Os três amigos abriram a porta da estalagem vazia e foram para a rua da pequena vila ainda arrumando suas mochilas às costas. A noite começava a chegar e todos os seus planos tinham mudado em apenas um dia. Com um olhar cansado, observaram a vila uma última vez, com os corpos dos guardas e do capitão; e recomeçaram sua jornada.

Entretanto, ao virarem a esquina da estalagem, viram uma família em volta do corpo de um guarda. O mesmo estava sem o braço esquerdo, arrancado certamente por uma espadada de Dan durante a batalha. Um rastro de sangue levava até o guarda, e uma mulher e uma menina, de cerca de cinco anos, choravam à sua volta. Os três evitaram olhar e tentaram passar ao largo.

— Monstro! — gritou a mulher — Como pôde fazer algo assim?

Dan olhou de volta para a mulher, procurando em seu âmago uma resposta que não soasse extremamente nojenta. Sem sucesso, apenas encarou o chão, cerrou os punhos e disse:

— Me desculpe...

— Vá embora e deixe as famílias velarem seus mortos, por favor — a mulher disse entre lágrimas — e nunca mais volte aqui.

A mulher terminou seu lamento e agarrou a filha, que soluçava sem parar, apenas encarando seu pai morto. "Vamos Dan, temos que andar", disse um Kress relutante. Assim, deixando finalmente a mulher e a filha para trás, o grupo começou a se dirigir à Falgar.

A estrada à sua frente era a famosa Estrada Real, que conectava as cidades do reino e havia sido construída há muito tempo pelo primeiro rei de Silverheim, segundo as histórias. O grande problema para os três era que em certos pontos-chave da estrada, a mesma era patrulhada pelo Exército, e o grupo não sabia que pontos eram esses. Para piorar, ainda não haviam tido a oportunidade de trocar de roupas; logo, um soldado que tivesse conhecimento do uniforme e armas que Flint usava poderia muito bem tentar capturá-los.

Assim, os três paravam de tempos em tempos na estrada quando percebiam alguém se aproximando. Entretanto, a questão que mais preocupava Dan eram seus atos em Goldburn. Sua consciência pesava ao lembrar do que fizera aos soldados, mesmo os que não estavam estuprando a jovem. Ele sabia que era matar ou ser morto, mas agora que seu instinto de sobrevivência havia parado, ele estava se lembrando mais claramente daqueles momentos, especialmente do seu sentimento de puro desprezo e ódio que emanara durante o "surto".

O grupo parou durante a noite para dormir, estendendo seus Daks em uma clareira afastada da estrada. Antes de dormir, Kress avaliou a quantidade de suprimentos restantes, apontando o fato de que não tinham mais comida. Precisavam arranjar mantimentos em Falgar de qualquer maneira.

Após a noite, os amigos recolheram suas coisas e continuaram a rotina de viagem. Cerca de duas horas após o meio dia, avistaram Falgar. Era uma vila de proporções médias, porém com um baixo fluxo mercante devido à sua relativamente grande distãncia do centro de Silverheim e sua proximidade com as montanhas.

Os três se reuniram antes de entrar na cidade, longe da vista de qualquer soldado que pudesse vê-los. Kress então disse:

— Vamos nos separar. Assim, se um de nós for pego, os outros podem tentar até resgatá-lo. Max, você vai comprar suprimentos. Caso o dinheiro não for suficiente, tente roubar apenas de comerciantes ricos. Dan, você vai tentar arranjar roupas novas para nós, já que precisamos de disfarce. Eu vou para o Espinho Real encontrar o tal Rybon. Vamos entrar na cidade já separados. Nos encontramos no Espinho Real quando anoitecer. Se um de nós não aparecer, podem dar como pego.

Terminando assim, de explicar o plano, Kress foi para Falgar. Depois de alguns minutos, Max repetiu o processo. Dan também esperou um pouco e então se dirigiu à vila. Ao se aproximar começou a ver com mais detalhes as casas e as pessoas, e notou que a "entrada" da vila era apenas um espaço entre duas casas com um guarda sonolento. Dan olhou para a frente com firmeza, passando pelo guarda sem levantar suspeitas.

Falgar era uma cidade de casas mais bem feitas do que Goldburn. Feitas em sua maioria de uma pedra cinzenta e com telhados de palha, brilhavam com o sol da meia tarde. Dan avançava por entre ruas de chão batido, sentindo o aroma característico de vilas maiores: uma mistura de urina, fezes, suor e comida.

Ainda se acostumando ao odor, ele começou a sentir uma tontura súbita, forçando-se a apoiar o corpo na parede de uma casa. Visões de sua batalha anterior e da família chorando pelo pai morto por ele vieram, rápidas como um raio. Dan levou sua mão direita ao rosto, cerrando os olhos e rangendo os dentes para não gritar.

Após alguns segundos, o tormento acabou. Ele então se recompôs, conferindo as bainhas das espadas às suas costas, checando as tiras de couro que as prendiam, tentando disfarçar o que acontecera para qualquer curioso. Terminando o ato, prosseguiu a caminhada.

Alguns metros depois encontrou uma placa presa ao teto de uma casa, indicando um alfaiate. Aproximando-se verificou diversas roupas, embora, perguntando o preço, percebeu que para comprar para os três, precisaria de mais dinheiro. Com um aceno, deixou o estabelecimento. "Tomara que Kress consiga algum dinheiro com o tal Robyn. Não vou conseguir roubar nada a essa hora e no meio da rua", ele pensou.

Caminhando pela vila, percebeu uma construção que se destacava pela altura. Se aproximando, percebeu que se tratava de um templo a Torvalim, o Deus da Lua. Tinha cerca de três andares de altura, em formato de meia lua. Acima da parte central, uma estátua da lua em formato crescente. "Uma bela construção", Dan pensou. A parte interior à frente do templo servia como uma espécie de praça; mas estava vazia naquele momento. Dan então, curioso sobre o prédio foi se aproximando. à sua frente, a porta central do templo estava aberta, a fim de deixar qualquer fiel fazer suas preces.

Dan dirigia-se para o templo, mas sua caminhada foi interrompida por mais memórias vindo em um flash para sua cabeça. Dan até se lembrava do que estava vendo, mas tentava ao máximo esquecer. Esses flashes, entretanto, não deixavam.

Acabada a sessão de tortura mental, Dan reuniu forças para adentrar o templo. Por dentro, era magnífico. O teto alto permitia diversos níveis de auditório, embora Dan não entendesse por que um templo daquele tamanho teria sido construído naquela vila, que nem era a maior da região. No nível térreo, dezenas de bancos de madeira, virados de maneira que quem sentasse visualizasse o centro, estavam colocados. No centro, um grande altar redondo, com belas toalhas e acessórios ritualísticos.

Dan caminhou até lá, notando o fato do templo estar vazio também. Entretanto, algo lhe incomodava. Ele percebera a falta de pessoas no caminho até ali, e mesmo os guardas que havia visto estavam em ruas adjacentes ao caminho até o templo. Assim, com um mau pressentimento se encaminhou à saída.

Quando pisou do lado de fora do templo, seus temores se concretizaram. Do lado pelo qual se acessava a praça, Robin, o Escarlate, montado em um cavalo e acompanhado de diversos soldados o esperava. Percebeu então que dentro do templo, nos níveis superiores, diversos arqueiros também estavam apontando para suas costas.

Robin então desceu do cavalo e disse:

— Prepare-se para morrer, meu caro aluno.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.