Notas iniciais
Finalmente.

33 – Sem Guarda-Chuva


Annabeth passou março inteiro aprendendo os horários do Percy pra poder evitá-los.

Sabia que ele dava aula às terças e quintas de manhã, que almoçava tarde, que cortava pelo átrio quando precisava pensar. Desde a audiência, Crawford tinha passado a orientação formal dela ao professor Aldridge, uma decisão discreta que ninguém comentou e que os dois entenderam sem explicação. No papel, ela já não era aluna dele em nada que importasse. O que sobrava era o que o papel não cobria.


Havia uma frase que não ia embora. Eu teria te levado mil vezes pra catalogar aquelas muralhas. Ele a dissera num banco do Hyde Park, sem esperar nada em troca, e desde então ela a repetia nos corredores, na fila do refeitório, na cama, antes de dormir. Annabeth, vinte e nove anos, tinha construído a vida sobre ser cuidadosa. Escolhia lugares, palavras, distâncias. Aquela frase era a primeira coisa em muito tempo que ela não conseguia classificar.


Fazia o trajeto da biblioteca ao refeitório pelo caminho mais longo, só pra não passar diante do escritório dele. Quando o avistava de longe, no meio de um grupo de alunos, a mão dele passando pelo cabelo daquele jeito, ela mudava de calçada com a naturalidade de quem desvia de uma poça. Funcionava. Também doía, e ela fingia que uma coisa não tinha a ver com a outra.


Na sexta, a chuva veio de uma vez. O céu de Oxford, que passara a manhã numa dúvida cinzenta, caiu inteiro sobre o pátio. Annabeth saiu da biblioteca com o casaco por cima da cabeça e correu pro primeiro prédio que apareceu. Só percebeu onde estava quando empurrou a porta e sentiu o cheiro de madeira velha e verniz.


A sala de música. Vazia, o piano de cauda encostado na parede do fundo, a luz da janela tingida de cinza pela água escorrendo no vidro. Ela ficou ali, ofegante, com o casaco pingando no chão, e pensou, sem achar graça nenhuma, que o universo tinha um senso de humor muito específico.


Percy chegou minutos depois, pelo mesmo motivo e pela mesma burrice. O paletó de tweed encharcado. Percy praguejou baixinho ao entrar na sala pra se abrigar da ventania no corredor aberto.


Annabeth estava de pé perto da janela, o cabelo escorrendo água pelos ombros, os olhos grandes de quem acabou de ver a própria pergunta entrar pela porta.


— Você também — ela disse.


— Eu também.


Nenhum dos dois se mexeu. A chuva batia no vidro num ritmo constante, quase musical. Percy pendurou o paletó numa cadeira só pra ocupar as mãos, e foi nesse gesto pequeno que percebeu o quanto tinha treinado, nas últimas semanas, a arte de não ir atrás dela. Cada vez que a via mudar de calçada, tinha respeitado.


Aquilo não era covardia, ele se lembrava dizendo a si mesmo, era o único presente que podia dar. Mas ali, naquela sala, o presente tinha acabado de perder a graça.


— Toca — ela pediu, olhando pro piano — The Only Exception. A “nossa” música. Aquele dia eu te vi tocando, mas não tive coragem de entrar. Hoje eu já estou aqui.



Percy não tentou negar aquele singelo pedido e sentou ao instrumento devagar.


Os dedos pairaram um instante sobre as teclas, como se a memória precisasse de permissão pra voltar. Tocou baixo, quase sussurrado, sem cantar, e o som se misturou à chuva do jeito mais improvável possível. Annabeth encostou o ombro na lateral do piano e ouviu de olhos fechados.


Quando a última nota se desfez, ficou só o barulho da água.


Onze anos desde a primeira vez que ficaram frente a frente em uma sala de música, sem saber o que dizer, o ar pesado demais pra qualquer coisa além do óbvio que nenhum dos dois tinha coragem de nomear. Naquele dia eles foram interrompidos pelo professor, mas hoje a torrente que caia dos céus daria a eles toda privacidade do mundo.


— Você está tremendo — ele disse, dando um passo à frente saindo do banco do piano.


— Está frio.


— Não é só isso.


Ela não negou. Percy se aproximou mais. Parou a um passo de distância dela, perto o suficiente pra sentir o cheiro de chuva misturado com o perfume que ela nunca usava de propósito, perto o suficiente pra ver as gotas escorrendo pelo pescoço dela, desaparecendo por baixo da gola da blusa.


— Percy...


Percy fez menção de começar a dizer algo, mas foi interrompido.


— Chega de falar — Annabeth disse, e antes que ele conseguisse responder qualquer coisa, ela já tinha encurtado a distância entre os dois, as mãos subindo pelo peito dele até o pescoço, puxando-o pra baixo com uma urgência que não deixava espaço pra hesitação.


O beijo veio sem cerimônia nenhuma, sem a doçura cuidadosa de outras vezes — era fome pura, onze anos de coisas não ditas explodindo de uma vez, as mãos de Percy encontrando a cintura dela, puxando-a contra o próprio corpo como se qualquer centímetro de distância ainda fosse demais. Ela estava fria, molhada, tremendo, e ele também estava, e nenhum dos dois se importava.


Annabeth soltou um som baixo contra a boca dele quando as costas encontraram a parede, as mãos dele deslizando pela lateral do corpo dela por cima do tecido encharcado, e por um instante o mundo inteiro se resumiu àquele contato — a chuva batendo lá fora, o piano velho testemunhando silencioso no canto da sala, o cheiro de tinta molhada e madeira antiga misturado ao calor repentino entre os dois corpos.


— Isso é loucura — ela murmurou, entre um beijo e outro, sem nenhuma intenção real de parar.


— Sempre foi.


Ela riu, um som baixo contra o pescoço dele, e Percy sentiu aquele riso reverberar em algum lugar do próprio peito que ele tinha certeza de ter fechado há muito tempo. As mãos dela desceram pelos botões da camisa dele, desajeitadas de tanta pressa, e Percy afastou o rosto o suficiente pra olhar pra ela — os cabelos grudados na testa, os olhos cinzentos brilhando com algo que não era mais incerteza.


— Tem certeza? — ele perguntou, a voz rouca, precisando ouvir, precisando garantir que não estava sozinho naquilo.


— Onze anos de certeza, Jackson. Acho que já ultrapassei o limite de dúvida há muito tempo.


Foi tudo que ele precisava ouvir.


Não conseguiram esperar chegar em lugar nenhum específico. A chuva ainda caía lá fora quando saíram da sala de música, as roupas ainda molhadas, as mãos entrelaçadas com uma urgência que nenhum guarda-chuva do mundo teria conseguido apressar.


— Sua sala é mais perto — Annabeth disse, ofegante, enquanto corriam pelo pátio deserto.


— Vamos.


Os dois correram na chuva como crianças, as mãos entrelaçadas com força. Como se nada pudesse impedi-los de ficar juntos agora. Todo o peso do tempo descarregado ali, naquele gramado encharcado sob a chuva incessante que os dizia que o tempo juntos estava acabando.


O vento açoitava os cabelos dela, já grudados na testa, e a camisa dele colava no corpo a cada passo, transparente o suficiente pra desenhar cada contorno por baixo do tecido encharcado.


Chegaram ao escritório ofegantes, rindo baixo entre a falta de ar, e mal a porta se fechou os corpos já se encontravam — molhados, frios, urgentes. As mãos dela subiram pelo peito dele antes mesmo de ele conseguir tirar a chave da fechadura, e os lábios se tocaram com a mesma pressa da corrida, sem pausa, sem cerimônia, o gosto de chuva ainda na boca dos dois.


Percy a deixou sentada na mesa de madeira lotada de papéis e pegou uma das cadeiras. Ele foi até a porta e travou com violência, só para se virar de costas e vê-la se despindo peça por peça. Primeiro o casaco de lã encharcado, depois as botas, a camiseta amarela e o sutiã.


O homem não perdeu tempo, em poucos segundos toda a roupa já estava no chão frio. Ainda assim, Percy avançou com sinal de permissão no olhar, antes de colar novamente os lábios nos de Annabeth.


As respirações se misturavam, pesadas, quentes, contrastando com a pele fria e arrepiada. Cada movimento carregava a mesma urgência da tempestade lá fora — nada calculado, nada gentil, só corpos que já tinham esperado tempo demais se recusando, finalmente, a esperar mais um segundo.


Coisas imorais foram presenciadas pelos móveis e pelas fotos de ex professores naquele pequeno escritório de Balliol. As paredes felizmente eram grossas o suficiente pra abafar os gemidos urgentes e cálidos que emanaram de dois corpos juntos, finalmente, após onze anos de distância caírem por terra.


***


E não parou por aí.


Percy dirigiu rápido demais pelas ruas encharcadas, o limpador de para-brisa mal dando conta da chuva, Annabeth com a mão apoiada na coxa dele o tempo inteiro, como se largar o contato fosse desfazer tudo que tinha acontecido na sala e no escritório. Nenhum dos dois falou muito no caminho — não havia necessidade. As palavras já tinham sido ditas, ou talvez nunca fossem necessárias mesmo, não entre os dois, não depois de tanto tempo lendo um ao outro sem precisar de frase nenhuma.


A cobertura estava vazia quando chegaram — a banda estava dia e noite no estúdio trabalhando no novo disco.


O elevador subiu em silêncio, os dois ainda pingando água no chão de mármore, as mãos ainda entrelaçadas, o olhar de Annabeth fixo nele o tempo inteiro, intenso o suficiente pra fazer Percy esquecer completamente qualquer coisa que não fosse ela.


A porta do apartamento mal tinha se fechado atrás deles quando ele a puxou de novo, as mãos encontrando o rosto dela dessa vez, mais devagar, como se quisesse gravar cada segundo daquilo pra sempre.


— Onze anos — ele murmurou contra a boca dela.


— Onze anos — ela concordou, um sorriso brincando nos lábios dela mesmo em meio à intensidade do momento — Mas aqui estamos, agora.


Ele a beijou de novo, mais devagar dessa vez, deixando que o tempo se esticasse, que cada segundo carregasse o peso de tudo que tinham perdido — o Summit, Thames Valley, Stanford e Oxford separados por oceanos, as cartas anônimas, a audiência inteira, cada mal-entendido que os tinha mantido separados quando o único obstáculo real, no fim das contas, sempre tinha sido a covardia dos dois.


As roupas molhadas foram ficando pelo caminho, um rastro descuidado pelo corredor sem porta que separava os quartos, e quando finalmente chegaram ao quarto dele, a chuva ainda batendo contra os vidros panorâmicos, Percy parou por um instante, só pra olhar pra ela — o cabelo bagunçado, a pele ainda fria de chuva, os olhos cinzentos fixos nos dele sem nenhum traço de dúvida.


— Você está linda — ele disse, a voz baixa, séria demais pro tom que geralmente usava.


— Você está péssimo em escolher momentos pra ser gentil, sabia?


— Sempre estive.


Ela riu, e o som daquele riso, misturado ao barulho da chuva lá fora, foi a última coisa clara que Percy conseguiu registrar antes que tudo o mais deixasse de importar — o passado, a distância que ainda os esperava, o relógio invisível que continuava, em algum lugar, contando os dias. Naquela noite, só existiam os dois, o som da chuva, e onze anos de atraso finalmente sendo colocados em dia.


***


De manhã, a luz entrava fraca pelas cortinas que Percy nunca fechava direito, e Annabeth acordou primeiro, o braço dele ainda enroscado na cintura dela, a respiração pesada e regular de quem dormia mais tranquilo do que devia.


Ela ficou ali por um tempo, só olhando pro teto, sentindo o peso do braço dele, o calor do corpo dele contra o dela, tentando não pensar em junho, em NYU, em qualquer coisa que não fosse aquele momento específico.


— Está pensando demais — a voz dele veio rouca, ainda meio dormindo, os olhos ainda fechados.


— Como você sabe?


— Sua respiração muda. Sempre mudou, desde o colégio. Fica meio ofegante.


Ela virou de lado, encarando-o, o rosto dele ainda amolecido pelo sono, tão diferente do professor sério que ela via em Balliol, tão parecido com o garoto de dezessete anos que ela tinha conhecido numa sala de arte há mais de uma década.


— O que a gente vai fazer, Percy? — ela perguntou, finalmente, a pergunta que os dois vinham evitando desde a noite anterior.


Ele abriu os olhos, e passou os dedos devagar pelos cabelos dela.


— Não sei. Mas sei que não quero pensar nisso agora.


— Vamos ter que pensar em algum momento.


— Em algum momento — ele concordou — Não hoje.


Ela sorriu, pequeno, cansado, real, e se aconchegou de novo contra o peito dele, o som da chuva ainda caindo lá fora, mais fraca agora, quase uma trilha sonora suave pra um momento que nenhum dos dois queria que acabasse.