As Desventuras do Caos
8 CAPÍTULO VIII — FRANGO
Notas iniciais

O barulho da sirene da ambulância soou próximo rapidamente. Assim que Cold discou a emergência e informou sobre o rapaz que sofria de choque anafilático, prontamente uma equipe de jaleco branco chegou com uma maca e retirou Hans, aplicando-lhe de imediato uma injeção e prendendo uma máscara de oxigênio em seu rosto.
Cold acompanhou Hans na ambulância e Shannon simplesmente sumiu de vista. A porta escancarada e o estado de sujeira da sala mantinham vivo em minha consciência de que eu teria que limpar tudo aquilo na manhã seguinte, mas, naquele momento, eu só queria entrar no banho e deixar a água quente aliviar o peso da culpa, que era inteiramente minha, de quase ter matado o meu vizinho.
Assimilar os acontecimentos recentes estava sendo uma tarefa complicada, afinal, eu nunca imaginaria que Shannon e Hans tivessem namorado. O que explicava muitos questionamentos, como o porquê de Hans o odiar. No entanto, eu também considerei o fato de Shannon ter arranjado briga com o amigo de Hans. Era de se esperar de um cara tão agressivo.
O mesmo cara que se segurou quando estava prestes a bater em mim.
A lembrança da respiração ofegante e o punho cerrado do rapaz estava vívida na minha cabeça, mas o momento em que ele desistiu de quebrar minha cara também estava.
Abri a geladeira, procurando algo para comer. A primeira coisa que notei era que havia um estoque de cerveja. A segunda, todos os produtos estavam duplicados, uma opção normal e uma opção sem lactose. Que tipo de pessoa toma leite de amêndoas? Tinha um cheiro tão doce que causava náuseas. A única caixa de leite normal só restava um copo, então eu me servi, sentando-me ao bar e fazendo uma nota mental de comprar outra caixa de leite no dia seguinte.
Shannon entrou na cozinha, ignorando minha presença, e abriu a geladeira logo em seguida, mas sua atenção foi tomada pela caixa de leite vazia em cima da bancada, e então ele se virou.
— Você está tomando meu leite.
— Me desculpe, o outro era de amêndoas.
— Cold é alérgico às proteínas do leite. — Shannon colocou as mãos na cintura. — Me devolve.
— O quê, você quer esse copo? — Apontei para o que eu segurava, ele balançou a cabeça. — Eu já coloquei a boca aqui, isso é anti-higiênico.
Shannon pegou o copo da minha mão e levou à boca, terminando o conteúdo em uma golada só. Ele deixou o copo na pia e saiu, desaparecendo no corredor.
— Não beba o meu leite.
***
No dia seguinte, vesti uma roupa fresca e me preparei para começar a faxina. Eu iria enfrentar o lodo daquele banheiro, a gordura do chão e toda aquela bagunça. E eu iria enfrentar a temida nunca-usada-área-de-serviço.
Abri a porta com um pouco de dificuldade como se ela estivesse emperrada. Apesar da poeira em cima da máquina de lavar e secadora, tudo parecia intocado. Alguém mobiliou a casa para os gêmeos Lane, no entanto, eles não faziam uso de quase nada que fosse para o bem da comunidade higiênica. Todos os produtos químicos e higiênicos estavam em prateleiras e um varal de roupas de apartamento estava instalado no teto.
Após encarar o monstro da louça, arrumar a cozinha e etiquetar todos os produtos com e sem lactose na geladeira, comecei a catar as peças jogadas pelo chão da casa. Os edredons foram dobrados, os livros guardados na estante, os copos já estavam todos limpos. As peças de roupa lavada foram amontoadas na lavadora, pois eu nunca saberia de quem é o quê. As folhas rabiscadas e notas fiscais foram jogadas em um saco de lixo, e tudo que eu não sabia se era ou não importante estava sendo separado entre as pilhas “gêmeo 1” e “gêmeo 2”. A escrivaninha da sala estava cheia delas. Tinha papel timbrado em branco. Eu coloquei junto da pilha "coisas que não sei a qual dos gêmeos pertence".
O chão que nunca esteve limpo parecia ter sido encerado de tão reluzente e deslizante.
Limpar o banheiro foi a tarefa mais difícil de todas. Os minúsculos detalhes foram resolvidos com uma escova de dente amarela que parecia extremamente velha e era a única jogada no copinho. Espero que não seja de ninguém. A banheira, no fim, havia voltado a ser branca. No espelho era possível ver o meu reflexo inteiro, as toalhas foram trocadas, o sanitário não fedia mais e o ambiente tinha cheiro de Ipês cor-de-rosa.
Quando finalmente terminei toda a área comum da casa, estava suada, descabelada, mas muito satisfeita. Sabia que quando Cold voltasse — da casa de Hans ou do hospital —, ele ficaria impressionado e surpreso. O apartamento finalmente parecia uma casa de verdade.
Pensando bem, ele ficaria ainda mais feliz se eu limpasse seu quarto ou organizasse suas roupas. Afinal, agora eu estava ganhando para isso — ganhando um quarto em um apartamento.
Tudo bem. Admito. Eu sou uma maníaca por limpeza.
Com um cabo de vassoura em mãos e um pano de tirar poeira em outro, ignorei a vozinha na minha cabeça que se esgoelava me avisando que eu não deveria entrar no quarto de Cold sem sua permissão. Mas ele não iria se importa com isso agora, iria? Adentrei o quarto de Cold. Estava escuro, pois as janelas estavam fechadas com pedaços de madeira e eu não sabia a razão disso. Tateei a parede em busca do interruptor, em vão. Imaginei que talvez tivesse algum abajur ao lado da cama — deixei a parede e fui em direção ao móvel. Como eu nunca tinha muita sorte, bati a canela na quina do móvel e segurei para não xingar. Aquilo iria ficar muito roxo, com certeza, mas ao menos eu havia achado a cama.
Deslizei os dedos pelo colchão, procurando o fim e o início, sem sucesso.
De repente, senti algo frio encostar-se à minha perna, e não só a minha pele como meu coração gelou de medo, pois eu sabia que não era um móvel, e sim algo com vida. Mas antes que eu pudesse raciocinar sobre o que estava acontecendo, o toque gelado de dedos finos e longos se transformou em um sequestro, onde fui envolvida por braços fortes e aparentemente despidos de peças superiores.
Esse mesmo abraço me puxou para a cama e eu caí no escuro, batendo as costas em um colchão macio e cheio de molas. Logo senti um corpo passar por cima do meu e quando eu estava prestes a gritar, a luz foi acesa.
Aquele era Cold. Seus cabelos loiros estavam bagunçados naquela manhã de uma forma que o emaranhado parecia abrigar famílias de pássaros. Os olhos, envolvidos por círculos negros, denunciava a noite fora de casa. De fato, em um hospital com o melhor amigo, por minha culpa. E sim, ele estava sem camisa. Mas as calças estavam no lugar. E o incenso de nicotina parecia mais aceso do que nunca.
Imaginei que passou a noite inteira fumando, de novo, por minha causa.
— Posso saber — sussurrou com sua voz arrastada e sensual que se demorava enquanto seus olhos castanhos agarravam os meus, prendendo minha atenção a ele — o que você está fazendo no meu covil?
Ah, aquela era uma ótima pergunta. Engraçado, eu nem sabia mais a resposta de tanto que estava presa àquela situação. Cold estava em cima de mim, praticamente de quatro. E eu, em sua cama.
A vassoura e o pano já tinham ido parar no chão desde o meu susto, e naquele momento eu só conseguia sentir meu coração batendo cada vez mais forte e meus dedos se fazendo em nós com o lençol branco da cama.
— E-eu não achei que você estivesse em casa.
— Eu te mandei não entrar.
— Você também me mandou limpar a casa. — Mordi o lábio inferior como um gesto de insegurança, mas o olhar predatório de Cold sobre minha atitude foi perverso demais para que eu mantivesse a pose, então a desfiz.
— Você está brincando com fogo, Dawn.
Repentinamente, o barulho de um ringtone soou alto e confuso, só contribuindo para que meu coração acelerasse mais. Cold pareceu levar um susto também, e saiu de cima de mim para pegar o celular na mesa de cabeceira.
Eu olhei para o quarto em volta, sentindo minha respiração se perder ao que estava vendo. As paredes eram de um tom escurecido e o chão era felpudo. A cama que eu me encontrava era de casal, estava mal arrumada com uma colcha marrom e em sua cabeceira algumas algemas de metal estavam presas. Os dois criados-mudos estavam cheios de pacotes de camisinha vazios, de diferentes marcas e modelos. Na estante, havia mordaças, cordas, vendas, algemas, coleiras e alguns bastões que eu não sabia para o que servia, pelo menos cinco variedades de cada. Mordaças com bolas, aros, felpudas ou de couro; vendas de seda preta e vermelha, algumas de veludo; algemas de vários tamanhos, cordas e elásticos.
Eu fiquei tão estática com a situação que tive um sobressalto quando Cold suspirou alto e grunhiu:
— Hope, agora não! — Ele estava prestes a desligar quando uma voz aguda começou a soar abafada pelo telefone que nem ao menos estava no alto-falante. Voltou a encostar o celular na orelha com hesitação. — Desgraça, são... — Cold espiou o relógio de cabeceira e continuou: — Onze da madrugada! Pare de me ligar!
Cold apertou o botão de desligar o aparelho e se jogou na cama com o celular em mãos. Eu estava um pouco surpresa com a reação do loiro à ligação de uma mulher, o que só poderia significar uma coisa, ao menos dessa vez, eu tinha certeza: ele estava comendo. A curiosidade não me deixou calar e eu perguntei:
— Quem é Hope?
Arrependi-me no momento seguinte, lembrando que aquela era a típica pergunta de namoradas ciumentas e eu não era ciumenta.
Nem namorada.
— Um pé no saco — respondeu Cold e eu aproveitei para me levantar. — Eu vou voltar a dormir. — Suspirou alto e por um breve segundo, me deu uma secada dos pés à cabeça. — Aproveitando que você está na zona proibida, você...
— Não, obrigada.
Não vou dizer que saí correndo do quarto, pois correndo era pouco. Eu saí voando. Eu não queria ficar lá dentro nem mais um minuto. Não fazia ideia de que horas Cold havia chegado e a vergonha que eu estava sentindo fazia meu rosto corar absurdamente.
Céus. Com aquelas duas personificações de problema e os avisos de Hans “se você conseguir sobreviver”, o que seria de mim ali dentro?
Decidi que já estava na hora ir ao supermercado fazer algumas compras. Sair daquela casa por um momento seria um alívio, e eu estava morrendo de vergonha de olhar para a cara de Cold.
Para o meu azar, quando saí do meu quarto já vestida, Cold estava colando um bilhete na porta do quarto de seu irmão gêmeo, com uma cara nada amigável. Eu também estaria se tivesse sido acordada por alguém derrubando as coisas no meu quarto, mas de forma alguma eu traria esse alguém para minha cama.
Naquele momento, eu reparei que a beleza de Cold ia muito além do que eu imaginava. Ao contrário do usual moletom e camisas escuras com dizeres sugestivos, ele estava arrumado para sair.
A camisa social azul-claro se acentuava em seu corpo e seus cabelos loiros, compridos, roçavam de leve nos ombros. A manga dobrada em várias camadas um pouco acima do pulso, deixando a camisa um pouco repuxada e amassada na região dos braços. O colarinho bem alisado e dobrado era parcialmente coberto pelo colete azul-marinho, abotoado de forma alinhada, com bolsos nas laterais e um corte triangular nas pontas. Sua calça, de um azul mais escuro que o do colete, sem cinto, deixava a camisa um pouco à mostra.
Ele segurava seu terno em uma das mãos, com o interior bege e o exterior azul marinho também, balançando-o e o roçando em sua perna. O bolso bege se sobressaia deixando à mostra seu maço de cigarros. Seus olhos castanhos estavam encobertos por óculos de sol de lente marrom puxadas para o preto, as hastes se perdiam em seu cabelo.
Definitivamente ele estava bem diferente do habitual.
— Aonde você vai? — Sem conseguir controlar minha boca enorme e a curiosidade, perguntei.
— Curiosa? — Piscou provocativamente e eu hesitei antes de lhe dar um fora. — Almoço de família.
— Você tem que ir tão arrumado assim?
— É um almoço formal. — Deu de ombros e passou por mim, prestes a sair de casa.
Eu olhei o bilhete feito em papel amassado, com a mesma caligrafia cheia de garranchos tortos que eu havia visto no anúncio da universidade, mas, dessa vez, nos garranchos de Cold, lia-se: “Reunião 12h30min. Sem atrasos”.
— Seu almoço familiar formal é uma reunião? — indaguei antes que ele saísse. Cold parou na porta, mas não fez questão de se virar para me responder. E eu não estava contendo minha curiosidade de forma alguma.
— É uma reunião familiar formal. Dá para parar de encher o saco? — respondeu, virando-se para me encarar por fim. — Onde você está indo?
— Supermercado.
— Oh — Cold murmurou, tirando uma carteira do bolso e me entregando algumas notas. — Eu preciso de duas caixas de leite de amêndoas. Eu sou-
— Alérgico às proteínas do leite, eu sei — completei, pegando o dinheiro. — Eu acidentalmente tomei o leite do seu irmão, e a julgar pelo olhar que ele me lançou, se ele não me odiava antes, agora odeia.
***
Quando voltei para o apartamento, ele estava vazio. Eu tropecei com um bloco de jornal dobrado e ensacado que quase fez minha cara ir de encontro ao chão. Franzi a testa. Entrega de jornal? Patético. Nem mesmo Shannon tinha cara de quem lia jornal, no máximo a seção de esportes ou cinema. Chutei o saco para dentro do apartamento e segui para a cozinha, arrumando as coisas que havia comprado.
Fiquei o restante da tarde sozinha. Decidi atualizar minhas leituras depois de cozinhar um macarrão instantâneo para o almoço. A falta de habilidades culinárias resultava naquela decadência. Eu sabia que algum dia teria que dar um jeito na minha vida, mas não seria naquele.
Algumas horas mais tarde, Cold e Shannon voltaram ao apartamento juntos. Enquanto Cold afrouxava o nó de sua gravata e seguia para o corredor, Shannon abriu os armários da cozinha à procura de algo.
— De repente apareceu um monte de comida instantânea nessa casa — ele murmurou para ninguém em particular. Eu fechei o livro que estava lendo e me endireitei no sofá.
— São minhas, eu não sei cozinhar. Eu etiquetei os alimentos da casa para facilitar.
Shannon arqueou as sobrancelhas por um instante e depois me encarou.
— Como você espera sobrevive de macarrão sintético e barras de proteína?
— Eu... — Senti meu rosto esquentar de vergonha. — Eu vou dar meu jeito.
— Não, você vai morrer de fome — concluiu, dando de ombros.
***
No dia seguinte, eu senti meu telefone vibrar no meu bolso. Parei o que estava fazendo — limpando o corredor, de novo — e me apoiei na vassoura, cansada. Atendi.
— A não ser que você tenha uma ótima razão para me ligar, como a cidade pegar fogo — disse, arfando —, sugiro que desligue.
— O mundo não está pegando fogo, mas o meu estômago está — respondeu Gail. — Por que você está arfando? Estou interrompendo alguma transa? — Gail pareceu pensativa, porém, sem nenhuma pretensão de desligar. Se eu estivesse mesmo transando, ela não se incomodaria de recitar a notícia da semana ou a grande piada que leu no Twitter. — Se bem que, se tratando de você, deve ser o seu momento de faxina.
— Você acertou — admiti. — E obrigada por desacreditar no meu potencial sexual.
— Você está virando virgem de novo, Dawn.
— Por que me ligou?
— Quase me esqueci! — exclamou com a voz algumas oitavas acima. — Eu estou com fome! Vamos ao Subway!
Comecei a traçar um mapa mental, tentando lembrar onde era o Subway mais próximo da universidade e me dei conta de que não era muito longe e estava acessível aos meus músculos doloridos. Só havia um problema: o dinheiro.
— Eu tenho um total de zero libras — confessei. Gail riu.
— São cinco libras, eu pago para você.
— Não vou recusar. — Comemorei mentalmente por ser uma amiga tão boa a ponto de receber um sanduíche de graça. — Te encontro lá meio-dia.
Eu comemorei internamente por ganhar um sanduíche de graça e larguei a vassoura, virando-me e encontrando Cold fechando a porta de seu quarto, um novo terno em seu corpo.
— Saindo? — perguntou.
— Eu vou encontrar uma amiga — respondi. Cold arqueou a sobrancelha em surpresa. — E você?
— Reunião familiar formal — disse com um sorriso curto. Ele balançou as chaves do carro e foi embora.
Tomei um banho, me aprontando rapidamente. Coloquei meus documentos em uma bolsa e segui para o elevador. Então, quando as portas do elevador se abriram, entrei e apertei o botão do térreo. De longe, ouvi um grito de alguém dizendo “espera!” e eu não achei que fosse Shannon, pois se soubesse, teria evitado colocar as mãos na frente do sensor. As portas já estavam fechadas na metade quando Shannon se esgueirou e entrou.
Cruzeis os braços, olhando para algum lado que me distraísse e eu não precisasse olhar para a cara dele, mas então, fiquei chocada demais com o que vi. Enquanto Cold trajava um conjunto social de vários tons de azul, incrivelmente sensual e elegante, Shannon estava vestindo um jeans. É. Isso mesmo. Um jeans.
Eu não sabia nada sobre as reuniões familiares de Shannon e Cold, mas se um deles estava indo impecável, a camisa preta e o all star do outro eram o funeral da moda. Ele podia ter a mesma cara e o mesmo físico que Cold, mas a falta de senso de moda acabou com o rapaz.
— Perdeu alguma coisa? — perguntou Shannon ironicamente. Ele ajeitou as mangas da camisa e aquele adicional até o ajudava um pouco, mas continuava uma merda.
— Sim — respondi na mesma entonação. — O senso de moda.
Ele revirou os olhos e nem tentou se justificar.
As coisas estavam indo muito bem, e eu desconfiaria, mas não tive tempo para isso, pois de repente, a luz do elevador tremeluziu e se apagou de vez. E no fim, o elevador também parou. Achei que a porta fosse se abrir, mas nada aconteceu.
Shannon e eu nos encaramos confusos e fomos até a porta, tentando abri-la. Estava muito escuro e o fato de estarmos nos esbarrando não foi um problema, no entanto, em qualquer outra situação, seria.
Desisti de forçar as portas a se abrirem. Shannon estapeou o metal com força e rugiu de raiva.
— Nós estamos presos — concluiu.
Eu respirei fundo, tentando me acalmar, mas aquilo era pior coisa que podia acontecer comigo. Principalmente comigo e com Shannon.
— O que você vai fazer? — perguntou, irritado, como se a culpa de todo o azar do mundo cair sobre os meus ombros fosse inteiramente minha!
— Sinceramente? — Encarei Shannon como se fosse possível esguichar ácido dos olhos. — Esfolar sua cara no tapete gasto até te desfigurar e, depois de oferecer seu sangue no ritual, comer sua carne até chupar os ossos, como a gente faz com ensopado de frango.
Depois de longos segundos analisando se o que eu havia dito era genuíno, Shannon suspirou e disse:
— Você está me chamando de frango?
Fale com o autor