As Estações

6 Primavera — Capítulo Seis: O último tilintar


Notas iniciais
Depois de passar por momentos difíceis na estrada, Scott tem um sonho com Jack. O dia que fora programado para ser uma distração para os dois, acaba se tornando em um terrível pesadelo. A primavera está chegando ao fim, assim como as barreiras que separavam Scott de Jackson.

"Estávamos nós três em cima de uma cachoeira — Nico, Jackson e eu — usando somente bermudas. Nico não queria pular, e muito menos Jackson. Eu estava rindo de alguma coisa que eu não sabia, e eles riam também. O ruivo perguntou se eu iria pular, e eu disse que não. Então Nico perguntou se eu queria que ele pulasse. Assenti com a cabeça e dei um longo sorriso, esperando ele saltar da cachoeira. O ruivo se preparou, saiu correndo e pulou, caindo no fundo rio. Lá de cima eu o vi na água, nadando para a superfície. Ele gritou meu nome, e eu acenei. Jackson me abraçou por trás, segurando em minha cintura. Ele estava rindo e eu também. Ele segurou em meu pescoço com força, girando meu rosto para perto do dele. Roçou a sua boca contra a minha, e me deu um beijo forte. Suas mãos apertavam meu corpo, e seus braços fortes me deixavam sem ar. Ele parou o beijo repentinamente, me empurrando na cachoeira abaixo. Eu caí, mergulhei até o fundo do rio e voltei para a superfície. Sorrindo, olhei para cima e vi uma cena que jamais me esquecerei: Jackson beijando outro rapaz. Eu arregalei os olhos e me aproximei. Eu fiquei surpreso ao ver que o outro rapaz era eu, e agora eu estava tirando a bermuda do loiro. Pude ver quando Jack puxou o meu clone pelo pescoço, esfregando o seu corpo no dele. O outro Scott, estava sorrindo e Jack também. Eu estava confuso, e aquilo se estendeu por alguns minutos. A felicidade de ambos acabou quando Scott empurrou Jack na água, que caiu com uma feição nada amigável. Eu mergulhei no rio novamente, procurei por Jack lá no fundo mas não o encontrei. Tentei voltar para a superfície, mas algum tipo de barreira me impedia. Não conseguia respirar. Ao fundo do rio eu vi Jack completamente nu. De todas as partes do seu corpo saía um líquido escuro, e eu demorei algum tempo para perceber que aquilo era sangue. Não demorou para o líquido tomar conta de toda a água do lago. Tentei sair dali, mas ainda não conseguia voltar. Eu comecei a gritar dentro do rio, foi quando minha boca encheu de água e senti o gosto ferroso do sangue de Jack. Minhas vistas escureceram."

Eu dormi a viagem inteira, o guincho nos levou em segurança até a cidade. Acordei deitado no banco de trás de um carro, que pelo cheiro e estofado, arrisquei a pensar que era o de Jackson. E eu tinha acertado, pois ele estava ali, parado atrás do volante. Sentei-me e ele olhou para mim, dando um sorriso com o canto da boca.

— Quantas horas são? — perguntei, esfregando os olhos.

— Agora são três horas da manhã, Scott. — ele respondeu, olhando no seu celular.

— Três horas? Por que você não me acordou? — Perguntei, levantando as sobrancelhas. Eu precisava estar dormindo. Já era sábado, e eu trabalharia no Laurence Grill naquela noite.

— Porque depois daquilo, eu imaginei que você precisasse descansar um pouco. Chegamos aqui uma hora da manhã, e eu fiquei esperando você acordar. Até coloquei música, mas você continuou dormindo.

Eu o encarei, impressionado. Como o carro de Jack não tinha uma porta traseira, passei para o banco do passageiro e pedi para que ele abrisse a porta. Jack me encarou por alguns segundos, e eu podia jurar que ele estava olhando para minha boca. Ele abriu a porta, e eu saí correndo dali. Precisava dormir o mais rápido possível, e já estava passando da hora. Antes de entrar em casa eu parei, olhei para trás e vi que Jack estava cabisbaixo. Eu tinha sido insensível, e precisava reparar aquilo.

— Ei, Jack! — gritei, colocando a mão na boca em forma de concha — Vá até o Laurence Grill esta noite, eu vou estar te esperando.

Jack assentiu com a cabeça, e um alívio caiu sobre mim. Ele não disse nada, acelerou o carro e desceu a rua. Por algum motivo eu sentia que tinha feito algo de errado, ou esquecido de fazer alguma coisa. De qualquer forma, Jack já tinha ido embora e eu teria que resolver isso mais tarde.

O dia amanheceu e eu estava completamente cansado. Sentia como se alguém tivesse amarrado tijolos nas minhas costas, pois não conseguia me levantar da cama. Virava para um lado e para o outro e me recusava a acreditar que Jack tinha me deixado dormir no banco de trás do seu carro. Olhei no relógio e vi que já eram quatro horas da tarde. Fiquei admirado com a minha capacidade de dormir por tanto tempo. Pulei da cama e corri para o banheiro. A água estava absurdamente fria, e eu não entendi o motivo. Saí do banheiro com uma toalha amarrada na cintura, shampoo no cabelo e sabão pelo corpo. Fui até a escada e liguei o interruptor que ficava atrás dela. Um pequeno estouro se estabilizou ali, e eu dei um pulo para trás. Sorte a minha que estava usando chinelos, ou teria morrido eletrocutado ali mesmo. E meu medo não era morrer eletrocutado. Ela morrer eletrocutado e pelado. "MAS QUE ÓTIMO”, pensei. Voltei para o chuveiro e terminei o meu banho.

Havia vestido uma bermuda, e estava sem camisa. A TV de plasma permanecia ligada, embora ninguém estivesse na sala. Eu estava na cozinha com uma tigela de cereal com leite, e o baú de dona Hera em cima da mesa. Eu não tinha tocado naquela mistura, e minhas mãos estavam manuseando o artefato antigo que agora era meu. Era de tamanho mediano, e tinha escrituras em latim nas suas laterais. Sua cor estava deteriorada, como se tivesse passado anos e anos recebendo constante radiação solar e chuva. Eu expressava o olhar de uma criança curiosa, girando o objeto para ver todos os seus cantos. Sacudi-o, mas este não fez nenhum barulho. Deixei de lado e comecei a comer, terminando a refeição alguns minutos depois.

Eram seis horas da noite, e eu tinha acabado de chegar em meu local de trabalho. Fiquei imaginando no que Jack teria pensado quando eu o abracei naquela rodovia. Ele se mostrou tão frio quanto o inverno, e naquele momento eu estava com medo de ter assustado o garoto. Eu só não me aprofundei nos meus pensamentos porque a grande placa brilhante chamou minha atenção. As luzes vermelho com amarelo destacavam as bordas daquela placa quadrada. Uma garrava de cerveja ficava no lugar da letra "I", na palavra Grill. Caminhei até a entrada, abri a porta e adentrei o local. Era como qualquer típico bar. Paredes de madeira e pouca iluminação. Uma pista de dança pequena ficava a direita, perto de um toca-discos antigo. Luzes neon azul indicavam o banheiro masculino enquanto uma luz rosa sinalizava o banheiro feminino — embora o bar não fosse frequentado por garotas com tanta frequência. A porta de entrada tinha uma espécie de sininho, tilintando todas as vezes que alguém entrava ou saía, fazendo um barulho irritante. Gerardo Budowski, meu chefe, estava arrumando as mesas e as cadeiras. Ele me cumprimentou com um abraço caloroso, e eu segui até o banheiro do estabelecimento. Lavei o rosto e arrumei, ou baguncei, o meu cabelo. Uma das coisas que eu mais gostava naquele emprego era o salário, e também o fato de eu não precisar usar uniforme. Voltei para o interior do estabelecimento e encontrei a senhora Budowski trazendo sacolas de compras em suas mãos. A mulher me cumprimentou me chamando de Mascott, um apelido "carinhoso" que sua filha mais nova tinha me dado. Ela era a nossa cozinheira, fazia os hambúrgueres, asinhas de frango apimentadas, batata frita, cebola defumada, tacos e tudo aquilo que dá diabetes e pressão alta. Eu era bartender, mixólogo e atendente. Fazia de tudo um pouco, e isso era bom, pois eu me sentia totalmente útil.

As pessoas começavam a chegar e eu já estava detrás do balcão, limpando os copos americanos com um pano. Ficava cinco minutos esfregando cada copo, assim como Gerardo havia me ensinado. Alguns homens ficavam observando os meus movimentos, como se eu estivesse dando aulas. A senhora Budowski me disse uma vez que a maioria das esposas só deixavam os homens irem para o bar se caso lavassem a louça de casa, e eles me usavam como professor, já que não sabiam lavar nem as próprias mãos. Isso explica muita coisa.

No relógio do Grill já marcavam oito horas da noite, e Jackson não havia chegado. Talvez ele não viesse. Por que ele aceitaria o convite de um garoto que até agora só soube lhe causar problemas? Eu fiquei pensando nisso por algum tempo. Lembrei-me daquelas duas longas semanas que se sucederam depois que Nico tinha ido embora. O quanto Jack foi legal comigo, e como eu o ignorava. Ele tentava uma aproximação amigável, e eu recusava. "Talvez ele tenha soltado os ratos para chamar minha atenção", pensei. Não. Eu não podia ser tão importante assim para ele. Ou talvez fosse, porque no exato momento em que eu conversava sozinho, ouvi o tilintar dos sinos, e avistei Jack entrando pela porta com uma jaqueta escura, calça justa e um sapato fechado. As mangas de sua jaqueta estavam puxadas para cima até a altura de seu cotovelo, seu cabelo estava penteado para trás e aquilo o deixava tão...

— Eu vou querer essa daqui... Olhos flamejantes, por favor. — disse Jack, apontando para o cardápio.

— Tem efeito rápido. Você fica animadinho, depois fica péssimo, até que finalmente volta ao seu estado normal — avisei.

Eu o encarei seriamente por alguns segundos, e depois sorri. Ele riu, se sentou em um dos bancos que ficavam em frente ao balcão e repousou seus braços ali. Era incrível como ele conseguia ser bonito de qualquer forma. Eu o odiava por ser daquele jeito. O odiava fazer eu me interessar por ele, e o odiava mais ainda por não saber se aquele sentimento era recíproco.

— Você veio mesmo. — eu disse.

— Claro, por que não? — Jack respondeu.

Eu ainda estava limpando copos, pensando no porque eu havia chamado Jackson para ir até lá. Eu não tinha assunto, eu era péssimo quando a matéria era puxar assunto, ainda mais quando se tratava dele. Ainda tenho trauma da primeira vez que tentei começar uma conversa com aquele garoto. Levei uma patada tão forte que está marcada até hoje. Mas são águas passadas, pois agora éramos próximos. Sorri e fui preparar a bebida que ele havia pedido. O Laurence Grill era o único lugar perto do colégio que vendia bebidas para menores. Jack e eu tínhamos dezessete anos, e era expressamente proibido o consumo de bebida alcoólica. Mas quem ligava? Isso mesmo, ninguém. Entreguei-lhe a bebida e fui atender outro cliente.

— Você não disse nada depois que o guincho chegou — eu comentei, pegando o dinheiro do senhor barbudo, lhe entregando o troco junto com um copo pequeno de uísque com limão. — Por quê?

Jack terminou sua bebida e fez um barulho com a boca, seguido de uma careta. Ele bateu com o copo em cima do balcão e ignorou minha pergunta.

— Mais uma! — ele gritou.

Eu o encarei. Ele me olhou de volta e entrelaçou os dedos no cabelo, sacudindo de um lado para o outro. Conseguiu ficar ainda mais bonito com o cabelo bagunçado. Depois disso eu o servi.

— Tome e me responda. — pedi, entregando o copo em sua mão.

Ele bebeu o líquido vermelho claro e fez uma careta ainda pior. Respirou fundo e pediu mais uma dose. Eu o servi mais uma vez, repeti minha pergunta e ele não me respondeu. As horas se passaram, e eu já tinha perdido a paciência com Jack. Ele não conseguia mais pedir bebidas, pois estava debruçado no balcão, resmungando. Eu me virei para lavar o seu copo e ouvi um grunhido.

— Mais... um... pouco...

A voz de Jack estava irreconhecível. O som do "S" parecia mais como um "J" estendido. Como se ele falasse "Maijjjjj". Eu até pensei que ele estava brincando com a minha cara, por isso o ignorei por alguns segundos. Peguei a louça suja de uma mesa e voltei para detrás do balcão.

— Seu amigo tá acabado. — disse a senhora Budowski, apontando para Jackson, que agora estava brincando com palitos de dente.

— Olhos Flamejantes — afirmei. Coloquei os pratos sujos na pia e liguei a torneira. — Você precisa ver quando ele está sóbrio.

— Vamos, traga ele pra cá. — ela riu, dando leves tapinhas em meu ombro.

Eu fui até Jackson e tentei tirá-lo do banquinho, mas ele insistia em não querer levantar. Fiz de tudo que pude. O chamei com comida, pedi ajuda para Gerardo e alguns homens bigodudos e nada. Depois de várias tentativas, consegui tirá-lo dali, atraindo-o uma garrava de uísque vazia. Ele mesmo se levantou, usando o balcão como apoio para o seus braços. Derrubou a maioria das coisas que estavam lá em cima, e quando eu tentava me aproximar ele batia em minhas mãos. Fui andando de costas até a parte traseira do balcão, abri a portinha e finalmente coloquei Jackson sentado no chão. Os homens que antes observavam a cena, agora voltavam a jogar sinuca. Eu estava feliz por ter tirado ele daquela situação, pois agora estava calmo e seguro.

— Me....... dá...... essa... porra

Jack apontava para uma garrava de uísque cheia. Eu o ignorei, empurrando sua mão com o meu pé. Ele dobrou os braços e fez um bico. Ficou ali naquele canto, emburrado como uma criancinha.

Eu tinha ido até a cozinha ajudar a senhora Budowski a preparar um macarrão — que era minha especialidade — quando ouvi o tilintar dos sinos da porta. JACKSON! Eu havia o deixado sozinho, e só agora tinha me lembrado. Provavelmente ele tinha saído do bar, e se algo acontecesse com ele eu nunca me perdoaria. Larguei tudo o que estava fazendo, e ao abrir a porta da cozinha, avistei Jackson sentado no mesmo canto em que eu havia o deixado. Olhei em direção a porta e avistei três homens. Eles estavam armados.

Me abaixei rapidamente e engatinhei até onde Jack estava, fiquei ao lado do loiro que agora estava rindo. Eu coloquei a mão em sua boca, mas ele me mordeu. Eu pedi para que ele ficasse em silêncio, e ele deitou sua cabeça em meu ombro, murmurando algo. Ficamos ali, parados.

— É o seguinte, entreguem todo o dinheiro e ninguém morre. — um deles disse.

Meu coração disparou a mil, eu não conseguia pensar e muito menos falar nada. Eu agasalhei Jackson com meus braços e o apertei junto a mim. A madeira do chão denunciava que alguém estava se aproximando do balcão, fazendo um barulho perturbador. Então eu puxei Jackson para detrás das caixas de bebidas. Ele não queria no começo, mas depois ficou quieto. Eu pedi para que ele entrasse no pequeno quartinho onde guardávamos os vinhos, e ele me obedeceu. Jack se arrastou para dentro e fechei a porta, para que ele não saísse. Por sorte ele não fez nenhum barulho.

— Aí garoto. — uma voz rouca e grossa ecoou atrás de mim, e eu fiquei menos tenso, pois Jackson estava a salvo.

Virei-me calmamente, e avistei um homem gordo e barbudo. Ele apontava uma pistola para mim. Eu nunca me senti tão vulnerável na minha vida. Olhei pela janelinha que ficava pouco acima de mim, e vi a senhora Budowski apavorada. Ela tinha alguma coisa nas mãos.

— O q-que? — eu perguntei, tentando não gaguejar, mas era quase impossível me controlar.

— Levanta devagar e passa toda a porra desse dinheiro antes que eu estoure a cabeça de alguém. — ele completou, cuspindo no chão ao terminar a frase.

Eu me levantei com calma, rezando para que Jackson não saísse daquele quarto. A arma do homem acompanhou minha cabeça, desde o momento em que eu estava chão até eu ficar de pé. Agora eu conseguia ver a situação do local. Percebi que a música tinha parado, e era substituído por alguns choros. Vi o segundo homem lá atrás segurando Gerardo por trás, com uma faca perto de pescoço. Eu estava apavorado. Meus músculos estavam duros como pedra, não conseguia me mover. O terceiro dos bandidos mirava uma arma para a cabeça de uma mulher.

— C-calm-ma, eu vou p-pegar tud-do. — tentei dizer.

— Para de gaguejar seu frangote, antes que perca a paciência com você e enfie essa arma na sua boca.

O lugar agora estava silencioso, e não havia movimento na rua. O único som que eu conseguia ouvir eram as batidas do meu próprio coração se acelerando a cada passo que eu dava. Eu queria chorar, mas se ele já tinha se irritado com meu jeito de falar, imagine o que faria se eu começasse a me lamentar. Abri a gaveta onde guardávamos as maiores notas, e joguei todas em cima do balcão. Tinha por volta de mil e setecentos reais ali.

— P-pronto.

O homem pegou o dinheiro e colocou dentro da cueca. Eu quis vomitar. Fiquei parado, com as mãos para cima. Estava completamente rendido. Eu me lembrei do dia em que meus pais morreram. Em como o carro caiu daquela ponte, e em como eu consegui escapar e eles não. Eu tinha sido covarde, e estava sendo covarde outra vez. Mas era uma covardia sábia.

— EU DISSE O DINHEIRO TODO, SEU FILHO DA PUTA. — ele deu um tiro para cima, estourando uma lâmpada que se estilhaçou em vários pedacinhos. Alguns deles caíram sobre meu rosto, causando pequenos cortes.

Tirei o dinheiro do meu bolso e entreguei para o homem. Vi que as pessoas ali presentes estavam fazendo o mesmo, entregando seus pertences para os bandidos. Eu abaixei a cabeça, entreguei meu celular e fiquei parado. O homem se virou e resmungou alguma coisa para o outro ladrão. Eu tinha um pingente, que minha mãe havia me dado no meu aniversário de 3 anos. Eu nunca me perdoaria se o perdesse. Aproveitei que ele não estava olhando e tentei escondê-lo, colocando-o dentro da minha camisa. O homem se virou segundos depois, me olhando com uma cara desconfiada. Ele não disse mais nada, apenas me pegou pelo pescoço, puxou o pingente dali e bateu minha cabeça contra o balcão. Não desmaiei, mas eu desejei muito ter perdido a consciência naquele momento. Eu preferia perder a vida a perder aquele pingente. Ele cuspiu em meu rosto e saiu andando. Eu me abaixei, me segurando para não chorar. Eu precisava de outro abraço, de um abraço como aquele que Jackson havia me dado na beira da estrada. Nesse momento Jack saiu da sala, de pé. Os efeitos da bebida "Olhos Flamejantes" estavam passando, e ele parecia bem. Eu sussurrei, pedindo para que ele se abaixasse. Mas ele não quis me ouvir. Ele carregava uma garrava de cerveja nas mãos, e nesse momento meu corpo gelou. Jack saiu correndo e pulou o balcão, eu não pude ver nada. Eu ouvi o barulho de uma garrafa quebrando, um homem gritando e logo em seguida um tiro. Eu me levantei imediatamente, procurando Jack. Ele estava deitado sobre o homem. Vi quando a senhora Budowski saiu da cozinha com uma espingarda nas mãos. Ela atirou contra os outros dois, mas conseguiu acertar somente a perna de um deles. O outro fugiu. Eu empurrei todas as coisas que estavam sobre o balcão, pulei o mesmo e fui até Jack. Ele estava de bruços sobre o bandido que roubou meu colar. Eu o virei para cima e vi uma macha de sangue saindo de sua barriga. Eu caí sobre seu corpo e comecei a chorar como uma garotinha. Não conseguia ouvir mais nada, estava entorpecido. O senhor Budowski imobilizou o meliante, que tinha metade da garrafa de cerveja cravada em sua barriga. Eu estava ajoelhado no chão sujo do bar, com Jack desacordado em meu colo. Balançava para frente e para trás, chorando como nunca. Eu só não queria acreditar.

Curiosos cercavam o bar. Eu estava sujo, com manchas de sangue pelos mãos e camisa. Meus braços cruzados em frente ao meu corpo demonstravam a minha não vontade de conversar. Eu não queria falar com ninguém. Uma ambulância e várias viaturas policiais estavam paradas em frente ao estabelecimento. Meu choro tinha cessado. Um policial me fazia perguntas, mas eu não respondia nenhuma dela. Eu queria Jack naquele momento, e eu queria já. Deixei-me cair no chão e abracei meus joelhos. Estava ali, me torturando por tudo que tinha feito de errado nos dias anteriores. Vi quando um paramédico se aproximou de mim, com um olhar desanimador.

— Tome, encontramos isso com o garoto — disse ele, me entregando o pingente que o bandido havia roubado de mim.

Eu o peguei, e agora me sentia ainda mais culpado. Jack tinha feito aquilo por mim, e agora ele estava dentro de uma ambulância. Eu o empurrei abismo abaixo. E agora que eu não o tinha mais, eu me sentia sufocado, não podia respirar. Procurava uma superfície mas não encontrava nada, como no meu pesadelo. Eu tinha nojo de mim mesmo, tanto nojo que corri até o beco mais próximo do bar e vomitei. Jackson nunca me perdoaria, e eu também não.

Notas finais
Gostaram? Eu gostei bastante. Me desculpem os erros ortográficos, e me perdoem se caso eu tenha escrito alguma palavra e/ou frase sem sentido. Eu prometo que vou ajeitar. Deixem seus comentários, não arranca pedaço. Amo vocês. s222