As Crônicas Aladas - Principatus
10 Capítulo Nove.
Notas iniciais
Boa leitura!
Às vezes a voz do Loran consegue ser bem mais eficaz do que meu despertador. Acordo por culpa dele, esfregando, com as costas das mãos, os olhos em busca de uma visão melhor.
—Não quero saber de nada indevido nesses locais. Ouviram? — Seu tom é de um pai enfurecido com o filho.
—Sim senhor — respondemos em coro.
—Agora vamos tomar o café da manhã e dar inicio as aulas da Emilly.
Ele sai da sala. Eu, que estou sentada, faço força para me por em pé sem precisar apoiar as mãos no chão. Assim que consigo, dou um sorriso de vitória. Olho para Kyle e ele se levanta, ficando ao meu lado.
—Como dormiu?
—Bem! — Respondo. O incrível é que ainda posso sentir as energias de ambos. Estou totalmente descansada e sinto-me como se pudesse correr pelo dia todo e mesmo assim não me cansar.
Passo a mão pelo meu cabelo e percebo que ele está um pouco embaraçado, mas nada que um pente não resolva. Alongo-me ouvindo alguns estalos que meu corpo reproduz.
Assim que saímos da sala, minha tese de correr o dia todo cai por terra. Sinto minhas costas doloridas e então, começo a ficar totalmente estressada por ter dormido com Kyle ontem. Eu não podia ter feito uma coisa dessas, não podia. Estou aqui para treinar, não para namorar.
Ando em passos mais rápidos e largos, deixando Kyle para trás.
+++
Assim que saímos da caverna, por sorte eu não me perdi lá dentro, encontramos com Loran e algumas mercadorias que eu nem fazia ideia de quando ele tinha comprado.
—Sintam-se livres para comerem o que e quanto quiserem. — Falou o ruivo com um belo sorriso no rosto.
Após terminarmos o café da manhã, ajudo Loran a lavar as coisas num lago ali perto e Kyle guarda tudo o que usamos.
Acho que o próprio sol devia estar soando devido ao calor. O barulho dos animais durante o dia ainda é uma novidade para mim.
—Bem, Emilly — começou Loran— você, primeiramente, irá aprender a se defender. Não é legal ter uma menininha que não consegue fazer as coisas direito.
Eu devia me sentir ofendida com essa frase, mas uma pequena parte de mim sabe que o que ele diz é verdade.
—Eu não sou uma inútil. – murmuro.
Loran bufa.
—Eu não disse isso, Emilly. — Ele me fita. — Mas você não sabe se defender. E acho que isso é algo que todos, até mesmo os mundanos, precisam saber. Vamos começar pelo básico então, ok?
Respiro enquanto procuro uma resposta para ele. Sei que ele está sendo o mais fino possível comigo, mas isso irrita um pouco. Ele me trata como se eu fosse uma criança que ainda não tem consciência do que faz. Como se eu não tivesse a mesma idade dele.
Espera, ele é um anjo certo? Talvez nós não tenhamos a mesma idade. Ok, eu não sei de mais nada.
—Ok. – Digo.
Entro na caverna e pego as minhas coisas. Procuro um pente e/ou um espelho.
+++
Após ficar apresentável, vou até Kyle.
—Olá... Bem, eu acho que o meu treino hoje é com você. – Digo assim que o encontro sentado com as costas apoiada num tronco de uma árvore grande.
Sento-me ao lado dele.
—Ok... – Ele diz sem olhar para mim. — O que é que você quer aprender?
Penso numa boa resposta. Não sei de nada.
—O princípio. — Digo.
Kyle se levanta, respira fundo e começa:
— Bem, você para se defender, tem que saber socar. Tem que ter um corpo forte também, então trate de passar a se alimentar bem. O fôlego tem que estar legal.
—Ok – digo.
—Assim que você tiver com um corpo e o fôlego legal, você poderá correr para se defender. Correr, normalmente, é usado quando você não pode socar e...
—Eu sei quando se deve correr. – Digo interrompendo-o. — Só me diga como eu devo socar e o que eu devo fazer para que o soco doa.
Kyle olha bem para mim, como se estivesse processando a mensagem que eu passei a ele.
—Você deve levar todos os dedos da sua mão ao encontro na palma. Assim que tiver feito isso, curve o braço, na altura do peito. — Começou ele ainda falando o óbvio. — E então, faça com que a sua mão, que está fechada, vá de encontro com o que quer socar, mas lembre-se sempre de pegar impulso com o braço.
Faço que sim com a cabeça, como se tivesse entendido algo. Acho que o moreno percebe que eu não saquei tudo do que ele disse, então demonstra o ato, socando o ar. Tudo se torna mais claro para mim e percebo que já sei fazer isso.
—Eu já sabia dar socos... Você está me ensinando o óbvio.
—Você disse que queria saber desde o princípio. — Protesta.
Convenha, eu não ajudei muito também. Penso numa pergunta melhor para ele... O que normalmente pessoas fazem numa briga, além de socar e chutar a outra? Elas derrubam! É isso.
—Como faço para derrubar alguém?
Kyle faz um rosto de satisfação.
—Faça-a perder o equilíbrio.
—E como faço isso?
—Você pode dar um soco, ou tapas, na mandíbula do oponente. E bata com as duas mãos, ao mesmo tempo e com força, no ouvido do rival. Isso vai fazer com que ele fique desnorteado. Após fazer isso, tente dar uma rasteira nele, ou pular em cima. Lembre-ser que se for ir pra cima, tenha certeza de que ficará no controle de tudo.
Assinto. Kyle começou a explicar bem. Ele realmente deve ser um bom lutador. Isso deve ser coisa da sua casta.
—Você pode tentar dar um soco numa dessas árvores. — Kyle sem nem muita importância, moveu o braço numa velocidade legal e tocou com força mínima numa árvore e a mesma caiu. — Sua tarefa é fazer o que eu fiz agora mesmo.
—Você está louco? Eu mal consigo entortar um talher direito! — Digo.
—Seja forte, Emi!
Ponho-me em frente a uma árvore. Ele me observa enquanto eu tento me concentrar em derrubar.
—Será que você pode virar por um segundinho? —Digo a Kyle.
—Claro que não. — Ele responde sem mais nem menos.
Bufo. Volto minha atenção para a árvore. Fecho a mão, fazendo com que todos os dedos tenham um encontro na minha palma, e ergo-a na altura do peito. Respiro. Pego força, endureço a mão. Dou um impulso e ela vai para frente.
Minha mão bate na casca duríssima da árvore e volta. Claro que depois dessa, eu sei que não terei outra mão tão boa quanto eu tinha há alguns segundos.
— Ai! – Grito enquanto chacoalho a mão e dou pulinhos para tentar aliviar-me da dor. —Maldito! Você sabia que isso ia acontecer. — Digo.
—Eu pensei que você, milagrosamente, ia despertar os seus poderes angelicais agora e ia derrubar a árvore. — Kyle retruca desapontado — pena que eu estava totalmente errado.
—“Que fracote! Não consegue derrubar nem uma pequena árvore. Fracassada!” — Apenas ignoro novamente essa voz, familiar e ao mesmo tempo desconhecida, que insiste em falar comigo.
Maldito. Ele só está brincando comigo. Minha mão terá de ser amputada, eu sei. Nunca mais vou poder escrever. Talvez nem seja tão ruim assim. Vejo-me acordando tarde todo dia e ficando em casa, pois a partir de agora, só tenho uma mão útil.
—Ok... Você deu um bom soco, Emi. — Kyle se aproxima de mim. Ficamos perto demais. —Talvez você deva tentar socar algo mais macio.
—Tipo? — Pergunto enquanto seguro a minha mão com força e sopro.
—Tipo alguém. — Ele fala calmo. — Acho que devemos lutar. Que tal?
—Agora?
—Sim. Afinal, o dia ainda nem começou. Não podemos perder tempo.
Ele está de sacanagem comigo.
Começo a correr na direção dele. Tento chutá-lo, mas ele pula como se estivesse pulando corda.
Tento batê-lo com a minha mão esquerda (a que está boa), mas ele para ela, no meio do caminho, levemente com a sua mão. Vejo sua grande palma, vindo ao encontro do meu rosto. Abaixo-me e penso na melhor coisa possível para se ganhar uma luta contra um garoto.
Sem nem pensar duas vezes, ergo a minha perna com força, acertando o que ele tem no meio das pernas dele.
Um alto e longo grito de dor pôde ser ouvido por todos os moradores do mundo naquela tarde.
—E a vencedora é a nossa querida Emilly! Aplauso pessoal! — Digo enquanto pulo.
—Golpes baixos não valem! — Kyle está ajoelhado no chão, com as mãos naquela parte. Sua voz mostra a força que ele tem de fazer para que ela saia.
—Você não disse nada disso. — Falo ficando na frente dele — e essa era a única maneira de eu vencer uma luta contra um querubim. Admita!
Kyle nada disse. Acho que a humilhação dele era enorme, por ser um anjo guerreiro e ter perdido para uma menina. Afinal, qual é a minha casta?
—Kyle, qual é a minha casta?—Solto.
Ele demora um tempo para falar. Não sei se é por que está pensando na resposta ou se é por não ter forças.
—Não sabemos ainda. É como se você fosse um humano com um potencial espiritual fora do normal. — Ele me explica ainda ajoelhado. — só vamos poder saber após você conseguir manifestar alguma evidencia celestial.
Faço que sim com a cabeça para demonstrar o meu entendimento. Estendo minha mão para ele, esperando que o moreno aceite a minha proposta de ajuda. Mas ele se levanta lentamente.
— Caso eu demore a ter um filho, ou eu não possa ter um, saiba que eu irei até o cofim do inferno, atrás de você, para me vingar. — Kyle olha-me com raiva. Vejo que seu rosto está vermelho.
— Achei que anjos não iam para o inferno.
—Você entendeu. – Ele fala — E os anjos podem ser banidos do céu. E depois dessa, não duvido nada a seu respeito.
Coloco a mão na boca com o intuito de esconder a pequena risada. Não quero deixar Kyle mais estressado ainda. Ele se afasta um pouco e murmura algo baixo, mas consigo ouvir claramente ele falando que “Vai ter que fazer massagens nas bolas depois”.
Totalmente deselegante.
+++
Mais tarde, Loran vem ao meu encontro. O ruivo parece até ser mais calmo enquanto estamos aqui. Acho que ele não se sentia a vontade lá na cidade.
— O que está fazendo? — Ele se senta ao meu lado. O cheiro de Loran é algo totalmente inexplicável. É bom, diferente, e ao mesmo tempo, familiar.
—Estou esperando que a minha mão volte ao lugar. — Digo olhando para ele. O ruivo olha para a minha mão e decide tocá-la. Ele é delicado demais, com medo de me machucar.
—Posso curá-la, se quiser. — Olho para ele e seus olhos me demonstram honestidade.
—Por favor. – Ele segura a minha mão dolorida com as duas mãos grandes, quentes, macias e com dedos longos. Uma pequena luz surge entre as palmas das mãos dele e em questão de tempo, minha mão está melhor. — Obrigada.
Dou um abraço nele. Ele corresponde.
Loran não é o que eu pensava. Ele parecia ser um garoto totalmente chato e possessivo que só se importava consigo mesmo e queria as coisas do jeito dele, mas isso parecia não ser verdade agora.
Após me separar dele, olho para a minha mão e faço os movimentos que não conseguia antes.
—Muito obrigada mesmo!
—Eu nem fiz nada... — Ele sorri com os olhos fechados — O que você está aprendendo? E como você fez isso com a sua mão?
—Eu estou aprendendo a me defender, como você pediu. Kyle estava me ensinando a socar... E foi assim que eu fiz isso com a mão. Ele me desafiou a fazer uma árvore cair com o impacto do meu punho. — Explico calmamente.
—Bem, ele estava tentando te irritar. Desculpa, mas é evidente que você não ia conseguir. Já que nem tem os poderes angelicais ainda.— Ele falou calmo.
—Você teria algum jeito de fazer com que meus poderes angelicais se manifestem mais rápidos? — Pergunto. Deve existir um jeito de fazer isso numa velocidade maior. Sempre existe.
Loran parou e pensou. Olhou para o teto da caverna, que podia ser visto claramente, pois estávamos perto da entrada, então os raios do sol conseguiam entrar pelo grande buraco e iluminavam um pouco o interior do local.
—Acho que tem. —O ruivo revelou. — Para invocar os seus poderes celestiais, basta querer e crer neles, que eles virão. É meio difícil, mas funciona. Tente ir fazendo isso por enquanto. — Após terminar a explicação, levantou-se. — Acho melhor você ir para o treino, se ainda tiver. Ou então, vá tomar um banho para não começar a feder. Deve ter soado demais.
Assenti com a cabeça e ele se afastou.
Levantei. Treinar ou tomar um banho? Acho que, talvez, seja melhor ir ver com Kyle se ele irá querer prosseguir com o treinamento ainda hoje.
Vou até ele, que já parece bem melhor, e pergunto.
—Qual você prefere? — Eu odeio que me respondam com outra pergunta. Isso é o cúmulo.
—Eu prefiro continuar com o treino. — Digo.
Kyle se afasta e aponta para a árvore. Entendo o recado e ponho-me em frente a ela.
Inspiro.
Faço todos os passos que Kyle me ensinou, mas antes de soltar o impulso, adiciono o que Loran disse: “é só crer e querer que eles venham.” Foi isso o que eu fiz.
Talvez Loran estivesse junto com Kyle e ambos queriam me ver sem uma mão.
—Droga! — Solto como uma tentativa frustrada de aliviar a dor.
Tento de novo. E de novo, e de novo. A árvore não cai, mas posso ver uma marca se formando na casca da árvore. Isso me anima, mas minha mão já está vermelha e inchada, além de doer demais.
—Acho melhor eu parar, vou tomar um banho. – Anuncio.
+++
Após o longo e demorado banho numa sala que nomeei de “a piscina”, fui me trocar dando graças a Deus. Como se não bastasse ter a mão toda dolorida, ainda tinha que se perder dentro da caverna. Por sorte Loran me encontrou e me guiou para A Piscina.
Assim que saio da sala, torcendo para não me perder novamente, vou par a o meu dormitório oficial. É uma pequena sala que ficará somente eu. Kyle tem a sua e Loran também. Pego a minha mochila e começo a arrumar minhas coisas no lugar. Loran distribui um pouco de pano para eu forrar o chão.
—Caso precise de mais, para tornar isso aqui mais confortável, me avise! — Diz ele.
—Ok – Respondo.
Deito-me e começo a encarar o teto da caverna enquanto imagino como seria o meu agora, caso não tivesse conhecido Kyle.
Eu certamente estaria em casa, sendo mais um naquela cidade pequena e esquecida. Não sei se teria sofrido todos os ataques que sofri, mas creio que não. Sei que agora estaria sentada na sala, vendo tv com Thony e com Lena. Estaríamos rindo e comendo pipoca. Totalmente desinformados do que poderia acontecer conosco a qualquer momento.
Mas sei que fiz a escolha certa. Nada nesse mundo é melhor do que proteger quem você ama. Nada é melhor do que proteger quem um dia te protegeu.
Não sei se seria amiga da Maggie e nem se teria seguido Kyle até a sua casa. Sei que Loran não teria descido aqui, então, seria um a menos na lista de conhecidos. E eu certamente não teria aquela curta e rápida conversa com Jace. O menino louro estranho que queria fazer parte de um harém meu, que nem eu mesma estava ciente da existência.
Enfim, eu sei que tudo o que me aguarda é bem melhor do que aquela vida monótona que eu tinha. Espero mudar-me. Espero mudar as pessoas ao meu redor. Espero ser forte o bastante para protegê-las.
Mergulhada, nos mais profundos pensamentos sobre a minha vida, eu adormeço.
+++
Sinto algo bater com uma força mínima no meu dedo. Não deve ser nada, então não dou muita importância. Esse algo bate novamente em meu dedo. Puxo a mão para o meu peito e a cubro com a outra.
Assim que me acomodo, ouço passos pela sala. Abro os olhos assustada e tento não fazer muito barulho. Procuro o que pode estar ali, mas não vejo nada.
Sento-me e encosto as minhas costas na parede, olhando assustada para todos os lados possíveis para encontrar alguém.
— Use o impacto para fazer o soco doer. – Lembro a mim mesma. — Faça o oponente perder o equilíbrio.
Ouço os passos novamente. A escuridão em minha frente é medonha. Os paços estão cada vez mais altos. Lentos.
Inspiro.
Seja o que for que está ai, eu tenho que derrubá-lo e correr e pedir ajuda para algum dos garotos.
Ouço os passos altos, como se a coisa já estivesse na minha frente. Como estou sentada, olho para cima, tentando avistar algo. Nada vejo. Olho para baixo e vejo dois All Star da cor preta, um pouco sujos.
A pessoa veste uma calça cinza um pouco colada nas pernas que são finas.
Continuo acompanhando com o rosto, movendo-o para cima, para ver quem é. O rosto do ser está coberto em sombras. Não posso ver nada além das pernas e um pouco do tronco. Pelas mãos e a finura da cintura, deduzo que é uma menina que está na minha frente. Ela deve ter mais ou menos a minha idade e não se move.
—Olá? — Digo. Claro que eu não espero uma resposta, mas espero uma reação que seja totalmente boa.
Quem quer que seja que está na minha frente, não reage.
—Olá? — Insisto. — Tudo bem?
Ela não responde. Nessas horas eu queria me levantar e dar umas, bem dadas, na cara dessa garota maldita, mas ainda tenho um pouco de sanidade. Gostaria também de que isso fosse só mais uma brincadeira do Kyle ou de Loran. Amaria se fosse só isso, claro que eu ficaria irritada com ambos por me assustarem no meio da noite, mas isso não vem ao caso agora.
O pé da pessoa que está na minha frente se move. Recuo. Ouço um som de deboche.
—“Você está se borrando toda, hein?” — E finalmente eu percebo que já conheço essa voz que assola a minha mente. Essa voz pertence a uma pessoa que eu conheço há anos. Essa voz pertence a mim.
Notas finais
Beijos e até o próximo cap!
Isso é tudo, pessoal!
Fale com o autor