Notas iniciais
Kveth, príncipe de Glasdur retorna para seu reino após dez anos no estrangeiro, seu pai, o velho rei Gelion está sofrendo de uma doença misteriosa e incurável. Conseguirá o príncipe chegar a tempo de se despedir do pai?

O mar estava calmo e liso como uma lâmina, era preciso remar se quisessem chegar a Glasdur antes do inverno. Kveth apoiou os cotovelos na amurada e deu um suspiro, havia dez anos que não via o pai, jamais se perdoaria se não conseguisse chegar a tempo de ouvir suas últimas palavras.

-Quanto tempo mais, Roran?

-Três ou quatro dias, senhor. — Respondeu o Imediato. Haviam deixado o porto pela manhã.

Kveth era o príncipe de Glasdur, o reino insular mais ao norte de Iurra, seu pai, o Rei Gelion, o havia enviado para Stune, reino vizinho, ainda criança para ser criado pelo rei Lot. Em Iurra, era costume das famílias nobres mandar os primogênitos para serem educados por famílias de reinos amigos, como uma forma de fortalecer a amizade e a lealdade entre os dois reinos. Agora Kveth voltava para casa, voltava como homem feito, como o tempo havia passado rápido; o pai, outrora um homem vigoroso agora contava suas horas no leito de morte, consumido por uma doença misteriosa, a qual nenhum sábio podia conter ou explicar.

A noite caiu, os últimos raios de Sol beijavam as águas, o céu escurecia e a lua surgia no leste. Kveth se retirou para o castelo da popa, onde seria servida a ceia. Seus passos, porém, foram desequilibrados: o vento passou a soprar forte e repentino, balançando a água e atiçando as ondas. A lua e as estrelas eram encobertas, e chuva começava a cair. Uma tempestade se aproximava.

O vento ganhava força, o navio oscilava em meio as águas. Kveth agarrou-se a uma corda para retomar o equilibrio.

-Essa é das grandes! — Exclamou Roran, o imediato. — Enquanto dava ordens à tripulação.

Kveth sentiu medo. Já havia presenciado tempestades enquanto navegava com os homens do rei Lot, além disso, os Glasdurin eram os melhores marinheiros de Iurra. Apesar de tudo, um mal pressentimento tomava conta.

As ondas moviam o navio como se fosse um brinquedo, a chuva havia apagado todos os lampiões, a única luz ali existente era a dos relâmpagos. Alguns homens cairam ao mar. O capitão dava ordens enfurecido, Kveth as obedecia como qualquer homem. Tudo o que podiam fazer, era tentar manter a estabilidade da nau com contrapesos, até que a fúria dos deuses cessasse. Mas ainda não era tudo: o som dos raios foi por um momento abafado por um baque surdo, um marinheiro jogou-se ao mar tomado de pânico ao vislumbrar aquela coisa terrível.

-Kraken! — Gritou o velho Roran, desembainhando a espada. O monstro lendário era verdadadeiro. Uma perturbação maior que as ondas era sentida no mar, o navio parou de oscilar, com se algo o tivesse agarrado. Os Homens corriam por machados e arpões, alguns se desesperavam e se jogavam ao mar pela morte certa. Tentáculos cinzentos mais grossos que um tronco de árvore abraçavam o navio de ponta a ponta, um deles envolveu o mastro, e quebrou-o como se fosse um palito de fósforo, a madeira caiu sobre o convés, num estrondo tão alto quanto os trovões da tempestade. Kveth golpeou o membro do monstro com um machado, penetrando apenas alguns centimetros na carne dura do animal. O casco começava a partir-se, e a água turbulenta jorrava com toda a força em direção ao navio enquanto a criatura tomava homens pela cintura e os erguia alto no céu, atirando-os no mar turbulento para morrerem, era se como fizesse-o por divertimento. Roran era envolvido por um dos braços, e arrastado até a água, Kveth gritou de pavor. O navio se desintegrava, resistir era inútil.

Kveth não se daria por vencido. Subiu a torre da artilharia, que balançava enquanto a madeira embaixo se estilhaçava pelo abraço do Kaken. Era o único ponto do navio ainda inteiro. O principe vislumbrou o pai moribundo, o que seria se ele morresse agora? Era o fim da linhagem de Glasdur. O monstro se aproximava, envolvendo tudo ao seu redor, madeira se quebrava como vidro ante a colossal força daqueles tentáculos. A torre cedia, estava quase acabado, Kveth fechou os olhos e pulou. Sentiu a água fria envolvendo seu corpo, enquanto ouvia o estrondo abafado do navio sendo quebrado ao meio. Seu corpo afundava nas águas frias e turbulentas do mar nortenho.

Longe dali uma fogueira ardia em um enorme salão coberto de fuligem. A neve caia lá fora numa paisagem tomada por cristais de gelo. Uma pequena figura se aproximava, seu andar era manco, e se apoiava numa bengala produzindo sons ecoantes a cada passo. Outra figura um pouco menor andava ao seu lado, e sussurrando, informou-lhe:

-Senhor, está morto o príncipe de Glasdur. E o rei desta noite não passa.

Notas finais
Esse foi basicamente um prólogo para tudo que está por vir. Espero que tenham gostado. Alguma pergunta?
Não esqueçam de comentar, até mais!