pelo menos, tentar evitar ter mais um. Então, deixei que ela se aproximasse. Beg era mais baixa que eu uns vinte centímetros. Seus cabelos levemente roseados cheiravam a pistache.

— Se você não chegasse em dez minutos eu cumpriria a minha promessa. — Ela falou me soltando.

— Então Levi, está preparado para receber o mais novo membro da nossa trupe? — Perguntou a garota que estava ao lado de Beg. Ela era sua lux, Capitu.

— Não, mas tentamos mesmo assim. — Respondi já abrindo a porta, não estava com vontade de conversar mais que o necessário. — Vejo as senhoritas depois.

— Boa sorte. — Despediu-se Capitu enquanto Beg me olhava com uma expressão preocupada.

Certificado-me de que a porta estava fechada. Observei o salão de encontro em busca de algum sinal de vida. Não precisei procurar quase nada. Um pouco mais a frente, próximo a uma das vitrines, estava um garoto me analisando curioso. Eu o reconheceria em qualquer lugar. Hugo.

Aproximei-me cautelosamente dele. Ele não parecia com medo da minha presença. Não recuou mesmo quando eu estava face a face com ele.

— Hugo Davoglio, é um prazer vê-lo pessoalmente. — Disse ajoelhando-me como um cavaleiro beijando uma de suas mãos. — Sou seu pólux, Levi, e estou aos seus serviços, meu lux.

Não havia mais volta.

Notas finais
E então, o que acharam do capítulo? Estão gostando da história? As peças lentamente vão se encaixando. O título do capítulo de hoje é o título de um poema de um poeta que gosto muito Charles Bukowski. E a música mencionada pelo Levi é um jazz do Chet Baker, I Get Along Without You Very Well.