As Crónicas de Hermione
13 Revelações
Notas iniciais
Nos dias que se seguiram, Hermione resolveu que iria dar um tempo a tudo, sobretudo a si mesma. Depois de ter tentado escrever uma carta de despedida, tinha decidido que não ia mais escrever a Draco Malfoy, pelo menos até ficar bem consigo própria e com os seus amigos. Afinal não ia perder assim a amizade de Ron, podia não querer uma vida como mulher dele mas não queria perder a sua amizade. Ele tinha sido muito importante na sua vida, e em certos momentos tinha sido muito feliz com ele. Ela não tinha esquecido e iria fazer o amigo lembrar-se disso, iria fazer-lhe ver que a amizade de ambos era o mais importante. Por isso, iria pensar numa maneira de remediar tudo, e depois logo veria como ajudar o Draco. Não seria fácil, gerir o tempo para tudo e dividir-se entre a escola e estudos, as amigas, os amigos e Draco Malfoy. Mas ela já tinha conseguido proezas maiores, era apenas uma questão de se organizar, por isso nesses dias dedicou-se às aulas e amigas, estudando sempre que possível na sua companhia.
Mas na véspera do fim-de-semana, foi ela que recebeu uma carta de Malfoy. Quando acordou nessa sexta-feira, viu a pequena coruja a olhar para ela, não compreendeu logo do que se tratava, ela não enviava carta há 3 dias, e por isso não tinha como o Draco responder. Mas ali estava a pequena ave de olhos arregalados, com um ar julgador por ela não se ter ainda levantado e libertado da sua função. Mostrou a patinha mais uma vez, Hermione retirou a carta de forma delicada, a coruja piou e levantou voo em direção ao corujal.
A carta era longa, uma página inteira, muito mais do que Draco alguma vez tinha escrito. Hermione não perdeu tempo e começou a ler:
“Nao sei se esta carta te chegará às mãos, mas espero que sim pois farei tudo para que te seja entregue. Depois de meses a receber os teus bilhetes diariamente, tornaste-te parte da minha rotina. O calendário voltou a ganhar dias e semanas, e o tempo voltou a passar com alguma facilidade. Nunca pensei admitir que os simples bilhetes de alguém anónimo me fariam esperar pelo dia a seguir, e no sítio em que estou, isso é o mais próximo de esperança que tenho. Agradeço-te por não teres desistido, mas compreendo porque o fizeste agora. Quero que saibas que tu me impediste de desistir, ou melhor, tu fizeste-me resistir. Se hoje decidi mudar, devo-o a ti. Queria que soubesses por mim, que nos próximos dias vou contar tudo o que aconteceu, tudo o que sei. Espero que possa redimir alguns dos meus pecados, confessando os meus segredos. Se alguma vez tiveste esperança em mim, irei mostrar-te que valeu a pena. Assinado, DM”
Hermione chorou ao ler aquelas palavras, não pensou mais como aquela carta tinha chegado, só conseguia pensar que finalmente os meses de escrita tinham valido a pena, e ela não se tinha enganado. Draco Malfoy estava disponível para mudar, estava arrependido, mostrava um lado frágil e humano como ela nunca tinha visto, tudo porque alguém lhe deu a mão. Mas não pode deixar de pensar, e se ele soubesse que era ela que enviava as cartas, teria ele mantido a mesma posição? Teria ele aberto o seu coração e mostrado o seu arrependimento, a sua fragilidade, a uma sangue-de-lama?! Provavelmente não. Por isso decidiu que responderia uma última vez, para lhe mostrar que não estava apenas atrás de uma confissão sua, mas que se sentia orgulhosa pelo caminho que ele tinha escolhido, no entanto a correspondência iria terminar, não tinha desistido como ele dizia, apenas era tempo de também ela mudar.
Antes mesmo de ir ter com Ginny e Pansy para tomarem o pequeno-almoço, Hermione deixou um bilhete na patinha da pequena coruja, tinha sido breve, não queria alongar-se na despedida nem dar muitas satisfações, queria apenas que Draco entendesse que não se tinha aproximado para o fazer falar, mas sim para o ajudar, para o acompanhar numa jornada difícil mostrando-lhe que não estava sozinho. Seguiu depois para o Salão Principal, ali encontrou apenas Pansy que lhe disse que Ginny estava no campo de Quidditch desde madrugada, a treinar que nem uma louca. Ambas sabiam que o dia do grande jogo final se estava a aproximar, e a amiga queria muito impressionar o treinador das Hollyhead Harpies para que a escolhesse para integrar a equipa, já na próxima temporada.
Hermione aproveitou que estava a sós com Pansy e partilhou com ela a carta que tinha recebido um par de horas antes. Tal como ela, Pansy também chorou ao ler as palavras do amigo, reconheceu o quanto ele devia estar a sofrer, e também ela agradeceu a Hermione por não ter desistido dele. O esforço tinha compensado. Perguntou-lhe o que ia responder a seguir, como o poderiam ajudar mais. Mas Hermione disse lhe que já o tinha feito, e que se tinha despedido, antes mesmo de receber a carta do Malfoy ela tinha decidido que precisava recuperar a sua vida, os seus amigos, e com aquela carta pelo menos ela sabia que o Draco estava mais orientado, e não precisava mais dela para avançar com a vida dele. Não quis admitir que tinha medo da reação dele, quando soubesse que era ela a anónima J., não queria que ele deitasse tudo para trás quando soubesse que tinha recebido conselhos de uma sangue-de-lama e pior, que se tinha redimido por causa disso. Era melhor afastar-se antes. Pansy claro não entendeu, questionou a amiga se aquilo realmente tinha sido apenas para sacar informações ao Draco, que se assim fosse era de uma baixeza enorme, e mostrava muita falta de carácter. A morena gryffindor garantiu a amiga que não, o objetivo dela sempre foi ajudar, e se o processo de cura de Malfoy passava por partilhar informações que ele achava importantes, então tanto melhor, mas para ela era indiferente que ele falasse ou não, só queria o melhor para ele, e por isso já no dia que soube o que o Ron tinha feito, ela decidira afastar-se, para o bem de todos. Pansy acabou por se calar, e acabou por aceitar, dizendo que se era o melhor para ela também, então ela iria respeitar. Pelo menos o seu amigo também estava melhor agora.
Foram juntas para a aula de Herbologia, onde encontraram Ginny que tinha ido directa do campo para as estufas. Entre uma e outra informação da professora Sprout, Hermione contou as novidades à ruivinha, que concordou imediatamente que estava na hora das cartas acabarem, Pansy revirou os olhos quando viu que a amiga não disfarçou minimamente a felicidade por Hermione parar de se corresponder com o Draco.
No fundo, Pansy sabia que Hermione estava apenas a fugir aos sentimentos que começava a nutrir por Draco, mas ela iria arranjar uma maneira de contornar a situação, as coisas não iam ficar assim, não agora que as coisas se começavam a arranjar para o amigo.
POV PANSY
Embora Draco Malfoy nunca tivesse admitido nos seus tempos de escola, ela sabia que a grande paixão do amigo era aquela sabe-tudo, Hermione Granger, uma sangue-de-lama com quem ele nunca iria poder estar, pois o Lucius não aceitaria. Ela soube-o sem que ele nunca o tivesse dito, mas ela observava-o quando ainda gostava dele, o olhar dele procurava sempre por ela, não desperdiçava uma oportunidade para se meter com ela mesmo que fosse insultando-a. Ela via como ele ficava sempre que discutia com ela, mesmo no dia que ela lhe deu um murro, ele chegou à sala comum dos Slytherin com um brilho diferente nos olhos. À sua maneira, Draco gostava de Hermione, foi por ela que ele protegeu o trio quando foram capturados e levados para a mansão Malfoy, e ficou desesperado quando a sua tia a torturou. Foi aí que o Draco começou a ponderar virar costas a tudo, não era apenas pela sua mãe, mas também pela rapariga por quem se tinha apaixonado.
E no fim de tudo, quando tudo correu mal, Pansy resolveu que desta vez seria ela que iria proteger o amigo, iria fazer de tudo para que ele ainda fosse feliz, e foi por isso que decidiu voltar a Hogwarts.
Tudo se simplificou quando se tornou amiga de Hermione, sem que fosse sacrifício nenhum. Descobriu tantos pontos em comum com a rapariga Gryffindor, que parecia conhecê-la desde sempre, e agora mais do que nunca, achava que os dois ficariam lindamente juntos.
O seu plano tinha sido sempre ajudar o amigo a encontrar a felicidade, tinha planeado aproximar-se de Hermione muito antes de entrar no expresso de Hogwarts e por isso ficou extremamente surpreendida quando encontrou a rapariga na carruagem dos Slytherin. Pensava que seria difícil suportá-la e tornar-se sua amiga, no entanto as coisas fluíram de tal maneira entre as duas que em apenas algumas horas de viagem as duas tinham resolvido velhas quezílias e previa-se o desenvolvimento de uma bela amizade. No caminho para ajudar o seu amigo a ser feliz, ela própria tinha descoberto uma amiga sem comparação, como nunca tinha tido.
Tudo o resto pareceu ir encaixando-se mesmo sem ela fazer grande coisa, a bondade de Hermione era tal que ela não precisou fazer muito para que a Gryffindor se interessasse, para que ela se preocupasse com ele, tanto que foi dela que partiu a ideia de lhe escrever. Parecia que o destino conspirava também a favor daqueles dois, até a relação de Hermione com Ron Weasley acabou de um dia para o outro.
E hoje com esta carta que o Draco tinha escrito e com a resposta que ela tinha dado, ela tinha quase a certeza que a agora sua amiga, Hermione, também se apaixonara pelo Draco, daquilo que já conhecia dela, sabia que não o iria admitir facilmente porque tinham sido muitos anos a ser insultada por ele, a odiá-lo com razão. Mas Pansy estava convicta que os sentimentos tinham mudado, afinal amor e ódio andam muitas vezes de mãos dadas.
Estava na hora de ela dar uma ajudinha ao destino, e fazer com que os dois se entendessem de uma vez. O seu amigo de infância teria um motivo para viver e mudar, um motivo para ser feliz quando saísse daquele sítio horrendo.
Sabia que não podia contar a verdade toda de uma vez, expor Hermione sem ela saber, seria uma traição à sua amizade construída em tão pouco tempo. Mas também não podia deixar que ela se afastasse, nem que ele perdesse motivação. Tinham evoluído muito e ela não ia desistir, não agora que estava tão perto de ter um final feliz, um final que os dois mereciam.
Rapidamente engendrou um plano. Escreveu um pequeno bilhete a Draco: “Querido amigo, fiquei feliz por estares mais esperançoso. Tal como sabes, tenho acompanhado a tua correspondência com uma grande amiga minha, e não, não adianta perguntares quem é pois não te direi, pelo menos enquanto ela assim o quiser. Não desistas do que queres, a vida ainda te vai surpreender muito. A tua amiga, Pansy”
Agora era esperar que o amigo continuasse a escrever, se as cartas continuassem a chegar, Hermione não iria resistir a responder.
POV HERMIONE
Mesmo não admitindo, Hermione tinha ficado triste ao dizer adeus a Draco. Sabia que aquela tinha sido a decisão certa mas uma parte de si parecia ter já saudades de escrever ao rapaz. Tinha passado os dias distraída até chegar aquela manhã de sexta, ao receber a carta do Malfoy, uma parte de si queria responder lhe imediatamente, perguntar-lhe como estava, que o apoiava em todas as suas decisões, que estaria ao seu lado neste momento. Mas a outra parte dela, a racional, disse-lhe imediatamente que isso não iria acontecer na realidade, Draco não iria aceitar que uma bruxa do seu tipo lhe desse conselhos, nem nunca falaria com ela se soubesse que quem lhe escrevia era ela. Não sabia bem porquê, mas aquilo magoava.
Depois da primeira aula da manhã, decidiu ir para a sua sala estudar, Ginny e Pansy iam ter aula de adivinhação com a professora Trelauney e com o Firenze, que agora partilhavam a disciplina, mesmo assim Hermione tinha preferido não fazer a mesma, continuava sem acreditar muito em adivinhação apesar de tudo aquilo que tinha vivido. Por isso, tinha algumas horas até a aula de Tonks, que seria a última da semana. Antes de ir para a sua sala, passou pela cozinha e conseguiu que os elfos lhe dessem algumas frutas e umas sandes para comer sozinha pois não lhe apetecia descer ao Salão Principal, indo assim directamente para aula que ficava no mesmo piso.
Depois do almoço, Pansy e Ginny foram ter com ela a sala. Aproveitaram para falar de tudo e de nada, ninguém queria tocar em assuntos “delicados”, por isso foram falando sobre moda, sobre os novos pares que se iam formando na escola, sobre os rapazes mais giros. Acabaram a rir, parecia que finalmente tudo estava bem, que não havia preocupação nenhuma, e elas eram adolescentes comuns. Estavam de tal forma animadas que quase se atrasaram para a aula de D.C.A.T., e quando chegaram já todos tinham entrado e já se estavam a sentar, Tonks olhou para elas de lado, mas sorriu disfarçadamente. Ao vê-la, Hermione lembrou-se que mal tinha visto a professora durante a semana e ainda não tinha falado com ela desde o dia que Harry e Ron tinham estado na escola, nem sequer se lembrava de a ter visto no Salão Principal à hora das refeições agora que pensava nisso. Por isso decidiu que ia falar com a professora quando a aula terminasse para desabafar sobre os últimos acontecimentos, sobre os sonhos que ainda agora ela não conseguia explicar, sobre tudo, Tonks dava óptimos conselhos.
A aula estava quase a terminar, e Hermione percebeu que a professora já estava a arrumar as suas coisas rapidamente e acabou por deixar sair a turma mais cedo, todos se entreolharam mas despacharam-se a sair da sala, porém Hermione ficou preocupada. Normalmente Tonks era muito paciente com todos os alunos, explicava a matéria e exemplificava os feitiços tão bem que todos os alunos adoravam as suas aulas e demoravam para sair da sala. Hermione apressou-se a arrumar o seu material também e conseguiu agarrar o braço da professora que já estava a entrar no seu gabinete para ir embora.
— Tonks?! Está tudo bem?! Nunca te vi com tanta pressa… — perguntou quando a professora se virou.
— Oh querida Hermione, perdoa-me, nem te perguntei nada nem te fui ver quando caíste. Soube o que tinha acontecido, mas como já percebeste tenho andado numa correria. O Teddy está doente, alguma virose que anda por aí, tem tido febre e não o quero deixar. Sei que ele fica bem com a minha mãe, mas custa-me imenso deixá-lo assim, e ele também não me larga. Então só venho dar as aulas e saio a correr pra junto dele novamente. — explicou-se Tonks.
— Oh não fazia ideia, Tonks! É claro que compreendo, é normal que o Teddy só te queira a ti. Quando estamos doentes, o colinho da nossa mãe é o melhor remédio. — Hermione abraçou Tonks, visivelmente emocionada e de seguida afastou-a — Não te vou incomodar mais, vai lá rápido para junto do Teddy.
— Está tudo bem, Hermione? — perguntou Tonks, mostrando que as suas aptidões de Auror ainda estavam bem presentes, e conseguia ver além do que as pessoas diziam ou mostravam. — Posso estar ocupada, ou com pressa, mas terei sempre um bocadinho para ti.
— Deixa pra lá, são coisas minhas e tu tens mais com que te preocupar. — Hermione respondeu de certa forma envergonhada por pensar incomodar a professora com assuntos que lhe pareciam tão insignificantes quando comparados com a saúde do seu filho. — Falamos quando estiveres mais livre.
— Hermione se alguma coisa te perturba podes falar comigo, estou disponível. — entretanto Tonks calou-se com ar pensativa, sorriu de esguelha e falou animada — Já sei, vens jantar a minha casa e assim podemos conversar quando o Teddy adormecer. — interrompeu-se a si própria como quem teve uma ideia melhor do que a sua e terminou colocando o dedo indicador no ar — Melhor ainda, vens passar o fim de semana a minha casa, assim não há desculpa de tempo, vamos poder falar de tudo. E eu passo tempo com o meu filhote. Hoje já esteve melhor, vais ver como ele está bonito e inteligente. Que me dizes?
Hermione sorriu e aceitou o convite imediatamente, era mesmo o que precisava. Um fim de semana com Tonks e Teddy iria mantê-la distraída como ela precisava. Disse lhe que ia apenas buscar alguns pertences, roupa e produtos de higiene, e iria ter com ela à entrada do castelo. Por sua vez, Tonks disse que ia falar com a professora Mcgonnagall para a avisar que a levava consigo.
Tal como combinado, passado uns minutos as duas estavam prontas a sair da escola. Hermione ainda tinha encontrado Ginny no salão dos Gryffindor e avisou-a que ia passar o fim de semana com a Tonks e que só voltaria na segunda-feira.
Assim que chegaram a casa de Tonks, Hermione sentiu que os seus problemas se dissiparam. Ao ver o sorriso de Teddy, ao colo da avó, ao ver a mãe, pulando energicamente para ir para o colo dela, era a expressão mais pura de amor. Eles eram únicos no mundo um do outro, nunca ninguém os iria substituir nesse papel. Sentiu saudades do seu papel de filha e de como ficava feliz ao ver os seus pais sempre que regressava a casa. Sentiu saudades do colo da mãe que a acolhia sempre que queria chorar e não podia fazê-lo na escola por orgulho, fosse por causa do Ron que a ignorava, ou quando ele começou a namorar com a Lavender Brown, ou ainda mais quando era tratada como uma reles bruxa sangue-de-lama pelo Malfoy. A verdade é que não podia contar mais com o colo e com as palavras sempre certeiras da sua mãe. Agora tinha de viver sozinha. Olhou novamente para a cena que tinha a sua frente: Tonks brincava já com Teddy, fazendo lhe cócegas o que fazia com que o menino risse às gargalhadas, o cabelo de ambos mudava de cor rapidamente, passando de laranja a verde, a vermelho e cor de rosa, Tonks só parou quando Teddy começou a tossir, de tal maneira forte que quase vomitava, ficando com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas, ainda assim sorria quando se encostou à mãe.
A mãe de Tonks, Andromeda, ia abanando a cabeça enquanto assistia à cena como se soubesse o que vinha a seguir, e claro que teve de comentar quando o desfecho tinha sido o previsível:
— Todos os dias a mesma coisa, Nymphadora! Sim, sim, eu sei, é Dora… — falava enquanto abanava a cabeça negativamente, mas ao mesmo tempo sorria com o olhar. E virando-se para Hermione como se tivesse acabado de entrar na sala, falou-lhe então — Querida Hermione, como estás? Finalmente vieste visitar-nos?
Quando Hermione ia responder, Tonks antecipou-se, com o Teddy num braço, passou o outro pelos ombros de Hermione e explicou à mãe:
— A Hermione vem passar o fim-de-semana connosco, esta semana teve uns percalços e vai fazer lhe bem respirar outros ares. E assim fica a conhecer melhor o nosso Teddy.. — a sorrir, passou-lhe o pequeno para os seus braços.
Hermione ficou meio sem saber o que fazer, agarrou no bebé e abraçou-o. Teddy tinha pouco mais de um ano e já não era um bebé frágil, por isso em poucos segundos, Hermione já brincava com o pequeno metamorfomago que agora ia mudando a cor do seu cabelo nuns tons mais calmos de azuis e verdes.
Andromeda avisou que o jantar ainda ia demorar um pouquinho e serviu um chá, que tomaram no jardim traseiro da casa, onde estava uma mesa e alguns bancos de descanso. Hermione apreciou como a casa tinha sido bem decorada. Estava super acolhedora e apetecia ficar ali para sempre.
Apesar de ligeiramente rabugento por ainda estar doente, Teddy aproveitou para brincar com a nova companhia, mas com o passar das horas começou a ficar mais sonolento, e antes que dormisse Tonks foi dar-lhe o seu jantar, enquanto Hermione ajudava Andromeda a colocar a mesa para o jantar delas. Em pouco tempo o pequeno Teddy já tinha comido a sua sopa e já tinha adormecido.
As três mulheres puderam então conversar durante o jantar, Hermione elogiou o magnífico suflê de peixe que Andromeda tinha preparado, falaram sobre a escola, e sobre os amigos. Quando acabaram de jantar, a mulher mais velha disse que ela própria ia tratar de arrumar a cozinha e que as outras duas estavam dispensadas, saiu sorrindo ao ver que Tonks continuava a falar de forma animada.
Tonks serviu-se mais uma vez de um sumo de frutas que tinham bebido ao jantar, oferecendo a Hermione que recusou. Foram sentar-se novamente no jardim das traseiras , e Tonks não perdeu tempo:
— Então minha querida Hermione que se passa? O que aconteceu esta semana depois da conversa com os rapazes?! Tens estado bem? Voltaste a falar com o Ron?
— Não soubeste o que aconteceu?! O que o Ron fez? Eu já não sei o que fazer nem o que pensar neste momento, e por isso agradeço teres me convidado para vir passar aqui o fim-de-semana. — Hermione nem sabia por onde começar.
— O que aconteceu? — retorquiu Tonks — Como te disse estive pouco tempo na escola, não falei com ninguém e assim que vinha para casa, não via mais ninguém a não ser a minha mãe e o Teddy. Soube de ti porque ouvi um aluno do sexto ano comentar na aula.
— Bem, como viste o Ron não aceitou nada bem quando contei que era eu que escrevia ao Malfoy. — Hermione fez questão em tratá-lo pelo sobrenome para não levantar mais dúvidas na professora. — Desde aí muita coisa aconteceu, enquanto ele e o Harry estavam na escola, souberam que o pai da Luna tinha passado mal e levaram-na para o ir ver a St. Mungus. Tudo isto contado pela Ginny, porque eu já não estava com eles. O Xenophilius teve um AVC, vai precisar fazer muita terapia, e a Luna resolveu que não vai voltar para Hogwarts para poder estar com o pai. Decidiu ser enfermeira.
— Oh como é que não soube de nada?! Pobre Luna, reparei que hoje não estava na aula, mas esqueci-me de perguntar-vos por ela! Que vergonha!! Tenho de lhe enviar um bilhete assim que possível.. estive mesmo desligada de tudo!
— O Harry disse à Ginny que apesar de tudo não foi assim tão grave, que foi encontrado a tempo. Mas também tenho pena que a Luna tenha deixado a escola porque não vou estar tantas vezes com ela. — olhava para Tonks que continuava consternada com a notícia. — Mas não é tudo.
A professora foi ficando cada vez mais chocada, quando a aluna lhe contou sobre a atitude de Ron ao espancar o Draco. E no fim estava num misto de desilusão e insatisfação para com o mesmo.
— Como é que o Harry permitiu uma coisa dessas? Como é que foi permitido que um Auror em formação fosse a Azkaban espancar um recluso? Estas coisas não podem acontecer, descredibiliza a autoridade, o Ministério, tudo. Tal como tu disseste, assim não somos diferentes deles. Temos de fazer mais e melhor, dar o exemplo. A situação foi reportada ao superior hierárquico deles? O que acabas de me contar é inadmissível. O Ron é um Auror em formação, não pode usar o poder para resolver assuntos pessoais. Nada justifica este abuso.
Perante esta reação de Tonks, Hermione ficou sem saber o que dizer, sabia que ela tinha razão e sabia que a professora sempre tinha sido uma Auror por vocação, não por estatuto ou por poder, ela queria apenas lutar pelo bem, perseguir o mal. Mas agora também tinha ficado receosa que Tonks falasse com o superior hierárquico de Ron, e este ficasse em maus lençóis. Ela não sabia o que tinha acontecido depois daquilo, Harry tinha sido breve quando enviou novidades a irmã ou pelo menos foi isso que Ginny lhe contara.
— Não sei como ficaram as coisas com o Ron, não soube de mais nada. A Ginny só disse que o Harry estava a tentar resolver as coisas. Mas o Arthur também não veio a escola esta semana. Não sei se a Ginny me contou tudo, visto que também passei mal logo nesse dia, ela pode estar a esconder alguma coisa para não me preocupar. E a verdade é que eu também me quis desligar de tudo durante estes dias.
— Fizeste bem, minha querida, convém que te protejas um pouco sobretudo a nível de saúde. Eu ocupo-me de saber o que aconteceu afinal. Conta-me o que se passou contigo?
— Comigo não te preocupes, foi só uma tontura, na hora errada e no sítio errado. Mas Tonks, não quero arranjar problemas ao Ron, eu compreendo o que queres dizer mas não quero prejudicá-lo, porque sei que foi culpa minha. — Hermione sentia que ia começar a chorar, embora não quisesse.
— A culpa não é tua, o Ron tem de aprender a separar as coisas, neste momento ele não pode espancar uma pessoa só porque não gosta dela, porque se meteu com a rapariga que ele gosta, não é assim, Hermione. Se ele não tem essa capacidade, ele não pode ser um Auror. Vou tentar saber o que aconteceu, como é que lidaram com isso lá no ministério, e depois vejo o que faço.
— Ele vai ser um bom auror, ferve em pouca água é certo, mas normalmente ele não resolve as coisas assim, foi uma exceção. Tenho a certeza que isto não se vai repetir.
— Espero bem que tenhas razão, senão não vai correr bem. — Tonks estava aborrecida de verdade com a situação.
— Eu também decidi não escrever mais ao Malfoy, hoje enviei a última carta. E apenas porque ele ontem me escreveu, para dizer que vai contar tudo o que sabe do que aconteceu. Por isso acho que este assunto vai ficar arrumado para o Ron.
— Como assim o Malfoy vai falar? O que é que ele vai contar? Tudo? Por essa não esperava. Afinal tinhas razão em escrever-lhe e acreditar que ele podia mudar. Caramba, é incrível que o tenhas feito falar, e sem violência como o Ron pode ver.
— Não sei o que ele tem para dizer, Tonks, nem se terá algum valor… — disse Hermione que sabia já uma grande parte do segredo de Draco Malfoy, a morte de Lucius e Narcissa Malfoy.
— Deve saber muita coisa, ele vivia naquela mansão medonha, onde tanta coisa aconteceu, deve ter visto e ouvido muito. O depoimento dele vai trazer muita coisa ao de cima de certeza, e vai trazer novos inimigos. Os devoradores que ainda andam por aí que sejam indiciados, vão ficar furiosos.
— Pois, é possível… — Hermione ficou reticente, não tinha pensado naquilo, e agora que pensava, começava a preocupar-se. Calou-se.
— Que se passa, Hermione?! — atenta como sempre, Tonks percebeu que a rapariga tinha ficado meio nervosa de repente.
— Nada, mas não tinha pensado nisso. Vai ser de certa forma perigoso para o Draco. — deixou-se descair no uso do nome próprio sem se aperceber uma vez mais.
— Vou perguntar-te novamente, e podes até negar de novo, mas sentes algo mais pelo Malfoy? A minha intuição diz que sim, e podes negar para todos mesmo para ti, mas raramente me engano nestas coisas. — vendo que a jovem estava a ficar vermelha e envergonhada, agitando a cabeça de forma negativa e dizendo repetidamente que não, acrescentou. — Pois eu acho que sim, e não tens de ter vergonha, muito menos de mim. Eu apaixonei-me por um lobisomem, lembras-te?
— Não é a mesma coisa, Tonks. O Remus era um homem fantástico, bom, infelizmente tinha essa maldição com ele, não o escolheu. Consciente, ele fez sempre o bem.
— E se o “Draco” (fez aspas no ar) também não teve escolha? Também teve a maldição de nascer naquela família e eu sei o quanto custa sair desse tipo de educação, eu tive a sorte da minha mãe sair antes e eu não tive de viver nada daquilo. O meu priminho nunca teve essa sorte. — acabou a fazer uma careta com a última expressão.
No meio de tudo, Hermione raramente se lembrava que Tonks e Draco eram primos, eram tão diferentes, de mundos tão distantes que ninguém iria supor que tinham laços de sangue tão fortes. Estava a pensar em tudo o que acabara de ouvir que nem se apercebeu que Andromeda estava junto da porta, assustou-se um pouco quando ouviu a voz dela pois não estava à espera.
— Tens razão, Dora. O Draco não teve a tua sorte. Gostava que a minha irmã tivesse tido coragem para deixar aquele louco, teria-a recebido de braços abertos a ela e ao seu menino, tudo teria sido diferente. — Andromeda falava com um tom de mágoa e tristeza, respirou fundo como que a preparar-se para contar uma história triste. — Nunca contei a ninguém, sei que a Narcissa não me perdoaria que contasse. Mas acho que agora não faz mais diferença, e verdade seja dita ela nunca me perdoou quando abandonei a família para me casar com o teu pai (acariciou a face de Tonks, carinhosamente). Um dia encontrei a Cissa sozinha com o Draco em Diagon Alley, ele devia ter uns meses e estava chorar compulsivamente, quando me aproximei, a Cissa olhou para mim com olhos de choro, desesperada. Agarrei o pequeno Draco, e abracei-o pela primeira vez, não sei como mas ele parou de chorar. Quando olhei de novo para a Cissa, era ela quem chorava, olhou para mim e sussurrou: “eu não sei fazer isto, um dia ele vai matar-nos, ele diz sempre que somos uns fracos”, sabia bem de quem ela falava, abracei-a também e disse-lhe, implorei-lhe que o deixasse, que ela e o menino podiam ficar connosco. Mas no minuto a seguir, a Cissa mudou, recompôs-se e agarrou novamente o Draco, e entrou numa loja onde depois vi que estava também o Lucius. Foi a última vez que falámos. Ainda hoje me custa pensar nisso. A Bellatrix sempre foi louca e cedo se afastou de nós, mas a Cissa é a minha irmãzinha mais nova, o meu bebé. Ela nunca me perdoou que eu a tivesse deixado para trás naquela família, acho que me culpa que tudo começou a descambar para ela quando eu saí de casa. Ela foi obrigada a casar com aquele indivíduo apenas para “salvar” a dignidade e o bom nome da família. Foi ela a sacrificada, eu também não me perdoaria.
Andromeda chorava enquanto contava o resto da história. Notava-se que nunca tinha esquecido a irmã mais nova e que que se arrependia em parte por a ter deixado. E aquela história mostrava que Narcissa Malfoy também não gostava assim tanto do seu casamento com o Lucius. Tudo batia certo com o que a Pansy contara a Hermione quando começou a falar lhe de Draco. A jovem lembrou-se como se sentiu quando percebeu que não conhecia assim tão bem o rapaz e que havia muitas coisas que não coincidiam com a sua fama de bad boy. Queria perguntar mais coisas a Andromeda, mas esta não devia saber mais nada. A família não se falava há anos, e era sabido que ela só se dava com o Sirius Black. E ela também não tinha motivos para perguntar, a não ser muita curiosidade em saber mais de Draco Malfoy.
Foi a Tonks que recomeçou a falar depois de terem ficado em silêncio um bom momento.
— Oh mãezinha, imagino que não foi fácil manter a distância, apesar de tudo ela era tua irmã e alguma coisa de bom ela guardou, protegeu o filho o melhor que pôde e ainda salvou o Harry no final. Não pode ser assim tão má. Pode ser que quando os encontrarem desta vez ela queira mudar e vocês ainda poderão falar. — abraçou a mãe que ia acenando afirmativamente.
— Vamos ver como as coisas correm, quando a Narcissa aparecer, gostaria de a ver. A ela e ao Draco. Achas que podias acompanhar-me quando isso acontecer? — Andromeda perguntava a filha, como que pedindo autorização. Tonks acedeu, abraçou a mãe, disse que ia ver o que podia fazer.
Hermione que sabia a verdade toda, sentiu o seu coração apertar-se, Andromeda nunca iria poder ter o seu reencontro com a irmã. Nunca iriam poder falar, nem tentar fazer as pazes. A sua reconciliação seria sempre uma incógnita. Ela queria acreditar que se Narcissa fosse viva, tal como o filho, iria aproveitar este momento para mudar, iria querer estar com o filho longe das loucuras de Lucius, e nesse processo eventualmente iriam se aproximar da família que tinham mais perto que eram Andromeda, Tonks e o pequeno Teddy. Mal sabiam que isso nunca seria possível, e tal entristeceu Hermione. O único reconforto foi que talvez Draco se quisesse aproximar desta família, que lhe podia dar muito mais do que o dinheiro dos Malfoy: podiam dar-lhe amor.
Andromeda entretanto levantou-se e disse que ia ver se Teddy estava bem, e de seguida ia deitar-se que já tinha chegado a sua hora. Deixando as mais jovens conversar com mais privacidade, no entanto ficaram em silêncio como que a refletir no que acabavam de falar. E Tonks aproveitou para voltar ao assunto em que estavam quando foram interrompidas pela mãe.
— Hermione, não me esqueci que não respondeste à minha pergunta. Contornaste, e parece me que estás a arranjar desculpas para não responder.
— Não há nada para sentir, Tonks. Eu e o Malfoy sempre fomos inimigos, sabes bem a opinião que ele tinha sobre mim, o preconceito que ele tem. O facto de eu ter feito o que fiz não foi por sentimentos, mas por empatia. Fiquei muito preocupada com isto tudo do Ron. Mas nada mais… no entanto, há coisas que não sei explicar… — Hermione começou a falar, mas calou-se subitamente, não sabia explicar. Queria contar dos sonhos mas nem sabia como, pelo menos sem parecer uma tontinha. Ela nunca gostou das artes de adivinhação, em que os sonhos se incluíam, por achar que eram dúbias. Mas os sonhos que tinha tido não eram normais, pelo menos para ela.
Tonks incentivou-a a falar, dizendo que estava em família e podia dizer tudo o que pensava, ela não estava ali para julgar mas para ajudar.
— Nem sei por onde começar ou como explicar sem parecer tolice, porque vais achar que é uma tolice, mas se não disser a ninguém se calhar fico mesmo tola… — começou Hermione — Tenho sonhado com o Draco, mas não são sonhos normais… não é nada disso que estás a pensar — acrescentou quando viu Tonks a ficar de olhos cada vez mais abertos e com ar de espanto. — São sonhos realistas, como se o estivesse a ver realmente e que ele me visse a mim. Tenho pensado muito sobre isto e até tentei encontrar algum livro sobre o assunto mas o que encontrei não se assemelha a nada.
Hermione contou tudo a Tonks, o que tinha sonhado, o que tinha visto.
Contou-lhe que na primeira vez, ela sonhara que tinha descido até aos campos da escola para estudar no jardim, e quando começou a aproximar-se do lago viu que estava ali outra pessoa, deitada como se dormisse. Percebeu logo de seguida que o cabelo daquela pessoa era louro platinado e só podia ser Draco Malfoy. Ao tentar sair dali a correr, Hermione tinha deixado cair o saco que levava consigo com papéis, canetas e tintas, fazendo barulho o suficiente para acordar o loiro. E ela ainda o vira levantar-se usando ouviu o barulho.
Explicou que o segundo sonho deixara-a a pensar mais um pouco, porque ela viu o Draco numa cela, magoado, triste, a chorar. Repetia algo em voz baixa, que ela não conseguiu entender. Mas o que ela não entendia é como ela podia sonhar com Draco Malfoy magoado, com olhos inchados, com sangue, logo no dia que o seu ex-namorado lhe tinha batido antes mesmo de lhe terem contados ela ? Ela não entendia, onde tinha ido buscar tais imagens logo naquele dia.
Por fim e para colmatar, contou que voltou a sonhar com ele nessa noite, de forma extremamente realista, como se ele andasse ali na escola, e desta vez bem perto dela. Começou por vê-lo num dos corredores da escola, viu-o descer a escada em direção aos campos e decidiu correr para o seguir. Encontrou-o quando ele já estava sentado, quase deitado, junto do lago. Confessou que ao vê-lo ali tão pacificamente a olhar para a lua de forma pensativa, não reconhecia o Draco Malfoy que estudou na escola ao mesmo tempo que ela, que a insultava. Era como se fossem pessoas diferentes, com posturas diferentes. Quando já estava a ir embora, sem perceber que o Malfoy a tinha ouvido e a procurava, ao desviar-se de um arbusto para voltar à escola deu de caras com o rapaz e este assustou-se de tal maneira que caiu, ela debruçou-se e perguntou lhe se estava bem. Por breves instantes, antes de acordar atrapalhada, notou que o rapaz tinha ficado tão surpreendido quanto ela.
Contou tudo com o máximo de detalhes possíveis, mas não mencionou certas partes que levantariam muitas questões que neste momento ela achava irrelevantes. Escondeu os momentos que viu o Draco e percebeu que era de facto muito bonito, compreendendo porque tinha tantas admiradoras na escola. E sobretudo omitiu que quando esbarrou com ele no sonho e ambos ficaram por uns segundos cara a cara, os dois pareciam duas almas perdidas que se encontravam ali pela primeira vez.
Quando finalmente terminou de contar tudo, Tonks tinha um sorriso malandro nos lábios.
— E dizes tu que não sentes nada, que é só empatia. Sim, claro que acredito. — fez sinal com as mãos pra que Hermione não falasse e continuou. — Mas para quem sente apenas empatia esses sonhos parecem-se demasiado com “Somnia Communia”.
— “Somnia Communia”?!!! O que é isso? — perguntou imediatamente a jovem Hermione. — Nunca ouvi falar. É uma maldição? Um encantamento?
— Nada disso, minha querida. É mais simples e ao mesmo tempo mais complexo que isso. Como te explicar… sabes que há magia pura, normalmente ligadas ao amor. O melhor exemplo que te posso dar é a magia que a Lilly usou para proteger o Harry de Voldemort naquela noite fatídica. Neste caso não tem nome, mas foi resultado de puro amor. O Somnia Communia começou a ser reportado e conhecido assim porque muitas pessoas, normalmente enamoradas, se encontravam nos sonhos mesmo que estivessem separadas por quilómetros de distância. É como se se entrasse dentro de uma sala comum dos sonhos, onde um e outro podem comunicar. Tenho a certeza que se for isso, o Draco também te viu e ouviu. A única maneira que tens de descobrir, é falar com ele no próximo sonho. Depois é só descobrir se ele também sonhou.
— Mas acreditas mesmo que isso é real? Isso parece apenas uma fantasia inventada por casais apaixonados. — Hermione era sempre muito céptica em relação a estas coisas.
— Eu disse que era simples, mas complexo ao mesmo tempo. — Tonks começou a explicar. — Sei que é verdade pois eu também o experienciei. No início pensava que estava a enlouquecer e nem contei ao Remus, foi ele que falou primeiro. No nosso caso acontecia nas noites de lua cheia… — Tonks entristeceu de repente. — eu acompanhava o Remus nos meus sonhos quando ele estava transformado, sentia o que ele sentia, a euforia, a tristeza, até o sabor do sangue de algum animal que matasse, mas também o desespero, sobretudo o desespero e a dor de estar preso num corpo que por uma noite não era seu. Foi quando o Remus me disse que tinha sido a minha imagem, presente durante toda a noite, que o tinha ajudado a acalmar-se que me questionei. E quando começámos a comparar os “sonhos” de ambos, tudo coincidia. A partir daí, tentei acompanhá-lo sempre, o problema é que ninguém sabe como entrar nessa “sala comum de sonhos”, pelo menos de forma consciente. Não há nada a fazer, simplesmente uns dias funciona, outros dias não. O Somnia Communia é um enigma para todos, uma surpresa quando acontece e alívio quando se percebe o que é. Pois sabes que eventualmente podes encontrar a pessoa amada num sítio só vosso, saber como está, falar com ela, matar saudades.
Hermione continuava um pouco incrédula. Ela não tinha sentimentos pelo Draco como Tonks tinha pelo Remus. Não fazia sentido partilhar um Somnia Communia.
— Tonks, compreendo que tu e o Remus partilhassem isso do Somnia Communia — falava gesticulando com as mãos. — mas eu não tenho motivos para o partilhar com o Draco Malfoy, nunca me aconteceu com o Ron porque iria acontecer agora?! Eu já te disse não gosto dele dessa forma.
— Há muitas formas de amar, Hermione. Família, amigos, e até essa empatia que tanto falas, não deixa de ser uma forma de amor. A forma como te preocupas, como queres o bem dele, tudo isso é amar. E do lado dele, a companhia, a presença, o apoio que recebeu, creio que criou esta ligação. E está tudo bem, Hermione, não tens de te sentir mal ou com vergonha disto.
Hermione ficou pensativa, calou-se e talvez pela primeira vez em muito tempo não tinha nada a dizer. Não compreendia o que estava a acontecer-lhe, era estranho criar esta ligação e ainda para mais com Draco Malfoy. Tonks compreendeu que a amiga mais jovem iria precisar de tempo pra absorver tudo o que tinham falado, aliás já estavam a falar há horas e já tinha passado da hora de se ir deitar. Acabou por lhe dizer que ia ver do Teddy, ver se estava bem e deitar-se porque o pequeno iria acordar cedo e ela precisava descansar. Disse-lhe para ficar ali se quisesse, mas Hermione decidiu ir recolher-se também e foi para o quarto que Tonks lhe indicou.
Nessa noite Hermione, acabou por não dormir nada, virou-se mil vezes na cama mas não conseguia deixar de pensar em tudo o que tinha ouvido. E assim que ouviu que Tonks já se tinha levantado com o Teddy e que Andromeda também já andava pela cozinha, levantou se também e foi ter com elas. O Teddy estava muito melhor e combinaram que nesse dia iam ficar por casa apenas para garantir que ele estava bem mas no dia a seguir iriam passear para aproveitar o bom tempo que tinha chegado nesse fim-de-semana.
E assim num instante, o fim-de-semana passou. No sábado, Hermione esteve ocupada com o Teddy, brincando com ele para deixar Tonks mais liberta. Dormiu sem sonhar e por isso descansou melhor. E no domingo foram ver as lojas de Hogsmead. Foram dois dias que a jovem adorou, e por isso quando voltou ao castelo na segunda-feira de manhã, vinha com as baterias recarregadas para retomar os estudos pois tinha neste momento um mês para preparar os exames finais, os temíveis NIEM’s. Toda a boa disposição desapareceu quando se ia dirigir para o seu quarto e encontrou Harry Potter e a directora Mcgonnagall na salão dos Gryffindors, e o ar dos dois nem sequer lhe deram tempo de ela ficar feliz por ver o seu amigo ali, onde tantas vezes conversaram.
— Hermione, temos de falar! — disse Harry para a amiga.
POV DRACO
Agora que Draco tinha decidido falar, aquela pessoa não lhe escrevia mais. Estava ainda a sarar e já tinha escrito uma carta, esperava apenas que a coruja chegasse com o bilhete diário para a enviar. Queria deixar aquela pessoa orgulhosa acima de tudo, fosse lá ela quem fosse, se não fosse ela, ele não teria saído do buraco onde se encontrava e se agora tinha um objetivo era tudo graças a ela.
Esperou o primeiro dia, e nada de bilhete. No segundo, perguntou a Felton logo de manhã, depois de almoço, até que o guarda lhe respondeu que se calhar não valia a pena esperar mais. Draco perguntou lhe porquê, e Tom Felton resolveu contar tudo, o que podia:
— Ouve Draco, tinhas razão. — parou por uns segundos e viu o rapaz ficar curioso.
— Sobre o quê? — indagou o loiro.
— Sobre mim. Uns dias depois de aqui chegar suspeitaste que era eu um infiltrado para tentar ganhar a tua confiança e tentar que falasses. A missão não é bem essa mas sim sou um Auror infiltrado, trabalho no ministério e faço apenas trabalho administrativo, aceitei esta missão para poder ser promovido a Auror de investigação.
E contou tudo, desde a análise que tinha feito do antigo guarda, até ser escolhido e enviado para Azkaban, o que tinha descoberto, o que tinha transmitido aos superiores, tudo, excepto que a pessoa que lhe escrevia era Hermione Granger, pois estaria em maus lençóis com Ron Weasley e Harry Potter se algum dia soubessem que ele tinha falado. Quando terminou, olhou Draco Malfoy olhos nos olhos, viu um lampejo de decepção mas o mais jovem virou costas, dirigindo-se ao canto onde se costumava sentar. Felton achou que ele iria começar a gritar e a insultá-lo como seria expectável nele, mas nada, sem um som. Passou um bom bocado e Felton já ia virar costas quando ouviu Malfoy falar:
— Fizeste um bom trabalho, admito. Aquela suspeita que tive foi momentânea e nunca mais me passou pela cabeça. Noutra época teria ficado frustado e provavelmente sentir-me-ia traído mas agora sei que não tenho motivos para isso, foste uma óptima companhia desde que aqui chegaste, mesmo que fosse apenas o teu trabalho, e por isso chegou a hora de te recompensar.
— Falar contigo e tornar-me teu amigo, porque é um facto que já te considero um amigo, não foi parte do trabalho. Foi algo natural, e se hoje decidi contar-te tudo foi por dois motivos: não consigo mais continuar a enganar-te e ler as coisas que envias, e também para te avisar que se calhar não vais receber mais nenhum bilhete, pois as coisas mudaram. É tudo o que te posso dizer, provavelmente serei retirado da investigação e não poderei mais falar contigo.
— Compreendo, e agradeço. Tinha uma última carta para enviar mas não terei como. Já percebi que os aurores já sabem quem é essa pessoa, e por isso não vai escrever mais, não é? — quando Felton acenou afirmativamente, Draco jogou a sua última cartada, como Malfoy que era ele sabia negociar as coisas de forma a retirar o melhor partido. — Chama o Harry Potter, apenas ele, e eu conto tudo o que sei e que pode ter valor para vocês. Já tinha pensado fazê-lo e falava disso nesta carta. — agarrou no papel e rasgou-o — Antes de falar, como troca quero apenas que entreguem um último bilhete a essa pessoa, sei que não tenho esse direito, mas preciso dizer primeiro a essa pessoa que o motivo de minha mudança é ela.
Tom Felton ficou de boca aberta, espantado com a reação de Draco Malfoy e sobretudo com a vontade deste em confessar tudo o que sabia. Respondeu lhe afirmativamente, e disse que ia tratar de tudo imediatamente.
Felton enviou uma coruja mais rápida, a Harry Potter a informá-lo de tudo e a pedir autorização para enviar o bilhete de Malfoy. Passado umas horas, o próprio Harry Potter aparatou em Azkaban com o Chefe dos Aurores,, Gawain Robards. Autorizaram que Felton levasse o último bilhete a Hogwarts, que devia ser confiado à pequena coruja que era sempre utilizada. Queriam que Draco Malfoy falasse o mais rapidamente possível, e que não desistisse da ideia. Tinham a certeza que ele teria muitas informações, e estavam à espera que ele falasse há muito tempo.
Assim que chegou a resposta à carta de Malfoy e depois de a ler, este decidiu falar. Seguiram-se horas de depoimento. O Chefe, Harry e Felton estavam presentes, tomavam notas de tudo o que ele ia falando, os nomes que implicava como devoradores e que fizeram parte do círculo de Lord Voldemort, uma lista de nomes extensa: Augustus Rookwood, perigoso assassino e ainda a monte, Evan Rosier e toda a família Rosier, ricos e torturadores implacáveis, Evan já morto mas toda a família desaparecida, Travers, Avery, Mulciber, Gibbon, Judson, Walden Macnair, Selwin, Nott Sr, , Crabbe e Goyle, pais dos seus amigos e colegas na escola. Agora era a vez deles de voltarem a interrogar os que já estavam presos e procurar os que estavam a monte, e aqueles que achavam que estavam acima da justiça.
Por fim chegaram ao assunto que Draco temia:
— E os teus pais, Malfoy? Onde estão? Porque estás aqui sozinho enquanto eles andam por aí? — perguntou Harry de uma só vez.
Malfoy engoliu em seco, não queria falar mas obrigou-se a isso.
— Mortos. Estão ambos mortos. — disse de forma rápida para despachar o assunto.
— Como? O que aconteceu? Porque não disseste antes?
— Por que não importava mais, era indiferente pra vocês. Morreram quando estávamos a preparar uma fuga. Foram comprar um carro, era um objeto muggle que ninguém iria suspeitar, mas claro que o meu pai não sabia mexer com aquilo em condições, e tiveram um acidente. Ele matou a minha mãe. E eu fiquei sozinho. — ali Draco não aguentou mais e chorou, Harry e o Chefe ficaram chocados por ver Malfoy chorar assim, para Felton já não era surpresa. Entretanto ele continuou: — Fui eu próprio que os enterrei, o sítio era bonito e tratei de tudo. Foi no lago perto do sítio onde me encontraram.
A sala ficou em silêncio quando Draco terminou, ouvindo-se apenas a respiração dele e uma ou outra fungadela, tentando parar o choro. Harry falou passado um bom momento, não gostava dos Malfoy mas tinha o bom senso e empatia para perceber que um jovem perdera os pais. Mas ainda havia algo que queria saber e precisava esclarecer:
— Malfoy, uma última coisa, o que sabes sobre a morte dos pais da Hermione Granger? Foi o teu pai? Tendo em conta o que acabas de contar podes admitir a verdade, já não haverá ninguém para culpar mas podíamos encerrar essa investigação.
Draco ficou admirado com aquela pergunta, ele nem sequer sabia que a Granger tinha perdido os pais, aliás não sabia nada dela desde que a batalha terminara.
— Não foi o meu pai, não sei quando é que isso aconteceu mas tenho a certeza que não foi o meu pai, e não teria problema nenhum em admiti-lo se fosse verdade. Se tivesse sido ele, ele teria utilizado isso a seu favor, teria falado, teria mostrado a toda a gente que tinha sido ele. Eu nem sabia disso.
— Os pais da Hermione foram mortos na Austrália, uns dias após a Páscoa. Depois de termos estado na tua mansão. Antes da batalha de Hogwarts. Acho que o teu pai tinha motivos pra fazer mal a Hermione.
— Não foi ele, eu admitiria se tivesse sido. A única pessoa que me importava proteger era a minha mãe, hoje não tenho mais nada a perder. Volto a repetir, se tivesse sido o meu pai eu saberia, toda a gente saberia. E não teria problema nenhum em admiti-lo. — parou um instante e a seguir recomeçou. — Mas agora que falas nisso, lembrei-me de uma coisa. Acho que só agora percebi o contexto. Uns dias antes da batalha de Hogwarts, Nott Senior apareceu em nossa casa. Nada de novo, ele era amigo do meu pai, ou melhor era um subordinado que fazia de tudo pra lhe agradar. Nesse dia, enquanto falavam no escritório, ouvi um pouco da conversa mas não dei importância assim como o meu pai, senão teria chamado Voldemort para lhe contar. Ouvi-o dizer que os pais da “pirralha irritante” estavam mortos, foi exatamente assim que ouvi e por isso não dei importância porque nem percebi de quem falava. O meu pai respondeu que queria mais informações, ele respondeu que tinha estado com o Thorfinn Rowle e este dissera-lhe que tinha encontrado os pais daquela “nojenta” e tinha rebentado com eles, contara que ela lhes tinha tirado a memória assim como lhe tinha feito a ele, e que assim ela ia aprender a não se meter em coisas que não devia. O meu pai insistiu que precisava de provas, a informação era importante mas se não fosse verdade não valia de nada. O Nott disse que não sabia mais nada, mas o Rowle parecia bastante convicto daquilo que tinha feito, para o meu pai não foi o suficiente. E até hoje eu nunca mais tinha pensado mais nisso. Agora que penso faz todo o sentido que falavam da Granger, para ter alguma importância para Voldemort a “pirralha” tinha de ser importante, e o Nott também não gostava da Granger desde que ela o atordoou no Ministério quando lutaram por causa da profecia, isso eu já sabia. Agora tudo encaixou.
Draco viu que Harry mudou a sua postura, viu-o respirar pesadamente, agradeceu o seu depoimento quando ele finalmente disse que não tinha mais nada para contar. Todos se levantaram, e enquanto Felton lhe colocava as algemas de novo para o levar à cela, ele ainda ouviu o Harry falar para o chefe que tinham de interrogar de novo o Nott e de seguida queria ir para Hogwarts para ser ele a contar a amiga o que tinham descoberto. O chefe concordou. Draco virou-se quando estava já na porta para sair, dizendo:
— Potter?! Lamento muito, de verdade. Hoje sei o que é ficar sem pais, sozinho. Desculpa por tudo.
Enquanto caminhava, e depois destas palavras, Draco começou a juntar alguns pontos. Ora a pessoa que lhe escrevia, dissera logo na primeira carta que entendia a sua perda pois também tinha passado por isso, escrevia bem, estava em Hogwarts, e Ron Weasley tinha-lhe dado uma sova há poucos dias sem motivo aparente, e de repente ele tinha sonhado com aquela sabe tudo irritante. Sabia que havia pouca probabilidade, mas seria possível que Hermione Granger fosse a J. que lhe escrevia?
Quando chegou a sua cela, já era hora de jantar. Voltou a ler o bilhete de despedida que J. lhe tinha enviado essa manhã. Ele compreendia que se afastasse, mas não queria. Já sentia falta dos seus bilhetes, e só tinham falhado durante 2 ou 3 dias. Pelo menos sabia que estava orgulhosa, que o apoiava na sua decisão. Mas como fazer para retomar a escrita? Não sabia como lhe fazer chegar os seus bilhetes, o Guarda, ou melhor o Auror, Felton iria sair de Azkaban, e não teria mais ninguém para o ajudar, ele só sabia que podia enviar para Hogwarts mas a quem endereçar a correspondência?
Enquanto pensava num plano, Felton apareceu, vinha entregar outro bilhete que tinha acabado de chegar. Assim que o viu percebeu que não era aquilo que ele estava à espera, a letra era diferente, mas logo que agarrou nele percebeu que era de Pansy. Quando acabou de o ler, agradeceu por ter uma amiga como ela, se bem que devia respeitar os anos que se conheciam e dizer logo tudo de uma vez, mas agora que ela admitira que a autora anónima era uma grande amiga sua, ele podia excluir de vez Hermione Granger, pois era impossível que as duas fossem amigas. Tudo não passava de uma coincidência. Agradeceu mentalmente a ajuda da amiga, que no fim do bilhete acrescentou a melhor parte, iria enviar lhe uma coruja diária para ele continuar a escrever, tinha chegado o seu momento de mostrar que mudara, e cabia-lhe a ele agora convencer J. que valia a pena continuarem a escrever-se.
Era tudo o que ele precisava.
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