As Duas Versões de Você
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Ling Chao estava com a cabeça em um lugar bem distante naquele dia. Nem mesmo as aulas de expressão corporal, que eram suas favoritas, tinham-no desligado de seus problemas pessoais.
Não era uma pessoa que fica remoendo o que sente, mas as coisas pareciam tão mais complicadas daquela vez, e ele não sabia o que fazer se não se deixar ser embalado por aquelas emoções conflitantes.
E a vida parecia querer brincar consigo, de qualquer forma. Quando mais queria se manter longe da empresa – e longe do seu problema – uma apresentação importante tinha que aparecer e fazer com que ele não pudesse apenas fugir.
Seu problema... Pensar em Lunie daquela forma o fazia querer se bater, porque era idiota, mas também era uma forma dela ser “dele” de algum jeito.
Seu coração falhou uma batida quando o celular vibrou ao seu lado. Ele se vingaria de Mu Ziyang por assustá-lo daquele jeito, mesmo sabendo que o mais velho não tinha culpa.
— Yang-ge! O que foi?
— LaoYue pediu pra eu te ligar e saber se já está vindo pra cá. – típico. YueYue era mesmo como uma mãe para ele e não sossegava quando ele precisava passar horas na van, indo para a universidade ou para a empresa.
— Ainda não. Eu terminei de organizar a roupa suja, que tenho que levar pra lavar, e tô esperando o Bowan chegar. — ele não queria soar sem educação com seu amigo, mas estava bastante inclinado a interromper a ligação, já que falar com Mu Ziyang o lembrava do relacionamento dele com Lunie. – Eu acho que vou tomar um banho antes que ele chegue. A gente se vê daqui a pouco.
— Espera! – Mu Ziyang conhecia Ling Chao como a palma de sua mão. Não era uma percepção como a de YueYue, que era como a segunda mãe do menino, mas sabia que estava sendo ignorado. E também sabia o motivo. – Eu preciso te falar uma coisa importante. – Ling Chao engoliu seco, ouvindo o barulho de uma porta sendo fechada e sabendo que Mu Ziyang agora estava sozinho, em um lugar fechado, o que só comprovava que o assunto era sério. – Eu não queria te contar isso por telefone, porque não acho certo. Na verdade eu não acho certo eu ter que contar alguma coisa, como se fosse realmente o fim do mundo, mas eu sei que preciso. Porque você é um lerdo que entendeu as coisas totalmente erradas e está chateado comigo por algo que não tem o menor sentido.
— Quem disse que eu tô chateado com você? É lógico que não. – não era totalmente mentira. Sua chateação era com a situação em si e não com o mais velho.
— Por favor, Li Ying Chao, eu não sou idiota. – a voz nervosa calou o mais novo, que esperou que Mu Ziyang continuasse a falar. – Eu sei que gosta da Lunie e que sua cabeça de vento inventou e acreditou que eu e ela estamos namorando. Isso não é verdade.
— Eu não tenho cabeça de vento. – Ling Chao resmungou, como uma criança querendo retrucar com os pais, mesmo estando errada. – E eu nem fui o único que pensou isso. Sem contar que isso pode não ser verdade agora, mas...
— Eu sou gay, Ling Chao. Não tem como eu e Lunie termos nada porque eu sou gay, entendeu? – a frase cortante, e dita em um tom alto o suficiente para fazer com que Ling Chao se calasse, não teve resposta, então Mu Ziyang decidiu que continuaria falando. – Eu queria ter te contado antes, mas... Mas eu achei que fosse me tratar diferente. Você é como se fosse meu irmão e sei que sua família repudia pessoas como eu. – a voz, entes firme, naquele momento começava a vacilar. – Depois que você virou amigo do YaoChi e disse que estava bem com ele ser gay também, eu pensei que devia me abrir com você, mas as coisas são tão complicadas. Você é uma criança complicada.
Ling Chao estava em choque. Seu amigo tinha escondido uma parte dele para que não corresse o risco de perdê-lo em sua vida, enquanto Ling Chao se comportava como um egoísta, se escondendo e evitando Mu Ziyang por uma coisa que nem era verdade.
— Você devia ter me dito, Yang-ge. Eu nunca te trataria diferente. – sua cabeça parecia dar voltas com a nova informação, mas ele nem teve muito tempo de fazer qualquer comentário, já que Mu Ziyang arrumou um jeito de encerrar a ligação, alegando que tinha outra coisa para fazer. – Chato... – falou para o celular, já sem ninguém do outro lado da linha.
Se seu coração tinha se descompassado quando recebeu a ligação, naquele momento ele estava disparado com as coisas que se desencadeariam ao saber de uma informação tão pequena.
Mu Ziyang não gostava de garotas, então ele e Lunie não ficariam juntos. Aquilo queria dizer que ele ainda tinha uma chance? Mesmo que ela gostasse de Mu Ziyang, Ling Chao poderia tentar conquistá-la, certo?
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— Você pode ter doutorado no que for, mas eu ainda sei mais de mitologia grega do que você. – Raquel resmungou, rabiscando em um papel sobre o assunto que conversava com YueYue. – Por exemplo, você sabia que o mito sobre Órion que você contou naquele vídeo em que fala sobre a topografia da Nova Zelândia tem mais de uma versão? A que você contou é a minha preferida, mas tem algumas que fazem referência à constelação de escorpião.
YueYue estava do outro lado da mesa, tomando café e rindo do quanto mais rabugenta Raquel se tornava quando estava com sono.
— Você nem falava chinês quando eu postei esse vídeo, como sabe qual versão eu contei? – ele se arrependeu da pergunta quando ela o encarou com uma expressão de poucos amigos.
— Por favor, eu conheço esse mito de cor e salteado, quando você começou a contar eu só prestei atenção. – ela bocejou e encarou a caneca vazia em sua frente, visivelmente em uma luta interna se deveria ou não se levantar e pegar mais café. YueYue pareceu se apiedar dela e fez o trabalho duro de servir mais café para ambos. – Você sabe que eu te amo, né? – ela tomou um gole do líquido escuro e fumegante, nem dando atenção pro choque na expressão de YueYue por uma declaração tão espontânea e inesperada.
— Você... Você... – ele gaguejou e ela pareceu se dar conta do que tinha dito, não demonstrando constrangimento, mas sim rindo sem se conter.
— Eu tava falando com o café. – o sono parecia dar ainda mais gás para a crise de riso que tomava conta dela. – Mas eu gosto de você também, tá?
Foi aquela cena que Ling Chao encontrou ao chegar com Mu Ziyang.
— Bom dia, JieJie! – ele a abraçou e deu um sorriso fofo.
— Sem doces hoje, interesseiro. Se você se comportar, faço brigadeiro quando terminar o ensaio. – ela teve que segurar outra onda de risos quando o viu fazer uma careta e se afastar. – Mas bom dia pra você também.
— JieJie, e as meninas? – Mu Ziyang se serviu de café e sentou ao lado de YueYue.
— Lunie tinha uma sessão de fotos, mas deve estar chegando. E a Letícia tem a manhã de folga. Ela só vai chegar pra aula de canto porque a professora JiHo disse que bons alunos devem ser bem recompensados. – ela explicou tudo bem devagar, se perdendo no próprio raciocínio às vezes. – Por que a aula tinha que começar tão cedo hoje? Eu não tô conseguindo nem pensar direito.
— Não foi o que pareceu quando tava discutindo comigo. – YueYue retrucou, recolhendo a louça e colocando na pia.
— Se a gente ainda estivesse brigado, eu teria uma resposta muito boa pra isso, mas eu vou me abster.
Lunie escolheu aquele momento para aparecer na cozinha, um tanto esbaforida e com uma expressão bem cansada.
— Como se você fosse deixar de falar só porque vocês são amigos agora. Você é má. – ela se serviu de água e, só então, percebeu que Ling Chao estava ao lado da amiga.
Ela não sabia se deveria cumprimentá-lo, ignorar a existência dele ou colocá-lo contra a parede para saber o porquê ele estava com ciúmes dela. Se é que aquela coisa de ciúmes era real.
Quem ela queria enganar? Era óbvio que não conseguiria falar sobre aquilo diretamente. Sua coragem teimava em fugir dela sempre que precisava.
— Lunie, a gente pode conversar? – ela se assustou por não ter percebido que Ling Chao havia se levantado de onde estava, assim como só viu que ele estava muito perto, quando a aproximação invadia seu espaço pessoal. Ele perguntou aquilo baixinho, quase como um segredo, ou como se a voz não estivesse de acordo com seus pensamentos.
Lunie sentiu seus pelos se arrepiarem tanto por causa do tom de voz quanto por ele estar tão perto. Instintivamente, deu um passo para trás e pigarreou, tentando clarear os pensamentos. Não que aquilo fosse muito fácil, já que ele estava absurdamente lindo e o perfume que ele usava parecia se impregnar nela, mesmo que não tivessem se tocado.
Ele abriu a boca, provavelmente para repetir a pergunta, mas foi interrompido por um aceno afirmativo de Lunie. Ling Chao sorriu e segurou o pulso alheio com delicadeza, com o intuito de conduzi-la até um lugar mais reservado. Nenhum dos dois pareceu se dar conta que estavam sendo observados por três pares de olhos bem curiosos.
Quando eles saíram da sala comum, Raquel suspirou e pareceu agradecer à alguma entidade religiosa pela cena. Mu Ziyang a olhou, confuso.
— Tava aqui agradecendo pra qualquer santo, porque não aguento mais esses dois só me dando dor de cabeça.
— Mas você nem sabe se eles vão se acertar. Eles só vão conversar.
— Você tirou a manhã pra subestimar minha inteligência, é isso? – ela não se aguentou e jogou o lápis que segurava em YueYue, que até tentou desviar, mas não foi tão rápido. – Lunie gosta do Ling Chao. Ling Chao gosta da Lunie. Eles ficam juntos e o mundo será um lugar melhor, pelo menos para mim. Fim da história. — Mu Ziyang encarava Raquel de forma estranha, como se quisesse perguntar algo, mas não tivesse coragem. Vendo aquela expressão, ela apenas sorriu e encolheu os ombros. – Sim, eu sei, YangYang. Você é um livro aberto, se quer saber. Ela não me disse nada, mas eu sei.
Mu Ziyang arregalou os olhos, mas apenas pela surpresa dela poder entendê-lo tão bem. Ela era bem observadora.
— Isso muda alguma coisa na nossa amizade? – decidiu perguntar, apenas como um desencargo de consciência.
— Depende... Se a gente gostar da mesma pessoa, eu vou ficar bem revoltada. Contra você eu não tenho a menor chance. – a brincadeira pareceu deixar o ambiente muito mais tranquilo, mas a curiosidade ainda era presente nos olhos nos três. – Queria ser uma mosquinha pra ver o que tá acontecendo lá.
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Dentro da sala que usavam para ensaiar canto, Lunie e Ling Chao estavam em silêncio, um de frente para o outro. A mão dele ainda tocava o pulso dela de leve, mas com precisão o suficiente para demonstrar que não queria soltá-la. Suas respirações estavam um pouco irregulares, não fazendo jus aos poucos metros que atravessaram caminhando.
Estavam muito nervosos para aquela conversa.
— O que quer conversar? – Lunie não sabia de onde tinha surgido tamanha coragem para fazer aquela pergunta, mas não conseguiria mais ficar naquele silêncio enlouquecedor. Se ele não falasse nada depois daquilo, iria embora.
— Eu nem sei por onde começar, de verdade. – ele usou a mão livre para bagunçar os próprios cabelos, em sinal óbvio de frustração. – Me desculpa. Eu acho que é a primeira coisa que tenho que pedir. – Ling Chao buscou o olhar de Lunie e tentou passar o máximo de sinceridade com aquele ato. – Você deve achar que eu sou um babaca insensível ou um bipolar sem noção pelo jeito que tenho te tratado, mas... Mas eu juro que não tem nada com isso.
Lunie sentiu o coração bater forte. Ela tinha, sim, pensado tudo aquilo dele, mas seu jeito de falar estava fazendo com que ela reavaliasse as conclusões que tinha tirado.
— Eu não sei. Eu não posso te desculpar sem entender o que está acontecendo. – mesmo que não quisesse, puxou sua mão do toque dele e cruzou os braços, como se tentasse se proteger. – Eu não sei o que pensar sobre você.
— Que eu sou um idiota. Pense que eu sou um idiota que está tentando se redimir. – ele colocou as mãos nos bolsos da calça e se afastou um passo, entendendo o fato de Lunie ter recolhido o braço como um ato de querer distancia. – Quando vocês chegaram e o YueYue surtou, eu achei que ele estava exagerando. Por mim eu me aproximaria de vocês, seria amigo das três e pronto, mas então eu vi alguns vídeos seus no programa e você falava de mim de um jeito que... Eu me perguntei se o YueYue estava realmente errado por ficar preocupado. – ele abaixou a cabeça e encarou o chão, deixando a franja cobrir parcialmente sua expressão. – Mas as coisas começaram a mudar. Meus sentimentos começaram a mudar. Te ignorar não era mais uma coisa que eu fazia sem problemas, porque queria estar perto de você. Queria que seus sorrisos fossem pra mim, como eram nos vídeos que eu assistia. Eu queria que você me abraçasse como abraçava o Mu Ziyang e que gostasse de mim como eu percebi que gostava de você.
Lunie sentia os olhos começando a marejar, mas sabia que não seria possível dizer algo. Ela não conseguiria que nenhuma palavra saísse. Sentia-se absorvida pela voz macia e olhar que, vez ou outra, voltava a capturar seus olhos.
Ling Chao continuou.
— Quando surgiram os boatos de que você tava namorando o Yang-ge e todo mundo negou, eu senti que era hora de eu mudar, sabe? De mostrar pra você que eu estava aqui também, e que eu era a opção que você queria desde o começo. – Lunie lembrava dos vários dias em que conversaram até tarde da noite, brincaram e se aproximaram de verdade. Ela lembrava também que aqueles dias não haviam durado muito. – Tudo foi por água abaixo quando a JieJie disse que você tinha só uma pessoa no coração, e eu me dei conta que não era eu. Que a pessoa que tem o seu coração é o Yang-ge.
— Mas que... – pela primeira vez, Lunie se permitiu atrapalhar a história, mas não conseguiu concluir o raciocínio, já que Ling Chao se aproximou novamente, dessa vez pegando ambas suas mãos e olhando em seus olhos com tamanha intensidade que, mesmo que estivesse em meio a uma multidão, existiriam apenas os dois naquele momento.
— Eu sei que gosta dele, mas ele não pode gostar de você. Eu não posso explicar o motivo, mas ele nunca vai gostar de você desse jeito. E eu sou um babaca por falar as coisas desse jeito e destruir seus sentimentos, mas... Mas eu quero que você me dê uma chance. Quero que me dê uma chance pra conquistar você.
Lunie estava chocada com como pequenos mal entendidos tinham transformado o que era para ser um conto de fadas em uma bagunça. Seu coração estava batendo em sua garganta e seus olhos estavam tão marejados que ela estava com medo de piscar e alguma lágrima teimosa escorrer.
Ling Chao gostava dela.
Ling Chao tinha se declarado e estava disposto a se machucar para ter uma chance com ela.
E ela estava estática, com o rosto em chamas e com os lábios entreabertos, em busca de um ar que não parecia ser o suficiente.
Quando Ling Chao achou que não teria uma resposta, Lunie fez com que seus dedos segurasse os dele com força.
— Eu não estou apaixonada pelo Ziyang... – Lunie queria gritar que o amava, mas estava tão chocada com tudo o que estava acontecendo, que não sabia se conseguiria dizer algo tão forte sem se deixar levar pelas lágrimas. – Eu estou apaixonada por você.
A expressão de Ling Chao passou de pura confusão para entendimento e felicidade em poucos segundos. Ele deu mais um passo à frente, desaparecendo totalmente com o espaço que existia entre os dois. Uma das mãos que estava entrelaçada com a de Lunie subiu para o rosto de pele clara e deixou um carinho delicado ali. Os dedos longos colocaram uma mecha de cabelo de Lunie atrás da orelha e ele sorriu de leve, lembrando que tinha ficado encantado com a cor dos cabelos dela quando a viu pela primeira vez. Poderia voltar a elogiar os fios encaracolados, como fez no primeiro dia, mas sua atenção foi tomada pelos lábios alheios, ainda entreabertos e, a seu ver, bastante convidativos.
Ele se abaixou levemente, diminuindo os vários centímetros de altura que os separava, mas se interrompeu, antes que não houvesse mais volta.
Lunie sentiu os lábios de Ling Chao bem perto dos seus, como se pedisse uma permissão. Seu coração estava disparado e ela sentiu o ar faltar em seus pulmões quando ele deslizou a mão para sua nuca.
Nenhum dos dois teve certeza quem se perdeu primeiro, deixando que os lábios finalmente se encontrassem. O beijo começou profundo e lento, e Lunie sentiu suas pernas perderem as forças. Agradecia por Ling Chao a ter rente ao seu corpo, a segurando pela nuca e pela cintura, enquanto ela apenas se via entregue, com os dedos embrenhados nos fios longos e lisos dos cabelos dele.
O beijo teria durado muito mais tempo e terminado de forma fofa e com mais declarações, se não tivessem sido interrompidos por batidas na porta, que os fizeram se separar, assustados.
— O ensaio vai começar. – a voz do outro lado da porta era da professora JiHo e tanto Lunie quanto Ling Chao agradeceram por ela ter apenas batido e não entrado.
Eles se olharam com sorrisos bobos nos rostos e Ling Chao fez questão de que saíssem de mãos dadas daquela sala.
Depois poderiam conversar melhor e acertar tudo.
Tudo estava bem para os dois naquele momento. Não precisavam ter pressa.
Continua...
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