Recebera a carta por um mensageiro enquanto andava pelas ruas apinhadas da QA. Um calafrio percorreu sua espinha ao pensar que alguém podia saber sobre sua estadia na cidade. Era o motivo pelo qual sempre evitara os grandes centros.

“Temos uma missão. Nos encontre na taverna O Boteco que fica na orla lesta da Floresta. FLW”

Estranhou o bilhete, até porque se alguém conhecia a sua fama precedente por ali, esse alguém deveria saber que estava acostumada a sempre trabalhar sozinha. O medo de uma emboscada tomou conta de sua mente por um instante, mas seu orgulho e curiosidade logo vieram como uma onda fazendo-a checar suas armas e contar suas flechas antes de se dirigir a passos apressados até o local indicado. Sua agilidade e estatura pouco avantajada para uma meio-elfa lhe faziam conseguir atravessar a multidão com facilidade, deslizando por entre todo tipo de meio-humanos até chegar a um grupo mais conciso de pessoas que trancavam toda uma passagem e pareciam muito alvoroçadas com algo que acontecia no centro daquela massa. Tentou ficar nas pontas dos pés para enxergar o que causava o alarde, mas não conseguiu ver nada além de outras cabeças curiosas, chifres e orelhas. “De qualquer forma, estão no meu caminho, precisarei passar, tsc” pensou enquanto seus olhos rapidamente localizavam a melhor fresta para escapar dali. Se abaixou instintivamente e, usando sua furtividade, passou por entre várias pernas sem que fosse notada. Se aproximando sorrateiramente, a garota de cabelos ruivos pode ouvir com mais clareza que alguém discursava de forma calorosa por ali e atraia a atenção de todos.

— Meus caros, são tempos sombrios esses que vivemos. É com lamuria que vos comunico que o ataque ao nosso Segundo foi apenas o início do que está por vir. O mundo dos heróis já não é o mesmo e há pessoas corrompidas que destinam suas vidas a ruir a moral e bons costumes da nossa sociedade. Uni-vos! Só assim seremos fortes! Agarremo-nos aos ensinamentos que nos foram passados.

— Aaaah, tá é querendo entra no top, né senhor i-in-int-comoquié a palavra mesmo?? – Uma voz embargada gritou no meio da multidão e foi seguida e vários risos – Lembrei! Senhor “intelectual” – O bêbado que mantinha o anonimato no meio do mar de pessoas estourou num riso alto e longínquo.

A garota que já havia passado por toda a multidão e agora conseguia ver quem era o autor do discurso – Um homem alto com uma reluzente armadura e uma grande espada em suas costas cujas bochechas agora eram tomadas por um engraçado rubor.

— Veem? É disso que estou falando! Caráteres questionáveis assolam nosso país – continuou o eloquente cavalheiro.

“É um paladino, droga” pensou a garota desgostosa enquanto se aprumava com sua capa e se assegurava que o capuz cobria todos seus fios de cabelo ruivo e se pôs a fugir dali o mais rápido que sua furtividade lhe permitiu.

Já estava escurecendo quando chegou ao local indicado no bilhete. Conferiu mais uma vez seu equipamento e posicionou sua adaga dentro da manga. A construção tinha algumas janelas, mas todas as do andar térreo estavam cobertas por sujeira, enquanto as do primeiro andar tinham as cortinas fechadas. “Certamente uma emboscada!” pensou mordendo o lábio nervosamente. Abriu a porta com cuidado – O que foi inútil, pois o barulho ecoou por todo o salão, fazendo-a se preparar para um ataque, um ataque que não veio. Pelo contrário, um sorriso lhe cumprimentava do outro lado do balcão.

— Olá! Você deve ser a Maquele, não é? – Um rapaz de aparência gentil, com cabelos negros bem aparados e trajando simples vestes verdes e um cachecol azul lhe sorriu enquanto fechava o livro que lia antes da chegada da jovem.

No canto direito do salão debruçada sobre uma mesa repleta de pratos outrora cheios, dormia pesadamente uma elfa junto de um bandolim na cadeira ao lado.

— Shh! – O taverneiro fez sinal de silêncio ao ver que a garota notara a elfa ali. Saiu de trás do balcão indo em direção à mesa e recolhendo os pratos e voltou ao seu lugar anterior equilibrando artisticamente as louças nos braços. Ao perceber o olhar confuso e atônito que garota chamada Maquele lhe lançava, a chamou com as mãos para que se aproximasse do balcão enquanto limpava os pratos.

— Como sabe quem eu sou? – Interrogou Maquele rapidamente sem pestanejar e tomando cuidado para manter o tom de voz suficiente para que somente ele ouvisse – Aliás... Como sabia que eu estava por aqui?

— Oras, sua fama a precede, ainda que tente evitar. E só um capuz não é o suficiente para que não se torne reconhecida.

— Então... foi você que me mandou o recado? – Baixando a guarda no momento, mas sem reduzir a atenção à cada movimento do rapaz – Quem é você afinal?

— Uma pergunta de cada vez! – O rapaz a fitou enquanto enxugava as mãos num guardanapo – Sente-se primeiro – disse-lhe indicando uma das banquetas. A garota obedeceu e ele então continuou – Você é perspicaz, mas no momento tudo o que precisa saber sobre mim é que pode me chamar de AK. É uma abreviação e um apelido – Concluiu ele dando-lhe um sorriso confidente.

— Certo, pouco me importa – Mentiu – Qual é a missão?

— Essa é uma boa pergunta. Mas... temo que teremos que esperar mais um pouco antes que eu possa responde-la – Ele olhou o relógio na parede e voltou a encara-la – Por hora me diga, o que gostaria de comer?

Se sentia incomodada com tanta gentileza e sorrisos com os quais não estava acostumada, mas não podia negar que estava exausta e faminta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.