As Crônicas De Nárnia - Aurora De Fogo
2 Cap 2 - O Peregrino
Notas iniciais
Durante aquela noite o mar começou a ficar agitado, mais revolto do que deveria. Isso deixou os tripulantes do Peregrino apreensivos quanto às velas, que pareciam estar prestes a se quebrar por culpa do vento forte e repentino. Nada parecia resolver, todos os esforços estavam sendo em vão, já que as ações dos marujos apenas causavam mais estragos no navio.
O Peregrino já estava tomado de água por toda parte, e a base do navio parecia querer ceder por culpa do peso excessivo sobre si, causado pela água e pelos destroços do navio que agora ocupavam boa parte do convés. Caspian sentia-se desesperado sem saber mais o que fazer, nunca tinha enfrentando nada parecido em suas viagens, assim como seu capitão Drinian.
- O que faremos majestade? O Peregrino não vai aguentar muito tempo... –dizia Drinian aos berros do alto do convés segurando o leme.
- Continue firme Drinian, não podemos desistir... –disse ajudando os marujos com as cordas das velas. –Vamos puxem com força. –ordenava aos demais.
No meio da escuridão que se fazia presente, surgiu Aurora segurando um pequeno lampião aceso. Sua luz fraca que vinha das velas incandescentes dentro do objeto iluminavam nada além do seu rosto, já que a moça o mantinha a altura do mesmo. Ela parecia calma e andava entre os tripulantes sem se abater com a água, e o vento forte. Caspian tentava segurar firmes as cordas ajudando os outros a manter o navio inteiro o maior tempo possível. O rei voltou o rosto na direção por onde Aurora caminhava.
- Aurora! –se manifestou ele aos berros. –Volte pra cabine, estará segura lá...
- Ninguém está seguro neste mar revolto Caspian. –disse ela sem se referir a ele como rei. –E nem deveria estar.
- O que? – Caspian mal podia ouvir a voz dela no meio daqueles gritos e barulhos estridentes. –Aurora precisas se proteger...
Aurora andou ao longo do convés, passando ilesa por entre os pedaços de madeira que caiam do topo do navio. Caspian manteve seus olhos fixos na moça enquanto avistava um objeto importante em seu poder. A trompa da rainha Suzana estava presa na lateral do vestido da moça. “Por que ela está com a trompa de Suzana?” se perguntou ele enquanto seus braços faziam um esforço enorme para manter as velas no lugar. Naquele momento, as velas se quebraram no centro e todos caíram no convés molhado. Alguns se feriram, outros apenas se viram desesperados com o acontecimento. Caspian levantou-se do chão e passou por alguns dos seus homens indo em direção a Aurora, enquanto a mesma subia na beirada do navio segurando-se as cordas. De repente seus olhos se cruzaram, e algo fez com que o Peregrino parasse bruscamente derrubando todos que estavam de pé. As águas baixaram, o vento cessou, e tudo começou a ficar silencioso outra vez. O navio estava a um passo de se destruir por completo. Caspian conseguiu ficar de pé, então ouviu as palavras da moça:
- Não pode voltar ao reino Caspian...
- Por que está com a trompa da rainha Susana? – Caspian andou até ela estendendo sua mão. –Devolva-me Aurora, isso não é seu...
- Sinto muito... –ela balançou o rosto em negação.
Aurora apenas lançou o lampião sobre a madeira seca do navio e depois afastou os dedos estendendo sua mão na mesma direção fazendo assim com que as chamas se espalhassem depressa pelo convés inteiro incendiando o navio. Caspian cobriu o rosto com o braço assim que o fogo explodiu tornando-se alto e engolindo toda a proa do navio. Drinian correu até o rei e o abraçou puxando-o para longe do fogo tentando protegê-lo. Enquanto corriam para o lado oposto do navio, Caspian viu Aurora saltar do Peregrino e desaparecer na escuridão.
...
Os tripulantes sobreviventes do naufrágio do Peregrino da Alvorada acabaram parando em uma praia deserta, totalmente afastada do seu destino. Caspian assim como Drinian e alguns poucos marujos, acordaram durante a manhã, cuspindo a água que estava em seus pulmões. Caspian estava na beirada do mar, e sentiu uma onda lhe arrastar rumo a areia assim que acordou. O rei sentiu alguém puxá-lo pelos ombros e ajudá-lo a ficar de pé.
- Majestade... –disse Drinian. –Está bem?
_- Sim... –ele tossiu por conta da água que o sufocava a garganta. –Onde estamos? –ele olhou ao redor com o punho fechado sobre a boca.
- Não sabemos majestade, provavelmente em uma das ilhas distantes de Nárnia.
- E os outros? –Caspian se recompôs e começou a ajudar os demais marujos a se levantarem. – Quantos mais sobreviveram?
- Temo que apenas alguns poucos de nós majestade. –respondeu Drinian acolhendo outro marujo.
- Foi ela. –disse o rei. –Aurora...
- Vi quando ela incendiou o navio majestade.
- O que ela era?
- Talvez uma Elemental senhor... E pela maneira como o mar ficou calmo de repente e os ventos simplesmente pararam. Ela não devia estar sozinha.
- Outros como ela?
- Não entendo por que os elementares teriam interesse em nos ferir... –concluiu Drinian.
- Acho que logo vamos descobrir... – Caspian bateu no ombro do capitão e andou sobre a areia branca. – Vamos juntar tudo que conseguirmos recuperar do peregrino e seguiremos por terra.
- Sim majestade... – concordou Drinian.
...
Caspian assim como os poucos tripulantes que restaram do peregrino, vagaram por entre a floresta desconhecida em busca de um caminho que os levasse de volta ao reino. Após algum tempo de viagem a pé, Caspian foi surpreendido por um de seus soldados que havia seguido por outro caminho no intuito de encontrar provisões para seguirem em frente.
- Majestade, a encontramos! – disse o homem afoito.
- Quem? –Caspian franziu a testa o encarando.
- A moça majestade... No outro lado da floresta.
Caspian encarou Drinian e então se virou seguindo o fiel soldado pelo caminho de onde o mesmo havia surgido anteriormente. Não demorou muito até que todos chegassem a centro da mata onde viram Aurora de joelhos no chão, segurando seu ombro ferido por uma flecha que foi lançada por um dos soldados do rei. Caspian se aproximou e a moça ergueu os olhos.
- Muito bem parece que não conseguiu ir muito longe. – disse encarando-a. –Agora pode nos dizer por que tentou nos matar...
- Eu não estava tentando matá-lo... –respondeu ela franzindo a testa por conta da dor que sentia.
- Destruiu o Peregrino e estamos sem condições de regressar a Nárnia por sua causa... Metade da tripulação se afogou, ou morreu queimada entre os destroços do navio. Não estava tentando nos matar? O que pretendia então? –disse o rei bastante irado.
- Precisava evitar que você chegasse a Nárnia. –ela respondeu quase se contorcendo pelas dores no ferimento.
- Por quê?
- Para proteger você. –a dor que ela sentia era muito forte. –Me ajude... Estou perdendo muito sangue...
- Não. Primeiro explique-se... –ele a encarava duramente.
- Ele queria você morto... –Aurora se encolhia por conta das fortes fisgadas no ferimento. –Pra tomar seu lugar no trono. Precisava impedir que você chegasse a reino... _seus dedos estavam cobertos por seu próprio sangue. –Ou ele mataria você, assim como já deve ter feito com os outros...
- Quem? –dizia Caspian sentindo-se bastante irritado.
- Miraz... –ela inclinou a cabeça contra os joelhos. –Por favor... –ela disse aos prantos. –Me ajude...
- Miraz? Miraz está morto como espera que eu acredite nisso?
- Não, ele não está... –ela voltou a erguer o rosto molhado por sua lagrimas. –Ele voltou... Dos mortos.
- Isso é impossível. – disse Drinian.
- Não, não é eu mesma o vi... Não sei como aconteceu, mas sei que é necessária uma magia muito poderosa para tal feito. Magia negra antiga...
- Ela mente majestade... –se manifestou outro marujo que perdeu seu irmão junto com o Peregrino.
- Está nos envolvendo com suas mentiras como fez a anteriormente. –concluiu o seguinte.
- Devíamos deixá-la aqui... –o terceiro concluiu. –Para servir de alimento para os ursos selvagens.
- Não... –disse ela aos prantos. –Por favor, Caspian... –ela estendeu sua mão tocando os pés do rei. –Estou dizendo a verdade...
- Não se dirija ao rei dessa maneira insolente... –disse Sebastian.
- Deixe... –disse Caspian. –Me diga por que não devo fazer o que eles dizem? –falou se dirigindo a moça.
- Por que estou dizendo a verdade. Se eu quisesse você morto, bastava ter deixado que seguisse em frente. Os problemas que causei a sua tripulação foram para atrasá-los.
Drinian tocou o braço do rei o fazendo segui-lo alguns passos dali. O capitão lhe segredou algo ao ouvido depois ambos regressaram ao centro da mata e Caspian seguiu dizendo:
- Dizem que é filha de uma feiticeira poderosa...
- Dizem que você é um covarde devemos ambos acreditar no que ouvimos? –ela o encarou ringindo os dentes por culpa do sangramento.
O rei fitou-a na face enquanto pensava no que seria melhor, então tomou uma decisão e a passou a todos.
- Vamos levá-la conosco... –disse Caspian ao se virar.
- Majestade? – questionou Drinian.
- Ela pode estar dizendo a verdade Drinian. –Caspian confessou em voz baixa enquanto olhava por cima dos próprios ombros em direção a moça caída no chão. –Precisamos ter certeza.
- Tudo bem. Como quiser...
Drinian acatou a ordem do rei, e então fez sinal pra que os demais fizessem exatamente o que Caspian ordenou. Eles amarraram as mãos da moça e a conduziram rumo a floresta sob o comando de Caspian.
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