- Nakamura Ayame — Um sorriso de escárnio nascia nos lábios daquele que pronunciava o nome da garota, fazendo-a recuar alguns passos e desviar o olhar. Por que todos que sabiam daquele nome o pronunciavam com asco? Será que nunca seria capaz de viver a vida sem ser apontada como a filha bastarda de um nobre que levou a família a desgraça?

Mordeu o lábio inferior nervosamente, amaldiçoando-se por perder novamente a concentração, aquilo sempre a fazia ter lembranças ruins de seu passado. Não que odiasse o pai ou que amaldiçoasse o destino, era grata. Sim, extremamente grata por ter sido deixada para trás, por ter tido a oportunidade de conhecer uma família, principalmente sua querida ‘irmã’ Kahina. Sabia que se não fosse por aquele infeliz incidente anos atrás nunca teria a oportunidade de conhecer aquela pessoa e para ela, Kahina fora mais do que uma amiga de infância, mais do que uma companheira para todas as horas, era sua irmã! Talvez não se sangue, mas ainda sim era sua irmã.

O pai era um nobre, todavia, apaixonou-se por uma garota de família humilde, fugindo e deixando para trás as responsabilidades da família, casou-se com ela e tiveram uma filha, Ayame, claro que essa parte da história não era de fato a pior e nem foi assim que o nome ‘Nakamura’ caiu em desgraça, aquilo era apenas uma conseqüência dos atos do pai. Era um jovem ambicioso apesar de tudo, junto de um amigo que conhecera em Kyoto criara uma hospedaria e dali tiravam seu sustento para viver. Entretanto, o que ninguém sabia, ao menos não os cidadãos de bem, é claro, é que Nakamura Kyosuke, não era somente sócio de um homem de bem que trabalhava arduamente para se sustentar, ele, tinha uma vida dupla, além disso ainda mantinha um vício por jogos de azar o que acabou proporcionando momentos desagradáveis para todos, incluindo o amigo de quem era sócio, entretanto, aquele homem era bom, era gentil, jamais faria nada para prejudicar Kyosuke embora o mesmo não tivesse honra.

Kyosuke estava envolvido com diversos negócios escusos, além é claro de contrabando. De dia ele era um homem comum, ‘trabalhador’, atencioso com a família, porém, de noite se transformava em outra pessoa. Nunca estava em casa, nunca dava atenção a mulher e filha, estava envolvido com assassinato e roubo, entre outras coisas. E assim sendo a fama do mesmo se espalhou e chegou num estado caótico, onde pessoas que tinham contas a acertar com ele não pensaram em poupar absolutamente ninguém! Nem a família que ele abandonara há tempos e nem tampouco a mulher e a filha, todavia, Ayame sobrevivera, viu-se perdida, no escuro o corpo da mãe jazia sob o dela, sangue, lágrimas, dor, sofrimento.

Essas eram as lembranças que tinha daquela noite fatídica e mesmo após isso os homens não estavam satisfeitos, a garota fora adotada e agora tinha uma nova vida, mas mesmo assim eles ainda a seguiam. Após a morte dos pais optara por aprender a manejar a espada. Não que almejasse viajar o mundo em busca de vingança, todavia, em sua mente ainda tinha a idéia de que pudesse ao menos vingar a mãe, pois ela de nada tinha culpa, apenas amou a pessoa errada. Quanto a Kyosuke, não que odiasse o pai ou que achasse que o destino havia lhe dado um fim merecido, mas a cada encontro que tinha com alguém que reconhecia sua face e olhos, histórias e mais histórias eram contatas sobre seu ‘pai’ e em nenhuma delas ele era pintado como homem bondoso ou gentil, apenas como um monstro, um assassino, um ladrão!

E isto ela não podia negar, pois se fosse uma mentira por que diabos eles insistiam em persegui-la durante tantos anos? Abandonara a idéia que o pai era uma boa pessoa há muito tempo, apesar de ter apenas cinco anos de idade na época, lembrava das discussões que ele tinha com a esposa, onde a pobre mulher, geralmente saia ferida, não fisicamente, mas intimamente pelas palavras cruéis e acusações do marido.

- Cale-se! — Gritou a garota, sem paciência, os orbes avermelhados marejados, malditos olhos, pensou, aqueles olhos vermelhos, aquilo era uma herança do pai e isso jamais mudaria e assim sendo não importa onde fosse ou o que fizesse sempre seria reconhecida, pois era uma herança familiar que somente os Nakamura possuíam. — Já chega! Eu não posso... Me deixe em paz! Por quê? O que diabos eu fiz de errado? Não basta a morte daquele homem?

Levava uma das mãos a própria cabeça, nervosa, confusa, não era possível que aquela corrente de ódio continuasse mesmo depois de tantos anos. Ela tinha aproximadamente dezoito anos, já fazia mais de dez anos que Kyosuke tivera seu fim, mas ainda sim vez ou outra apareciam pessoas atrás de uma vingança que ela considerava inútil. Segurou firme o cabo da katana entre as mãos, as lágrimas teimavam em sair.

O vento frio levava as madeixas longas da mulher para trás a medida que corria em direção ao oponente. A chuva começava a cair, fazendo-a arrepiar-se e por fim, viu-se totalmente suja de sangue, parada, em frente ao homem que agora pendia para o lado, morto, sim, mais um corpo, deixou-se cair de joelhos no chão, sentindo uma dor profunda maculando seu coração.

‘- Outra vez... Mas eu não posso evitar... Se eu... Se eu não me livrar ‘disso’ pode acontecer alguma coisa com a minha família, então...’ — O pensamento invadia a mente da garota, fazendo-a chorar cada vez mais alto, mantinha-se de joelhos, sob o chão molhado da chuva e do sangue daquele ser que acabara de matar, tinha que parar, precisava ir embora dali, do contrário seria pega e isso não podia acontecer.

Ela não fizera nada de errado, tentava se convencer disso de forma em vão, apoiou as mãos nos próprios joelhos e se ergueu, saindo do local. O kimono rosa claro agora estava todo sujo de sangue e lama, os cabelos e a face manchadas com o sangue do assassino, maneou a espada rapidamente livrando a lamina do rastro de sangue, por fim voltando a guardá-la na bainha e envolvendo-a com o tecido usual.

Caminhou calmamente, mantendo-a junto ao peito, entrou pelos fundos da hospedaria, sabia que naquele horário ninguém iria vê-la, pois era época de festival e sempre estavam muito ocupados com os clientes que vinham de fora da cidade para participar, agradeceu mentalmente por ser em um momento tão oportuno, pois estava sendo cada vez mais difícil esconder o fato de estar tendo que lutar pela própria vida, isso havia começado há quase um ano, não entendia o motivo de ainda terem ódio e nem o motivo de persegui-la, todavia, aquela situação estava ficando insustentável. Pensou seriamente em ir embora da cidade, mas não suportaria ficar sem a irmã. Não, não era só isso...

Era ele, aquele homem, Okita Souji, não entendia desde quando ou o porquê, mas acabara se sentindo atraída por ele, sabia que ele era membro do Shinsengumi, eles vez ou outra freqüentavam a hospedaria da família para se divertirem e beber sakê. E foi assim que ela acabou conhecendo ele, sabia dos comentários o gênio do Shinsengumi, Okita Souji, um espadachim formidável desde o dia que pôs os olhos nele nunca mais conseguiu esquecer, o sorriso irônico o jeito brincalhão, tudo era apaixonante.

Mas isso lembrava também outra coisa, Kahina, apesar de nunca terem se falado a respeito daquele homem, podia perceber o brilho que ela tinha no olhar quando via Okita e por isso constatou que assim como ela a irmã também amava o espadachim. Retirou o kimono e adentrou na água quente do ofurô, sentiu a pele arder em contato com a água, os músculos doloridos, conseguira convencer o pai junto com Kahina a deixar ambas treinarem em um dojo o que podia disfarçar o desconforto que sentia e os ferimentos leves que podiam ocorrer, afinal, quem não se machucava treinando?

Sorriu, tristemente olhando para a água e relaxou, permitindo-se fechar os olhos e recordar de tudo que tinha acontecido em sua vida. De como foi criada, de como foi bem recebida e de como ainda existiam pessoas que a odiavam sem nenhum motivo aparente.

- Aya-chan, por que seus olhos são vermelhos? — O garotinho de sete anos perguntava, um pouco curioso, mas hesitante enquanto a menina apanhava algumas flores.

- Shiro-kun, por que seus olhos são pretos? — Retorquiu um pouco irritada, enquanto largava a tarefa e se sentava sob o chão, olhando o sol se pôr.

- Oras, porque eu nasci assim! — Ele disse meio sem jeito, sentando-se ao lado da garota.

- Baka! Então é o mesmo pra mim, não? — Sorriu marota, enquanto virava um pouco o rosto para encarar o amiguinho.

- M-mas... Eu nunca vi pessoas com olhos dessa cor, eles me dão medo! Não gosto dessa cor, me lembra sangue. — Indagou o garoto sem perceber o quanto aquela afirmação podia machucar a amiga.

- Desculpe... Não posso... Eu não posso trocar a cor dos meus olhos! — Exaltou-se e saiu correndo, chorando, deixando o amigo para trás.

A garota acordou com um pequeno toque na porta, provavelmente seria a irmã, abandonou os pensamentos e se levantou-se, secando-se e vestido um kimono limpo. Deixou para trás os pensamentos e as lembranças da infância, eram muitos problemas, mas ainda sim sentia-se grata por estar viva e poder estar ao lado da família que tanto amava.

Enrolou as roupas sujas em um lençol que tinha escondido propositalmente na casa de banho para o caso de precisar ocultar alguma coisa. Iria se livrar das provas depois, respirou fundo e demonstrou um sorriso infantil.

- Onee-san! Desculpa, eu acabei me perdendo de você no festival, achei que você ainda devia estar lá. — Fez uma expressão emburrada, como se tivesse ficado chateada por não ter podido observar os fogos com a irmã.

- Eeeh? — A irmã olhou com uma expressão acusadora para Ayame que apenas deu os ombros. — Você é sempre assim, Aya-chan! Sempre acaba se perdendo, não sei como consegue acertar com o caminho de casa! Baka! — Riu, divertindo-se com a cara de poucos amigos que Ayame fazia diante das palavras balbuciadas por ela.

- Francamente... Onee-san, prometo que ano que vem vamos ver os fogos juntas, ok? — Sorriu, puxando Kahina pela mão e retirando-se daquele local, iria ajudá-la com as obrigações na hospedaria como sempre. E rezava para que a noticia de um outro corpo não viesse a ligá-la com o ocorrido.

Todavia, naquela época era bastante comum acontecerem assassinatos, no geral bandidos que tentavam atacar algum viajante que sabia se defender ou mesmo algum tolo que fora pego por uma horda de criminosos próximo a floresta e acabava por ter um fim desagradável.

Mas ainda sim temia, pois se os soldados do Shinsengumi desconfiassem que aquele tipo de morte era diferente das outras podia vir a ter problemas sérios.

Notas finais
Se curtiram, façam reviews... fará muito bem às autoras.
- Boa noite pessoal.. Antoinette falando, primeira fanfic que eu escrevo, mas esse capítulo foi feito pela Darkdoll, minha onee-chan.
Bom, bom, ela ainda está sendo desenrolada, espero que curtam. o/