— depois de tantos anos impune, finalmente vamos acertar nossas contas, sua cadela! — disse Marcela fechando a porta do banheiro onde Beatriz estava.
Beatriz virou-se e viu Marcela usando um uniforme da empresa que estava fazendo a segurança do evento, então Marcela tirou o boné e deixou seus longos cabelos loiros caírem sobre os ombros.
— Mariana? — Beatriz perguntou assutada – ou melhor, Marcela, como é que você está viva? Eu mesma atirei em você, eu vi você caindo daquela ponte, sua maldita!
— mas estou aqui, estou aqui mais uma vez pra te provar o que quanto mais você tenta me destruir, mais forte eu fico e agora eu vou fazer uma coisa que eu deveria ter feito há onze anos, sua desgraçada, eu vou te dar uma surra que você nunca mais vai esquecer quem é Marcela Andrade.
Marcela foi para cima de Beatriz que tentou correr, porém Marcela a pegou pelos cabelos e a jogou contra a pia, fazendo com que ela batesse as costas no canto dela e caísse no chão, dando assim um grito de dor. “sua cadela desgraçada!” gritou Beatriz ao cair então Marcela subiu em Beatriz imobilizando seus braços e começou a dar-lhe várias bofetadas na cara, enquanto Beatriz gritava por socorro e seu rosto sangrava.
***
2001.
Cláudio Delaôr, um grande empresário do ramo imobiliário estava com a vida profissional indo de vento em poupa, em contra partida de sua vida pessoal, que havia desmoronado desde que descobriu a doença da mulher, Patrícia que havia sido diagnosticada com um problema cardíaco que demandava de muitos cuidados e remédios que fizessem com que a válvula danificada de seu coração não parasse de bombear o sangue para seu corpo, porém isso aconteceu justamente na época em que Cláudio não amava mais a mulher, ele estava decidido a pedir o divórcio, mas com a descoberta da doença ele sentia-se obrigado moralmente a ficar com a mulher, tanto por ela quanto por sua filha, a jovem e mimada Marcela, que estava fragilizada demais com a doença da mãe, porém ficar com a mulher não queria dizer que ele seria fiel, porém ele não queria manter uma amante, então recorria a garotas de programa, em especial as garotas cafetinadas por Leila, uma mulher que agenciava as melhores acompanhantes de luxo de Porto Alegre.
— boa tarde Leila, tem alguma coisa nova pra mim? — dizia Cláudio para Leila no bar do hotel onde ele mantinha uma suíte alugada.
— claro meu querido, pra você sempre! — respondeu ela com um sorriso – essa semana chegou uma garota nova, a Daniela. Ela é nova, linda, nível universitário.
Em questão de alguns minutos, a garota chegou, era de fato linda como Leila havia descrito e logo no primeiro programa, a jovem Daniela encantou Cláudio de todas as formas possíveis, essa sempre foi a principal habilidade de Beatriz, que atendia sob o nome de Daniela, ela sempre sabia dar aos homens a seu redor o que eles queriam para que conseguisse controlá-los.
Conforme o tempo foi passando, a doença de Patrícia foi piorando e ela ficou de cama, enquanto o relacionamento com Beatriz ia se intensificando cada vez mais, até que no começo de 2002 Patrícia ficou encamada de vez e não demonstrava mais resposta ao tratamento, porém os médicos diziam que ela ainda ia viver anos naquelas condições desde que cuidada, então Cláudio contratou a técnica em enfermagem Sirlei, uma mulher de origem humilde e então, com a falta de capacidade da mulher, Beatriz sabia que conseguiria finalmente aquele homem rico para ela, então ela começou a sondar cada vez mais a vida de Patrícia e então, vieram as juras de amor.
Beatriz fazia Cláudio ficar cada vez mais dependente emocionalmente dela, devido à instabilidade emocional que ele estava, ele caia em todos os golpes de Beatriz e começava a jurar que assim que ele ficasse viúvo, ele se casaria com Beatriz e então, no final de 2003 Patricia morreu, mesmo tomando todos os remédios e tendo os cuidados da técnica em enfermagem em casa, o coração de Patrícia parou de funcionar como se ela não usasse mais os medicamentos, o médico do caso estranhou, mas devida a condição de saúde debilitada de Patrícia, não criou-se caso em decorrência disso.
Marcela ficou desolada. A garota de 10 anos tinha na mãe a maior amiga e companheira e agora havia perdido ela, porém as últimas palavras da mãe foram um pedido para que ela se aproximasse do pai para cuidar dele e que a amava mais que tudo. Marcela assim o fez, e Cláudio também tornou-se um pai melhor, embora nunca houvesse sido ausente na vida da filha, porém agora ele estava mais ligado nela, pagou para ela terapia para que ela conseguisse viver depois do baque da morte da mãe e então, após seis meses a morte da mãe, Cláudio assumiu o relacionamento com Beatriz.
Beatriz não era mais Camila e não chegou a fazer fama como garota de programa, então a aceitação dela na sociedade em que o marido frequentava, porém Marcela desde o início não gostou de Beatriz e nunca fez questão de se aproximar dela.
Em uma tarde em que Marcela e Beatriz estavam sozinhas em casa, Beatriz estava na sala arrumando algumas obras de arte na parede que ela havia comprado e Marcela derrubou um dos quadros, deixando Beatriz com ódio.
— você precisa prestar um pouco mais de atenção Marcela, todo lugar por onde você passa você quebra alguma coisa – Beatriz tinha raiva da garota, mas tentava fingir calma na voz.
— cala a boca, velha – respondeu Marcela e saiu da sala andando, ignorando completamente Beatriz. Ela ficou muito irada, mas dessa vez ela nada fez.
Alguns dias depois, Marcela derrubou um vaso caríssimo que Beatriz havia comprado e novamente Beatriz irritou-se.
— Marcela, só pode que você está fazendo de propósito, e impossível uma pessoa ser tão descuidada! — disse Beatriz, porém dessa vez, sendo mais enérgica.
— essa porcaria aí? Joga fora e compra um mais bonito, te fiz um favor – disse Marcela. Beatriz com ódio, pegou Marcela com força pelo braço, puxando-a para trás.
— nunca mais você fale comigo dessa maneira, sua nojentinha, ou eu vou fazer você… — Antes que pudesse terminar a frase, Beatriz levou uma cusparada de Marcela no rosto e puxou seu braço, soltando-se.
— nunca mais fala comigo desse jeito, bruxa velha, você não é nada minha! — e Marcela saiu correndo para seu quarto.
“Está na hora de mandar essa vaquinha pro inferno” pensou Beatriz, limpando o rosto com as mãos, e foi nesse exato momento que Beatriz começou a calcular a morte de Cláudio e de Marcela.
No final de 2003, Beatriz casou-se com Cláudio em uma festa imensa que comoveu toda a imprensa local e custou uma pequena fortuna aos bandos da empresa imobiliária de Cláudio que ia de vento em poupa, e durante todo o ano de 2004, Beatriz começou a trabalhar na empresa ao lado do marido, obviamente, em um cargo de diretoria, pois além de manipular o marido, ela demonstrava ser uma ótima empreendedora, em todos os setores que passou, ela fez um ótimo trabalho, e ela sabia que estava no momento perfeito para agir, ela estava casada com o presidente da empresa, era vice-presidente e se o marido morresse, tudo passaria para ela, e ela sabia também que Marcela deveria morrer junto com o pai, pois ela não queria dividir nada com a criança que ela tanto odiava, então em julho de 2005 a ocasião perfeita chegou. A tia de Cláudio que a algum tempo estava adoecida e veio a falecer e Cláudio iria para o velório, iriam ele e Marcela, porém Beatriz inventou um motivo para não ir junto e ela tinha algumas horas para arrumar alguém para sabotar os freios do carro do marido.
Beatriz foi até uma mecânica em um bairro paupérrimo de Porto Alegre, pois movimentou alguns contatos seus e descobriu que havia um ex-presidiário que havia cometido um homicídio e após sair da cadeia havia aberto a mecânica. Sem nem mesmo perguntar seu nome, ela o seduziu, deu a ele algumas horas de sexo e uma grande quantia em dinheiro então ele aceitou fazer o trabalho para Beatriz.
***
Na manhã seguinte às 7h da manhã, Cláudio e Marcela saíram. Cedo desse jeito para evitar ficarem presos no trânsito, pois havia uma obra na pista.
Por volta de 8h30, Beatriz pegou um copo de uísque e sentou-se no sofá da sala de estar de sua casa, era seu modo de comemorar, pois àquele momento, o marido e a enteada estavam chegando na parte crítica da viagem.
Cláudio estava tentando diminuir a velocidade, pois havia visto as placas na pista alegando que haviam obras na pista e notou que conforme ia descendo o morro, o carro adquiria cada vez mais velocidade em vez de frear quando ele pisava no freio.
— o que está acontecendo pai? — Marcela notou que algo estava estranho – por que está indo tão rápido?
— meu amor, está tudo bem, coloque o sinto de segurança agora – respondeu Cláudio olhando para frente guiando o carro.
Marcela assustada, fez o que o pai mandou e olhou para ele fixamente, cada vez mais assutada. Cláudio viu que a frente do carro no final do morro começaram a surgir silhuetas que ele identificou como sendo os homens trabalhando na pista e ele começou a buzinar e gritar para que as pessoas saíssem da pista, ele havia percebido que não tinha mais freios no carro. Marcela ficou apavorada vendo o pai gritando para que as pessoas saíssem da pista, e então ela pegou na mão do pai e ele segurou firme ela em retribuição. Cláudio olhou fundo nos olhos da filha e sussurrou para ela “eu te amo minha pequena” e sorriu, tentando acalmá-la. Os olhos de Marcela estavam cheio de água e seu rosto molhado, então ela olhou para frente e viu que o carro começava a sair da pista em direção a um precipício, por um instante tudo ficou mudo para Marcela, até que ela ouviu o barulho da lataria do carro amassando quando colidiu, pela primeira vez, com o precipício onde o carro capotou e rolou várias vezes.
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