As Faces da Magia
3 Sozinha.
Elizabeth Cox;
Duas horas da manhã. Fome. Frio. Solidão. Saudade.
Fazia exatamente quatro horas que eu tinha fugido do orfanato central de Paris, em busca de uma vida melhor. Eu havia deixado comida, cobertores e amizade pra trás. Motivos? A escravidão, o abuso que eu vivia naquele lugar não tinha tamanho. Eu já estava ficando com medo daquele lugar.
Naquele momento eu estava passando em frente ao restaurante Central Chèrs e meu estômago roncava. A pouca comida que eu havia conseguido afanar já tinha acabado tamanha era minha gula. Atravessei a rua lentamente, tentando fugir do forte cheiro de peru que vinha do restaurante e invadia minhas narinas. Suspirei uma vez e isso só provocou mais dor, minha barriga está praticamente gritando “Estou com fome” para a rua deserta.
Há alguns passos da parada de ônibus, alguns jovens estavam parados, conversando em uma linguagem vulgar, muito pior que os meninos mais travessos do orfanato.
— Ei, garota. — Ouvi um deles chamar e não me atrevi a olhar: já tinha experiência suficiente com suspeitos amigos. Continuei meu caminho, com as mãos dentro da jaqueta esfarrapada que eu havia ganhado do último casal que tinha me visitado. Claro, eu não tinha sido adotada e sim indicada a um psicólogo. Ótimo, isso me deixava muito feliz. Pelo menos eu era a única em alguma coisa naquela prisão domiciliar apelidada de orfanato. – Ficou surda? Eu mandei você vir aqui. – Bradou a mesma voz, interrompendo meus devaneios, e o grupo deu risadinhas debochadas. Arrisquei levantar a cabeça e vi que estava quase perto de outro bar com luzes, onde provavelmente os desconhecidos não iriam. – Vai ser pior pra você. – Ouvi e quando me dei conta, um jovem de 15 anos já me puxava pelos cabelos em direção ao seu beco.
— Me solte! Solte-me! Solte-me!
Ninguém parecia me ouvir e isso me provocou repulsa. Eu era tão insignificante assim? Provavelmente sim.
— Quem é você? Que lugar é esse? – Eu perguntava de cabeça baixa.
— Passa uma grana, sacóe? – Ele mandou.
— Grana? – Eu soltei uma gargalhada irônica. Eu? Grana? Em que mundo ele estava?
— Não ria da minha cara, idiota! – Eu já estava preparando uma coisa bem ofensiva para responder quando senti que ele puxava mais meus cabelos, chegando a machucar. A única coisa a fazer foi gritar. – Entendeu? Nada de rir da minha cara, idiota! Ou nos dê dinheiro, ou apanhe até a morte!
— Não tenho dinheiro...!
— Então vou ser bom com você. – Ele suspirou. Eu pensei por alguns minutos o que era “ser bom” para aquele louco. – Roube comida daquele restaurante, ou... Morte. – Cuspiu ele na minha cara. Senti um cabo frio em minha testa suada e imaginei ser uma arma.
— Está bem, qualquer coisa. – Eu implorei.
Percebi que o garoto estava gostando de ver sua presa do dia sofrer, implorar pela morte. Logo porque tinha seguranças no restaurante, mas minha tese não era essa. Eu fugiria na maior bom vontade, se possível.
— Estaremos de olho. – Perdi minhas esperanças naquela última frase. Ele me soltou com desprezo e eu saí correndo em direção ao restaurante. Arrumei minha roupa. Pelo menos estava limpa e meu rosto angelical facilmente se passaria por uma menina rica que tinha ido pegar alguma coisa no carro dos pais.
Dei algumas passadas e cheguei à porta. Não tinha ninguém na porta, pelo menos era um alívio. Abaixei-me e passei pelas catracas, me refugiando logo em seguida em baixo de uma mesa. Aquilo era impossível, mas ainda dava pra fugir... Pelos fundos.
Olhei por cima do pano de seda negro, onde não seria possível me ver. Suspirei rapidamente, ofegante. Um casal estava vindo em direção daquela mesa. Não! Parem já! Eu queria gritar, mas nem isso eu conseguia. Ainda abaixada, procurei uma brecha quando os mesmo pararam para atender ao telefone celular e me abriguei em um corredor escuro. O cheiro da comida era doloroso e minha barriga dava reviravoltas.
— É melhor sair daí, garota. Onde estão seus pais? — Perguntou uma voz grave. Virei-me e deparei-me com o que parecia ser o chefe do restaurante.
— E-e-eu... Eu só estou perdida. Onde é a saída? Meus pais saíram e me deixaram no banheiro, disseram que estariam na porta de saída dos fundos, mas não consigo encontrá-la. – Terminei, gaguejando no começo. Era uma boa desculpa. Esperei em silêncio que o homem respondesse e ele pareceu indeciso se eu era mesmo uma cliente. Vi seu olhar avaliar minhas roupas com desconfiança e por fim ele assentiu, andando rapidamente até outro corredor que certamente daria para a porta dos fundos. Acompanhei-o com agilidade, e dei um sorriso culpado quando saí na noite, tentando me esconder da gangue que ainda me esperava.
A rua estava deserta, exatamente como há uma hora antes. Eu sorri para isso. Ficar sozinha era bom. Comecei a cantarolar baixinho — meu interior cobiçava um MP3 Player.
De repente senti ainda mais falta do orfanato. Mas como era possível? Aquele local era um inferno e eu certamente daria qualquer coisa para fugir de lá e agora eu estava livre, sem problemas — claro que isso era tirando o fato da guarda tutelar estar me procurando — e ainda estava reclamando. Passei a mão na cabeça e me abracei por causa do frio.
Dei mais alguns passos, procurando uma galeria, uma calçada desocupada, um sinal de alguém que realmente fosse bom e não consegui. A minha única idéia era... Fugir... Para mais longe! Canadá? China? Japão? Brasil? Pensei por alguns minutos e decidi tentar-me auto contrabandear para os Estados Unidos. Um sorriso malicioso se crispou em minha boca e eu assenti para a lua. Estados Unidos... O lugar perfeito para recomeçar.
Minha busca peregrina ainda estava á solta. Qualquer coisa servia. Desde o metrô à estação de ônibus. Qualquer coisa mesmo. Continuei sem olhar para trás ao menos uma vez e quase tive um infarto quando senti uma coisa peluda roçando nos meus pés desprotegidos.
— Aaaai! – Eu havia exclamado e tive certeza de que se alguém estivesse parado duas ruas depois dali teria ouvido. Primeiro porque a rua estava mesmo silenciosa. Segundo porque meu grito havia sido muito alto. O gato havia olhado para mim com olhos pidões e eu acabei o agarrando para me agasalhar em seu pelo fofo. O felino achou meus braços quentes também, então apliquei a frase “Uma mão lava a outra” para aquela ação.
Continuei meu trajeto, agora andando mais rápido com medo de ser pega, até que cheguei à estação de metrô e me pus a observar. Ri dos erros dos policiais, suspirei com a comida quentinha das lanchonetes e fiz careta quando um policial havia ido esmurrar uma pessoa inocente. O gato em meus braços se contorcia e eu sugeri que ele estivesse com fome, mas como soltá-lo sem ter certeza se ele voltaria ou não? Outra coisa importante era dar um nome a ele, assim seria mais fácil; para o entendimento dele e para a minha sanidade.
Um nome... John? Não, muito velho. Anthony? O prefeito não era um gato, disso eu tinha certeza mas homenageá-lo seria uma boa... Não, não seria mesmo. Matthew? Muito grande para um gato. Roll... Humm, Roll era belo e combinava com a expressão “rolar”, o que o pequeno gato sempre fazia.
— Roll! – Eu chamei por seu nome propositalmente, para ver como ele reagia. O gato miou com felicidade, como se soubesse o que eu falava. Então ficaria aquele nome mesmo.
— Desculpe, mas você e se gato parecem famintos. Aceita um suco com biscoitos?
Tentei me acalmar e por um milésimo de segundo tive vontade de sair correndo até o policial e me entregar. Virei-me e dei de cara com um adolescente.
Ele fazia bem o tipo de perfil de qualquer um adolescente francês. Possuía cabelos claros e olhos azuis, com uma pele extraordinariamente branca – não chegando ao ponto de ser considerada anormal, sem dúvidas – e um sorriso estampado no rosto. Precisei de alguns segundos para entender a pergunta e quando me dei conta assenti, a fome estava levando a melhor sobre meu senso de segurança.
O garoto balançou a cabeça em direção a uma das cafeterias do metrô e o jeito foi segui-lo. Eu andava com passos rápidos, preparada para o que acontecesse. Assim que entrei no ambiente eu não pude deixar de ficar parada no portal de carvalho. Como aquilo podia estar abeirado com um metrô popular? O espaço era enorme, o piso era de madeira e as pequenas mesinhas de quatro assentos eram revestidas de pequenos filetes de bronze. Olhei para o garoto, pasma, e sua expressão foi a de alguém que não estivesse entendendo. Fiz uma careta e ele me retribuiu com um sorriso. Ora, era só isso que aquele desconhecido sabia fazer? Isso me irritou, e saindo do estado de transe, eu andei alguns passos com Roll ronronando em meus braços quentes.
— Sente-se. — Ele disse.
— Eu ficaria mais feliz sabendo quem você é. – Falei sem dó. Percebi que isso o magoou, afinal, ele estava querendo ajudar e a coitadinha ali era eu. Eu sabia que ele estava se questionando se eu estaria sendo irônica e ingrata. – Não é nada pessoal, quer dizer... Por segurança e ignore meu tom ridículo. – Continuei, sem graça. Ele pareceu entender – um pouco –, porque deu um sorriso torto e abriu a boca para falar, provavelmente procurando as palavras certas para não me assustar.
— Seth Campbell, muito prazer em conhecê-la. – Analisei o estranho por alguns segundos e decidi que ele não estava mesmo mentindo. – E a senhorita? – Perguntou o mesmo, mostrando uma calma e ingênua curiosidade.
— Elizabeth Cox. – Foi só o que consegui dizer. Não duvidei que ele perguntasse mais e por isso abaixei a cabeça. Senti meu estômago roncar por baixo do casaco e Roll se mexer. Eu estava deveras faminta e quando mais precisava de alimento, ele não vinha. Bufei.
— Ah, claro. Apresentações para depois, primeiro a alimentação. – Percebi que ele falava brincando e não pude deixar de levantar a cabeça para conferir. Quando meu olhar pousou sobre a cadeira dele levei um leve susto, pois a mesma estava vazia. Só depois que vasculhei bem o afortunado bar que percebi que o garoto estava posicionado por cima do balcão, talvez pegando a comida.
— Come fritas? – Ele perguntou.
— Batata frita? – Perguntei para conferir e percebi que estava sendo idiota. Seth pareceu concordar com meus pensamentos e balançou a cabeça, talvez procurando uma mínima fração de paciência.
— Sim, batata frita, fritas, tudo é a mesma coisa. Então? – Ele insistiu. Assenti calmamente, qualquer coisa servia. – E um... Café? – Ele tentou adivinhar. Fiz uma careta e aceitei, enquanto meu interior gritava por não. – Não precisa comer o que não gosta, aqui tem suco. — Ele estava tentando me ajudar e eu percebi isso quando assenti novamente para a palavra suco.
Seth encaminhou-se até o balcão e deixou o pedido. Cinco minutos depois ele voltou com os meus desejos. A batata frita me convidava ao mundo das calorias e eu facilmente me entregaria. Seu cheiro era irresistível e eu conseguia sentir como era quente. O suco estava ao inverso, tirando ao fato de também estar indispensável. Sua temperatura era gelada e o doce gosto do morango me fez suspirar. Agarrei os canudos com ferocidade e engoli tudo com a maior rapidez possível, pouco me importando que metade do bar estivesse me olhando.
Terminei meu lanche ‘básico’ e olhei em volta. Lembrando-me de Roll, o que chamou a atenção de Seth para minhas mãos e em seguida para sua jaqueta, de onde tirou ração para gatos.
— Bichano, vai ganhar lanche. – Ele dizia como um débil para o gato em minhas mãos.
— Roll é nome dele. – O corrigi sutilmente.
— Pois bem, Roll. Comida, comida. – Ele estava chamando o gato como uma mãe coruja e isso me provou um belo acesso de risos. – Por que está rindo? – Perguntou enquanto o felino pulava dos meus braços e ia para os braços dele, atrás da comida.
— Você até que é engraçado, trata o gato como se fosse gente. – Apressei-me para explicar.
Seth pareceu ofendido porque fez uma careta e balançou a cabeça negativamente, como se o gato fosse mesmo gente. Não pude deixar de me conter e ri mais uma vez, dessa vez chamando a atenção da senhora que estava sentada próximo da nossa mesa.
Enquanto eu balbuciava desculpas irônicas, o bichano comia toda a ração como se fosse se sua vida, e pensando bem, era sua vida. Seus dentes afiados mordiam os pequeninos pedaços do alimento que estavam nas mãos do garoto, com tanta voracidade que chegou a ponto de mordê-lo.
Seth ria das minhas gargalhadas e eu me senti estranhamente anormal naquele momento. Constrangida, me recompus e após Seth ter pagado a conta e dito que era pra esperá-lo, fiquei na porta do bar com meu pequeno “bola de pêlos.”
— Voltei Elizabeth. – Ele disse e nesse momento e lembrei que estava perto de uma pessoa que nem conhecia direito. Quando olhei para ele seus olhos ameaçavam sumir de tão largo que era seu sorriso. – Desculpe se esqueci de me apresentar, mas como eu já disse, sou Seth Campbell e... Bem, é difícil explicar... Mas... Você... Você... Pareceu meio que perdida e eu resolvi ajudar.
Eu ri enquanto ele ficava ruborizado e tentei o acalmar, contradizendo todos os meus princípios sobre não falar ou aceitar comida de estranhos.
— Eu já tinha visto você na rua do colégio Olímpio Vertè. Estuda lá? – Ele falou, tentando puxar assunto.
— Estudava. – Corrigi.
— Seus pais lhe tiraram?
— Sou órfã e fugi de um orfanato, agora estou tentando me contrabandear para os Estados Unidos e você está me dando todo o motivo para acreditar que estou encontrando o comparsa perfeito. – Seth arregalou os olhos e tentando não provocar no garoto um ataque, continuei. — Hum, eu não pretendo ter sua ajuda, isso foi só uma brincadeira.
— Claro. Por incrível que pareça eu estou aqui de férias e sou naturalizado americano. Moro lá com meus pais. E... Posso levá-la comigo sim. – Suas palavras soaram com música para meus ouvidos e antes mesmo dele mostrar seu velho sorriso, eu já estava agarrada em seu pescoço, lhe abraçando de felicidade. O dia estava sendo tão fácil... Eu tinha medo que mudasse.
Depois de Seth ter se recuperado do susto daquele abraço imprevisível, nós caminhamos um bom pedaço até as catracas, onde o pai dele esperava com o rosto sério.
— Pai, essa é Elizabeth Cox, e bem... Ela é uma velha amiga minha por ventura encontrei hoje e olha só... Ela perdeu o dinheiro para embarcar no trem, podemos levá-la junto? – Ele perguntou para o senhor, praticamente implorando e se jogando aos seus pés.
Eu o olhei com desconfiança, mas assenti a sua história, sobressaltando-me quando a voz rouca do senhor Campbell anunciou:
— Mas é claro, senhorita Cox! — Ele falou agora se dirigindo a mim. Eu sorri com uma verdadeira felicidade fluindo de dentro de mim. O senhor abaixou a cabeça e olhou para o gato em minhas mãos. — Muito bonito, vai levá-lo junto?
— Sim, sim. Esse é Roll. — Apressei-me a dizer com certa apreensão.
— Claro, então pegue suas passagens e entrem. — Ele disse para mim e para seu filho e assim fizemos, passando pelos espaços estreitos da locomotiva até pegarmos dois bancos confortáveis. Roll se aninhou em meus braços, soltando seus pêlos de uma maneira assustadora de modo que minha camiseta ficou coberta pelos mesmos.
Seth se remexeu e me arrependi de ter chamado-o, mas já era tarde demais, pois enquanto minha mente lenta pensava nisso, ele já me olhava com os olhos inchados e a boca amassada, que se abria e fechava, dizendo:
— Eu estava dormindo, pelo menos há um minuto, eu estava. Você me acordou e obrigada por isso, eu sempre quis ficar sonolento o resto da manhã e tudo isso por causa de uma pequena louca que encontro na rua. – Seu tom era irônico e eu resmunguei:
— Se não quer me levar, não leve. Pode não parecer, mas tenho capacidade suficiente de sair desse trem e procurar ajuda em outro lugar, ou melhor, viver na rua... Aaaah, meu maior sonho! — Falei com a mesma aspereza e ironia que pude encontrar no meu íntimo, e isso não significava pouca coisa.
— Cala a boca, retardada! — Ele disse rindo e jogando um travesseiro em mim. Não pude me conter e soltei uma gargalhada estrondosa na repartição silenciosa. Todos pareciam imersos em seus sonhos, porque nada nem ninguém se mexeram, tudo ficou como estava antes. Até Roll continuou dormindo tranqüilo.
— Olha só quem fala. — Ironizei mais uma vez com o olhar de uma nerd que vaga os olhos por um livro um tanto interessante enquanto escorre baba de sua boca.
— Huum, quero dormir, é sério, Beth. Até amanhã. — Ele disse com a voz arrastada, virando-se para o outro lado completamente sonolento.
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