As Crônicas de Sarcina

2 A Vendedora de Batatas


Notas iniciais
Esse é o capítulo onde nossa história começa...

—Batatas, Batatas! -gritava pelas ruas desregulares empurrando um carrinho de madeira- Batatas, quem quer batatas!

—Eu quero batatas, batatas, batatas! -gritou um garoto, correndo na minha direção, rindo.

Franzi o rosto para a brincadeira de mau gosto. Toda a semana, quando saía da venda para gritar “Batatas, batatas!”, ele vinha correndo zombar e fazer gracinhas. Ciceris era um garoto sorridente, de muitos disparates e pouca sabedoria, com cabelos cor de palha e olhos acinzentados.

—Saia da minha frente, Ciceris!-gritei, enraivecida.

Uma senhora parou ao meu lado e já ia usurpando algumas batatas quanto esbofeteei sua mão.

—Vá embora, bruxa!

—Só iria olhar, pequena-disse ela, como fazia toda a maldita semana.

Continuei empurrando o carrinho, com Ciceris em meu encalço, fazendo caretas e balbuciando palavrões.

—Cuidado, Ciceris- disse eu, colocando algumas batatas na cesta de um senhor- Podem achar que está pronunciando feitiços com sua voz de gralha.

Ele riu e correu de volta para a frente do bordel em que convencia homens a se embebedarem e a dormirem com prostitutas. Era filho de uma das antigas moradoras que havia falecido a muito tempo. Eu sempre achei que ele era solitário, todavia, na verdade, eu era bem mais.

Retornei para o Tecelão, a loja de tecidos da minha família, colorida com seus panos pendurados em cada ripa que sustentava o teto.

—Como foram as vendas, Birdie?-perguntou Liliac, minha pródiga irmã mais nova.

Lilac estava debruçada sobre o balcão, atendendo um homem robusto de cota de malha que olhava fixamente seus grandes seios que quase saiam do amplo decote do vestido púrpura. Era, de longe, a filha bem-amada, com lindos cabelos castanhos e os grandes olhos amendoados do pai, além da pele extremamente branca de mãe. Enquanto eu vendia as batatas que cultivava nos fundos da loja, ela seduzia homens para comprar os mais caros tecidos para suas esposas.

—Foram ótimas-menti.

Ela sorriu, depois voltou-se para o homem.

Guardei o carrinho na despensa e subi as escadas apressadamente. Uma pilha de panelas me esperava. Enfiei um pedaço de pão fresco na boca e engoli tudo com agua de poço. Comecei a esfregar cada um dos finos talheres, me perguntando o porquê de não contratarmos uma mulher para fazer os afazeres de casa. “Por que gastariam suas moedas de cobre enquanto me têm como criada?” pensei. Talvez fosse uma enorme afronta cultivar pensamentos tão ofensivos contra meus pais, mas era impossível não refletir sobre as escolhas que fizeram, escolhas que nos tiraram da realeza do Grande Império de Aer para morarmos na região mais pobre do Reino da Luz.

Olhei-me pelo reflexo na vasilha ariada; meus cabelos castanhos estavam desgrenhados, os olhos escuros piscando para conter lagrimas não convidadas e minha pele pálida não espelhavam a beleza exótica da minha irmã. Meus pequenos seios estavam escondidos no vestido lilás bem comportado e longo. Que sorte a minha.

Quando terminei meus afazeres na cozinha, era hora de tingir os tecidos. Minha mãe, Primula Septem, membra da casa dos Sete de Espadas de Aer, pendurava as tramas no varal e resmungava. Ao me ver, franziu o cenho como sempre fazia quando estava aborrecida.

—Já devia estar aqui há muito tempo-disse ela, passando por mim e entrando novamente em casa.

Não havia nada mais para se fazer. Funguei e fui rumo a tenda onde meu pai tecia. Nubes Quinque era membro da casa dos Cinco de Espadas de Aer, e por isso, após o casamento com Primula, deveria usar Septem em seu nome, já que a casa Sete valia mais que a sua na hierarquia da nobreza.

—O que faz aqui?-disse ele, com o mesmo tom de voz rústico que sempre usava para se dirigir a mim.

Sempre achei que havia herdado mais dele do que da minha mãe, embora tanto me repudiasse. Lilac era a favorita dele, era a favorita de todo mundo.

—Ganhei alguns trocados-disse, despejando algumas moedas de cobre sobre a mesa a sua frente. Ele ignorou o feito e voltou a tecer. Saí da cabana, deixando o dinheiro que havia ganho para trás. Aquilo não importava.

Agarrei um saco de batatas que havia reservado naquela manhã e me encaminhei em direção a porta dos fundos do Castelo do Rei pelas ruas irregulares. Criados não podem entrar pela porta da frente. Passei pelos guardas, que sorriam de maneira acediosa.

—Paleas!-chamei, vendo que estava sozinha na cozinha do castelo- As batatas estão aqui, são as melhores que cultivei.

Um ruído de riso veio da despensa.

—Paleas...- avoquei, mas minha voz foi calada ao ver que Paleas, a assistente da cozinheira real, se agarrando a um jovem com metade da sua idade. Os dois me olharam, ela vestindo rapidamente suas roupas enquanto o jovem de cabelos cor de tiziu que iam até os ombros saia vagarosamente, observando com o canto dos olhos igualmente negros ao passar.

Saí sem reação enquanto Paleas procurava palavras para argumentar.

—Que elegante! — gritou Ciceris, da porta do bordel-Saindo do palácio real, não? Anda dormindo com um dos guardas para subir na vida, Vendedora de Batatas?

Ignorei o garoto e partia para casa quando o locutor real passou lentamente a cavalo, gritando:

—Baile de Aniversário do Príncipe! Acontecerá, na noite de amanhã, o Grande Baile!

Ri comigo mesma, pensando que, dadas as possibilidades, somente os nobres que recebessem o convite na mais fina folha poderiam ir ao baile, então era inútil avisar aos pobres plebeus de Latebras.

Mas, para meu espanto, lá estava o convite, sobre o balcão do Tecelão. Lilac sorria e meus pais pareciam não acreditar. De fato, éramos um pouco menos pobres que os demais agora que tínhamos o dinheiro dos tecidos que vendíamos. Éramos menos pobres, mas não nobres, pelo menos não em Fulgur.

—Fui chamado para falar com Genere alguns dias atrás-disse meu pai, olhando a solicitação, ainda embasbacado- Não pensei que falasse de maneira sensata a respeito da ascensão de nossa família. Adquirimos muitas terras, e temos uma boa rede de comércio... Sim, podemos ser nobres e morar na Vila Verum.

Contestei a razão do meu pai a partir daquele momento. A Vila Verum era a região com as mais belas moradias do reino e se concentrava na base do castelo. Latebras, por outro lado, ficava em uma província mais afastada, próxima a Floresta dos Corvos.

Minha mãe tagarelava com Lilac sobre o vestido que usaria. Claro, seria feito com os melhores tecidos da loja.

Subi para o andar de cima e olhei pela janela do quarto o céu nublado. Um frio percorreu meu corpo e soube que o inverno se aproximava, assim como o Festival dos Mortos. Maldita noite! Passava por ela deitada na cama, com cobertas sobre a cabeça ouvindo os gritos e sussurros dos falecidos. Deveríamos ignora-los a todos por ordem real, mas sempre tive a impressão de que havia alguém no quarto. Quem era, não vinha ao caso para mim. Os fantasmas me davam medo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.