O zunido do vento era o único som que se escutava, soava como um grito em nossos ouvidos, tudo que eu e Valerik conseguíamos pensar era se chegaríamos à tempo de salvar as mulheres de nosso navio. Essa era uma das raras ocasiões em que eu sentia o tempo, e o tempo era como uma eternidade, uma prisão na qual eu me encontrava e da qual eu só sairia quando soubesse que todos estão são e salvos.

No horizonte eu via o que se assemelhava à vários barcos pequenos, mas seus formatos eram estranhos, alguns eram mais altos, outros eram triangulares e alguns nem de madeira eram feitos, quando nos aproximamos percebi que eram na verdade destroços de uma embarcação, meu coração acelerou, se esse era o barco em que as mulheres estavam, o que acontecera com elas? Como ele teria sido destruído? Ao olhar para Valerik percebi que as mesmas questões o atormentavam.

–Chegaram mais rápido do que eu imaginava -disse uma voz feminina que de alguma forma me soava familiar. -mas não sei por que estou surpresa, quando se trata de Midas nada é impossível, não é mesmo?

–Aonde você está? -Disse Valerik com seu arco em mãos e sua flecha preparada — Revele-se e diga o que fez com Shay e as outras.

–Shay e as outras? Parece que se importa mais com Shay do que qualquer outra rapaz, já disse isso para a moça? As vezes é tudo o que precisamos ouvir não é mesmo Midas?

–Pare de brincar com o garoto Ardra, sua preocupação é genuína, assim como seu amor pela garota.

–Isso está na cara, também está na cara que alguém não sabe levar uma indireta.

–Não precisa ficar de mau humor querida.

–Alguém quer fazer o favor de me explicar o que diabos está acontecendo aqui?

–Valerik, conheça Ardra a protetora do mar, Ardra conheça Valerik, o jovem apaixonado.

–É um prazer, não tanto como conhecer Midas, mas acho que isso seria pedir de mais de alguém tão jovem como você.

–Gostaria de dizer o mesmo, mas até agora você não me disse o que fez com as mulheres.

–Elas estão seguras, eu as enviei para a costa, se meus cálculos estiverem certos elas estão bebendo água de coco, deitadas na areia esperando por vocês.

–Pode nos levar até elas?

–Claro, e com esse barco acho que conseguirão acompanhar minha velocidade.

O vento cortava nosso rosto enquanto navegávamos pelo oceano, desta vez nossos corações estavam tranquilos e nossa tripulação logo estaria reunida. À medida que o tempo passava podíamos ver o continente, lembrei imediatamente do tempo das descobertas e prontamente coloquei meu pé direito na proa do barco, inclinei meu corpo para a frente, coloquei minha mão em frente aos olhos como quem quer tapar a luz do sol e com toda a força do meu pulmão gritei:

–TERRA À VISTA!

Com certo espanto Valerik e Ardra olharam para mim e meu rosto corou, eu que vivi na terra sei tudo que há para se saber sobre a era dos descobrimentos, mas eles que viviam em uma terra distante sem nenhuma conexão com minha história certamente acharam estupidez gritar algo que todos que tivessem olhos pudessem ver.

–Vocês não entenderiam -disse, encerrando o assunto antes que se tornasse algo a ser falado por eras- Ardra, é esta a praia para onde trouxera as mulheres?

–Esta mesma Midas.

–Então finalmente chegamos, após meses navegando, finalmente chegamos ao novo continente.

Estava tão preocupado com Shay e as outras tripulantes que havia me esquecido do nosso propósito, viajamos de tão longe e então chegamos ao nosso objetivo, um novo continente, um novo mundo e quem sabe o que mais poderia encontrar.

No horizonte podia ver uma dúzia de pessoas acenando, fiquei surpreso por haver mesmo um coqueiro ao lado das mulheres, apesar de que coqueiro era só um nome que por coincidência fora usado para esta árvore, dela saia um cacho de uma fruta redonda e esverdeada, ao retirar estas frutas podia se encontrar o coco, as frutas externas eram geladas como a neve e serviam para manter a temperatura da fruta interna.

Ao atracarmos na praia mal consegui ver a sombra de Valerik, que corria em direção de Shay como se esta fosse um porto seguro em meio à um temporal, pude ouvir atrás de mim uma suave risada vinda de Ardra que certamente se divertia com a paixão do garoto. Vislumbrando o horizonte pude ver montanhas, vegetação rasteira e árvores de pequeno porte nos cercavam, mas no limite de minha visão avistei um oceano verde, mas o que mais despertou minha curiosidade não foi o que vi, mas o que ouvi…

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.