Todos do bairro a olhavam meio desconfiados, ninguém se aproximava dela ou procurava fazer amigos, a menina era conhecida como “a garota explosiva”, nem mesmo Selene lembrava como tinha ganhado aquele apelido, provavelmente teria sido pelo fato de que ela, “a garota explosiva” realmente sempre estivesse num fio de dinamite para explodir, como uma bomba relógio, era questão de tempo e de oportunidade até que esse dia chegasse. E esse dia estava mais próximo do que ela imaginava.

Era o dia do seu aniversário, 29/03/2014, excerto sua mãe, ninguém mais sabia dessa data. Para Selene era uma data qualquer, não possuía importância já que todo aniversário era lembrado como o dia em que seu pai a deixou, fazia mais de 10 anos que ele não falava com ela, da última vez foi quando ela tinha 4 anos de idade, ele simplesmente sumiu, ninguém soube o que aconteceu, na verdade Selene nem lembrava dele, só por fotos e histórias que sua mãe contava.

Era uma tarde ensolarada em Bogotá, carros e mais carros passavam por ela enquanto caminhava, como era de costume, às 16hs, a menina ia para uma praça deserta para se isolar um pouco, não que ela vivia cheia de pessoas ao seu redor, mas sim para se isolar de seus pensamentos e principalmente para poder pensar melhor sobre o impossível.

Nesta manhã, algo que seria extremamente impossível aconteceu com Selene. Ela, a menina deslocada da cidade, “a garota explosiva”, experimentou um poder até então desconhecido. Ao acordar, a menina se dirigiu ao fogão para fazer panquecas para ela e sua mãe, porém os fósforos tinham acabado, então simplesmente ligou o gás e não percebeu, de tanto sono, que na ponta do seu dedo se acendia um pequena chama avermelhada que deu início às chamas do fogão, assim que seu cérebro entrou em funcionamento, ela viu que a pequena combustão do seu dedo indicador continuava, as chamas dançavam em volta da mão dela, então, horrorizada, ela deu um grito que acordou sua mãe no andar de cima, logo em seguida acionou a torneira e colocou a mão embaixo da água, assim apagando as chamas de sua mão.

— Sel!? O que houve? Ouvi você gritando. – pergunta sua mãe.

Ela, ainda em choque, não responde nada. Observa que na sua mão não se encontra sinais algum de queimaduras, e um fogo daquela proporção queimaria qualquer pessoa.

— Ehhhh... Mãe... Eu... Nada, não aconteceu nada, eu vi uma barata passando e me assustei. Foi isso. – responde Selene.

— Uma barata?! Desde quando você, Selene, tem medo de baratas? Quando você tinha 5 anos matou um rato com uma pá que eu simplesmente não compreendo até hoje como....

— Mãe, sério, não foi nada. Vou preparar panquecas para gente comer. Quando estiverem prontas, eu a chamo.

— Ok! Ainda estou com sono... – falou a mãe — Ahhh, ia esquecendo, não tem fósforos, você tem que ir com... – a mãe observou o fogão e viu que ele estava aceso, já preparado para o uso. – Mas como você acendeu o fogão?

— Ehhh... — ela pegou uma caixa de fósforos e mostrou – Ainda tinha uma tala. — A mãe assentiu e voltou para o quarto.

Nem Selene sabia o porquê da mentira, ela simplesmente mentiu para a mãe, tinha certeza que ela não acreditaria, então primeiro queria entender aquilo. Mesmo não sentindo de início aquelas chamas, a garota conseguia sentir que conseguiria fazer de novo, sua pele estava mais quente que o normal, suas mãos suavam desesperadamente, então, do nada, ela liberou a energia contida em suas mãos e as chamas brotaram de sua pele, agora maiores e mais quentes que anteriormente. Assim que lançou sou palma para frente, uma rajada quente foi lançada em direção a uma vasilha próxima derretendo-a, a menina abafou um grito e conteve a energia de volta para seu corpo. Mas depois que as chamas voltaram, uma pequena imagem se formou na palma de sua mão esquerda, bem pequena, um símbolo que ela reconheceu nas revistas de horóscopo de sua mãe, o seu signo, o de Áries.

Agora já no parque, Selene tentava entender tudo o que acontecera, depois de sair de casa naquela manhã, deixou um recado para sua mãe avisando que iria passar o dia fora estudando, porém mais uma mentira que contara a mãe. Não se encontrava ninguém aos arredores do lugar, um completo deserto, o que era estranho já que Bogotá era uma capital e muito movimenta. Ela se pôs de pé e tentou acionar a energia de logo mais cedo. Então, como na primeira vez, o fogo tomou conta de suas mãos, porém agora ele se espalhava pelos braços, indo de forma ascendentes até a cabeça, passados alguns segundo, o fogo vermelho rubro se encontrava em todo o seu corpo, a temperatura era extrema, as poucas plantas que se encontravam no local morriam. De repente, uma pequena mulher encoberta de uma luz branca se apresentou a Selene. Uma criatura disforme, envolta de luz, se aproxima dela e então a toca mentalmente.

“Pequena filha de Áries, você foi escolhida. Selene, você, minha criança, é a décima segunda geração de Áries, a primeira em vários anos a conhecer o poder do fogo. Venha me encontrar. Estou esperando, venha para a Ilha Astral...” então, do nada, a figura desapareceu, juntamente com a consciência de Selene que desaba no chão, desacordada.