As Crônicas do Norte e Sul
1 [NXS] A primeira Guerra Santa
Notas iniciais
Metade dos soldados caíram. O campo de batalha cheirava a morte. Os olhos de Tristan falhavam, mas ele continuava a gritar ordens aos seus homens. Uma besta rugiu, carbonizando vários guerreiros, enquanto os círculos mágicos dançavam pelo solo morto.
O Líder dos humanos deu-se conta de que sangue banhava seu ouvido esquerdo no mesmo momento em que uma onda de chamas avançou contra ele. Seus olhos se fixaram na parede de fogo e ele refletiu sobre sua vida. Seus atos heroicos... As vidas que salvara e as vidas que aprisionara em sua lâmina... Ele sabia que era errado e que merecia pagar pelo sofrimento causado aos inocentes. Pensou em uma morte digna de seus pecados, mas o calor das brasas o atormentaram. Sentiu-se envergonhado por temer o fogo daquele dragão de escamas negras. Seus olhos arderam, como se larva vulcânica preenchesse as órbitas. No ultimo instante, Tristan se decidiu: Não morreria ali. Ele girou seu corpo e escapou por pouco das chamas. Ele esquadrinhou o monstro, que rugiu, lançando labaredas ao ar. Sua pele ardia com fiapos de líquido dourado escorrendo de aberturas em suas escamas grossas.
Tristan brandiu sua lâmina e ergueu seu braço esquerdo. Uma chama branca dançou em um círculo ao redor do punho do arcano, então ele apontou a espada para o Monstro que contra-atacou, antes que Tristan completasse seu movimento.
O Rugido estridente, seguido da coluna de fogo não fora nada, comparado ao que o guerreiro sentia em sua carne. As almas estavam agitadas, desejando vingança e emanando mais e mais energia a cada segundo. Tristan não tinha forças para conduzir essa energia ao seu favor e, se continuasse nesse ritmo, teria sua cabeça decapitada.
Quando as chamas estavam para encontrar o corpo do arcano, eis que uma onda de energia negra interrompe. O impacto ardeu na pele de Tristan, como se houvesse uma lâmina dilacerando a carne dele.
A energia condensada lançou as chamas para longe. Um sorriso se alongou à esquerda de Tristan, então ele percebeu um rapaz envolto em um manto negro, bordado a o que parecia ouro. Parado no meio da multidão de homens e feras que lutavam arduamente, o rapaz ergueu uma das mãos e uma fumaça negra rodopiou por entre seus dedos, como se ele houvesse criado uma labareda sobre seu punho.
Ele sorriu. Seu sorriso transparecendo por debaixo do capuz negro que acompanhava o manto. Era um sorriso sarcástico, cheio de desdém e ironia. O Dragão voltou sua mandíbula na direção do rapaz, assim como Tristan fazia, atônito. O Ar à volta do corpo do rapaz pareceu incendiar-se em labaredas negras. Ele ergueu sua mão ossuda, cheia de anéis e amuletos no momento em que o Dragão cravou suas garras no chão e arrastou seu corpo gigantesco na direção do mago misterioso. Num movimento rápido de mãos, como se estivesse em uma dança, as labaredas negras saltaram pelo solo rachado e investiram com tudo contra o lagarto.
Tristan parou, arqueando ambas sobrancelhas. Ele não acreditara que aquele mago negro estava ajudando-o e derrotando o dragão sozinho, tampouco. Um arrepio dançou pela espinha do arcano e percorreu seu corpo todo, assim que focalizara na energia negra. Era como se ele nunca mais fosse sentir o calor de sua amada novamente. Era como se... Ele estivesse morto. Então se deu conta da agonia que criara às suas vitimas. Sua lâmina cortou o ar e ele a apanhou com o punho esquerdo. As chamas brancas dançaram pelo cabo da espada até o fio da lâmina e ele a colocou em riste. Seus dentes trincavam; Agora que estava tão próximo, podia ouvir as almas agonizando em seus leitos de morte; Clamando por justiça. O Dragão sibilou, atordoado com a onda negra. Ele cambaleou e sua cauda passou sobre a cabeça e Tristan, que se abaixou ferozmente.
– Damiên ! – gritou Tristan, sentindo ainda o calafrio – Cuide de Sophie. – Seus lábios tremeram, assim como as chamas negras vacilaram ao redor do Homem de negro, agora nomeado.
Damiên retirou o capuz e olhou profundamente nos olhos azuis de Tristan. Mesmo a dezenas de metros de distância, Tristan percebeu as feições sofridas do mago. Ele tinha cabelos negros e ouriçados, geralmente raspados, mas que agora cobriam sua cabeça suavemente. Sua pele marrom ardia sobre o sol escaldante daquela região desértica. Tristan sentiu o gosto de sangue dançar por seus lábios, à menção do nome de sua amada esposa. Sabia que Damiên sempre a desejou e o odiara por casar-se com Sophie, enquanto o mago dominava a arte das sombras para a guerra. Damiên assentiu e apertou os lábios drasticamente. Ele ergueu as mãos, criando uma barreira da energia sombria, assim que o dragão avançara em uma mordida.
Tristan sabia; Era sua deixa. Ele convocou o máximo de energia que conseguira e jurou passar a eternidade nos campos de punição. Sua lâmina dançou pelo ar à sua frente, então fincou-se no solo. Centenas, talvez milhões de vozes uivaram de dor e agonia. As almas presas na lâmina de Tristan gritavam, choravam, balbuciavam e urravam. Várias vozes indistintas que paralisaram várias das feras e prendeu a atenção dos guerreiros. Tristan deixou uma lágrima brincar sobre sua face caucasiana e então pôde sentir as almas se libertando.
Cada voz, cada agouro, cada maldição rougada ao arcano fora liberada. O calafrio o consumiu por inteiro, então, como num espetáculo de luzes, Milhões de lâminas brotaram do chão em todo o campo de batalha. Elas perfuraram dragões e Arcanos, Jovens e velhos. Bestas e Humanos. Contudo, Não eram lâminas qualquer, mas, lâminas abençoadas. Envoltas em pura energia benéfica. O Brilho indistinto das lâminas fez Tristan fechar os olhos com ferocidade. Ele sentiu seu corpo se desintegrando, como poeira. Como cinzas. Como... Um nada.
Então, Tristan abriu os olhos. As lâminas desapareceram, assim como os dragões e os arcanos. Apenas Dâmien repousava ao solo, imerso em sangue. Tristan sorriu brevemente e então desmaiou.
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