Notas iniciais
Tô revisando e mexendo numas coisas, vai ter esse cap aí. É isso

37 – Neblina


Janeiro em Nova York tinha um jeito próprio de apagar o dia. Às quatro e meia a luz já tinha ido embora, e a neve suja empilhada na calçada em frente ao prédio de tijolos virava uma massa cinzenta sob os postes. Annabeth, vinte e nove anos, o estúdio minúsculo coberto de maquetes e folhas de papel vegetal, aprendeu a reconhecer o radiador antes de reconhecer qualquer outro som da casa: três batidas secas, uma pausa, três batidas de novo.


O celular ficava virado pra baixo ao lado do notebook. Ela chamava isso de disciplina.


A verdade era mais incômoda. Fazia onze dias que ela e Percy não tinham uma conversa de verdade, daquelas que atravessam a noite sem ninguém olhar o relógio, e Annabeth sabia exatamente quantas dessas ausências eram dele e quantas eram dela. Contava. Dessa vez a conta não saía a favor.


"Bom dia. Como está o inverno?"


"Frio. E aí?"


Ela tinha digitado "frio" às três da tarde. Ele mandara a pergunta às sete da manhã, horário de Londres, que era dois da madrugada dela. Ela respondeu doze horas depois, de propósito, e passou a tarde inteira sabendo que era de propósito.


Quando o radiador bateu de novo, Annabeth empurrou o notebook pra longe e admitiu pra si mesma o que vinha evitando. Ela também estava se afastando. A diferença é que fazia isso com método.


Saía pra caminhar quando a conta ficava pesada demais. Washington Square às seis da tarde, os bancos cobertos de gelo, um saxofonista teimoso tocando perto do arco apesar das mãos roxas de frio. Dava duas, três voltas na fonte seca, o gorro puxado até as sobrancelhas, repassando a lista como quem repassa o contorno de uma planta: o que era dele, o que era dela, o que era só distância. A lista nunca fechava. Quanto mais ela media, mais sobrava de um terreno que não cabia em número nenhum.


***


A orientadora de Annabeth tinha o hábito de começar reuniões sem cumprimentar ninguém.


— O prazo de Berkeley fecha na sexta — disse, sem erguer os olhos do monitor — Sua carta está pronta. Falta a senhorita ter coragem de apertar o botão.


— Eu vou apertar.


— Eu sei que vai. Só quero saber se é a escolha certa ou a escolha confortável.


— Berkeley não é conforto nenhum. Fica a seis fusos do que eu conheço.


— Cinco, na verdade. Mas estamos falando de outra coisa, não de fuso — a orientadora finalmente olhou pra ela por cima dos óculos — A senhorita escolhe lugares pensando em quem vai estar neles ou em onde quer chegar?


Annabeth abriu a boca pra responder e não encontrou resposta pronta. Foi a primeira vez em meses que isso acontecia numa reunião.


Naquela noite, sentada na cama com o formulário aberto, ela escreveu no campo de motivação a única coisa que de fato era dela. Escreveu sobre a neblina que sobe a baía de manhã cedo e engole a ponte inteira, sobre ter crescido olhando aquilo sem entender que estava aprendendo a ler proporção, escala e silêncio. Escreveu que queria voltar pra uma paisagem que tinha formado seu olhar antes de qualquer professor.


Não escreveu o nome do Percy em lugar nenhum. Apertou enviar antes que mudasse de ideia.


Thalia apareceu no apartamento estudantil dela na sexta feira de noite com uma garrafa de vinho seco na mão.


— Você está com cara de quem comeu limão — foi a primeira coisa que ela disse.

— Bom te ver também.


— Estou falando sério, Chase. O que foi?

— Nada. Cansaço. O mestrado me engoliu.


— Mentira — Thalia puxou uma perna pra cima do sofá — Isso é cara de quem anda esperando mensagem de alguém que mora na terra da rainha


— Eu não estou esperando nada.


— Você estava com o celular na mão quando atendeu. Eu vi.


— Luke acha que ele está escondendo alguma coisa, mas o Luke acha isso de todo mundo que anda calado.


— Ele está só ocupado.


— Pode ser. Ou pode ser que ele precise ouvir de você o que você precisa ouvir dele — Thalia ergueu as sobrancelhas — Não faz essa cara. Eu sou grosseira, não burra.


Annabeth pediu que Thalia dormisse aquela noite junto dela, as vezes a insônia não a deixava quieta, provavelmente devido a todas a ligações de vídeo e conversas entre ela e Percy, que devido ao fuso, mantinham ambos em estado catatônico durante o dia.


A chamada de vídeo com Percy aconteceu pela primeira vez em semanas.


Ele atendeu da cobertura em Chelsea, um suéter cinza velho, a barba mais cheia do que ela lembrava, uma xícara de café esquecida ao lado do teclado.


— Oi — ele disse, e sorriu daquele jeito que aparecia primeiro nos olhos.


— Oi. Você está cansado.


— E você está linda, então estamos empatados.


— Bobo.


Conversaram sobre a tese dela, sobre um aluno dele que tinha confundido Alexandre com Júlio César numa prova, sobre o frio que fazia dos dois lados do Atlântico. Ele contou uma história do Luke arrebentando uma corda no meio de um ensaio, e ela riu no lugar certo. Annabeth percebeu que sabia exatamente qual era o lugar certo, e que antes não precisava saber.


Era bom. Era também meio automático, como uma música ensaiada demais, e ela sentiu isso no meio da segunda história.


Foi então que notou a janela aberta atrás dele, no notebook, um brasão azul e dourado ocupando um canto da tela.


— O que é isso aí atrás?


Percy olhou por cima do ombro e fechou o notebook com a palma da mão, rápido demais.


— Nada. Relatório do Camboja. Um colega de Oxford me mandou o modelo de formatação.


— Azul e dourado é Oxford?


— Balliol, mais ou menos. Tradição.


Ela deixou passar. Ele tinha o direito de ser reservado com trabalho, e a resposta ter vindo tão ensaiada não significava necessariamente nada. Mas guardou a imagem do brasão em algum lugar, junto com todas as pequenas dúvidas que não se encaixavam em nenhuma conclusão.


— Está tudo bem? — ela perguntou, por fim.


— Está. Só preciso de mais um pouco de tempo pra uns assuntos.


— Que assuntos?


— Coisas da universidade. Nada com que você precise se preocupar.


A frase ficou ali entre eles, educada e vazia. Annabeth sorriu e disse que entendia. Quando desligaram, percebeu que as mãos estavam geladas.


Sally ligava aos domingos desde o Dia de Ação de Graças. Nunca tinham combinado isso. Na segunda semana, Annabeth atendeu por reflexo, na terceira já esperava, e no segundo mês passou a avisar quando ia faltar, como quem avisa uma amiga querida.


— Meu filho te contou que anda impossível? — Sally perguntou, naquele domingo, o fogão ligado ao fundo.


— Contou que anda ocupado.


— Ocupado é o jeito dele de dizer que está com medo. Faz isso desde pequeno. Quando a coisa importa de verdade, ele fica quieto e desaparece dentro de uma tarefa — Sally riu baixinho — Cresceu achando que sentimento se resolve fazendo alguma coisa grande, em vez de simplesmente dizendo.


— Ele fez uma coisa grande em dezembro.


— Fez?


— A ópera. A limusine.


— Isso é um gesto, querida. Gesto é bonito. Mas não é uma conversa.


Annabeth riu, e depois ficou séria.


— Eu me inscrevi em Berkeley. Doutorado completo.


Houve uma pausa curta do outro lado. Dava pra ouvir uma panela borbulhando.


— E o que você quer? — Sally perguntou, devagar.


— Quero a neblina — Annabeth respondeu, e se surpreendeu com a rapidez da própria resposta — Quero voltar pra onde eu aprendi a olhar. Não é por causa dele. Não é contra ele.


— Então não precisa se justificar pra ninguém, inclusive pra mim — Sally disse, com uma ternura firme que Annabeth já reconhecia — Escolha o que é seu. O que for do meu filho se resolve sozinho, de um jeito ou de outro.


Annabeth almoçava na casa da mãe no Queens todos os domingos, e foi num desses que Atena indagou enciumada e fazendo biquinho.


— Sua mãe agora é a Sally Jackson, pelo visto — foi como começou, e Annabeth riu apesar de tudo — A senhorita ligou mais vezes pra ela do que pra mim esse mês.


— Eu estava ocupada. E literalmente estou aqui, e ela em Londres.


— A senhorita está sempre ocupada. Isso nunca foi desculpa, só estilo — Atena fez uma pausa — Soube de Berkeley.


— Soube por quem?


— Pela própria orientadora, que me enviou um e-mail encantador sobre o seu "senso de direção". É uma boa universidade. Um bom departamento.


— Mas?


— Mas nada. Só quero que escolha um lugar sem transformá-lo em recado pra alguém. Nem a favor nem contra. Escolha pelo que ele é.


— Foi o que eu fiz.


— Então está certa — Atena disse ao retirar os pratos da mesa — O resto se negocia. Existe uma palavra pra isso, aliás. Chama-se carreira. Funciona bem com os dois lados da conversa.


As duas dividiram um sorvete na sala, assistindo um documentário no history channel.


Fevereiro passou inteiro entre o portal de candidatura e a janela do estúdio. Annabeth atualizava a página de manhã e à noite, como quem confere uma panela no fogo, sabendo que olhar não adianta nada e olhando mesmo assim. Quando a notícia demorava, ela se pegava planejando respostas pra todos os desfechos possíveis, e descobriu que não sabia qual delas doía menos.


O e-mail chegou numa terça-feira de março, de manhã, enquanto ela tomava chá em pé na cozinha, o cabelo ainda molhado do banho.


"Prezada Srtª Chase, temos o prazer de informar que sua candidatura ao programa de doutorado do Departamento de Arquitetura da Universidade da Califórnia, Berkeley, foi deferida..."


Ela leu a primeira linha, depois a segunda, depois a mensagem inteira, de novo e de novo, até as palavras perderem o sentido e virarem só som. Bolsa integral. Orientação confirmada. Começo em setembro.


Sentou no chão da cozinha, as costas contra o armário, o chá derramando um pouco no pulso sem que ela notasse. Riu sozinha, uma risada curta, quase sem ar.


Depois lembrou de uma manhã, aos seis anos, de neblina cobrindo a ponte inteira e uma mão grande segurando a dela na calçada. Alguém tinha dito olha como o mundo respira. Ela nunca esqueceu.


Pegou o celular e abriu a conversa com Percy. O nome dele estava lá, a última mensagem ainda sem resposta há dois dias. O dedo ficou parado em cima do botão de ligar.


A pergunta que ela evitava voltou inteira. E se ele dissesse apenas que bom? Do jeito educado, do jeito cuidadoso, do jeito de quem já fez as contas e chegou à mesma conclusão que ela. E se o silêncio dos últimos meses fosse, no fim, só um acordo que os dois já tinham fechado sem assinar?


Ela olhou pro e-mail aberto no notebook, depois pro celular.


Faltavam seis fusos, um oceano e algumas semanas de coragem pra decidir como contar uma notícia que era, ao mesmo tempo, a melhor da vida dela e a mais difícil de dividir com a única pessoa que ela queria que soubesse primeiro.


Apertou o botão antes que mudasse de ideia.