As Divassas do Zodíaco
1 1- Sensei
Notas iniciais
Eu sou aquilo que conta. Mas quem eu sou não importa. Importa mesmo o que conto. E dessa vez, conto sobre um Sensei. Um Sensei apenas, pois não havia outro nome para chamá-lo. Se havia, nem ele mesmo sabia qual era.
Sensei era um “sensei” em todos os sentidos impossíveis: um mestre de qualquer coisa, um mestre de muita coisa, e um mestre de coisa nenhuma. Um professor. Um médico (de almas, quem sabe?). E em outras tantas coisas que não era mais um mestre, havia sido. Parecia agora uma história muito distante. Ele sabia que tinha acontecido e ainda acreditava (cada vez menos, mas acreditava) em cada detalhe surreal que tinha se passado em sua vida, mas pareciam ser passado apenas, e presente nenhum. A não ser por poucas coisas. Ele era mestre e aprendiz. Eu sou apenas aquilo que conta, e vou lhes contando aos poucos muitas coisas. Tenham calma. De apressado, já basta ele.
Sensei era um mestre em literatura, ensinava em uma escola, e se nem todos amavam seus métodos nada convencionais, ao menos a maioria o respeitava e não incomodava muito. Era um grande conhecedor de coisas ocultas e mágicas. Sabia muito mesmo sobre elas. Muito mais do que os outros imaginavam, por sinal. Mas não dizia muito aos outros sobre o que sabia. Tentou umas poucas vezes e o chamaram de doido. Autista. Esquizofrênico. Tentaram interná-lo uma vez (ou sete?). Aliás, o chamaram de doido tantas vezes que ele acabou endoidando em vários níveis. E apesar de doido, era são. E apesar de são, era louco. Com o tempo, tornou-se também mestre em ser louco e são ao mesmo tempo. E nessa sanidade na loucura, nessa loucura na sanidade, ninguém sabia dizer se era mais louco ou são, sabiam que era um bom sensei e o chamavam de Sensei, pois acabou nunca mais relevando seu verdadeiro nome para ninguém.
Talvez essa coisa de loucura não seja exatamente como vocês que me ouvem pensam que seja, essa coisa doentia e mesquinha que destrói qualquer lógica. Talvez seja uma lógica nova e diferente apenas. Os gênios que tinham outra lógica sempre acabaram sob o manto dos loucos, e se Sensei não era um desses, passava muito perto. Viu coisas com uma lógica totalmente diferente dos as que viram antes. Suspeito que a loucura seja algo mais para se acostumar com que para ser aprendida ou surgir do nada. É algo que já veio nos loucos e acorda em determinado momento. Se ele se acostuma com a loucura e a domina, vira um louco-são desses notáveis que vemos por aí. Se continua perturbado por ter sua loucura desperta, acaba ficando doente e parecido com os loucos que vocês tentam curar. Nem todo louco precisa de cura. Alguns já têm, na própria loucura, seu auto-tratamento. Bem, mas não sou aquilo que divaga sobre a loucura, e sim aquilo que conta. E ainda preciso lhes contar muita coisa sobre o Sensei.
Gostava de andar na chuva. Sobretudo, de sobretudo. E pensava sobre tudo enquanto fazia isso. Parece confuso, mas não é tanto se comparado ao que ele pensava tanto. Tanto é que, quando deixava uns de seus pensamentos altos sobre magias e afins escapar era novamente chamado de louco. E certamente seria se contasse para os seus alunos qualquer uma de suas aventuras. Eu sei que ele não é, e acredito que vocês também o saibam, então contarei a vocês o que aconteceu ao mestre aprendiz no “mundo cinza”, como ele costumava chamar. O mundo cinza foi, pouco a pouco, apagando as cores de Montris e Raitun da mente de Sensei. Montris, segundo ele, era um mundo paralelo que ele, na época nomeado de Raitun, havia salvo de forças das trevas chamadas ironicamente de “Luminus”. Deixou isso para lá com o tempo. Se era verdade ou não, talvez nem ele sabia mais dizer. Deixou tudo. Deixou até mesmo o cabelo e a barba, antes quase nulos, agora crescidos de um jeito levemente descuidado, arrumou um óculos falso para ter uma aparência mais séria, e acabou virando um Sensei em uma escola. E nem aquilo que conta sabe contar como tudo isso aconteceu sem que ele dissesse seu nome verdadeiro a ninguém, mas essa parte é, com certeza, a mais forte de toda essa história. Ninguém sabia o nome do Sensei, talvez nem ele mesmo. Achou que seu papel como Raitun havia sido cumprido e tudo aquilo sobre magia era passado e, quando presente, estava apenas na sua cabeça. Até o destino inevitável resolver lhe dar uma luz e algumas cores em pleno mundo cinza.
Aconteceu de noite. Chovia, e Sensei resolveu andar e deixar sua mente trabalhando sobre elfos, trolls e coisas do tipo. Assim seus pés o levariam pra onde ele deveria ser levado. Foi parar em uma rua escura e deserta com postes espaçados. O primeiro poste se apagou assim que Sensei pisou em sua luz. Bem, isso não seria estranho se o segundo e o terceiro postes tivessem feito o mesmo. E o quarto, o quinto e o sexto. E então o sétimo poste apagou, mas acendeu novamente.
– Ok...quem és tu, algum tipo de troll das sombras? Perguntou Sensei
– Hm... não. Só alguém que acha que você precisa clarear as ideias, mas está fazendo do jeito errado — respondeu uma voz feminina. Quase infantil.
Sensei olhou em volta e não viu ninguém. Se perguntou se era então a sua mente que tinha resolvido falar alto demais. Sua mente lhe respondeu que não falava tão alto assim, e nem tinha aquela voz, e o xingou. Então a voz falou novamente e ele percebeu de onde vinha.
– Olá, Raitundo! Finalmente achei você. Ou você nos achou? Não sei, só sei que agora as crônicas serão rápidas como um flash, num piscar de olhos! Ah, que bom! Eu lhe abraçaria agora se você não fosse se assustar com isso! Disse a voz novamente.
E então Raitun percebeu que a voz veio...do poste.
– Vi muitas coisas em minhas jornadas. Orcs, Trolls, Demônios, Aiodromes e até a minha própria morte, mas... um poste que fala... realmente... – e não conseguiu completar a frase. Em parte, por falta de palavras, em parte, pela revolta do poste.
– EU NÃO SOU UM POSTE! Gritou a voz em tom choroso.
– Então é algum tipo de metamorfo extremamente exótico, porque não importa por onde eu olhe, você parece exatamente com um poste, respondeu o professor dando uma volta no poste e o examinando atentamente por cima de seus óculos falsos.
– Volte pro hori- não não, poste. Volte pro outro poste e eu lhe mostrarei quem eu sou realmente.
Relutante, e com o cérebro viajando entre inúmeras alternativas e suposições, Sensei obedeceu. E viu o poste que havia falado encolher e sumir na escuridão chuvosa da noite. Ia se perguntar novamente se não era algum tipo novo de Troll que lhe perseguia, mas ouviu um “psiu” com a mesma voz de antes. Olhou em volta, mas não viu nada. E então ouviu outro “psiu” e percebeu que a voz vinha do chão agora. Então olhou pra baixo e viu um pequeno guarda chuva.
– Aqui embaixo mesmo. Poderia me dar uma carona pro andar de cima, Raitundo?
– Raitundo? Perguntou o professor, estendendo a mão pra calçada. O pequeno guarda chuva subiu em sua mão. E ele sentiu que tinha pés, e viu que na verdade era uma pequena garota quando elevou a mão a uma altura considerável. Não pôde ver muito por causa da sombra do guarda chuva sobre ela, mas viu que vestia algo como um vestido de Lolita com muitos babados e laços. E iria se permitir ficar ali viajando novamente em que tipo de criatura era aquela se ela não o tivesse interrompido novamente.
– Uhum, Raitun-do! As pessoas usam “-san” entre elas, os samurais usam “-dono”, e eu uso “-do” com você. Por que Raitun-do é mais fofinho.
– Vocês deveriam se preocupar menos com a fofura do meu chamamento... enfim, quem és tu, poste? Algum tipo de...
– Eu não sou um poste! Eu só me transformo em um. Eu sou Kane. Kane Villumna. E você é o Raitun-do! E precisamos ir, sabia? Está ficando tarde, e...bem, eu tenho medo da madrugada escura.
– Você é um poste. Ficar na madrugada escura é justamente o que você tem que fazer. E precisamos ir pra onde exatamente?
– Eu não sou um poste! E você vai descobrir. Eu vou te guiar – disse ela, pulando pro ombro direito de Sensei e se sentando. – Minha missão é te levar até o negão.
– Como assim? Que negão?
– Você vai saber quando chegarmos lá. Vamos?
– Não sei ainda por que deveria ir, mas vamos então. Quero entender o que é você e o que queres comigo exatamente.
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