As Duas Faces de Uma Vingança.
14 Execução
— você não vai acreditar em quem veio aqui hoje – disse Marcela ao entrar no galpão escuro. Quando ela abriu as portas, deixou a luz entrar revelando a cela que havia ali dentro.
Era uma cela que continha uma cama, uma pequena pia e uma privada, e sob a cama estava Beatriz, ou os restos do que fora Beatriz um dia. Aquela mulher charmosa, com lindos cabelos e um físico de dar inveja a muitas garotas com a metade de sua idade havia dado lugar a uma mulher que pouco lembrava um ser humano. Havia dentro daquela cela, daquela jaula uma mulher com os cabelos compridos e horríveis, faltavam dentes em sua boca, seus lábios tinham vários machucados, sua pele era suja pois ela tomava apenas um banho por semana, que consistia em Marcela pegar uma mangueira e molhá-la para que ela se esfregasse com um sabonete ali dentro da cela mesmo, e as roupas eram rasgadas, pois ela somente recebia roupas novas quando as atuais não serviam mais. Beatriz havia perdido muitos quilos e estava tísica, pois ela recebia diariamente uma quantidade de comida que fazia seu organismo funcionar. Ela tossia, uma tosse pesada, com pigarros e praticamente sem voz, ela olhou para Marcela e peguntou quem havia vindo até a casa.
— Lídia, lembra dela? — Marcela olhou para Beatriz – sua ex-cunhada, uma das suas vítimas. Mas não se preocupe, ela foi despistada. Ela acredita que você está na Turquia, vai te procurar por lá. Quem sabe eu mande pra ela uma foto sua, pra ela ver o que sobrou da grande Beatriz Delaôr.
Beatriz começou a chorar. Havia na parede em frente a sua cela um espelho. Marcela fazia questão que Beatriz se olhasse no espelho todo dia para ver o que havia se tornado.
— engole o choro sua cadela, engole o choro ou eu vou te deixar sem comida – disse ela com a bandeja contendo a refeição de Beatriz.
Ela conteve as lágrimas.
— Marcela, eu me arrependo de tudo, eu a quatro anos nesse inferno. Pelo amor de Deus, me deixa sair! Eu só quero ser livre, recomeçar minha vida, eu juro que não vou atrás da polícia e não vou machucar mais ninguém, eu já paguei pelos meus crimes, me deixa ir embora, eu virei um animal, eu preciso voltar a ser um ser humano Marcela, tem que haver alguma coisa em você que ainda é boa!
Marcela jogou a bandeja no chão e deu um chute na grade.
— você sempre foi um animal, você apenas se disfarçava como um ser humano sua desgraçada – ela segurou a grade com as duas mãos, chegando próxima dela – não tem mais nada de bom em mim, você matou tudo o que havia de bom em mim, agora eu sou apenas uma vadia vingativa, você fez de mim isso que eu sou hoje, agora aproveite – ela chutou a bandeja – agora rasteja pela comida sua piranha. Enquanto eu estiver viva você vai ficar ai presa sua desgraçada e no dia que eu morrer eu não vou contar pra ninguém seu paradeiro e você vai morrer de inanição – uma lágrima começou a escorrer pelo rosto de Marcela – você fez de mim um monstro, agora aprecie a sua obra.
Ela se virou e saiu.
O que de fato havia acontecido naquela noite é que depois que o Marcela pegou o revólver, ela fez Beatriz sacar todo o dinheiro que tinha em contas no país, amarrou Beatriz e colocou-a dentro do porta-malas, foi até um traficante e comprou com ele sedativos fortes e injetou em Beatriz. Pegou todas as joias e bens que Beatriz tinha junto com o dinheiro e partiu rumo a Buenos Aires, onde comprou a casa. No começo, Beatriz ficava presa no porão, mas a própria Marcela construiu a cela de Beatriz dentro do galpão atrás da casa e lá começou sua vida dupla nova: florista querida por todos no bairro onde tinha seu negócio e com uma identidade falsa ao mesmo tempo que era a juíza e executora de Beatriz. Ela havia sentenciado Beatriz a prisão perpétua.
Quando ela saiu do galpão, Beatriz ficou gritando, mas ela poderia gritar o quanto quisesse. A casa era tão longe da cidade e o vizinho mais próximo era a tantos quilômetros de distância que ninguém viria salvá-la.
Na lateral da casa, Marcela colocava um lindo ramalhete de flores que havia colhido em seu jardim, no memorial que havia feito para seus pais ao lado de sua casa enquanto ecoavam os gritos de Beatriz, aqueles gritos eram o som da vingança de Marcela. No começo, ela queria justiça, mas agora ela nem sabia mais o que dividia justiça de vingança.
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