Meus dedos congelavam, a pressão do oceano era devastadora e a escuridão das profundezas me envolviam, meu novo corpo não era imortal mas possuía uma invejável capacidade de adaptação, minhas pupilas se dilataram até preencherem completamente meus olhos, olhos negros que agora enxergavam com clareza toda a imensidão em que me encontrava, meu sangue circulava com tamanha intensidade que se possível fosse eu estaria suando em baixo d’água, meus músculos e ossos se fortaleceram a tal ponto que toda aquela pressão que antes sentia tornara-se apenas um leve incômodo como um zunido em seu ouvido.

–Como estás vivo criaturinha estranha?

–Acredito que não fomos apresentados formalmente ainda, voz macabra de origem desconhecida.

Uma criatura que em seu formato aparentava ser uma Sirian, mas seu corpo semi-transparente afirmava o contrário, saindo de uma caverna no fundo do oceano a criatura parecia encantada com minha presença tanto quanto eu me encantara com a dela.

–Senso de humor, algo raro nas profundezas.

–Faço o que posso madame, agora por gentileza poderia pedir para seu cadáver de estimação que me soltasse?

–Perdoe-me pelas minhas maneiras intruso, mas veja bem, não posso deixar que um completo desconhecido com a capacidade de sobreviver em meu território esteja livre para fazer o que lhe convier.

–Sábio de sua parte minha cara, me chamo Midas, qual seria sua graça?

Por mais improvável que fosse, creio ter visto sua face corar naquele momento.

–Os habitantes da superfície me chamam de mãe d’água, mas para criaturas como eu e você nomes são desnecessários, nós simplesmente somos, existimos apenas e não questionamos isto.

–Por isso tomaste a forma de um deles?

–Esta forma me é conveniente, possui uma movimentação suave e suas formas são belas não concorda?

Percorri meus olhos pela criatura, suas curvaturas eram suaves, seus seios voluptuosos e suas coxas beiravam a perfeição.

“Concentre-se Midas”

–Mas a que custo veio esta beleza? E por quanto tempo durará?

–O custo é insignificante, mas sua duração é de fato um problema, diga-me Midas, como parece saber tanto sobre mim quando não sei nada sobre ti?

–Seu corpo é composto primariamente por água, sua transparência sugere uma composição de 93% água, para manter uma forma tão complexa como a de um Sirian certamente foi preciso de um molde, estátuas não são uma mercadoria comum nas profundezas do oceano, são?

–Uma marinheira, sabe o quão raro é isso Midas? A densidade de meu corpo está voltando ao que era antes, este corpo está morrendo, me diga Midas, você pôde sobreviver às profundezas e sabe mais sobre mim do que aqueles supersticiosos de pele dourada que habitam a superfície, conheces uma forma de manter meu corpo vivo? Ou ao menos aumentar sua durabilidade até que outra pirata navegue por esta região?

Ao descer pelo oceano pensei que precisaria matar a criatura por trás de todas as obras malignas que aconteciam nesta região, minha surpresa foi tamanha quando a própria criatura me deu uma idéia genial que cessaria os ataques e traria felicidade para todos os envolvidos.

–Creio que podemos chegar à um acordo, eu lhe darei o que pede, seu corpo será imortal, sua beleza e jovialidade será eterna, mas nada neste mundo vem sem um custo.

–Nomeie seu preço Midas, tudo que tenho pode ser seu, se realmente puderes fazer tamanha façanha lhe darei todo meu reino.

–Não é assim que funciona minha cara, o que eu farei irá gerar um milagre, uma conseqüência e uma exigência.

–E o que seriam estas coisas? Se estiver em meu alcance eu o farei.

–Seu novo corpo imortal será o milagre, mas para fazer isso muito poder será usado e a energia residual deste poder causará um desastre sem precedentes nesta área, esta é a conseqüência.

–E a exigência?

–Quero que cesse seus ataques aos Sirians, ao invés de uma força destruidora seu trbalho agora é se tornar a protetora dos mares, irá alertar marinheiros e piratas para que não encontrem a catástrofe gerada nesta região, ira persuadi-los a dar meia volta, não deixará que nenhum Sirian morra pelo resultado do que faremos hoje, Podes fazer isso?

Sua face era de contemplação, atacar os Sirians era o que fizera toda sua vida, mas o fizera por necessidade, precisava de um corpo e para isso atacava navios em busca de uma mulher para possuir e devorar, a proposta de um corpo eterno era tentadora, tentadora de mais para recusar.

–Aceito sua proposta Midas, se de fato fores capaz de realizar tal milagre eu dedicarei minha existência à proteção dos mares e dos navegadores.

Retirei minha lâmina do corpo morto que me levara à mãe d’água, limpei-a e em um movimento rápido passei sua lâmina em minha mão, o sangue que escorreu foi guiado até o corpo da criatura e suas células começaram a se multiplicar, a densidade de seu corpo aumentara e sua pele antes transparente tomava cor, era de um branco sem igual, como as neves em uma montanha, seus olhos eram azuis como o mar e seu cabelos vermelhos como o fogo, sua expressão era incomparável, alegria, surpresa e prazer se revelavam em sua face.

–Como pode alguém ser capaz de tamanha maravilha? Eu me sinto mais forte do que jamais fui, mais viva, mais jovem.

Em um impulso súbito seu corpo veio em minha direção, a velocidade com que nadava era incrível, eu não devia me surpreender afinal foi o meu sangue que lhe deu este poder, mas mesmo assim era algo tão incrível que só não me surpreendeu mais pelo que se seguiu.

Lábios, seu toque era suave e firme ao mesmo tempo, seu corpo era macio e calor emanava dele, suas mãos em minhas costas passaram de um toque gentil à um ato feroz quando minhas vestes se rasgaram, era uma sensação que não tinha há bilhões de anos, o ambiente celestial era tão indescritívelmente maravilhoso que necessidades como o sexo não se manifestavam, mas agora neste mundo escuro e frio o calor de um corpo de mulher era uma sensação agradável.

Horas se passaram e não vimos, nossos corpos se entrelaçaram e nossas mentes se conectaram, naquele momento éramos um.

–Belo jeito de se inaugurar um novo corpo não é mesmo Midas?

–Devo dizer que não estava esperando por isso quando desci às profundezas do oceano.

–E eu não esperava pescar uma criatura tão poderosa, fazemos um belo par não é mesmo?

–Acho que chamá-la de mãe d’água após o que acabamos de fazer não seria adequado não é mesmo?

–Ha ha ha, suponho que esteja correto. Me destes um novo corpo então lhe reservo o direito de me dar um novo nome, me diga Midas, de que queres me chamar?

–Ardra, a partir de hoje serás conhecida como Ardra a protetora do mar.

–Gosto desse nome, Ardra.

Nossos olhos se encontraram e os impulsos tomaram nossos corpos novamente em uma forma de celebração.