As Crônicas Dos Dez - Cálice da tormenta
6 VI - Jardim de pedras
Notas iniciais
Sentado sobre a escadaria do templo Vrael observava a lua crescer no horizonte. Em suas mãos repousava uma xícara de conteúdo desconhecido, que era bebericado vez ou outra. Suas vestes eram simples, sendo compostas por uma túnica comprida de algodão cinza.
Ficou a observar a lua minguante, e então seus pensamentos se voltaram para muito antes de seu rejuvenescimento, porém mais uma vez se frustrou pelas lembranças “pré-transformação” não serem tão claras. Porém relevou o fato, e sorriu como sempre fazia. Levou a xícara a boca, e bebericou mais uma vez. Logo o farfalhar de roupas chegou aos seu ouvidos, assim como cheiro doce que lhe era de muito agrado.
– Eles não estão demorando muito Vrael? – Indagou Amelie preocupada.
– Eles estão bem Amel, – Disse o centenário usando o apelido da mulher. – Venha sente-se ao meu lado, logo retornaram.
Ela sorriu e se sentou ao lado do companheiro, se aconchegando no abraço que o mesmo lhe ofereceu. Vrael a apertou contra seu corpo, compartilhando de seu calor com Amelie. Tocou seus lábios sobre a cabeça desta e beijou seus cabelos com carinho para então voltar a contemplar a lua.
Os minutos foram passando, e em consequência os olhos de Amelie começaram a se fechar. Vrael observou a mulher repousar em sono leve apoiada em seus ombros, e acariciou-lhe o rosto. Logo seus olhos voltaram à contemplação.
Instantes depois, como que saído das sombras, Samuel apareceu na entrada do templo. Seu corpo contendo leves arranhões, derivados do combate. Este ia falar algo, porém logo foi calado com um gesto singelo do superior.
– Se lave, e me espere no salão principal. – Disse somente.
– Samuel...? – Indagou a voz sonolenta de Amelie. A cabeça girou em direção ao portal, a tempo de ver o rapaz de massa avantajada desaparecer no corredor.
– Eles estão chegando. – Disse Vrael com sua voz calma e paciente, apertando a mulher contra seu abraço.
– Então irei preparar a ceia, meus anjos devem estar famintos.
Vrael riu da forma afobada que Amelie se levantou, e bateu no vestido para retirar a poeira. Ela realmente parecia, e agia, como mãe de todos, algo que o centenário sempre admirou.
– À exceção de Saiko e Gekai os outros não são mais crianças Ámelie. – E com as palavras também se ergueu, depositando um selar nos lábios da companheira, que sorriu perdendo o ar. Sua respiração falou e seus olhos brilharam.
– Ainda exerce em mim o mesmo efeito de outrora, Vrael. – Disse, depositando um beijo na bochecha do outro, e em seguida correndo para dentro de forma traquina.
Um a um os outros foram chegando, e da mesma ordem que dera ao jovem de olhos rubi, vou ecoada aos outros, que obedeceram em devido silêncio. Quando por fim, a lua atingiu um ponto alto no céu, Vrael pode ver o as características cicatrizes que manchavam a face de Kael. Porém o que o espantou foi o fato de que o rapaz de cabelos castanhos estar a carregar uma jovem em seus braços.
Esperou que o mesmo chegasse proximo, ainda mergulhado em seus devaneios. Por qual motivo seu discípulo mais insensível traria alguém consigo? Porém da forma que Vrael se encontrava continuou, com a face inexpressiva, fitando o horizonte.
– Leve-a para seu quarto, e vá de encontro a mim no jardim de pedras. – Disse, ainda fitando o horizonte.
Kael assentiu, e sem dizer nada prosseguiu em seu caminho.
Passou o corredor, e não encontrou ninguém, porém hora ou outra ouvia suspiros, ou resmungos. Em suma não desejava ver seus amigos em momento tão infortúnio. Continuou até seu quarto, com a moça nos braços. A mesma se encontrava em estado de semi consciência.
Quando adentrou o cômodo a pousou sobre o catre que ficava encostado à parede leste. O lugar era pequeno, contendo apenas o catre, um armário de porte médio e um baú que ficava proximo ao armário.
De forma inconsciente, e podendo se dizer até inocente, os dedos cândidos de Kael dançaram pela face da mulher, buscando sentir por baixo dos maus tratos que sofrera a beleza pura e singela. Divagou durante alguns segundos por tudo o que a outra passara amarrada à mercê dos bárbaros, porém logo afastou-se desta linha de pensamento, ao perceber que aquilo era duro demais para qualquer um.
“Teria eu aguentado o que esta moça suportou?” Por fim sorriu e continuou a acariciar-lhe, vendo-a adormecer.
Os minutos foram se arrastando e Kael continuou sentado ao lado do catre a velar pelo sono da morena.
– Vrael o espera meu filho. – A voz de Amelie saiu calma e repleta de ternura para com o filho de criação. – Deixe que eu cuido dela, tudo bem?
Vrael a olhou de sobressalto, porém logo desviou o olhar novamente para o rosto que tanto lhe prendia os orbes. Logo sentiu o toque afetuoso de Amélie em suas costas.
– Logo informarei a situação dela mãe. Mas peço que chame Eyrea para curar-lhe a língua, pois queimaram a língua dela a ponto de não conseguir falar.
– Assim o farei Kael, agora vá, anda. – Disse com um sorriso travesso ao empurrar o rapaz de cabelos e olhos azuis para fora do cômodo, arrancando deste um sorriso quase alegre.
– Obrigado.
Como o nome já insinuava, o jardim de pedras era um gramado com pedras brancas e polidas, que adquiriam um brilho místico a luz do luar. No canto extremo do pequeno sítio uma macieira mostrava suas flores brancas com leves tons róseos. Aqui e ali vaga-lumes exibiam seu lume esverdeado.
Sentado sobre uma das pedras Vrael observava a cadeia de montanhas a oeste, se fechando em torno da floreta como uma muralha de proteção. A brisa da noite pairou, e os cabelos soltos de Vrael dançaram ao vento.
– Foi muito nobre sua atitude à salva-la. – Iniciou Vrael ainda a observar os rochedos, tendo o discípulo atrás de si.
– Eu não podia deixá-la a mercê daqueles... Monstros. – disse com certo pesar. – Sei bem que não ninguém digno de julgar ou intitular alguem por monstro mas...
– Se quiser continuar com este dialogo não se intitule por monstro, pois você sabe que esta longe de merecer que tal titulo seja imposto a você.
– Mas sabe o que viro quando perco o controle.
– Porém também sei que você é casto o bastante para ter forças, para infligir a si mesmo o sofrimento de se controlar. Então não se compare aos que fizeram isso com ela.
– Mestre... eu senti bem quando os matei, sei que sou um assassino por natureza, mas até então eu tinha enfrentado apenas criaturas grotescas, e nunca homens... Porém eu me senti bem, me senti leve enquanto ceifava a vida de um por um. E sei que apenas de tudo o que disseste, o fato de me sentir bem ao matar humanos faz de mim algo ruim.
O silêncio invadiu o lugar, dando espaço a apenas o vento que serpenteava entre eles. Vrael ficou calado por alguns minutos, coisa que irritou profundamente o moreno.
Apos alguns segundos um flor se desprendeu da arvore, e dançou pelo vento, acima dos dois.
– Ad me. – Disse o centenário, e então com uma lufada de ar a flor voou até sua mão onde ele ficou a brincar com suas pétalas, ainda de costas para Kael. – Sabe o que te faria um monstro? Tê-los deixado incólume pelo ato que cometeram. E o prazer que sentiu ao matá-los não deriva de um processo de gosto chacinas, e sim pelo prazer de fazer justiça a quem à merece. Pense nisso por enquanto meu jovem. Sabes que não és um monstro. Agora vá dormir.
Os olhos de Kael encontraram o chão, e suas bochechas se tornaram levemente rubras, relutava em aceitar as palavras de Vrael, porém sentiu-se no dever de aceita-las. Porém uma questão ainda o perturbava.
– E a garota que eu trouxe?
– Apenas prova que esta é a atitude que um monstro não teria. E respondendo a tua pergunta, fez bem e trazê-la. Agora vá dormir.
O corpo do discípulo se curvou levemente em uma reverencia muda, e em seguida deu meia volta e seguiu pelo caminho demarcado até a entrada do templo.
Andou alguns metros no corredor, e logo pode notar a luz que provinha de seu quarto. Indagou por um instante o que era feito lá, porém com sua audição apurada pode ouvir Eyrea e Sissili murmurarem mutuamente um sequencia de palavras complexas que logo Kae distinguiu como sendo um feitiço de cura. Estavam curando-a.
Não querendo interromper, o lobisomem encostou-se na parede atrás de si, e inconscientemente foi escorregando, até que seus glúteos tocaram o chão frio. Esticou as pernas no corredor e abaixou a cabeça, pensativo. Ficou a divagar sobre a naturalidade da mulher, se era da aldeia daqueles bárbaros, ou se fora simplesmente raptada no percurso.
Logo tentou mudar a linha de seus pensamentos, porém sempre que tentava acabava por lembrar-se do olhar carregado e sôfrego da mulher, do toque de seu rosto quente contra seu peito, até mesmo as lágrimas que abandonavam seus olhos em meio a corrida de volta. Por fim, viu-se se deleitando na lembrança do olhar agradecido da mulher, e não pode deixar de sorrir. Algo que não passou de um leve arquear, mas para quem o conhecia poderia ser considerado uma gargalhada.
Ficou assim por um tempo, acabando por entrar em um estado de torpor não grande que o mundo ao seu redor passava a não lhe fazer a menor diferença.
– Ele sorriu?
– Não sei... parece uma careta.
As falas foram seguidas de um riso baixo e contido. O que fez com que Kael erguesse os olhos lentamente, encontrando um par de azuis a lhe encarar, se encaixando perfeitamente nas faces que demonstravam feições infantis e travessas.
– Saiko, Gekai? Vocês deviam estar dormindo.
– Não comece contendas kael. – Iniciou o gêmeo mais alto, mesmo que pouquíssimos centímetros.
– Por que você estava sorrindo Kael? – Disse Gekai, cortando a fala de Saiko.
– É, por que você estava sorrindo Kael?
– Kael, é por causa daquela mulher, não é?
– Onde você a encontrou Kael?
– Parem de chamar meu nome seus fedelhos! E não é da conta de vocês o porquê de eu estar... Eu não estava sorrindo. – A voz do mais velho naquele trio saiu ríspida, porém era impossível não ter um tom descontraído estando na presença dos gêmeos.
– Estava sim. – Disse Gekai.
– A gente ficou aqui um tempão, desde a hora que a Eyrea saiu do seu quarto. E você estava...
– A Eyrea já saiu? – Indagou surpreso por não ter notado que o som das vozes de suas irmãs havia cessado. – E a...
– A Sessili também já saiu. – Disse Gekai com um sorriso meigo.
Kael sabia, que de todos ali naquele lugar, aqueles dois eram provavelmente os mais perigosos. Por isso não se deixava enganar pelo sorriso com covinhas de Gekai, ou as bochechas rosadas, ladeadas por um par de olhos brilhantes de Saiko.
– Vão dormir crianças. – Disse o mais velho por fim.
– Não somos crianças. – disse Gekai fazendo um bico com os lábios, e fechando o rosto.
– Gekai você tem quinze anos e ainda faz bico. Se não fosse uma criança considerada pela idade, então a sua infantilidade mental.
– Eu faço bico Saiko? – Disse o menor dos gêmeos para o irmão.
– Não reparei Gekai. – Disse Saiko sorrindo travesso para o irmão.
Kael olhou para os dois, com sua face de emoções inexistentes, e voltou a andar em direção a seu quarto. Abriu a porta com cuidado, para que esta não fizesse barulho, e então seus olhos varreram o quarto, até pousarem no volume sobre o catre onde dormia.
Andou calmamente até o lado da morena, sem em momento algum retirar os olhos de sua face serena, podendo ver que suas irmãs haviam curado os hematomas e ferimentos da mesma com magia. Agora podia ver sua face de traços finos e fortes.
Sentou-se no chão ao lado do catre, cruzando as pernas e se ajeitando até se sentir confortável.
Não contou o tempo ou o viu passar, a unica coisa que o moreno fez, foi velar o sono da mulher cujo nome era um mistério. Em dado momento sua mão vagou sofregamente, cortando a distância entre os dois e tocando levemente nas madeixas castanhas, para depois rumar para a pele macia, sentindo a textura e maciez de ambos, porém logo a morena moveu a cabeça para o lado, fazendo com que seu corpo delgado seguisse o exemplo. Com o ato a mão do moreno se afastou e o peito do mesmo ficou arfante.
Deixou o sorriso brotar em seus lábios, e voltou a observá-la.
“Quais segredos esta à esconder bela mulher?” Indagou em pensamento.
OoO
Os braços magros e delicados de Amelie enlaçaram o torax de Vrael, os lábios carnudos da mulher tocaram sua nuca em uma singela caricia. Logo a nuca da mulher pendeu para frente, e um suspiro preocupado deixou sua cavidade.
– Eles estão prontos não é?
– Sim, chegou a hora.
~oOo~
Cap. Betado por Persefone Tenou, obrigado.
Olá, boa noite!
Bom, vou começar com um pedido de desculpas á você que acompanha a fic. Não vou fazer como muitos escritores – muitos, não todos – que ficam inventando mil e uma desculpas para o atraso de suas fic's. Sou muito transparente para com aqueles que acompanham minhas estórias, então o que se seguiu foi o seguinte:
- Falta de inspiração.
- Falta de tempo.
- Falta de vontade.
É. Peço desculpas de verdade!!! Bom, podem ter certeza que isso não irá se repetir, porém não tentarei mais cumprir prazos – pois sou péssimo nisso –, pelo fato de eu não conseguir trabalhar assim.
E outra: Farei um capitulo maior da próxima vez! Parte dele já esta escrito, e bom.. teremos mais sobre a misteriosa dama flagelada.
Agredeço muito à aqueles que me ameaçaram a não desistir da fic. Obrigado mesmo!
Enfim, se for do agrado de vocês me mandem reviews, mesmo que seja me xingando ^^
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