As Crônicas da Teia.
1 Pendragon.
Notas iniciais
Piscava incansavelmente. Tentando entender o que estava acontecendo naquela pequena roda próxima à tenda principal do circo, mas era difícil se livrar das diversas mulheres que paravam a sua volta, apenas para elogiar seu cabelo, apreciar sua fofura de criança e dizerem o quanto queriam ter um filho igual a ele.
Sentia nojo delas. Queria prestar atenção no pequeno espetáculo concentrado fora da tenda. Parecia que uma nova aberração havia se juntado à família do circo. Ainda não havia se acostumado totalmente com aquele garotinho estranho que adorava brincar com facas e já havia uma nova pessoa para tolerar. Aquilo acabaria se tornando cansativo. Aparentemente era um Mágico, o segundo a passar pela família. O primeiro havia morrido há alguns meses.
Era uma tarde de Outono. Já fazia dois anos que o garoto havia sido encontrado na entrada do circo e se juntado àquela amável família. Atualmente com dez anos, o jovem Simon Pendragon simplesmente ignorava todas as demonstrações de afeto das visitantes. Também ignorava a de alguns membros da família. Quanto mais o tratavam como um “filho”, mais ele os odiava. Havia perdido seus pais no dia em que foi levado ao circo por um homem estranho. Acreditava que esse seria o homem que matou sua família a sangue frio. Talvez não estivesse totalmente errado.
— Olá, jovem! — falou o novo membro da família, havia acabado seu espetáculo e fora direto para salvar o garoto, que já estava bastante irritado. — Percebi o quanto estava querendo ver meu espetáculo, mas essas jovens damas não permitiram. Quem sabe elas não querem se encontrar comigo mais tarde, em meus aposentos? Lhes darei a devida atenção.
— Vai sonhando, otário — disse uma delas saindo rapidamente dali, mas não sem antes mandar um beijo para o jovem Simon, que se sentiu um pouco desconfortável. Era normal uma criança não se interessar muito por mulheres.
As amigas da mulher a seguiram, todas xingando o mágico, que enfiava suas mãos no bolso do sobretudo azul-marinho, abrindo um gigantesco sorriso.
— E é isso, garoto. É assim que se espanta as gatinhas: com estilo. Tá ligado?
Tirou as mãos do bolso e fez alguns gestos obscenos para as mulheres, coisa que Simon não entendeu muito bem.
Se virou novamente para o garoto, ainda sorrindo.
— Então, é uma pena não ter visto o espetáculo. As pessoas gostaram.
— Imagino que sim, mas estarei presente em sua estreia — disse o jovem, coçando seus cabelos castanhos.
Era realmente um belo rapaz, tirando uma pequena marca de queimadura que havia em seu pescoço. Sempre teve ela. Desde que se conhecia por gente ela sempre estivera ali. O único problema era que não se lembrava de ter se queimado em nenhum momento de sua vida, mas aquilo não importava tanto.
— Ah, não. Minha apresentação é daqui a duas semanas, você não pode esperar.
O mago estava prestes a se mover movimentando sua perna para a esquerda, Simon tentou acompanhá-lo, mas era impossível. Foi uma grande surpresa para ele quando percebeu que o mago estava parado alguns centimetros atrás dele. O Mago se movimentava de uma forma incrível, mesmo com o Pendragon prestando atenção em todos os movimentos do velho.
— Tirar coelhos da cartola é para maricas, entendeu?
— Mas que bosta foi essa? — soltou o garoto, espantado. Nunca havia visto nada assim em sua vida. Aquele homem era incrivelmente rápido ou, se não fosse isso, ele era um fantasma. Só podia ser… Isso era desumano.
— É um termo bem conhecido, eu diria. Misdirection, meu jovem. É um truque de mágica. Eu tenho alguns bem melhores, mas não temos tempo para isso, não é mesmo? — O mago sorriu, esperando alguma ação do garoto.
— Mas que bosta foi essa? — repetiu.
O homem afundou as mãos no bolso de seu sobretudo, irritado com o jovem. Odiava repetição, mas sabia que aquele garoto teria futuro como mágico. Apenas não sabia o real motivo disto.
— Certo, faz sentido você não entender tudo… — começou, coçando fortemente a cabeça para se acalmar. — Se me der uma chance, só uma chance, eu posso te ensinar tudo que eu sei e muito mais. Eu soube que seus pais foram mortos, não é?
— Sim. O Chefe disse que existe a grande probabilidade de ter sido a Família Machiavelli. Não creio muito nisso, afinal meu pai era um deles — comentou o garoto, soltando um longo suspiro. O Mundo Velho era comandado por uma grandiosa família chamada Machiavelli, que continha Vinte e dois membros. Vinte e um atualmente, afinal o pai de Simon havia sido assassinado.
— Certo, mas vamos supor que tenham sido os Machiavelli, ok? Você não pode simplesmente chegar lá sendo um garotinho de circo para tirar satisfação. Você tem que se tornar algo mais. — O mágico sorriu movendo sua mão direita rapidamente, prendendo toda a atenção de Simon. Em sua mão esquerda surgiu uma faca, a qual colocou bem perto do pescoço do menino. — Você precisa se tornar um Fantasma.
-x-
O mágico tirou sua cartola, a colocando cuidadosamente no chão e entrando em uma pequena cabana à sua frente, onde se encontrava um pequeno xamã. Se ajoelhou em frente ao velho, esperando que ele falasse alguma coisa. Era o típico e normal xamã que as pessoas encontravam por aí. Andava curvado, era cheio de tatuagens com cores bem fortes, tinha uma grande barba, era careca,carregava em sua cintura dois pequenos machados que tinham suas lâminas feitas de pedra.
O mágico abriu seu sobretudo e tirou um pequeno frasco de sangue, colocando na frente do velho.
— É o sangue do garoto? — perguntou levantando uma de suas sobrancelhas. O mágico assentiu sorrindo. — Tem certeza que quer fazer isso, Félix? O garoto pode acabar morrendo em um futuro próximo por conta disso.
— Tenho que arriscar, Gerald. Os Machiavelli já sabem sobre nós e começaram sua caçada. Ontem mesmo, durante nosso treinamento, encontrei um deles nos observando. É uma questão de tempo até atacarem o garoto — disse Félix, o mágico. Seus cabelos negros balançavam aos toques da leve brisa que entrava na cabana.
Gerald parecia não gostar muito da ideia, mas, mesmo assim, fez um sinal para que o homem a sua frente prosseguisse.
Félix retirou de dentro de seu sobretudo uma espada enfaixada com velhas ataduras, entregando-a para o xamã. O velho tirou as ataduras sujas de sangue e, por debaixo dela, pode ver a linda lâmina negra, reluzindo sob luz das velas ao redor dos dois. Félix sorriu enquanto o velho derramava o sangue de Simon Pendragon sobre a espada, que ganhava alguns detalhes vermelhos sobre a cor preta.
— Quando chegar a hora eu mandarei ele vir até você. Entregue para ele esta espada e conte tudo que ele deve saber — disse o mágico, olhando fixamente para os olhos mortos do velho Gerald.
— Você sabe que eu não consigo escolher o demônio que vai possuir esta espada e nem sei se ele vai poder ser um bom conselheiro para seu aprendiz — disse segurando firme o pulso do homem ajoelhado à sua frente.
— Apenas faça — comandou se levantando e saindo da cabana.
Pegou sua cartola do chão e a colocou na cabeça, abaixando-a um pouco para tapar seus olhos. Caminhou lentamente, sendo engolido pela noite. O xamã soltou um longo suspiro e continuou seu trabalho.
Félix caminhou com as mãos enfiadas no bolso pela rua Morgan sem olhar para trás. Olhava para frente com determinação. Seu sobretudo dançava com a noite. Não podia negar que estava feliz por ter uma chance de fazer algo útil em sua vida.
A rua Morgan era sua casa atualmente, para que assim pudesse defender o xamã durante os preparativos. Provavelmente demorariam dez anos para que tudo ficasse pronto.
O mágico encostou-se em uma velha árvore seca encarando as estrelas. O céu estava exatamente igual à noite em que tudo aquilo teve início. Algumas pessoas diziam que isso só acontecia quando uma Nova Era chega, já outros diziam que as pessoas simplesmente gostavam de se escorar em árvores para parecerem mais legais.
— Eu me pergunto por que os Pendragon sempre têm que ser os escolhidos para algo grande nesse mundo. — Disse para o vento, olhando para o céu estrelado e lembrando-se de momentos passados. Deixava a melancolia tomar conta de suas ações. — Você sabia a resposta, não é mesmo Myrian? O único problema é que você partiu cedo demais para respondê-la para mim. As estrelas são como os seus olhos. Elas brilham, queimam e me fazem querer desaparecer ao lado delas para sempre.
Suspirava com pesar e, assim se desencostava da arvore. O homem desapareceu nas sombras, buscando o local onde seu aprendiz estava. Exatamente como um fantasma.
O Mundo Velho, apesar de repleto de areia por todos os lados, era um mundo de recomeços. Muitas pessoas iam para lá a fim de ter uma nova vida ou para tentar fugir de alguma dívida do passado. Sempre eram bem aceitos e muitas vezes ingressavam no circo local, onde viviam Simon e Félix. Ninguém sabia o que havia mais ao norte por nunca conseguirem ultrapassar o deserto. Ninguém sabia o que havia ao sul por nunca conseguirem passar floresta de árvores mortas. O mundo se resumia à sua grande cidade central, cheia de casas de madeira, bares e dois grandes atrativos: a Mansão Machiavelli e o Circo.
É, um mundo de recomeços.
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