As Duas Lâminas

5 Viro o herói da plantação de cebolas


Acordei lá pras 10h da manhã seguinte, um pouco mais tarde do que estou acostumado, mas me sentindo completamente revigorado. Eles sabem como fazer boas camas de barracas de mochila.

Achei presunto e queijo na cozinha, junto com uns molhos doidos lá que coloquei no sanduíche, que eu comi com refrigerante(os de laranja haviam sumido misteriosamente).

Depois disso resolvi sair um pouco, pra explorar a ilha. Ainda faltam dois dias para os exames, e como não veio ninguém me dizer o que fazer ainda, decidi sair.

Eu estava na parte norte da Ilha Maple, com vários círculos que seriam as barracas dos outros alunos da Escola de Gatunos, quando eles chegassem depois de amanhã. No extremo norte havia várias montanhas praticamente "insubíveis", que além de bonitas evitavam que a gente "caísse do céu"(afinal a ilha flutua no nada), funcionavam melhor do que aquelas cercas que dizem "Não atravesse, risco de cair eternamente no infinito".

Tudo isso ficava numa enorme área de grama baixa, e ao sul ficavam as casas e eu sabia que, mais além delas, a cidade de Amherst, e mais ao sul, o Porto Sul.

Fui andando na direção das casas. Todas eram feitas de pedra, mas tinham formato de cogumelo, com o chapéu laranja. Eram bem pequenas, mas tinham dois andares cada e aparentavam ser bem aconchegantes, além de terem um quintal do lado. Ficam bem próximas umas das outras, muitas tinham varais com roupas, outras tinham fumaça saindo das chaminés(havia uma chaminé no topo de cada "chapéu"). Um excelente lugar para se descansar...

–Ei! Garoto! — arfou — ei...!

Ok, nem todos descansavam. Olhei para a esquerda, e vi uma menina correndo na minha direção. Tinha cabelos castanhos desgrenhados, usava uma camisa branca com desenho de cogumelo laranja e short azul jeans.

Era a menina que eu havia visto em uma das casas quando cheguei, e ofegava muito.

–Você... precisa... por favor... cogumelos, cebola... me ajude! — ofegou a menina

–Calma — falei, tímido. Ah, que absurdo. Eu não sabia o que dizer a uma criança de uns oito ou nove anos. — O... o que houve?

Ela respirou um pouco e disse:

–É o cebolal do velho Jenkins! Tem uns cogumelos comendo tudo lá vei, e tipo cheguei lá e tava eles lá e comendo e pulando tudo lá aí tipo, corri aqui tava com medo, e eles podiam atacar aí...!

–Hein?

A garota se curvou um pouco, as mãos comprimindo o peito, tentando se acalmar.

–O velho Jenkins, o plantador das melhores cebolas de Maple! Eu sempre fecho a cerca para os cogumelos não entrarem, mas chegou aquele navio enorme e... eu me empolguei e fui ver as pessoas pulando de pára-quedas, e me esqueci! — choramingou.

–E agora os cogumelos entraram lá — continuou a menina — e estão comendo a plantação, e estou com muito medo de afastar eles de lá...!

Cogumelos selvagens comedores de cebola? Eu certamente podia cuidar disso. Pedi pra ela me mostrar onde era.

A menina me levou correndo, dando a volta pela área das casas, onde havia mais grama. Ali, no meio do gramado um pouco isolada das outras casas, havia uma casinha de madeira com telhado de palha, e uma varanda de madeira. Era cercada por uma grande plantação de cebolas grandes e bem organizadas. A plantação fazia um imenso círculo, com a casa de madeira no centro, e era cercada por uma cerca de madeira de uns dois metros de altura, que formava um quadrado ao redor do círculo de cebolas.

–É aqui — disse a menina. — Os cogumelos estavam... ah, olha lá!!!

Perto de um dos lados da cerca, havia uma enorme mancha de terra, onde as cebolas haviam sido comidas. E lá, estavam nada menos do que seis Cogumelos Laranja, imensos, comendo as cebolas, aumentando ainda mais a mancha.

Medindo quase metade de uma pessoa normal, os cogumelos pareciam aqueles de desenho animado, com o corpo branco e o chapéu laranja manchado. Não tinham pernas nem braços, e se locomoviam pulando. Pisoteavam as cebolas e depois se abaixavam, comendo-as vorazmente. A boca era uma abertura circular bem acima do centro do corpo, embaixo de duas bolinhas negras que eram os olhos. Os olhos ficavam protegidos pelo chapéu, dando a eles aquela impressão maneira de um adolescente de boné escondendo os olhos.

Mas não havia nada de maneiro naquelas criaturas devorando metade da plantação de cebolas do velho Jenkins.

–Estou com medo — ela falou — Por favor, faça alguma coisa! Ah, o velho Jenkins vai me matar por ter esquecido de fechar a porta, e vai perder todas as cebolas!

Confesso que eu também estava com medo, mas não queria deixar a menina daquele jeito. Mas o que eu poderia fazer? Aqueles não eram cogumelos comuns, eram Cogumelos Laranja, do tipo que apareciam na Área de Construção em Kerning e que eu sempre evitava.

Lembrei-me do que meu pai disse uma vez sobre eles: "São criaturas muito ágeis. Atacam dando cabeçadas — ou chapeuzadas -, e são fortes. Se você tiver que enfrentar algum, pegue as duas adagas e acerte uma de cada lado, bem na divisão do corpo com o chapéu, e não se preocupe: eles não mordem as pessoas. Agora, o que teremos de almoço?"

Não parecia muito difícil, eu mesmo já havia matado alguns deles em Kerning. Mas enfrentar um deles é uma coisa, eu duvidava que conseguiria sequer ferir um deles com outros cinco me cabeceando. Além disso, eu havia deixado as adagas na barraca.

A menina lamentava mais a cada ataque. E os Cogumelos não davam a impressão de estar ficando sem fome.

Pra mim eram apenas cebolas, mas eu não sabia se o velho Jenkins pensava assim, e nem o que ele poderia fazer quando descobrisse que a menina esqueceu de protegê-las.

Eu tinha que ajudar. Olhei em volta procurando qualquer coisa, e achei um pedaço de madeira fino e longo – talvez uma vara ou o cabo de alguma vassoura. Atravessei a porta aberta da cerca e corri até os cogumelos.

–AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAASPARTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!! — berrei, como um louco, e comecei a agitar a vara de um lado para o outro.

Os Cogumelos pararam e se viraram, repentinamente surpresos e assustados.Eu devia estar bem assustador gritando com um perigoso cabo de vassoura usado nas mãos, porque eles começaram a correr. Eles eram rápidos, mas eu já estava perto, e consegui acertar um cogumelo que aparentemente havia comido cebolas demais. Eu o peguei e o joguei pra fora da cerca — nem me lembro como fiz isso, foi no impulso.

Os outros cinco correram, se espalhando. Eles pisavam e esmagavam algumas cebolas, mas pelo menos haviam parado de comer tudo adoidado. Consegui nocautear outro cogumelo, mas ainda havia outros quatro correndo.

Dois deles saíram pela porta da cerca, mas os outros dois continuaram fugindo pelo cebolal. Eram bem grandes, e eu tinha medo de que a qualquer momento eles percebessem que eu não estava tão armado assim, e se virassem e atacassem. Eles continuaram pulando, eu já estava pensando em como iria levá-los para fora da cerca quando ouvi um estouro.

Não era um estouro, era um tiro. Fiquei paralisado. Mas no mesmo segundo um dos cogumelos caiu, se desintegrando em uma nuvem de poeira laranja, só sobrando o chapéu. Três segundos depois, outro tiro, e o outro cogumelo também caiu.

Na porta da cabana, havia um homem velho e magro de barba e cabelos grisalhos, usando roupas marrons esfarrapadas, carregando um rifle Buffalo já preparado nas mãos.

–Malditos cogumelos!! — reclamou o velho Jenkins, com uma voz rabugenta de... bem, de velho rabugento. — Vou levar uma semana pra recuperar... e você! Disse, olhando pra mim desconfiado. — Você abriu a porta e deixou esses cogumelos entrarem... uff!

Ele quase foi sufocado pela menina, que havia corrido e agora abraçava o homem. Explicou sobre ter se esquecido de fechar a porta, e pensei que ele fosse repreendê-la, mas ele disse que isso acontecia e que logo recuperaria o que havia perdido.

–Só preste mais atenção da próxima vez, Heena — disse o velho, sério.

–Desculpe, velho Jenkins. Vou ter mais cuidado – Heena respondeu, olhando para o chão.

–Bem, esqueça isso. Você os espantou, suponho? — continuou, olhando pra mim.

–Hã, sim... — respondi, hesitante — Eu não tinha armas, então peguei aquele cabo de vassoura ali e improvisei.

–Sim, esse cabo de vassoura eu mandei a Heena jogar fora, ela deve ter largado ele aí quando se esqueceu de fechar a cerca. — e então sorriu da ironia dos fatos — Mas você fez um belo trabalho, pensando rápido. Além disso, você berrou tão alto que conseguiu até me acordar. Impressionante.

Não sabia se agradecia ou não, e fiquei feliz quando Heena começou a comentar sobre o cachorro pastor do velho Jenkins ainda estar na casa de banho.

O velho Jenkins parecia ser bem rabugento, mas eu gostei dele. Na verdade eu fiquei bem feliz que ele tivesse perdoado a menina – dizem que um rifle Buffalo é capaz de matar um elefante com um único tiro. Mas ele insistiu para que a gente entrasse e tomasse uma sopa de cebola com ele.

A casa de madeira tinha uma sala de visitas com um tapete, sofá e alguns móveis de pinho, e um pequeno corredor o ligava aos outros quatro aposentos da casa; de um lado do corredor, havia duas portas: uma levava à cozinha e a outra a um pequeno quarto, e do outro lado havia o quarto maior que obviamente era o dele, e no final do corredor ficava o banheiro. Ele nos levou para a cozinha, que era aberta para os fundos e só tinha uma mesa com cadeiras e uma despensa – o fogão a lenha era imenso e ficava nos fundos da casa. Perto dele havia arroz, carne e uma pilha de cebolas bem grandes. Tudo era limpo e bem-organizado ali... era o lugar mais aconchegante que eu já havia visto.

Coloquei um pouco de esporo daqueles cogumelos que você nocauteou. Eles não esfarelam quando não morrem, sabe.

Assenti. Você não deve estar entendendo, certo? Bem, é que os monstros geralmente vêm de outro lugar, outro “mundo”. Quando você mata um monstro, ele se esfarela em uma nuvem de poeira. É assim que eles “morrem”. Já viu Peter Johnson e os Assuharpas? É parecido.

A maioria dos monstros têm alguma parte “chave” que os conectam ao nosso mundo. Por exemplo, o chapéu é a peça chave dos Cogumelos Laranja. Se você mata um deles sem destruir o chapéu, ele se desintegra, mas o chapéu continua. Isso vale para quase todos os monstros.

É possível pegar o esporo de um cogumelo adulto, mas é muito difícil. É preciso extrair antes de matá-lo, e eu não faço a menor idéia de como se faz isso, não sei como o velho Jenkins extraiu daqueles cogumelos. E nem se ficava gostoso com cebola.

Mas provei a sopa, e cara... Era realmente a melhor que eu já havia tomado, e era levemente apimentada. Eu adoro pimenta.

–É um pouco cedo para um aprendiz estar por aqui, não? – perguntou o homem, já depois do segundo prato de sopa. – Você é aprendiz, certo?

–Sim – respondi — Eles me mandaram pra cá três dias antes, porque... – hesitei – bom, acharam que me defendi particularmente bem de uns colegas que enjoaram de bater nos bonecos de treinamento de Mu Lung, sabe.

–Entendo... – disse velho Jenkins. – Escola de Guerreiros?

–Gatunos.

–Argh – ele franziu o nariz – Aquela cidade de ladrões, Kerning. Eles não costumam ter as melhores pessoas lá. Uma vez alguns aprendizes gatunos tentaram entrar na minha casa, e bem... eu era mais jovem naquela época, se você me entende.

–Sim, entendo... – olhei para o imenso rifle de uma só bala, recostado ao lado da cadeira do velho Jenkins. Lembrei que aquela era uma arma muito pesada, mas ele havia sido muito rápido na hora de engatilhar. Aquilo deveria ter assustado um pouco mais do que alguns cogumelos famintos comendo cebola.

Conversamos mais um pouco, e o homem me contou que havia nascido aqui, e começou a plantar as cebolas com seu pai. Gostava muito do clima tranquilo e pacífico da ilha, e mora nessa casa desde que nasceu. É muito amigo do pai de Heena, e ela sempre o ajuda com as tarefas da casa, e a levar cebolas e comprar suprimentos na cidade – o que poupava o velho Jenkins de ter que andar a cidade toda carregando um rifle e uma cesta de cebolas pela cidade.

–Bem, talvez seja melhor você voltar pra sua barraca. Duvido que iriam te trazer pra cá três dias antes só pra deixar você espantar cogumelos da plantação dos outros.

–Verdade — respondi, sorrindo. — Bem, boa sorte com suas cebolas. Heena estava certa, são as melhores.

–Sei... bem, não tenho muito pra agradecer por você ter me ajudado, mas você pode vir aqui e pegar quantas cebolas quiser. Prometo que não atiro em você.

E pela primeira vez, ele sorriu. Eu ri, e comecei a voltar para a barraca.

O velho Jenkins estava certo: quando cheguei, encontrei Arien e Lucas. Estavam saindo para me procurar quando eu entrei.

–Ah, Will! — cumprimentou Lucas, alegremente — Fez boa viagem, suponho?

–Sim, senhor. Foi bem divertido vir de pára-quedas até aqui, sabe — olhei pra Arien, que sorriu.

–Bem, estávamos querendo falar com você. Aonde estava, se divertindo pela ilha?

–Na verdade, eu estava ajudando a espantar cogumelos do cebolal do velho Jenkins.

–Jenkins? O velho plantador de cebolas?

–Sim — e expliquei tudo a ele, sobre os cogumelos, Heena e sobre a sopa dele ser a melhor que eu já havia visto.

Quando terminei, até Arien me olhava um tanto impressionado.

–Você enfrentou seis Cogumelos Laranja, sozinho, usando um pedaço de vassoura? — surpreendeu-se Lucas, sem acreditar.

–Bem... sim. Mas depois ele atirou em dois, e eles se desintegraram.

–Bem, para um aprendiz, nada mal. — falou por fim Lucas, coçando a barba — Nada mal, mesmo. Impressionante, você também não acha, Arien?

Arien olhou para cima.

–Não fez mais que a obrigação.

–Ora, deixe disso. Só porque você quebrou a perna lutando contra três deles e fez o exame ser adiado duas semanas, quando esteve aqui.

–Como é? — perguntei, rindo, mas com um pouco de medo: isso poderia ter acontecido comigo, e teria sido ainda pior.

–Tinham dado café pros cogumelos, caso você tenha esquecido.

–Eu lembro bem. E não "tinham", eu que dei a idéia de dar café pra eles pra ficar mais perigoso, eles ficam bem agitados quando tomam cafeína, entende.

Arien olhou bem para Lucas, que parecia pensativo.

–Aquilo tinha sido você...?

–Sim — confirmou Lucas — era uma idéia bastante promissora. Mas aí você quebrou a perna e estragou tudo.

–Pena que já é tarde pra denunciar isso — Arien resmungou.

Lucas se voltou para mim.

–Então, Will, o pessoal vai chegar aqui depois de amanhã, e eu prometi te preparar um pouco para os exames, lembra?

–Sim, senhor — eu estava um pouco nervoso.

–Então, vamos. – disse Lucas, entusiasmado. – É melhor se preparar pra andar...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.