Todos têm uma história. Não importa se você conhece ou não a sua, pois também tem uma. Parte dela é feita por nós, mas há outra, muito maior, construída por aqueles que nos antecedem: edificada pelas mãos de inúmeros homens e mulheres (nem sempre da nossa família) que, movidos pelos mais variados sonhos e aspirações, ajudam a mover as rodas do tempo, tanto do mundo, quanto do nosso.

Infelizmente, nem sempre essa história é alegre; e isso assusta.

Naquele momento, Aethel sentia medo. E justamente na época mais difícil de sua vida, quando esse sentimento apenas pioraria tudo.

O jovem rei não temia Juba, mas o desprezava; não receava a guerra, mas sentia-se atraído por ela, como um herói em busca de feitos grandes; e não preocupava-se com sua própria vida, pois, sendo imperador, sabia que ela só tinha valor caso fosse dedicada ao bem de seus amigos e de sua nação.

Sobre Nealie, o rapaz apenas a odiava, ainda que nem soubesse mais a razão disso.

Porém, muito além de tudo, Aethel sentia medo de conhecer seu passado e recuperar a história da qual, a tantos anos, fora privado.

“Aconchegue-se em meus braços, meu príncipe”, pedia Talibah, enquanto ela iniciava sua narrativa:

— Não revelo o que não é necessário, nem o que não me é permitido saber, porém, meus olhos conseguem ver distâncias muito maiores do que Merlin ou Gael jamais sonharam ser possível.

Movendo a mão esquerda para frente, a linda mulher fez brotar uma amoreira e, em um movimento rápido, comeu uma das frutinhas.

Em seguida, a mulher soprou para cima, formando uma nuvem perfumada que projetou imagens e sons.

Com atenção, Aethel olhava para as cenas, que mostravam uma cidade em chamas, gritos e soldados marchando de forma ordenada.

— Olhe com atenção, meu bom príncipe – sussurrou a mulher – Vou mostrar aquilo que seus livros não lhe contaram ainda…

As cenas eram tenebrosas: o grande palácio era invadido, furiosamente, por soldados com sobretudos e quepes, armados com baionetas.

Havia pessoas correndo para longe dos militares traidores, enquanto a guarda imperial formava, precariamente, uma barreira: a última e desesperada tentativa de salvar aquele mundo dourado que ruía diante de seus olhos.

“Mantenham a posição!” gritava um comandante jovem, de pele negra e cabelos escuros, destacado por um bigode bem aparado: bastou um instante para Aethel reconhecer seu querido amigo, Felipe.

“Atenção! Preparar!” gritou Felipe, sendo obedecido por seus homens, “Apontar… Que Deus tenha misericórdia… Fogo!” gritou o comandante, e seu valoroso batalhão disparou contra os traidores revolucionários.

Não falarei das baixas ou da contraofensiva inimiga, pois as imagens mudaram para o escritório de Aethel que, na época, pertencia a Antônio.

“Você enlouqueceu?!” berrou um Atreu mais jovem para aquele que, durante anos, fora o imperador de Ghalary, Antônio Aureliano:

— E como espera que eu resolva isso? – questionou Antônio, ajeitando os cabelos – A guarda imperial não vai resistir por muito mais tempo! Não ouviu o som das balas?

— Chame as unidades próximas a cidade! – exigiu Atreu – Sua fraqueza nos trouxe para este abismo. Foi por ter sido piedoso com esses animais que, agora, eles desejam sua vida! Mas isso não importa mais…

— O que quer dizer? – perguntou o monarca.

— O Senado está em sessão permanente e as legiões próximas a Nimrod chegarão em dezesseis horas, para massacrar esses criminosos… e preservar a sua casa imperial!

— Será um banho de sangue! – exclamou Antônio – Evacuem a cidade e preservem as vidas dos súditos! O apoio popular é baixo e os revolucionários nunca serão reconhecidos pelas outras nações…

— Antônio, já chega! – disse Atreu – Esqueceu do segredo dos Ryu? Tudo que acontece aqui, afeta outros mundos, se lembra?! Se Ghalary cair, será uma catástrofe! Você deve sair daqui e levar sua esposa e filho…

— Majestade! – chamou um oficial, que entrou ofegante no escritório:

— As defesas estão quase caindo; os traidores vão tomar o palácio! O senhor deve sair daqui imediatamente!

Antônio olhou pela janela e viu, assombrado, as barreiras sendo derrubadas e os revolucionários avançando, como se fossem uma força indômita da natureza.

Olhando para seu oficial, o imperador perguntou:

— Como está a munição?

— Esgotará dentro de uma hora, meu senhor – respondeu o oficial.

— O palácio já foi evacuado?

— Estamos usando um pequeno destacamento para levar as pessoas em segurança para as rotas de fuga.

— Qual o estado da guarda imperial? – perguntou Aureliano.

— Muito cansados, meu senhor – respondeu o oficial – Eles veem os amigos feridos no chão, mas tentam tirá-los das linhas de fogo… Esses inimigos são… Majestade, eles são bárbaros e querem nos matar!

— Não entendo – disse o imperador – Como as coisas chegaram a isso? Atreu, está claro que alguém tem sabotado meu governo já a algum tempo. Sabe algo sobre isso?

O senador não gostou do que lhe soou como um acusação, mas preferiu manter a postura:

— Saber algo? Talvez me julgue mal por eu ter sido um opositor de seu governo fraco, mas não me ofendo. Me perdoe, majestade, mas será que não foi o senhor a se trair, quando preferiu tratar esses pagãos com gentileza, ao invés de destruí-los? Mas sei o que quer dizer, afinal de contas, sou uma figura forte no senado e, é claro, poderia ter sabotado algumas de suas medidas…

— Então admite? – questionou o monarca.

— Não concordamos em muitas coisas, Antônio – respondeu Atreu –, mas jamais sabotaria alguém que foi escolhido por Deus… É claro que não tenho como provar o que digo; pode me ver como santo ou demônio, mas continuarei a lutar pela glória do império (e pela morte desses criminosos).

— Majestade! – disse o oficial – Eles estão invadindo, o senhor precisa sair daqui imediatamente!

Não havia mais o que decidir; Antônio já entendia que, se insistisse naquela resistência, o inimigo iria capturar a família imperial e o sangue Ryu seria erradicado.

Daquele ponto em diante, as imagens alteraram-se para um grande salão, onde uma mulher corria com seu filho pequeno segurado pela mão direita: eram Sophia, a imperatriz, e Nikolas, o príncipe.

Correndo com alguns funcionários, a mulher e seu filho passaram por uma grande porta, fortemente protegida pelos poucos guardas imperiais que não estavam do lado de fora impedindo os avanços das tropas inimigas.

Os sons de granadas e balas cruzando os arredores do palácio eram sinistros, mas uma garota com uniforme de cadete fez sinal para que Sophia e seu filho entrassem por uma porta que dava para um corredor ligado aos jardins internos do palácio, por onde podiam seguir a rota direto para o bosque das imperatrizes e fugir em segurança: a menina era Miriam; aquela a quem Aethel conhecera na grande biblioteca imperial. Ela devia ter chegado em Ghalary a pouco tempo ou fugido para as terras além do véu, já que, na idade adulta, ainda mantinha aquele mesmo sotaque que tanto chamou a atenção do rapaz.

As imagens mudaram novamente e Aethel viu Antônio abraçando Sophia, enquanto seu garotinho tremia de frio e olhava para todas as direções, assustado, esperando vir um ataque inimigo.

Trocando beijos e palavras de afeto, cheias de esperança, Antônio disse para sua esposa correr e, ajoelhando-se, tocou os ombros do filho:

— Independente do que acontecer a partir de agora – disse o imperador – Vamos todos enfrentar de cabeça erguida. Certo, garoto?

A criança não falava nem levantava a cabeça, até que o pai a abraçou, sem chorar ou demonstrar medo:

— Coragem, meu filho; o que acontecer ao mundo e a nós, será a vontade de Deus.

Antônio sorria, com confiança, tentando esconder a preocupação que sentia:

— Se Merlin estivesse aqui… Vá até ele, Sophia, e leve a criança. Aquele que ensinou Arthur talvez tenha algo a ensinar para nosso pequeno Nikolas.

— Mas ele já não é visto a tanto tempo! – disse a imperatriz – Onde vamos achá-lo?!

— Não vamos – disse o imperador – Siga pelo bosque e corra, sem olhar para trás. O lugar mais misterioso, mais antigo e mais encantado do bosque vai levá-los a Merlin (teoricamente).

Não havia mais tempo, então Antônio abraçou o filho uma última vez, em seguida olhando o garoto nos olhos e dizendo:

— O mundo que ajudei a construir está desmoronando, meu filho. Mas talvez você consiga reconstruir tudo, com mais fausto do que eu ou esses velhos do senado jamais poderiam sonhar; mas antes, você precisa sobreviver.

Após dizer isso, Sophia e Nikolas correram para o bosque e se distanciaram de Antônio, que ficaria junto de seus oficiais segurando os revolucionários.

Era uma atitude insana, mas daria o tempo necessário para que sua família fugisse em segurança.

A partir desse ponto, as imagens começaram a se dissolver, mostrando uma nova sequência de cenas que se moviam, como um filme.

Dessa vez, Aethel viu Sophia e seu filho correndo pelo bosque, até que ela parou perto de um arbusto e beijou a testa do pequeno Nikolas, enquanto sussurrava, em lágrimas:

— Os soldados estão muito perto; me perdoe. Acho que não posso fazer mais do que ocultar das suas memórias todas essas tragédias. Pelo menos, você terá algumas boas noites de sono… e espero que encontre Merlin. Se não nesta época, em alguma outra que seja mais feliz.

Dando um segundo beijo na testa do garoto, ela fez sinal para os soldados que a perseguiam e correu em outra direção, atraindo-os para longe.

“Corra meu filho” disse a imperatriz, “corra e viva”, encerrou ela, enquanto o garoto, sentindo a visão turva e a mente pesada, como se prestes a adormecer, correu na direção mais profunda do bosque.

O que deviam ser apenas alguns minutos pareciam anos, e os pés de Nikolas ficavam cada vez mais pesados.

Corria sem direção e já não se lembrava de nada mais de seu passado, exceto de um inocultável sentimento de medo, cuja origem não conhecia mais.

Após algum tempo, o garoto recostou-se em uma árvore e começou a chorar, esgotado e desesperançado.

Para Aethel, que via todos esses acontecimentos, foi um choque: aquela criança que escondia os olhos castanhos e marejados, tocava os cabelos cor de noz e se encolhia, tentado se proteger do frio e esconder as lágrimas, era a imagem e semelhança do próprio Aethel.

Bastaram alguns instantes para que uma fadinha chegasse perto do jovem Nikolas e não deixasse mais qualquer dúvida sobre sua ligação com o jovem imperador que, pouco mais de um mês atrás, havia removido a Excalibur da bigorna.

Após as imagens desaparecem, a Oráculo da Eternidade limpou as poucas lágrimas do rapaz e lhe perguntou o que faria, depois de ter visto e ouvido tudo aquilo, ao que ele respondeu:

— Isso já foi a muito tempo, não importa mais. Ainda tenho que achar o… o túmulo de Maeve, quer dizer, a armadura e… logo vou me encontrar com o Cavaleiro… Cavaleiro Verde.

— Não sofre por tudo que viu? – perguntou a mulher – Não lamenta por seus pais?

— Não sei lidar com perdas – respondeu o garoto – Quer dizer, eu nem lembrava deles, então é como se eu nunca tivesse tido pai ou mãe, não é?

Apesar das palavras, Aethel não conseguia impedir as lágrimas.

Levantando da grama, Talibah andou até uma macieira, colheu uma maçã e mordeu-a, tirando de dentro um anel de ouro com um rubi no centro.

Com um sorriso, a Oráculo ofereceu a joia ao garoto:

— Pegue este anel, meu jovem príncipe; ele vai guiá-lo até seu destino. Mesmo com as indicações que lhe dei antes, você e seus amigos podem ter dificuldades em encontrar a armadura de Maeve, por isso lhe dou esta joia como presente.

Aethel pegou o objeto e despediu-se de Talibah, tentando segurar as lágrimas, mas essa pediu que ele esperasse mais um pouco e, com o sorriso de uma raposa, fez uma pergunta inesperada:

— Antes que vá, meu principezinho, me responda: ainda se importa com Mabel Pines? Como estão seus sentimentos em relação a ela?

Embora pego de surpresa, Aethel sorriu:

— Já tem a resposta, Talibah.

— De fato… – riu a mulher – já tenho. Mas não enrole demais! Garotas não esperam para sempre.

Terminando suas palavras, o jardim desapareceu e Aethel sentiu o corpo leve, fresco, como se tivesse mergulhado nas fontes do paraíso: estava, mais uma vez, dentro do lago.

Flutuando até a superfície, Aethel constatou, com um sorriso, que suas roupas não estavam molhadas.

No começo precisou de alguns segundos para se adaptar à baixa claridade da caverna, mas quando fitou os olhos cor de avelã de Trixie, cheios de perguntas, Aethel não esperou palavras e abraçou a garota, sendo correspondido.

Jack e Rosa não entenderam, mas quando o jovem rei começou a chorar, preferiram ficar em silêncio, mostrando o mais profundo respeito.

“Tudo bem, cara. Fica na paz” sussurrava Trixie, enquanto Jack olhava para Rosa e segurava sua mão direita.

Após algumas pausas, o imperador se sentou e narrou as maravilhas que havia visto, a beldade com quem conversara e as revelações impactantes que tivera.

É claro que começaram os questionamentos sobre qual seria real idade de Aethel, mas o tempo era escasso demais para que fosse gasto com bobagens, de modo que o rapaz encerrou o assunto e seguiu para um mais importante: as novas determinações que teriam se seguir.

— Não sei quem foi que traiu minha família, mas ele ainda está vivo e impune; e eu vou encontrá-lo, Trixie… e vou matar!

— Aí! – disse Jake – Eu entendo como se sente, de verdade, mas vingança não vai ajudar! Fala sério, acha que fazer isso vai resolver alguma coisa? Uma vez eu tentei pregar uma peça na minha irmã (vingança boba entre irmãos) e tive um montão de problemas; vai por mim, não vale a pena…

— Sua família não foi assassinada, Jake – disse Aethel –, a minha foi! E farei o culpado lamentar o dia em que nasceu. Vou tratá-lo com a piedade dos assírios, ele vai sofrer a pior dor que existe no mundo.

Eram palavras de fúria, é claro, mas não estavam desprovidas de sinceridade, já que aquele garoto tinha o poder para torná-las realidade.

Após limpar as últimas lágrimas, o imperador disse que, apesar de sua raiva, ainda precisava da armadura de Maeve, ou Nealie destruiria o mundo.

Com tristeza, o amigo ajudou as garotas a subirem nos cavalos e cedeu seu garanhão branco para Jake: Aethel voaria sozinho em seu tapete.

A viagem seguiu durante algumas horas, mas não havia mais aquele gostoso clima de otimismo anterior, de quando ainda estava procurando a caverna com o lago: Trixie e Rosa sussurravam sobre o que poderia ser feito para ajudar seu amigo entristecido; Jack mantinha a cabeça baixa, ainda pensando no que o rei havia lhe dito; e Aethel mantinha o olhar carregado, limpando as lágrimas sempre que apareciam.

Após alguns minutos, avistaram o templo em ruínas e prosseguiram em direção a uma série de rochedos, porém, o rei pediu que fizessem uma pausa e pousassem, pois precisava passar algumas últimas determinações:

— É aqui que nos separamos. Trixie, pegue este anel e siga as orientações que eu lhes dei, quando falei sobre o que encontrei no lago – dizendo isso, Aethel ofereceu o anel à garota – Preciso ir para outro lugar e talvez não possa ajudar na batalha contra Juba.

A garota recusou e Jake exigiu saber o que aquilo significava:

— Ninguém merece… Olha, sei que você não é covarde, então nos diga onde você vai e o que pretende fazer. Seja onde for, nós vamos com você.

Após algumas ponderações, Aethel falou, de forma fraca:

— Está quase no prazo, vou encontrar o Cavaleiro Verde.

— E fazer o quê? – perguntou Rosa – Já não tivemos problemas suficientes com ele? Jake e Danny quase se deram mal por causa daquele cara!

O rapaz não respondeu. O que faria a partir daquele momento não precisava da aprovação dos amigos, além disso, nenhum bem surgiria se eles descobrissem o que, realmente, estava acontecendo ali.

Para alguém que sempre tinha boas palavras na ponta da língua, o silêncio de Aethel era ensurdecedor, como pingos de água intermináveis que tocavam as cabeças de prisioneiros, dia após dia, até que esses mergulhassem na mais absoluta loucura.

Apesar da determinação em despedir os amigos e não lhes revelar nada, o coração do rapaz acelerou e suas pernas esfriaram, como se mergulhadas em um lago congelado, ao que ele disse:

— Rosa, me sinto cansado, não tenho como responder suas perguntas; me desculpe. Só tenho que fazer uma coisa e… – pausou Aethel, procurando as palavras que lhe escapavam – não quero que tenham mais lembranças pesadas. Este mundo não é tão ruim, mas algumas pessoas o tornam difícil, entendem?

Colocando a mão esquerda no ombro direito do rei, Jake repetiu a pergunta de Rosa, enquanto pedia que o amigo não fugisse da resposta, ao que Aethel respondeu:

— Vou resolver uma questão legal, mas… – hesitou, segurando as mãos de Trixie – Querem saber? Acho que vai ser bom ter alguma companhia, por enquanto. Como o Soos dizia?... Ah, sim, acho que era algo como “valeu galera”, ou qualquer coisa assim.

Os amigos ficaram felizes, mas Aethel o fez prometerem que seguiram suas ordens diligentemente, sem mais questionamentos, ou poderiam ofender o Cavaleiro e gerar problemas legais impossíveis de serem contornados:

— Ele não é tão mal – disse o rei – Apenas tem obsessão com o “procedimento correto". Por favor, sejam educados e sigam minhas orientações, principalmente você, irmão Jake.

Com um movimento da cabeça, o dragão ocidental concordou, sendo repetido por Trixie e Rosa.

Ainda em seu tapete, Aethel pediu que seus amigos voltassem às montarias e lhe seguissem em direção ao leste, onde encontrariam o castelo do Cavaleiro Verde.

“Será que dará tempo?” perguntava o imperador, enquanto seus olhos se enchiam com mais lágrimas carregadas de dor, tristeza, raiva e, dessa vez, medo…