As Crônicas de Astra

2 A caçada ao coelho - Joanis


Notas iniciais
Esse é o primeiro capitulo, a personagem Joanis foi baseada num rpg de mesa que eu mestrava.

Os ventos vindos do oeste estavam definitivamente frios. O inverno estava cada vez mais próximo e as noites cada vez mais gélidas e escuras. Os tempos gelados, com certeza, eram os mais odiados por Joanis Dragomir, uma jovem de 17 primaveras. Ela não era grande, tão pouco pequena, mas muito sofrida. Seu cabelo castanho estava repicado curto e usava trapos, seu corpo exibia muitas manchas roxas, dessa forma ela parecia uma mendiga, uma mendiga muito bonita. Pois nem todas as marcas dos sofrimentos causados pela madrasta da menina conseguiam camuflar a beleza dela. No inverno, por muitas noites, a menina era colocada para fora, como uma cadela, para dormir ao relento. A menina fazia de tudo para agradar sua “mestra”, mas sempre acabava sendo castigada, como se a velha tivesse prazer de machucar a jovem. Naquela tarde Joanis estava caçando o jantar de Siliany, pois, mesmo com um bom mercado na vila, a menina era sujeita a testes como esses. Porém, sua madrasta não sabia que Joanis não via dificuldade na caçada, embora fosse uma garota. Com o arco e algumas flechas abatia varias coelhos e algumas aves para o banquete da Mestra, enquanto ela ficava com as sobras e na melhor das ocasiões com uma sopa rala.

Naquela tarde, como em muitas outras, Joanis estava caçando um colho, que se mostrava particularmente ágil e difícil de ser morto. “Maldito, deixe-me colocar minha flecha em você.” Pensava a menina a cada flecha que errava. O animal continuou a fugir dentro do bosque até a beirada dum barranco, onde parou e se deitou, como se não estivesse em fuga. Joanis, agachada atrás duma árvore, que pelo tamanho devia ser muito velha, observou o coelho parado. “Desistiu, acabou.” Pensou ela, enquanto sacava uma flecha da aljava e mirava no animal.

– Perdão... – sussurrou ela, como sempre fazia — é você ou eu.

E num ruído surdo a flecha foi atirada, acertando o pequeno animal, que emitiu um ultimo ruído em meio a sangue e dor. A jovem colocou o arco nas costas e andou até o cadáver do coelho. Depois do barranco, descendo um ou dois metros, corria um rio de água cristalina, que reluzia sobre aquele por do sol. Joanis pegou o coelho e suas mãos se sujaram de sangue, mas a menina detestava aquela sensação. Colocou o coelho na sacola e desceu até a margem, onde pode lavar as mãos e se livrar da sensação de estar suja. “E talvez a sensação da culpa...”. Joanis se virou e começou a subir o barranco, pois tinha de estar em casa antes do anoitecer, ou o castigo seria cruel, mas algo, em meio às arvores do outro lado do rio, chamou a atenção da menina: um homem montado a cavalo. O coração da jovem disparou, talvez fosse um estuprador, como os muitos homens que andavam por aquelas regiões, mas o medo impediu que ela se movesse e lá ficou ela, parada no meio do barranco, esperando ser estuprada. O homem usava roupas surradas de viagem e as botas negras, tal como o cabelo, chamavam atenção, Joanis pode então, obviamente, concluir que o homem estava viajando. O viajante então, com um salto, desmontou de seu cavalo marrom.

– Olá! – gritou o homem, fazendo uma reverência – Milady pode informar se o vilarejo de Isan está próximo?

Chocada com a educação do viajante, Joanis ficou mais calma, talvez se tratasse de um nobre.

– Sim senhor, é naquela direção. – respondeu a jovem, apontando para o sul – Eu moro lá, se quiser me acompanhar...

– Evidente, me agrado com companhia de belas damas. – disse sorrindo – Meu nome é Idrian Varidiel, dos reinos sulistas.

Joanis corou como um pimentão e apenas acenou a cabeça na direção da vila. Andaram em silêncio e a cada minuto o mundo escurecia e ficava mais frio. As árvores foram ficando cada vez mais ralas, até chegarem a uma planície e por fim à estrada principal que se dividia em duas, o caminho da esquerda levava para as cataratas de Rastael e o da direita para o vilarejo de Isan. Idrian exclamou:

– Enfim minha jornada chega ao descanso. – falou, completando com um belo sorriso – Onde milady mora?

– Na entrada da vila... – respondeu rapidamente para evitar se lembrar da madrasta – Moro com minha madrasta...

O homem incitou o cavalo e continuou andando ao lado da menina, até a entrada do vilarejo, onde havia uma cabana solitária. Não era uma casa bonita, a madeira estava quebrada em vários pontos e os cantos exibiam visíveis teias de aranha, que a Mestra insistia em deixar ali. Joanis fez uma reverencia a Idrian e se despediu silenciosamente. Ao colocar os pés na soleira da porta a menina sentiu a velha se mover lá dentro, sentiu Siliany pegando o chicote e se preparando para castigar sua escrava. Com uma lágrima nos olhos Joanis abriu a porta e entrou no ambiente escuro e fedido a mofo. Ao fechar a porta sentiu mãos fortes e enrugadas grudarem-lhe no pescoço e colocar uma coleira nele.

– Finalmente voltou vadia, estava com fome!

Os dentes da velha eram amarelos e daquela boca pobre saía um cheiro de morte e mofo. As rugas eram tantas quantas as estrelas no céu. O cabelo fino como palha da monstra caiam no rosto de Joanis que chorava. A menina estava na posse de sua madrasta, desde que seu pai fora assassinado e ela fora vendida como escrava para aquela demônia, que usava e abusava dos serviços da jovem.

Siliany acorrentou Joanis num pilar no canto da casa e tirou com voracidade o saco com o coelho das mãos da menina. Abriu e viu o conteúdo.

– COMO ASSIM VOCÊ OUSA VOLTAR PARA ESSA MALDITA CASA COM UM COELHO SÓ? ISSO NÃO DÁ NEM PARA A ENTRADA!

Com um movimento rápido a velha pegou o chicote e chicoteou Joanis nas costas. O sangue escorreu automaticamente no segundo golpe e banhou a roupa da garota.

– VACA!

As mãos de Siliany se moveram com agilidade e rasgaram os trapos da menina que chorava, deixando-a totalmente nua. Os seios da garota eram fartos, mas cheios de marcas rochas, como o resto do corpo, além de inúmeras marcas de cortes.

– Por favor, mestra... – soluçou Joanis – Não me bata mais...

– CALADA! – bradou à velha, dando um pontapé na barriga da menina – VOCÊ ME VEM COM UM COELHO, UM COELHO E ACHA QUE EU VOU LHE AGRADAR? É CLARO QUE NÃO. SUA VACA INUTIL!

Em meio a gritos e dor, Joanis passou boa parte da noite, até sua mestra cansar. Quando a velha se afastou a menina estava sangrando em vários pontos e o chão estava tingido de vermelho. Siliany se virou e começou a cozinhar o coelho.

Na panela a velha despejou alguns legumes e deixou ferver, enquanto tirava a pele do animal que fora caçado. Em algumas horas a velha já estava bem alimentada, mas não chegou a dizer isso a Joanis, que ainda estava caída no chão, sangrando, onde ficou a madrugada inteira.

O sol raiou tímido e Joanis foi a primeira a acordar. O sangue já havia parado de sair em grande quantidade, mas ela continuava suja. Rastejou pelo chão e se apoiou nas paredes, onde foi até a cozinha, preparar o café de sua mestra, pois não devia dar mais motivos para despertar o ódio da monstra. Então, inesperadamente, alguém bateu na porta. Do quarto ao lado Siliany saiu a passos largos e foi atender quem era. “A essa hora?” se perguntou a menina. Um homem alto cujo rosto estava tapado por uma mascara negra entrou na casa. Sua capa negra ondulava e parecia encher toda a entrada da casa, a luz parecia ser sugada para dentro da roupa escura dele. A voz, definitivamente, foi à coisa mais terrível que a menina já ouvira: mesclada de gritos e gemidos sinistros, despertavam arrepios na menina.

– Enfim nos encontramos... – disse o homem em sua voz sinistra e gelada – Esperei a vida toda...

Ao fim da frase Joanis caiu no chão e começou a gritar, não sabia dizer o porquê, mas a voz, o homem, tudo, despertava os medos da menina. Sua visão ficou turva e distinguia poucas coisas no ambiente, como sua madrasta dando uma gargalhada e o encapuzado esticar uma mão esquelética na direção dela caída no chão. O mundo esfriou e tudo ficou cinza, quando por fim ela fora tocada pelas mãos mortas. Tudo que vira, ou achara que vira, antes de desmaiar fora sua mestra, Siliany, fantasticamente virando um corvo e saindo pela janela e um brilho duma lâmina em meios às sombras.

Notas finais
Bom, só isso. Espero que tenham gostado e até sexta feira, onde o próximo capitulo sera postado.