As Crianças da Torre de Votum Bell

1 Pensamento Incoercível N°1 — Madrugada Vívida


Quando eu era criança, eu lembro que os primeiros interesses que eu despertei não foram brinquedos, nem foram doces e nem foi brincar com meus amigos, mas dizer que coisas assim nunca me interessaram de verdade seria algo muito forte de se falar, afinal, eu gostava de meus brinquedos de madeira feitos a mão pelo meu tio que sempre os trazia quando me visitava, eu gostava dos doces de canela que minha mãe fazia todo fim de semana que por muitas vezes sequer duravam uma tarde toda e também gostava de brincar de pega-pega com meus amigos de rua mesmo que eu não tivesse muitos. Entretanto, nada para mim me encantou tanto quanto aquilo que sempre ficava sobre nossas cabeças... Aquilo que sempre existiria mesmo que não nos déssemos conta: o céu.

Meu interesse pelo céu nasceu quando meu pai passou a ler histórias para mim antes de dormir. Meu primeiro interesse por esse componente quase sempre azul nasceu em quando papai me leu “As Viagens de Gulliver”, onde em um dos capítulos o livro fala sobre Laputa, o castelo no céu. Depois que conheci Laputa, eu comecei a passar o dia todo olhando para os céus na esperança de que por entre as nuvens, que mais pareciam de algodão, eu fosse capaz de encontrar um castelo flutuando como se estivesse boiando nas águas de um rio cristalino. Eu apenas não esperava que o que começou sendo apenas uma tentativa de encontrar algo que não existia, logo se tornasse meu maior interesse. Quando eu olhava para o céu eu conseguia ver o quanto seu azul era lindo... Conseguia sentir que Laputa não era a única coisa que fazia aquela imensidão ser tão bela e fantástica. Eu podia ficar o dia todo observando a forma que as nuvens se moviam no céu. Podia ficar o dia todo observando os pássaros que voavam.

E quando a noite caía então? Era a parte que eu mais gostava, pois agora não só tinha a companhia das nuvens, mas também tinha a companhia das estrelas pontilhadas que acenavam para mim lá de cima. Sentia que as estrelas dançavam uma valsa lá no céu sendo seguidas pela lua que às vezes sorria para mim, às vezes brilhava iluminando todo o céu e outras vezes se escondia tão tímida de meus olhos curiosos e rasteiros. Eu sentia que desde que pudesse ver o céu todos os dias, eu jamais me sentiria sozinho ou desorientado. Ele sempre seria meu amigo desde que eu também fosse seu amigo, mas eu desejava algo mais além disso. Queria poder um dia tocá-lo. Queria sentí-lo enquanto ia o mais alto que podia sendo levado pelo brisa de primavera para que assim eu me tornasse um só junto com as nuvens. Eu queria voar.

O desejo de voar foi a primeira memória de um desejo que eu tive... Uma das minhas memórias mais especiais pois o primeiro desejo que você faz para si mesmo é o desejo que irá moldar quem você realmente é.

Memórias são elementos incríveis, não acha? Existem algumas memórias que ficam em nossa mente por um período de tempo tão grande que nem sequer somos capazes de imaginar. Esses tipos de memórias costumam a permanecer agarradas sobre nossas cabeças desde o momento em que aconteceram até o momento em que nós partirmos. O que pode ser interessante para certos tipos de indivíduos é que essas memórias podem variar de uma maneira tão vasta que por muitas vezes podemos esquecê-las no fundo de nossos pensamentos, só sendo possível despertá-las das correntes do consciente em certos momentos que servem como gatilho para essa memória vir à tona. Memórias podem parecer coisas simples, mas por incrível que pareça, assim como nossa mente como um todo, memórias são as coisas mais belas e misteriosas do mundo.

Essas lembranças que não saem de nossa mente por nada podem ser lembranças boas que lembramos com carinho ou algo tão horrível que fazemos o possível para tentar esquecer. O mais interessante disso é que não é possível escolhermos qual memória queremos guardar para sempre e qual queremos arrancar de nossas cabeças como uma sanguessuga presa em nossos pés. Independente do que queremos, se a memória de um acontecimento em questão for marcante o suficiente para o indivíduo, ele não terá escolha a não ser carregá-la consigo ao longo de sua existência. Isso é aquilo que faz a vida tão especial, não concorda? Nunca sabemos o que nos espera na manhã do dia seguinte, mas toda a vez que deitamos em nossa cama e fazemos uma oração, sempre queremos que nosso dia seguinte seja melhor do que o anterior e esquecemos que às vezes as coisas ruins podem por muitas vezes ser tão especiais quanto as coisas boas. Se tudo o que acontecesse de mês em mês fosse bom, a vida seria tão monótona a ponto de ser entediante, e dessa forma, ao mesmo tempo que todos seriam felizes, ninguém seria feliz de verdade.

As pessoas esquecem que as coisas ruins que nos ocorrem também servem para aprendermos com nós mesmos. Se não lembrássemos de coisas ruins que nos ocorreram, como iríamos evoluir e crescer cada dia mais?

Eu tenho uma vasta biblioteca em minha mente sendo ela meu maior refúgio quando estou entediado. Cada livro em minha cabeça contém uma memória e a biblioteca é dividida por alas como toda biblioteca é separada. A memória que acabei de lhe mostrar sobre meu maior desejo é uma das mais especiais que tenho como eu mesmo disse. Eu só precisei contar ela para você para que você fosse capaz de idealizar como sou, não é? Me pergunto como você me imagina após saber disso, porém, não precisa responder, meu caro leitor. Não quero quebrar suas expectativas, mas infelizmente os livros não têm ouvidos então não posso ouvir sua resposta.

Nós temos a ala infantil de minhas memórias de quando eu era criança, a ala de momentos especiais e a ala de momentos que eu não gosto de pensar muito, mas me lembro pois elas de certa forma importantes para mim como a vez em que tive de matar uma pobre galinha, a vez em que meu inimigo auto intitulado quebrou meu bem mais precioso — não se preocupe, hoje somos amigos —, e a vez em que ganhei uma cicatriz na cabeça depois que um cavalo passou em cima de mim. Não tenho tanta sorte com animais sendo sincero, mas tive a sorte da morte não ser tão presente em minha vida quanto na vida de meus amigos os quais já não tenho tanto contato hoje quanto tive na época em que me mudei pro interior da Holanda com minha família. Admito que às vezes tudo o que eu queria era que eu tivesse morrido no lugar de algumas pessoas que conheci nessa pequena passagem de minha vida que começou aos meus onze anos de idade.

Apesar de todas as alas da minha mente serem organizadas e separadas com lembranças de A à Z, nunca fui um garoto muito organizado — não que eu me orgulhe disso. Sempre fui de deixar minhas coisas jogadas aqui e ali quando era mais novo. Meu pai disse uma vez que eu era tão desorganizado quando menor que quando viajou a trabalho para Amsterdã, ainda conseguiu achar uma meia suja minha em suas malas. Aí está uma linda memória que eu gosto bastante de lembrar pois quando li a carta de papai com meus irmãos avisando sobre tal acontecimento, nós fizemos um grande coro de risos e gargalhadas melódicas. Mamãe não gostou nada daquilo, porém eu conseguia ouvir sua risada abafada através de sua mão que cobria sua boca.

Eu chamo essas memórias que permanecem tão vívidas dentro de nós, até mesmo quando nós não queremos que isso aconteça, de “memória incoercível”. Algumas pessoas falam que apenas o piscar dos olhos, nossa respiração e os batimentos de nossos corações são coisas que não conseguimos controlar, mas eu acho que as coisas vão muito além disso. Quando era bem pequeno, eu nunca parei para perceber que cada ser humano tinha esse tipo de memória na cabeça. Eu só pude notar que memórias incoercíveis eram reais quando a guerra começou. A partir do momento em que a Alemanha avançou contra o meu país, a Holanda, inúmeras lembranças desse tipo passaram a ser tão reais quanto o som dos aviões que bombardeavam cada cidade de meu país. Eu posso te dizer com toda a certeza do mundo que até hoje o maior surto de memórias incapazes de serem esquecidas nasceu nessa época: a época do horror da Alemanha Nazista.

Essa época foi uma época marcante para mim e para minha família. Não posso lhe dizer que foi de todo ruim, pois fora nesses dias em que conheci pessoas verdadeiramente especiais para mim. Em contrapartida, da mesma forma que conhecia pessoas especiais, eu perdia pessoas especiais também. Não só eu como meus pais e irmãos também carregavam o peso da guerra em suas costas. A guerra juntamente com as tragédias que a marcam fazem com que surja um peso atrás de cada um que está envolvido nela de maneira direta ou indireta. Um peso tão pesado que somos incapazes de carregar. O que nos resta fazer é esperar que o tempo tire o excesso daquele peso para nós a fim de que talvez nos tornemos aptos a levar o que sobrou para longe, porém, mesmo quando o excesso é tirado, nosso corpo jamais será o mesmo de antes. Minha família sofreu muito com isso e até hoje todos nós ainda carregamos um pouco do fardo que a guerra nos deixou.

Eu venho de uma família bem grande. Nós da família Rode Wolven temos essa tradição de nunca haver menos de três filhos morando sob o mesmo teto. Sempre fomos uma família unida, levando em conta até mesmo os familiares que vivem longe de nós. Antes da guerra, era bem comum nós viajarmos para a casa de nossos parentes da mesma forma que eles também viajavam para nossa casa. Mesmo sendo uma casa pequena onde só cabia eu, meu pai e meus irmãos, sempre tinha um jeitinho de fazer todos dormirem em todos os cômodos possíveis. Era comum ver em noites de festas de aniversário várias pessoas dormindo no chão, dentro de armários, no porão e até mesmo do lado de fora. Andar pela casa de madrugada apenas para pegar um copo d’água era um verdadeiro campo minado. Para papai, onde dormia uma pessoa, três pessoas poderiam dormir também. Eu não costumava a me importar muito com isso. De certa forma até gostava da presença de meus parentes, mas assim que a guerra começou, ninguém mais visitou ninguém.

Não tenho dúvidas de que a guerra ocupou um espaço em nossos corações e tomou o lugar daquilo que nós sentíamos uns pelos outros. Naquele tempo, não existia mais família, só existia nosso próprio eu, a guerra e nada mais.

Eu não sou bom com apresentações. Nunca fui na verdade — e talvez isso fique mais evidente conforme minha escrita vai avançando através da leitura voraz que você irá fazer vasculhando minhas memórias tão especiais —, mas sinto que é necessário lhe dar algumas explicações para te fazer mais imerso no que escrevo. Espero que não se importe com isso.

Me chamo Christoffel e sou o segundo mais velho de cinco irmãos, então mesmo que eu não seja o mais velho, tenho muitas responsabilidades a cumprir tendo em vista que meu irmão mais velho está quase sempre com sua mente obsoleta em seus estudos e pensamentos.

Meu irmão Frederik é cinco anos mais velho do que eu, e sua maturidade se remete em inúmeros aspectos do dia-a-dia. Posso te dizer que grande parte das coisas que eu sei hoje — como cozinhar, pescar e identificar plantas e ervas — não partiram de apenas de meu pai, mas também de Frederik que me ensinou quase tudo o que eu posso figurar em minha mente no momento. Nessa época ele tinha dezessete anos e havia terminado a escola já fazia um ano, porém eu nunca vi ele parando de estudar. Mamãe sempre dizia que estudar era essencial para se ter um grande futuro, contudo Frederik parecia focar demais nisso e o motivo dele fazer isso era bastante claro para mim pois ele sempre quis que nossa família vivesse uma vida confortável.

Antes desses eventos acontecerem, nossa família vivia em Roterdã, entretanto, nossa vida não era a melhor de todas. Eu admirava meu irmão Frederik pois ele era bom em tudo o que fazia, além de que, por mais que ele sempre estivesse ocupado, eu sabia que ele pensava em nós. Ele inclusive sabia que eu era adepto a seus feitos e tentava copiá-lo de todas as formas possíveis. Nunca funcionava, porém, ainda assim ele me apoiava. Frederik foi o responsável por me dar vários apelidos e tenho lembranças muito bonitas com ele. Ele era a pessoa que eu mais admirava e me inspirava.

Depois de mim, eu tenho mais dois irmãos. Eles têm apenas um ano de diferença, mas são tão unidos que até mesmo parece que nasceram no mesmo dia. Ambos gostam das mesmas coisas, fazem tudo simultaneamente e são dois atentados. Tenho a moral de dizer isso sobre meus próprios irmãos, afinal eu convivo com eles diariamente, então peço que não se importe comigo os chamando dessa forma pois não me restam muitas palavras para explicar o quanto esses dois garotos são endemoniados. Você vai entender isso mais frente. O mais velho se chama Hugo que na época desses acontecimentos tinha oito anos e o mais novo se chama Nicolaas de sete anos. Para não dizer que eles são a mesma pessoa, Hugo era um pouco mais encrenqueiro do que Nicolaas enquanto Nicolaas era um garotinho bem mais sensível, tanto que ele chorava com mais facilidade do que Hugo. Sinceramente eu nunca vi criança alguma com mais energia do que meus dois irmãos. Eles pareciam muito mais macaquinhos do que duas crianças, mas isso não significava que eu não os amava. Eles sempre tinham um jeito bem especial de me alegrar. Mesmo que eu estivesse cansado, às vezes eu gastava o tempo livre que eu tinha sobrando para brincar com eles na falta de Frederik que passou a parar de brincar conosco depois que virou um homem. Eram constantes as vezes em que eu sentia que Nicolaas e Hugo se davam por falta de Frederik, então eu me esforçava ao máximo para preencher esse vazio que meu irmão deixava. Em minhas memórias eu me lembro de perguntar para mim mesmo se quando eu crescesse eu viraria alguém como Frederik, mas não do jeito bom como eu imaginei. Se ser como Frederik significava que eu não teria mais tempo para ficar com aqueles que amo, talvez eu não devesse crescer.

Como você pôde ver, até o momento, essa família era composta por três garotos, dois homens e uma mulher. Mamãe nunca pareceu se importar com isso mesmo suspirando às vezes imaginado como seria se ela tivesse uma linda garotinha. Na época eu achava uma ideia terrível porque, seguindo minha linha de raciocínio, garotas dariam o dobro de trabalho para nós rapazes que já tínhamos nossos próprios problemas para resolver. Nós nunca cuidamos de uma garota afinal de contas, então seria duas vezes mais difícil. Na minha cabeça se a mamãe tivesse uma garota, seria a pior coisa do mundo e eu com certeza nunca iria cuidar de uma garota fresca como minha irmã — se eu tivesse uma. Era o que eu achava até cinco anos atrás quando minha irmã Arabella nasceu.

Arabella é a caçula da família e cresceu junto com Hugo e Nicolaas, mas eu não deixava ela se misturar com meus irmãos pois sempre achei que o convívio com eles talvez fizesse ela se tornar igualmente travessa como eles. Os três dividiam o mesmo berço, então precisava ser cauteloso. Arabella cresceu sobre meus cuidados, os de Frederik e os de mamãe. Criamos ela com todo o nosso amor e com o passar dos anos Arabella foi se tornando uma garotinha cheia de pureza, inocência e felicidade. Posso te dizer que era impossível olhar para minha irmã sem abrir um pequeno sorriso no rosto. Até mesmo nos dias em que meus irmãos e eu estávamos para baixo, Arabella sempre conseguia nos alegrar com seus gestos e carinho. Ela era o tesouro de nossa família e tínhamos medo de perdê-la para a morte. Infelizmente esse medo se tornou mais real para nós assim que minha querida irmã desenvolveu problemas pulmonares sendo esses problemas um dos principais motivos para esse livro existir, mas passa longe de ser um dos únicos.

Em Setembro de 1939 a Alemanha atacou e ocupou a Polônia. Em seguida, conquistou a Dinamarca em abril de 1940 junto com a Noruega que foi invadida no mesmo dia. As tropas alemãs estavam avançando gradualmente em toda a Europa deixando sempre um rastro de dor e destruição por onde passavam. Nós, os filhos mais novos, não tínhamos qualquer conhecimento sobre o que estava acontecendo, mas não demorou muito para que eu descobrisse o que havia por trás dos panos através de estratégias alternativas e uma pequena ajuda do destino.

Lembro que nós sequer podíamos sair de casa sem Frederik, o papai ou a mamãe. Foram tempos difíceis para todos nós. Não havia ninguém na família ou ao nosso redor que estivesse totalmente são pois a guerra era como um cadáver em decomposição que sempre estaria à espreita em nossas costas acariciando nossos pescoços até chegar o momento em que esse corpo nos apertaria sem chance de realizarmos qualquer movimento; nos sufocando e nos matando no final. Ninguém nunca saberia o momento em que a guerra apertaria nossos pescoços e nos mataria, então o que nos restava fazer era sermos mais espertos do que aquele corpo vazio. Precisávamos agir antes dele dar seu bote e nos transformar em mais um como ele.

Constantes eram as vezes em que víamos papai e mamãe com um olhar de desespero tomando conta de seus rostos à medida que eles liam os jornais que eram entregues em nossa casa todos os dias contendo manchetes que deixavam cada vez mais escancarado que a Holanda, a França e outros países da Europa sofreriam a invasão e a repressão alemã. Nosso país estava na mira dos nazistas e tínhamos que pensar depressa antes que algo terrível acontecesse. Eu sabia que meus pais estavam angustiados com alguma coisa, mas não sabia o que era ao mesmo tempo que eu figurava em minha cabeça que a resposta para todas as minhas perguntas estava mais perto do que eu imaginava. No caso, as respostas estavam nos jornais que papai e mamãe liam, e foi essa a maneira que encontrei para descobrir tudo o que estava acontecendo naqueles tempos.

Frederik era o único filho da família que sabia sobre a guerra desde que ela começou, isso se dava pelo fato de que muito provavelmente Frederik seria convocado para lutar na guerra alguma hora ou acabaria por se envolver com a guerra de maneira direta em algum momento. Mesmo sabendo disso, mamãe e papai oravam todos os dias para que isso não acontecesse. Até hoje eu me culpo pelo fato de que se eu tivesse orado pelo meu irmão também, talvez Frederik não tivesse nos deixado por tanto tempo.

Mesmo que não fôssemos judeus, a raça impura segundo os pensamentos fétidos de Hitler, ainda assim nossas cabeças não estariam à salvo. Ninguém de nossa família compactuava com as ideias da Alemanha, principalmente papai que trabalhava num jornal da Holanda naquela época e gostava de expor tudo aquilo que ele pensava sobre a guerra que estava acontecendo. Papai chamava os Alemães de todos os tipos de nomes que você poderia imaginar, mas infelizmente não posso dizê-los aqui, então pense no pior apelido que você poderia dar para alguém e imagine que foi esse tipo de coisa que ele publicava em suas manchetes.

Mamãe também não compactuava com as ideias da Alemanha, porém, diferente de meu pai, ela guardava o que ela pensava para si pois tinha medo do que poderia acontecer à família se descobrissem o que ela pensava. Às vezes eu via os dois discutindo pois minha mãe sabia que se as coisas continuassem daquela forma, papai mataria nós sete apenas porque não conseguiu segurar sua língua falando besteiras em uma quantidade exorbitante sobre coisas que ele não saberia como lidar. Papai também falava sobre minha mãe. Não gostava do jeito que ela agia em meio à guerra que estava acontecendo não se impondo e agindo como gado que apenas segue as ordens de seu fazendeiro aceitando tudo o que estivesse acontecendo ao seu redor esperando o abate. Frederik e eu sempre tentávamos apaziguar a situação quando eles brigavam mas sempre que nossos pais discutiam, um deles dormia em nosso quarto.

Desde aqueles que sabiam sobre a guerra até aqueles que nada sabiam, entendiam que nosso país estava em perigo e que logo mais sofreria as consequências daquela guerra maldita. Ainda que as tropas fossem reforçadas nas fronteiras da Holanda para impedir os Nazistas de adentrarem em nosso território, não nos sentíamos seguros. Nós estávamos certos, e em maio de 1940 a Alemanha invadiu a Holanda ocupando nosso território assim como todos previram mesmo conosco declarando neutralidade em meio à guerra. Porém, antes de tudo acontecer, mamãe e papai pensaram mais rápido do que os alemães, fazendo com que um mês antes da invasão acontecer, fossemos capazes de fugir de onde morávamos rumo a um local onde eu só ouvia falar, mas nunca havia visto de perto: o vilarejo de Wandelende Heuvel.

Esse era um pacato lugarzinho localizado no interior da Holanda. Papai quando era criança morava nesse recinto com os meus avós que vivem lá até hoje juntos de alguns de meus tios e primos. Como é um lugar pequeno, as casas e fazendas de todos os meus parentes são bem próximas, então todos costumam a se visitar quando podem. Uma certa parte da família infelizmente acabou se separando e atualmente esse pequeno grupo só se comunica por cartas, mas ainda mantemos contato.

Quando a guerra começou, a primeira coisa que passou pela cabeça de meu pai fora se refugiar naquele vilarejo já que teríamos a companhia de nossos parentes. Além disso, as cartas que nossos tios nos mandavam indicavam que aquele vilarejo permanecia pacífico mesmo em meio à guerra. Aquela parecia ser a melhor alternativa, não só para mamãe e papai, mas também para nós os filhos. Por esse motivo, na madrugada de nove de abril de 1940, sendo aparentemente uma madrugada como qualquer outra, nossa longa jornada de Roterdã até o interior aconteceu. Uma madrugada curta para meus irmãos que dormiam tranquilamente nos nossos colos como anjinhos sem conhecimento sobre o que realmente estava acontecendo através das janelas de nosso carro, mas uma longa madrugada para meus pais, Frederik e eu.

Uma nova vida enfim iria começar para nós, mas ninguém sabia como seria essa vida dali para frente. Poderia ser boa ou ruim. Tudo dependia de nossa sorte, o problema era que depender da sorte num momento como aquele era como um tiro no escuro.

As memórias dessa madrugada continuam vívidas dentro de mim até hoje. Eu só não imaginava que a madrugada mais longa de minha vida ainda estava por vir. No dia em que nós partimos rumo ao interior da Holanda, os meus pais estavam brigados devido a uma discussão que eles tiveram na quarta-feira. Eu não me lembro do motivo dessa discussão pois minha mente provavelmente categorizou esse motivo como algo não tão importante fazendo com que eu me esquecesse dele, mas eu acho que tinha algo a ver com a decisão de nossa família ir ou não ir embora de onde vivíamos — o que era a opção mais plausível. Pelo o que parecia eles haviam se resolvido na tarde de sábado, várias horas antes de partirmos. Foi algo muito estranho para ser sincero. Mais parecia que eles não haviam se desculpado de verdade e a única coisa que eles tinham feito tinha sido ignorar a discussão que tiveram para pensar em nós, seus filhos.

Naquela época eu dormia no mesmo quarto que Frederik enquanto meus irmãos menores dormiam com nossos pais. Talvez por eu e Frederik sermos os mais velhos tivemos o nosso próprio quarto, porém, aparentemente se a guerra não tivesse acontecido, depois de que se tivesse passado alguns anos, nossos irmãos também dormiriam lá pois o quarto de meus pais era mais como uma espécie de berçário. Não era algo tão ruim dormir com mais alguém no mesmo cômodo, afinal eu gostava da companhia de meu irmão quando eu não conseguia dormir. Nós costumávamos a conversar à beça sobre assuntos variados e eu sentia que nunca nos faltava assunto. De vez em quando virávamos a noite conversando sobre como foi nosso dia e sobre coisas que não contávamos para o resto da família quando nos reuníamos na mesa de jantar, mesmo que grande parte das vezes nós apenas falássemos sobre o MEU dia exclusivamente pois a vida de meu irmão era monótona de maneira exagerada. Eu não o culpo no final das contas. Não acho que eu possa extrair muita coisa de quem vive estudando. Apesar de que, se eu posso falar algo muito bom que tínhamos quando conversávamos, era o meu aprendizado. Aprendi muitas coisas com Frederik. Meu irmão era como uma grande enciclopédia e todas as perguntas que eu tinha, ele sabia como responder não importava qual fosse.

Quando estava em meu quarto, eu costumava a dormir olhando para o céu estrelado pois como eu disse, desde pequeno eu gostava muito do céu e das estrelas e eu sentia que as estrelas gostavam muito de mim também. Infelizmente nem elas estavam me ajudando a dormir naquela madrugada. Eu sentia minha cabeça dando voltas e mais voltas em uma rodopia que não tinha fim, tudo por causa dos malditos jornais que eu estava lendo desde o dia em que papai e mamãe brigaram. Eu admito que não deveria ter feito aquilo, todavia você já foi uma criança antes, então você sabe que quando seus pais te mandam fazer algo por um motivo que você nem sabe qual, isso só te dá mais vontade de fazer aquilo que te proibiram.

Quando eu fiquei sabendo sobre a guerra, não conseguia mais parar de ler pois precisava saber o que estava acontecendo no mundo. Foi muita informação para mim descobrir a razão de não poder ler os jornais. Quando terminei de ler a primeira manchete, nem consegui comer pelo resto do dia pensando no que poderia acontecer conosco. De alguma forma acho que papai não percebeu que eu tinha lido coisas sobre aquele assunto por um tempo — era o que eu achava pelo menos. Esse foi o principal motivo de não conseguir dormir não só naquela noite, mas também em outras. Não conseguia fazer mais nada sem imaginar que a qualquer momento o nosso país poderia ser invadido e nossa cidade bombardeada.

Já era primavera na Holanda, mas apesar de ser primavera, aquela madrugada estava gélida como uma limonada no verão. Nada tão diferente das outras madrugadas que tivemos, mas para mim parecia mais que eu estava dentro de um freezer. Em cima de minha cama, eu me mexia e me contorcia de um lado para o outro como um cão, sempre buscando encontrar a posição mais confortável possível para que eu pudesse pegar no sono, porém nenhuma posição em que eu me localizava me satisfazia o suficiente ao mesmo tempo que eu tirava e colocava meu cobertor azul marinho de cima de mim. Eu sabia que o problema real não era algo bobo assim, e por mais que eu tentasse colocar na minha cabeça que o motivo de eu NÃO conseguir cair no sono tenha sido não ter encontrado uma posição boa o suficiente para fechar nos olhos e sonhar, a razão disso era na verdade aquela que eu tentava ignorar. Por mais que eu tentasse ignorar essa razão e colocar a culpa de não estar conseguindo dormir em outros elementos totalmente diferentes, no fundo sabia que eu não fui capaz de dormir por puro pânico em pensar naquela guerra. Sentia que estava frio demais, mas não estava. Sentia que estava claro demais mas não estava. Sentia que a cidade estava muito barulhenta, mas não estava. Era tudo coisa da minha cabeça.

O que eu não contava era que do outro lado do quarto, em sua respectiva cama, meu irmão Frederik observava eu me contorcer fazendo com que a minha cama velha e enferrujada rangesse a cada mínimo movimento. Eu admito que no lugar dele eu já estaria louco e arremessaria a coisa mais próxima de mim na cabeça de quem estivesse fazendo aquela cama ranger tão ferozmente, porém, Frederik parecia bastante sereno — até porque eu raramente o via irado com coisas pequenas como essas.

Meu irmão mais velho em alguns momentos parecia até conseguir ler minha mente e não foi tão diferente naquela hora. Eu sentia que ele estava apenas esperando o momento certo para me perguntar o que estava acontecendo mesmo que ele já soubesse de tudo. Era como se ele estivesse me dando a opção de confessar meu crime para diminuir minha pena. Se eu não assumisse o que eu fiz, ele contaria o que eu fiz para meus pais e consequentemente minha pena seria maior. Frederik suspirava enquanto balançava sua cabeça de um lado para o outro como se estivesse falando “e lá vamos nós de novo”, mantendo um sorriso nostálgico em sua face. Era hora de eu confessar o que estava acontecendo.

— Sem sono, irmão? — perguntava Frederik sem tirar seus olhos do livro que ele estava lendo.

Era raro ver Frederik dormindo àquela hora pois ele era um rapaz bem mais noturno do que diurno. Eu já o perguntei o motivo dele só dormir durante o dia e ficar acordado durante a noite e ele me disse que sentia que suas ideias entravam em um consenso em sua mente. Aquela era a melhor hora para se ler um livro ou estudar, afinal todos de casa estariam dormindo e consequentemente ele não precisaria se preocupar com nenhum barulho. Aquilo fazia bastante sentido parando para pensar atualmente. Infelizmente naquele dia eu não estava “madrugando” porque eu queria.

— Não consigo dormir, Frederik — eu falei baixinho enquanto me virava para o lado contrário da cama de meu irmão. — Acho que vou ficar acordado com você hoje.

— Vai me contar o motivo de estar assim ou quer que eu adivinhe? Já está assim desde quarta-feira.

— Você não vai adivinhar como nas outras vezes. Além disso, eu estou bem, só não estou conseguindo dormir. — Eu aparentava estar bem mal-humorado em meio àquela situação, isso se dava pelo fato de não estar conseguindo dormir direito durante todos aqueles dias.

Ele estreitou seu sorriso de forma irônica.

— É mesmo? Pensei que papai já havia lhe dito que não queria você lendo os jornais que chegam aqui em casa. — O som da página de seu livro sendo folheada ecoava pelo vazio daquele quarto que era iluminado apenas por uma lamparina em cima da mesa de cabeceira ao lado da cama de Frederik.

— Quê?! — eu gritei abismado. Não imaginava que meu irmão fosse saber disso tão fácil assim. — Como você sabe que eu ando lendo jornais?!

— Porque por algum motivo todos os jornais que papai trás do trabalho dele estão sumindo da dispensa onde ele os guarda. — Frederik fechou seu livro, finalmente fazendo contato visual comigo mantendo aquele seu enigmático sorriso. — Além disso, se quer esconder as coisas que rouba, livre-se delas depois, coloque de volta onde encontrou ou tente esconder num lugar menos óbvio. Mamãe sempre varre debaixo de sua cama então é questão de tempo até ela achar os jornais que você lê.

Eu consegui ouvir meu estômago embrulhar. Não sentia nada naquele momento além de vergonha. A única coisa que pude fazer foi abaixar minha cabeça e cobrir todo meu corpo com meu lençol azul marinho.

— Você vai contar pra mamãe e pro papai? — perguntei tímido.

Meu irmão riu baixinho como se estivesse achando graça de toda aquela situação por mais infeliz que ela fosse para mim.

— Não seja bobo, Christoffel. Eu não vou contar pra ninguém a não ser que seja necessário. A esse ponto eu imagino que você deve ter aprendido a lição sobre o porquê de não poder ler esses jornais.

— Está falando da guerra? — perguntei enquanto tirava o lençol de cima de minha cabeça.

Frederik acenou com sua cabeça para cima e para baixo quase que de maneira imperceptível, abrindo então uma das gavetas do móvel que ficava ao lado de sua cama e guardando cuidadosamente seu livro sem título junto à inúmeros outros livros que ficavam naquele móvel.

— Papai e mamãe estão fazendo de tudo para que você, Arabella, Hugo e Nicolaas não saibam sobre a guerra. Mesmo que você seja um dos mais velhos, você ainda é muito imaturo para saber de uma coisa dessas, mas sendo sincero, sabia que você iria acabar descobrindo uma hora ou outra.

Ele dizia ao mesmo tempo que ia se posicionando na cama até se sentar na beirada dela, olhando fixamente para mim enquanto curvava um pouco suas costas.

— E o que podemos fazer? — eu dizia enquanto me sentava em minha cama, encarando meus pés descalços. — Se invadirem a Holanda, Roterdã pode ser um dos primeiros alvos dos Alemães... E se a Holanda for invadida, o papai e você podem acabar sendo...!

— Não se preocupe comigo ou com o papai. Agora você precisa ser forte e pensar no resto da família. Eu e o papai sabemos o que fazer se formos convocados para lutar na guerra. Já somos homens no final das contas então sabemos nos virar. Você logo logo vai virar um rapaz também, então se nós dois não estivermos mais com vocês, me prometa que vai cuidar da mamãe e dos nossos irmãos, tudo bem?

Frederik discursava com um olhar de serenidade. Era uma forma dele dizer que independente do que acontecesse, tudo ficaria bem no final. Lentamente ele se levantava de sua cama e se sentava ao meu lado a fim de me confortar.

— Mas e se eu não conseguir? É muita responsabilidade para mim! Além disso... Eu sei que nunca vou conseguir ser como você ou o papai.

— Vai conseguir sim. — No momento em que ele falou aquilo, senti seu bbraço dar uma volta pelo meu pescoço, me abraçando de leve. — Eu conheço você, sei que vai ser capaz de fazer isso, Christoffel. Se isso acontecer, de longe eu vou estar lhe apoiando, e mesmo que eu não consiga realizar meus sonhos, vou lutar para que você realize os seus.

— Meus sonhos? — eu perguntava o olhando de canto.

— Desde pequeno você dizia que queria ser astrônomo e aviador. Não é por isso que você anda com uma bolsa com um monte de bugigangas para ver as estrelas? Você ainda tem esses sonhos, Chris?

Pude sentir algumas memórias dentro de mim. Memórias profundas que não chegavam a se categorizar como memórias incoercíveis que sempre martelam minha mente, contudo, era algo tão gostoso de lembrar que me fez pensar por um breve momento todas as belas coisas que me faziam feliz com meus cinco ou seis. Posso dizer que meu amor pelo céu e pelas estrelas sempre me acompanhou. Quando ficava sabendo de uma chuva de asteroides que ocorreria em minha cidade, corria para o quintal de casa para observar tudo com meus próprios olhos e olhava tudo em transe, completamente encantado e imerso como se estivesse vendo a coisa mais incrível e perfeita de todo o mundo.

Porém, sentia que observar tudo apenas com meus olhos nus não era o suficiente. Eu queria olhar tudo o mais perto que pudesse, então eu pedi para meu pai me comprar alguma coisa onde eu pudesse guardar tudo aquilo que me ajudasse a ver o que não podia enxergar claramente sem auxílio. Foi aí que eu ganhei minha bolsa de lado. Desde pequeno eu venho guardando coisas que ganho em meus aniversários nessa bolsa apenas esperando o grande dia em que eu vou ganhar meu tão sonhado telescópio. Mesmo que eu não conseguisse realizar meu sonho de voar, eu sentia que observar o céu e as estrelas de perto me davam uma sensação de que eu estou no céu junto com elas. Em minha bolsa preta decorada com desenhos brilhantes de estrelas, asteroides, e claro, com meu nome escrito nela, existe todo o tipo de coisa que você pode imaginar. Binóculos, lupas, minha preciosa luneta que ganhei em meu último aniversário, livros sobre astronomia contendo desenhos e conteúdo sobre corpos celestes, e claro, meus cadernos em que eu anoto coisas interessantes que aprendi. De todos os objetos que tinha naquela maleta, a minha luneta era a coisa que eu mais gostava de usar, pois além de ser um objeto que significava muito para mim, tinha o sobrenome da família escrita nela tornando possível identificar que aquela luneta era minha. Ela não servia de telescópio e não conseguia ver nenhum planeta ou estrela de tão perto, mas era a melhor coisa que eu poderia ter ganho, principalmente porque meu pai quem me deu essa relíquia tão especial. Além disso, eu poderia ver as coisas de uma forma bem mais ampla do que com um simples binóculo. Acho que mesmo que eu ganhasse um telescópio, ainda assim nunca aposentaria minha amada luneta.

— Sim, eu ainda tenho. Papai até mesmo me deu uma luneta no meu último aniversário — eu dizia enquanto ria baixinho.

— E você gosta dessa luneta?

— Claro que gosto! — eu respondia timidamente. — É a coisa mais especial que eu tenho! Papai trabalhou muito para comprar isso e é a luneta mais bonita que já vi no mundo todo!

— Realmente — concordou Frederik. — Isso que você tem é uma grande relíquia. Não a perca por nada, entendeu?

— Eu não vou perder! — respondi confiante e com convicção daquilo que falava. — Jamais deixaria uma coisa dessas acontecer!

— É bom que pense assim, Chris. Guarde as coisas mais importantes para você num lugar bem especial e você nunca esquecerá que essas coisas existem.

— Eu sempre faço questão de guardar as coisas mais especiais para mim em lugares que sei que sempre vão existir.

Nós dois soltamos uma leve risada.

— Se você continuar assim, quem sabe eu te dê um telescópio no seu próximo aniversário?

— Tá brincando!? — indaguei por ter sido surpreendido com aquilo que meu irmão dissera de repente. — Você não pode estar falando sério...!

Frederik ria ao mesmo tempo que apertava um pouco seu braço em meu pescoço, me puxando para o seu lado fazendo com que minha cabeça encostasse em seu peito. Aquele foi um bom momento para Frederik aplicar um belo cafuné na minha cabeça. O único problema é que os cafunés que Frederik me dava eram um tanto fortes e por causa disso minha cabeça doía sempre que ele aquilo apesar de saber que seus cafunés sempre eram repletos de carinho.

— Sabe que eu nunca mentiria para você — Ele bagunçava meus cabelos girando sua mão destra em minha cabeça com força enquanto ria.

— Gaaah!! Frederik!! Minha cabeça tá doendo! — Eu sinalizava tentando me debater nos braços de Frederik.

— Tehehe! Tudo bem, tudo bem, me perdoe.

Senti um alívio enorme enquanto meu irmão me largava de seus braços. Por alguns segundos, fiz uma cara feia para Frederik fingindo estar bravo com ele por aquilo, mas ela logo tomou por se desmanchar dando lugar a uma expressão alegre seguida de uma leve risada.

— Eu imagino que mesmo assim não consiga dormir — continuava o maior. — Nesse caso não vejo problema procurarmos algo na cozinha para comer. O que acha?

— Hm... — Eu parei um momento para refletir sobre aquela proposta. — A mamãe não vai ficar brava?

— Não se preocupe com isso. Já está tarde e toda a casa está dormindo. Ela nunca vai saber, e se pegar a gente no flagra, eu tenho minhas artimanhas pra me safar de encrencas. — Segurando em minha mão, meu irmão mais velho lentamente puxou-me para fora de minha cama ao mesmo tempo que ele se levantava. — Vamos. Não é todo dia que fazemos algo assim, certo? Você tem que aproveitar enquanto seu irmão mais velho está aqui.

Eu não pude falar nada naquela hora. Com seu segurar suave em minha mão fria devido àquele temporal, mas ao mesmo tempo suada devido a todo meu nervosismo, eu apenas me levantei de minha cama, começando a ser levado pelo meu irmão pelos cômodos vazios e levemente empoeirados de minha patética casa. Casa essa que apesar de ter coisas especiais para nossa família aqui e ali, ainda assim era relativamente simples como uma caixa de joias contendo apenas uma única, pequena, oval e rachada pérola que por algum motivo ainda cintilava como em seus dias de glória. Era estranho. Parecia que naquele instante, por alguns breves momentos, eu me esqueci de tudo aquilo o que eu havia lido nos jornais naqueles dias sombrios e apenas me concentrava em chegar silenciosamente até a cozinha com aquele que me guiava como as brisas da primavera. Segurar a mão de Frederik e caminhar pela casa como se fossemos sapos em um ninho de cobras me fez lembrar das vezes que meu irmão me protegia dos perigos que me cercavam. Ele sempre estava com um pequeno sorriso em sua face que quase nunca se desfazia. Eu queria andar sempre com um sorriso assim que nem meu irmão. Queria ajudar meus irmãos mais novos como Frederik sempre me ajudou.

Eu só queria ser alguém como ele sempre foi para nossa família. Alguém importante, não só para nossos pais, mas para todos em sua volta. Todavia achava que não importava o quanto eu me esforçasse, jamais seria como ele.

Em meio a alguns ruídos e risadas tão bobas e quase imperceptíveis, enfim conseguimos chegar à cozinha. Nossa cozinha era um dos maiores cômodos da casa contendo prateleiras e armários espalhados para todos os cantos que olhássemos. Como nossa família era uma família de sete pessoas, mamãe tinha muitas bocas para alimentar e talvez essa tenha sido a razão de termos tantos armários com tanta comida dividida em tantos setores.

Quando Frederik e eu chegamos à cozinha, sem demora eu puxei uma cadeira delicadamente para que ninguém acordasse naquela noite onde apenas o vento gélido podia ser ouvido e sentei-me à mesa onde a cadeira estava. Ao sentar-me à mesa, meu irmão começou a vasculhar nos armários da cozinha procurando algo para que nós dois pudéssemos comer. Eu nem estava com tanta fome ao contrário de Frederik que mais parecia um lobo faminto procurando em meio aos bosques vazios sua próxima refeição.

— O que vai querer comer? — perguntou Frederik enquanto colocava um pedaço de pão na boca. Provavelmente ele deve ter pego esse pão de um dos armários enquanto eu me sentava.

— O que temos pra hoje?

— Não ache que está num restaurante ou algo do tipo, mocinho — ele dizia em um aspecto bem humorado. Estava de boca cheia enquanto ia até a geladeira, fechando o armário que estava vasculhando coisas para nós dois comermos. Ele não deve ter achado nada. — Não estou aqui para fazer comida, só para servir as que já estão prontas.

Caminhando pela cozinha, meu irmão vasculhou cada armário que lá havia, mas não achou nada que pudéssemos comer àquela hora da noite. Tendo como última opção a geladeira, Frederik caminhou até aquele eletrodoméstico em passos vagarosos enquanto o pão que estava em sendo segurado pelos seus lábios ia deslizando cada vez mais para dentro da boca dele. Seus olhos passearam pela geladeira quando ele abriu o móvel, procurando algo para apenas me servir, afinal ele já estava se deliciando com um pedaço de pão ligeiramente duro, então não precisava se preocupar com o que tinha de comer se concluirmos que ele já estava comendo algo. Esgueirando sua visão aos fundos da geladeira, ele conseguiu ver algumas garrafas de leite deitadas como se estivessem se oferecendo para serem bebidas. Mamãe havia comprado aquele leite recentemente com planos de bebermos apenas no café da manhã, mas acho que quebrar uma regrinha aqui e ali de vez em quando não faz mal. Uma velha amiga me ensinou isso e vocês vão conhecê-la mais para frente, eu garanto.

— Leite com biscoitos pode soar um pouco clichê, mas é a melhor coisa que pode comer numa hora dessas sem chamar a atenção de alguém. — Frederik tirava uma das garrafas da geladeira e colocava na mesa ao mesmo tempo que enfim terminava de comer o resto daquele pão em uma só bocada.

Eu observei meu reflexo na garrafinha em minha frente junto com o leite que balançava de um lado para o outro dentro da garrafa graças ao meu irmão que tinha colocado a bebida na mesa de maneira um tanto brusca, fazendo até mesmo com que um fraco barulho de impacto fosse ouvido. Eu sorri de maneira alegre. Meu reflexo distorcido parecia engraçado através do vidro daquela garrafa de vidro que já estava na metade e me fazia abrir um pequeno sorriso.

— Eu não me importo na verdade — dizia encostando minha cabeça na mesa, parecendo hipnotizado pelo meu próprio reflexo. — Mas onde estão os biscoitos? Só vejo a garrafa de leite aqui.

Eu pude ouvir alguns assovios irônicos vindo dos lábios de meu irmão maior ao mesmo tempo em que ele se encostava na parede da cozinha. Toda vez que ele começava a assoviar daquela forma, eu sabia que aquilo significava que alguma coisa estava errada.

— Sobre isso, eu diria que seria bom você sair da cozinha agora.

— Hã?! Por que eu preciso sair? — protestei.

— Você sabe, mamãe esconde o pote de biscoitos por um motivo. Imagino que não saiba onde ele está, e se não sabe, meu objetivo é fazer você continuar sem saber. — Ele soltava uma risada baixa.

— Ah, Frederik! Não vale! Qual o problema eu saber de uma coisa dessas?! — protestei novamente, ao mesmo tempo que me levantava de onde estava sentado.

— Claro que vale. — Ele se aproximava de mim, me empurrando com suas mãos em minhas costas tentando me levar para fora da cozinha. — Quando você tiver minha idade eu te conto onde esse pote está escondido. Assim que fizer dezessete anos eu vou saber que não vai comer todos os biscoitos de uma só vez como último natal.

— Mas isso vai ser só daqui a cinco anos! Você vai estar na universidade ou até trabalhando!!

— Então daqui a cinco anos eu lhe conto por carta, agora dê uma saída. Daqui a pouquinho eu te chamo, não vou demorar nem um minuto.

— Que saco! — falei fechando a cara.

Frederik finalmente parou de me empurrar quando por vontade própria eu mesmo comecei a caminhar para fora da cozinha em passos pesados e firmes. Acho que eu havia me esquecido que precisava fazer silêncio para não acordar meus pais e meus irmãos, mas naquela hora aquilo não importava para mim. Comecei a andar até a sala de estar que era o cômodo mais próximo da cozinha e me sentei na poltrona onde meu pai sentava. Papai não gostava quando alguém sentava em sua poltrona, mas novamente, aquilo realmente fazia alguma diferença? Papai nunca iria saber de qualquer forma, então nem liguei e sentei na coisa mais próxima que desse para sentar.

Me recordei por um breve momento que eu só devo ter sentado na poltrona do meu pai umas duas vezes em toda minha vida. Ele a tem desde que eu consigo me lembrar, e se me lembro bem, essa poltrona estava aqui antes mesmo de eu nascer. Talvez Frederik tenha presenciado a chegada desse móvel tão memorável, mas não é algo que vá mudar alguma coisa em minha vida. Era uma poltrona muito confortável. Mais parecia uma cama composta por plumas. De cima daquele móvel eu conseguia ter uma visão panorâmica de toda a sala.

— Acho que agora eu entendo porque papai não quer que ninguém sente aqui. É realmente uma poltrona muito confortável! — disse alegremente buscando encontrar uma posição mais confortável para ficar. — Eu podia dormir aqui fácil, fácil. É bem melhor do que minha cama...

E eu estava certo. Realmente o lugar onde estava era infinitamente melhor do que minha cama e eu facilmente dormiria ali ao invés da cama dura em que dormia todos os dias. Sem perceber, eu senti meus olhos lentamente começarem a se fechar mais e mais ao mesmo tempo que eu começava a perder o controle sobre meu corpo que ficava gradativamente imóvel e cansado. Minha boca se abriu, fazendo com que eu bocejasse levemente e minha visão enfim escureceu de uma vez com minhas pálpebras que caíram como dois pesos enormes em cima de meus olhos.

Faziam dias que eu não caía no sono assim Talvez ter aquela conversa com Frederik tivesse me deixado tão tranquilo a ponto do sono que eu já considerava inexistente dentro de mim, voltar para meu corpo. Incontáveis eram as vezes em que me perguntava como as pessoas conseguiam dormir mesmo sabendo que a qualquer momento uma grande catástrofe poderia acontecer em suas vidas, mas com o tempo eu aprendi que as pessoas que dormem em meio a tempos sombrios como aqueles na verdade nunca deixam de pensar nessas inúmeras possibilidades de desgraças que ocorrem ou deixam de ocorrer. A única coisa que elas fazem é ignorar grande parte desses problemas, mas esses problemas nunca desaparecem mesmo que você esqueça que eles existem.

Minha cabeça estava girando em uma rodopia sem fim como se estivesse dentro de um redemoinho traiçoeiro ao mesmo tempo em que minha visão se tornava cada vez mais embaçada e turva como o oceano em meio às incontáveis ondas que iam e vinham. Estava quase caindo de vez no mundo dos sonhos, porém, algo aconteceu antes de eu adormecer de uma vez.

Em meio à todo aquele silêncio que percorria a nossa pequena casa, pude ouvir ao longe o som do ranger de uma porta que parecia ser aberta com todo o cuidado de todos a fim de que, dessa forma, nenhuma das pessoas que estivessem dormindo fossem acordadas de seu sono. Frederik deve ter percebido esse enigmático ranger, mas imaginou que era eu quem estivesse abrindo uma das portas de casa. Essa conclusão podia ser plausível, porém eu estava dormindo no momento em que isso ocorreu então não poderia ter feito algo assim. A verdade era que essa porta que havia sido aberta em questão não era a porta do meu quarto, não era a da dispensa, não era a do porão e nem era a da entrada de casa. Na realidade a porta do cômodo que estava sendo aberta fora a do quarto de meus pais.

De dentro do quarto onde todos deveriam estar dormindo tranquilamente, meus pais saíram juntamente com meus três irmãos pequenos. Mamãe e papai estavam conversando entre si e aparentemente não haviam notado que tanto Frederik quanto eu estávamos fora de nossas camas em cômodos diferentes pela casa. Enquanto os adultos conversavam, era possível notar que papai segurava minha irmãzinha menor com delicadeza em meus braços pois, diferente do resto da casa, ela dormia profundamente. Meus irmãos mais novos, por outro lado, pareciam bem acordados e caminhavam logo atrás de mamãe e papai. Hugo e Nicolaas também conversavam casualmente assim como meus pais. Era difícil saber o que ambos estavam falando pois tanto Hugo quanto Nicolaas cochichavam um pro outro o mais baixo que conseguiam.

Após mamãe, papai e meus irmãos saírem do respectivo quarto em que estavam, os cinco foram à procura de Frederik e eu. Era algo um tanto estranho por assim dizer. Não era todo dia que nossa família toda acordava àquela hora da noite e aparentemente por motivo nenhum. O que eles não imaginavam era que tanto eu quanto Frederik não estávamos em nossos quartos. Mamãe só foi perceber isso quando deslizou a porta de nosso quarto para frente dando de cara com uma lamparina acesa acompanhada do som do vento gélido que batia na janela causando ruídos baixos e quase inaudíveis. De início toda a minha família achou aquilo muito estranho. Onde será que seus dois filhos mais velhos estavam afinal de contas? Bem, não estávamos tão longe, então não haviam motivos para que papai e mamãe se preocupassem.

Pude ouvir um “Que estranho, os meninos não estão no quarto.” Sendo seguindo de um “Não se preocupe, querida, eles devem estar por aí.”

Naquele momento meus olhos estavam cerrados e eu viajava na borda entre os sonhos e a realidade — o que nós podemos chamar de sonhar acordado — pois ao mesmo tempo em que eu estava dormindo, eu também sentia as coisas que estavam ao meu redor. Por isso eu ouvia tudo o que mamãe e papai falavam, porém, para mim tudo não passava de uma fração daquilo que estava sonhando. Quando se está vagando na fronteira entre a realidade e a fantasia se torna difícil saber o que é real e o que não é, da mesma forma que as palavras que você ouve se tornam desconexas e às vezes até mesmo se transformam em coisas totalmente diferentes. Contudo, se existir algo marcante o suficiente naquilo que você ouve ou sente em meio a esse estado de confusão, você se torna capaz de despertar por inteiro como se você fosse retirado das profundezas de um lago em que você estava se afogando. Foi o que aconteceu comigo. Passado alguns segundos desde que minha família passou a procurar-me, eu senti uma mão quente e fina tocando minha face suavemente. Sentia essa mão tocar em minha bochecha e deslizar por ela algumas vezes até que eu notasse que aquilo não era parte de um sonho. Era a mão de minha mãe, mas eu apenas fui capaz de notar que era sua mão quando meus olhos se abriram e eu vi seu rosto.

Aquilo me fez tomar um grande susto. Minha mãe era a última pessoa que eu gostaria de encontrar naquele estado em que estava, naquele lugar onde eu estava e da forma que eu estava. Mas a parte a qual mais me assustou foi quando percebi que ela não estava sozinha.

— Christoffel? — sussurrou minha mãe para mim fazendo com que eu erguesse minha cabeça com sua mão. — Christoffel, acorde.

Minha mãe passou um tempo se mantendo nessa insistência constante até que eu retomasse a consciência.

— Mama, Christoffel está bem? — perguntou meu irmãozinho Hugo. — Ele está branco como um fantasma!

— Fantasma? Será que ele morreu?! — completou Nicolaas, bastante preocupado com meu estado pelo o que aparentava estar. — Mama! Eu não quero que o meu irmão morra!

— Não sejam bobos, garotos — meu pai continuou tranquilizando meus dois irmãos menores. — Christoffel deve estar assim porque quase não comeu hoje. Ele deve ter se levantado para comer alguma coisa e acabou adormecendo.

— É o que parece, Izaac — minha mãe respondia. — Vamos, Christoffel. Você precisa se levantar para comer alguma coisa.

— Hm... — Eu comecei a dar os primeiros sinais de que estava acordando quando esfreguei meus olhos para ver melhor. Minha visão lentamente ia ficando menos embaçada e eu pude reconhecer minha mãe. — mama?

— Olhem! Ele acordou Mama Anne! Ele acordou! — gritou o pequeno Nicolaas.

Foi um susto ver todos eles reunidos naquela sala, estando em diferentes posições ao meu redor. Apesar de todos me olharem com olhos de preocupação devido ao estado que eu estava — mais parecendo um defunto —, minha confusão e meus pensamentos difusos fizeram eu encarar todos ali como se estivessem me julgando fazendo com que eu genuinamente me desesperasse. Não era para menos, tinha uma justificativa bem plausível para isso. Grande parte dessa justificativa vinha por parte de meus pais na realidade. Quando eles estavam brigados, qualquer passo errado era motivo de uma grande discussão, seja conosco, os filhos — que por muitas vezes nem tínhamos tanta culpa — ou por parte de papai e mamãe. Eu amava meus pais e sentia que eles estavam tentando evoluir conforme os dias se passavam devido a acontecimentos passados e também graças ao nascimento de Arabella, mas toda vez que eles brigavam, ambos voltavam para a estaca zero. Esse ciclo se repetia inúmeras vezes, e no final cabia a nós filhos termos que lidar com isso. Por esse motivo, por mais que estar sentado em um lugar que teoricamente você não deveria estar fosse um motivo bobo para ser punido, seja com um castigo ou alguns tapas no traseiro, eu não sabia o que esperar, por isso entrei em pânico.

— A-Ah!! M-Me perdoem!! E-Eu juro que não queria dormir fora do quarto! Acontece que eu e o Frederik saímos do quarto para comermos alguma coisa e eu acabei adormecendo aqui sem querer! Me perdoe papa! Eu não queria dormir em sua poltrona! Eu juro! — eu suplicava e insistia desesperado como se eu tivesse cometido o maior pecado de todos, mas só estava muito assustado com toda aquela pressão e as inúmeras coisas que estava passando por minha cabeça.

— Do que está falando, Christoffel? — interrompeu-me meu pai. — Eu não estou zangado por você ter sentado em minha poltrona. Por que ficaria bravo com algo assim?

Eu o olhei fixamente enquanto aos poucos me acalmava.

— O senhor não está zangado? — perguntei.

— Claro que não — ele reafirmava com um sorriso sereno em sua face, balançando levemente minha irmã que estava em seus braços. — Nós lhe acordamos porque ficamos preocupados com você. Está agindo estranho desde quarta-feira. Parece até que viu um fantasma.

— Sim, isso o que seu pai acabou de falar é verdade — minha mãe completava. — Você já não come direito há vários dias. O que está acontecendo?

— Você nem sequer comeu a torta de besouros que eu e o Nicolaas preparamos para você! — dizia Hugo.

Parecia que aos poucos as coisas estavam se estabilizando em minha mente a medida que ela ia ficando cada vez menos confusa e eu ia despertando. Meus pensamentos pareciam se alinhar à medida que meu estresse ia deixando de tomar conta do meu corpo.

— Me desculpem — eu falava tristemente mantendo minha cabeça abaixada. — Eu posso contar o motivo de eu estar assim depois? Não se preocupem, não é algo importante ou que vocês devam se importar. De verdade.

Eu sabia que papai e mamãe iriam se zangar comigo depois de descobrirem que eu sabia de coisas as quais jamais deveria saber, porém, não imaginei naquele instante que da mesma forma que eu mentia para eles, eles também mentiam para mim. Não só para mim, mas também para todos os meus irmãos. Eu sei que meus pais escondiam a verdade apenas para tentar proteger a nós os filhos da dura realidade, o problema é que meus pais e eu não sabíamos quanto tempo mais essa mentira poderia ser sustentada, tanto por eles quanto por mim. No final das contas, a mentira que nós contamos uns pros outros vale a pena se a verdade acabar por vir à tona algum dia? Eu não sabia, mas no momento em que uma mentira vai se moldando até se transformar em algo que não conseguimos mais segurar, machucando os outros bem mais do que se tivéssemos dito a verdade quando tínhamos a oportunidade, ela se torna uma coisa a se pensar. Arrependimentos não apagam as mentiras que contamos e nem a dor que causamos, então por mais que a verdade seja dolorida, essa dor vai passar alguma hora e será menos doloroso para nós. Eu posso ter descoberto as mentiras que meus pais me contaram, mas meus pais iriam acabar descobrindo de um jeito ou de outro a verdade que eu escondi deles também. O terror de não saber quando isso iria acontecer fazia tudo ainda pior.

— Mas... — eu continuei. — Por que vocês todos estão acordados a essa hora da noite? Já são duas horas da manhã. Quer dizer, eram duas horas da manhã quando sentei aqui.

Meu pai e minha mãe trocaram olhares profundos como as grandes depressões. A troca de olhares de ambos durou um tempo. Era como se estivessem se comunicando através de um dialeto secreto o qual eu não era capaz de entender por mais que esgueirasse meus olhos. Eles pareciam estar se perguntando se deveriam responder a minha pergunta ou não, mas quando iam dar o veredito final, meu irmão mais novo os interrompeu antes mesmo de começarem a falar.

— Nós vamos viajar essa noite!!!— disse Hugo repleto de alegria.

— Viajar?! — Aquela notícia fez com que eu me engasgasse com o próprio ar que eu respirava, quase me fazendo vomitar o pouco de comida que eu havia comido ao longo daquele dia. — Como assim viajar?! Para onde vamos?!

Eu pude ouvir o suspiro de meus pais soando juntos como um pequeno coro. Ao mesmo tempo que seus suspiros indicavam tamanho nível de tristeza em ter que noticiar algo assim para mim, eu também sentia que no fundo aqueles suspiros indicavam um certo alívio como um peso sendo retirado.

— Eu e sua mãe conversamos esses dias e nós achamos que seria bom passarmos um tempo em Wandelende Heuvel — dizia meu pai.

— Isso mesmo — minha mãe continuou de maneira serena. — Você se lembra de Wandelende Heuvel, não lembra, Chris?

— É o... — Eu engoli a seco. — O vilarejo em que o vovô, a vovó e nossos tios moram, não é? Faz... Faz muito tempo que nós não vamos para lá...

— Exatamente! — exclamou meu pai. — Nós vamos passar um tempo por lá. Vai ser bom para você e Frederik matarem a saudade de seus tios, além disso Nicolaas, Hugo e Arabella vão finalmente poder conhecer o lugar em que sua mãe e eu nascemos.

— Eu tô ansioso!! A gente nunca foi pra lá! — completou Nicolaas.

— Vocês vão gostar, meninos — dizia minha mãe. — Wandelende Heuvel é um lindo vilarejo e tem muito espaço para vocês brincarem. Tenho certeza de que você e seus irmãos vão gostar, Christoffel. Até mesmo Frederik vai gostar já que ele vai ter mais silêncio para estudar.

— Falando nisso, onde ele está? — perguntava meu pai olhando ao redor parecendo um pouco desnorteada devido à pouca luz da sala. — Olhamos no quarto e ele não está lá.

— Ele está na cozinha... — Ainda estava processando toda aquela informação. Parecia que minha cabeça estava girando em voltas e mais voltas. Aquilo tudo não fazia o menor sentido para mim. Geralmente eu ficaria feliz por viajar, ver meus tios e avós que quase nunca via e etc, mas por que íamos viajar de uma hora para outra para um lugar tão distante? Por que tinha de ser naquele exato momento? Não podíamos esperar mais? Não podíamos nos despedir de nossos amigos? Mais parecia que éramos fugitivos... — Mas por que vamos viajar assim do nada, papa?! Não tivemos nem tempo de nos despedir dos amigos e família que temos aqui da cidade! Vocês não me falaram nada antes!

— Nos perdoe por não ter falado, meu amor — minha mãe dizia segurando em minha mão. —, mas precisamos que compreenda. Nossa pequena viagem será necessária para um bem maior.

— E que motivo é esse?! Por que precisamos sair daqui?! Eu não entendo, mama!

As palavras de minha boca começaram a sair mais alto do que pude conter. Não se passou muito tempo desde que me recuperei de meu choque inicial, e sem sequer notar, estava me exaltando. Eu não estava conseguindo engolir tudo aquilo. Mesmo que perguntasse o motivo de termos de ir embora às pressas de nossa casa, sabia que esse motivo era algo relacionado aos alemães e às guerras que estavam prestes a se alastrar por toda a Europa. Algo terrível havia acontecido ou iria acontecer para chegarmos àquele ponto, mas não sabia especificamente o que ocasionou essa reação em cadeia. Eu precisava saber. Precisava de respostas pois não queria abandonar todos que eram importantes para mim. O que eu não imaginava era que uma simples frase vinda de meu pai pudesse mudar totalmente a minha concepção sobre aqueles eventos.

— Nós vamos fazer isso por causa de sua irmã, Chris!! — respondeu meu pai. Era nítido que ele ficou alterado com a forma que eu estava falando com eles, e por isso ele teve de elevar sua voz para fazer eu despertar de meu estado de frustração.

Aquelas eram as únicas palavras que eu precisava ouvir para me manter em silêncio total. Todos na sala olharam para o meu pai com certa surpresa, inclusive eu. Ninguém esperava que meu pai fosse se exaltar por uma birra minha, mas ele teve de fazer isso para que eu conseguisse me estabilizar e consequentemente colocasse minha cabeça de volta no lugar.

— ... — eu nada consegui dizer.

Meus olhos e os olhos de meu pai se encararam por um tempo, mas logo minha atenção fora direcionada para minha irmã, aquela que era mais importante naquele momento. Nos braços de meu pai, consegui ver que Arabella havia fechado seus olhos com toda a sua força como se estivesse se escondendo de algo terrível que estava por vir. Talvez fosse um monstro como aqueles que minha irmã dizia que via debaixo da cama, mas quem diria que o monstro daquela vez na verdade morava dentro de seu próprio peito? Ela parecia estar dormindo, mas sua respiração irregular a acordou como um sopro. Vi então minha irmã menor começar a tossir violentamente enquanto se encolhia em uma tentativa falha de buscar conforto. Sua tosse era ríspida e contínua. Quando Arabella começou a tossir, ela simplesmente não conseguiu mais parar. Cada tosse eram como agulhas perfurando sua fina garganta. Ver minha irmã... Minha querida irmã a qual jurei proteger de todo o mal sofrer daquela forma realmente doía do fundo de minha alma. Eu não aguentava vê-la assim. Era muito doloroso.

— Arabella!! — Eu, Nicolaas e Hugo gritamos o nome de nossa irmã simultaneamente quase que no mesmo tom de preocupação assim que ela começou a tossir.

Papai balançou suavemente Arabella em seus braços como se ela estivesse num berço de porcelana. Ele não queria que ela acordasse pois os momentos em que Arabella dormia eram uns dos poucos em que ela podia respirar sem se ferir por dentro.

— Não se preocupem, meninos. Arabella está bem e essa tosse não vai durar muito. — meu pai continuou, se acalmando aos poucos enquanto se esforçava para que Arabella não despertasse. Ele buscava nos tranquilizar também, mostrando que Arabella, apesar de não estar saudável, ficaria bem. — Chris, meninos, entendam que o bem maior pelo qual vamos fazer essa viagem é Arabella... Mas a esse ponto vocês já sabem que não vamos apenas viajar. Entendam que é difícil para ela respirar em ambientes que frequentamos no dia-a-dia. Os médicos disseram que o melhor a se fazer é a levarmos para um ambiente mais aberto pois Arabella está ficando pior a cada dia que passa. Por isso a mãe de vocês e eu achamos melhor levá-la para a casa de nossos pais o quanto antes... Senão ela pode acabar sendo internada.

— Então nós vamos nos mudar, papa? — perguntou Nicolaas.

— Claro que não, meu bem — minha mãe respondia. — Nós vamos voltar para nossa casa em Roterdã assim que pudermos, mas vocês precisam ter paciência.

— Paciência? — perguntou Hugo. — Mas quanto tempo vamos passar lá? Nossos amigos vão sentir falta da gente, mama...

— Você pode enviar belas cartas para seus amigos, Hugo — minha mãe completava de maneira otimista e positiva. — Assim eles nunca vão sentir falta da gente e guardarão essas cartas com todo o carinho até nós voltarmos.

Mal sabíamos que jamais iríamos voltar para casa assim como jamais veríamos nossos amigos novamente por um bom tempo.

Papai então começou a caminhar até mim enquanto segurava minha irmã com mais cuidado do que antes. Ela era como uma bonequinha feita de cristal em seus braços. Não consegui fazer nada além de abaixar minha cabeça e sentir vergonha. Estava me sentindo muito egoísta por tudo aquilo que eu havia feito em frente a minha família. No final das contas, eu havia pensado apenas em mim e não nas pessoas à minha volta... me sentia como a pior pessoa do mundo, porém, meu pai parecia já ter me desculpado antes mesmo de eu pedir desculpas. Isso se dava pela forma serena e tranquila que ele falava comigo.

— Me perdoe, papa. — eu sussurrava de uma forma que papai pudesse ouvir.

— Eu é quem tenho que me desculpar por gritar contigo — dizia meu pai me fazendo erguer levemente minha cabeça e olhar diretamente para seus olhos. — Não vamos ficar lá para sempre. É uma promessa. Além disso sei que você vai arranjar muitos amigos por aquelas redondezas. Apenas... Faça isso por sua irmã, tudo bem? Nos te amamos independente do que acontecer. Lembre-se disso, e não se esqueça de ter coragem, meu garoto.

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Eu olhei para os olhos de meu pai enquanto ele dizia aquilo para mim. Ele sabia o quanto eu amava meus irmãos e o quanto eu estava disposto para fazer o que quer que fosse por eles. Um pequeno sorriso começou a aparecer em seu rosto, e logo, sem perceber, um sorriso aparecia no meu também. Era um sorriso que representava a confiança que nós dois tínhamos um no outro.

— Tudo bem, papa. Eu farei o que for por Arabella. Não só por ela, mas por Hugo, Nicolaas e Frederik também!

— Então você está decidido, Chris? — perguntou minha mãe, também parecendo feliz com minha decisão.

Eu apenas concordei balançando minha cabeça para cima e para baixo enquanto olhava para minha mãe, mas por mais que minha cabeça tenha concordado com aquilo, meu coração ainda nutria um sentimento por não querer deixar a cidade onde nasci. Ninguém muda de opinião de uma hora para outra e eu posso afirmar isso com convicção. Você deve saber do que estou falando pois tenho certeza de que você deve ter lidado com uma situação como essa antes. Porém, se tenho como te tranquilizar, eu posso te dizer que apesar de mudanças na vida serem coisas assustadoras, não tenha medo das mudanças que virão. Independente se essas mudanças forem boas ou ruins, você aprenderá coisas com elas mesmo que não saiba disso. Eu não tinha conhecimento sobre essa linha de raciocínio até minha vida mudar completamente através desses grandes acontecimentos. Esse era apenas o começo da minha grande aventura. A guerra e a minha ida a um lugar que não conhecia não são os melhores exemplos de mudanças boas que me ocorreram, mas eu te digo que aprendi coisas com essas mudanças. Aprendi coisas que levarei para minha vida e passarei para meus filhos que se Deus quiser também passarão para seus filhos. Por isso, meu caro leitor, peço que não tenha medo de mudanças. Sua mente é um livro aberto que se renova a cada dia. Algumas páginas se rasgam, outras se perdem, mas as páginas mais importantes sempre estarão onde você deixou. Essas páginas são as páginas de aprendizado, as responsáveis por fazerem outras páginas de seu livro existirem. Guarde essas páginas no seu coração e não esqueça que elas existem jamais.

— Então pegue tudo aquilo que quer levar e se arrume o mais rápido que puder, Christoffel! — disse meu pai enquanto ia em direção à porta dos fundos de casa para que pudesse chegar até seu carro. Parecia que seu bom humor finalmente havia voltado. — Vamos sair daqui a alguns minutos então se apresse! Mas leve só o que puder carregar, entendeu? Também não leve aquilo que não vai usar.

— Hm? Não vamos levar nossos móveis, papa Izaac? — perguntei.

— Claro que não, Chris — dizia minha mãe arqueando suas sobrancelhas ao mesmo tempo que dava aquele típico doce sorriso. — Não será uma mudança no final das contas. Além disso nossos móveis não vão sair do lugar. Fique tranquilo. Mesmo que tentem entrar aqui, nossos vizinhos vão dar um jeito para que ninguém saqueie nossa casa.

Minha mãe então afagou meus cabelos fazendo com que eles se esvoaçassem levemente. Senti cócegas em minha cabeça fazendo com que aquilo me tirasse pequenas risadas.

— Vou falar com Frederik — continuou ela. — Ele está na cozinha, não está?

— Está sim. Ele inclusive deve estar ouvindo nossa conversa falando nisso. — Soltei uma pequena risada enquanto me levantava do sofá. Mesmo que não tivesse dormido, meu corpo estava mole. Além disso, como eu iria viajar naquela mesma madrugada, precisava ficar bem acordado para ver os lugares onde iria passar. Sempre me diziam que a viagem das cidades grandes para o interior era uma das viagens mais lindas de todas. Por esse motivo eu queria apenas confirmar.

— Ótimo! — dizia minha mãe. — Nesse caso eu vou apenas avisar a ele para arrumar as malas. Você devia fazer o mesmo, Chris. Mas lembre-se do que seu pai falou.

— Eu sei, mama. Não vou levar mais do que o necessário. Não se preocupe com isso — respondi devolvendo o sorriso que ela tinha em seu rosto.

— Muito bem. Não demore muito, certo?

Acenei novamente com minha cabeça. Parecia lentamente estar me acostumando com a ideia daquela longa viagem que iria fazer. Sentia que aos poucos ia entrando em minha mente que eu estava fazendo isso para ajudar minha família, e por causa disso, me sentia um rapaz um pouco mais maduro assim como meu irmão Frederik que eu sempre almejava ser como. Vi minha mãe se afastando e indo em direção à cozinha em passos leves, mas logo que eu começava a ir em direção a meu quarto para arrumar minhas malas como mamãe e papai pediram, senti minha mão ser segurada e chacoalhada por um de meus irmãos.

— Ei, irmão! — dizia Hugo. — Você vai levar mais alguma coisa além das roupas?

— Uh? Por que quer saber, Hugo? — perguntei curioso focando minha atenção em Hugo que ainda estava junto a Nicolaas.

Os dois meninos se olharam por um tempo.

— É que eu e o Hugo queremos levar toda nossa coleção de insetos! — respondeu Nicolaas.

— Só que nem a mamãe nem o papai querem que a gente leve nossa coleção... — Hugo logo continuou. — Mas não podemos deixar nossos insetos aqui...! Eles não vão saber se virar sozinhos! Os passarinhos podem comê-los!

— Ei! Ei! Fiquem calmos! Vocês estão muito desesperados só por causa de seis ou sete insetos! — eu dizia os tranquilizando enquanto achava graça de toda aquela situação.

— Na verdade são quarenta e três — corrigiu-me Nicolaas.

— Ah! Não se esqueça do Anastácio! Pegamos ele hoje, então são quarenta e quatro! — completou Hugo.

— Quarenta e quatro?! — Admito que saber daquela informação me deixou um pouco abismado. Até alguns meses atrás, Hugo e Nicolaas tinham apenas cinco insetos que eles guardavam dentro de uma caixinha de música quebrada. Como isso evoluiu para essa quantidade em tão pouco tempo?! — Então vocês querem que eu leve os insetos de vocês na minha bagagem pra que nem papa Izaac nem mama Anne descubram?

— Isso aí! — gritaram os dois meninos.

Eu suspirei mantendo um sorriso bobo em minha face. Não estava acreditando que ia fazer aquilo, mas não podia recusar aquela proposta. Não queria magoar meus irmãos e tirar deles os únicos animais de estimação que eles tinham.

— Certo, eu levo — concordei sorrindo para os dois. — Agora não falem para ninguém, certo? Quando chegarmos lá, também quero que guardem esses insetos num lugar bem seguro.

— Iupi!! — comemoraram Nicolaas e Hugo.

— Ebaaaa!! Não se preocupa, Christoffel! Boquinha de siri!! — gritou Hugo.

— Não gritem! — eu dizia enquanto fiz um sinal para eles fazerem silêncio. — Mama Anne está na cozinha... Ela pode suspeitar!

— Ah! Foi mal, Chris! — Nicolaas sussurrava visivelmente sem jeito de ter gritado daquela forma junto com Hugo. — A gente só ficou um pouquinho alegre...

— Vou deixar passar dessa vez, mas da próxima eu não faço mais nada, entenderam?! — Eu brincava com meus irmãos fingindo estar sério quando na realidade estava rindo bastante por dentro. Ainda era um garoto muito infantil por mais que tentasse fingir que não. — Agora vamos pegar os insetos de vocês pra eles virem conosco na nossa viagem! Não podemos deixar eles aqui, certo?

— Não mesmo!! Haha! — Os olhinhos de Hugo brilhavam enquanto dizia.

— Então vamos lá!! Vem com a gente!! A gente vai te mostrar todos eles! — meu irmão Nicolaas dizia enquanto caminhava até o quarto junto de Hugo.

— O último que chegar vai ter que comer o Hermit! — gritou Hugo em alto e bom som.

— Uh? Quem é Hermit? — perguntei enquanto começava a caminhar junto a eles.

— Nossa lagarta de fogo! — respondeu Hugo, o mesmo que propôs o jogo.

— Blergh!! Tô fora!! Podem esquecendo! — Não consegui esconder o quanto fiquei enojado imaginando aquela situação em que eu teria de comer uma lagarta de fogo. Quando vi, Hugo e Nicolaas já estavam se afastando a todo vapor de perto de mim em passos mais rápidos do que pude acompanhar. — Ei!! Esperem por mim!!

Logo que me dei conta já estava correndo o mais rápido possível para não chegar antes de Hugo e Nicolaas até o quarto onde eles dormiam. Eu sabia que não iria comer uma lagarta de verdade e que eles estavam apenas brincando, mas mesmo assim eu corria como se minha vida dependesse daquilo. Já faziam dias que eu não me divertia assim com meus irmãozinhos. Nossas risadas alegres ecoaram por toda a casa e aquele sentimento que senti quando brinquei com eles nesse dia, nessa mesma hora, seria apenas um dos vários sentimentos confusos que eu sentiria ao longo daquela longa e fria madrugada. Sentimentos que tocavam em minha face gentilmente, mas que não sabia o porquê de sentí-los. Aquele era apenas o começo de uma grande aventura que estaríamos prestes a viver. Uma aventura que ninguém sabia onde, quando nem como iria terminar, mas que no fundo todos sabiam que não seria uma trilha fácil de prosseguir. O que nos restava fazer era esperar e perseverar, mantendo nossa esperança de que o dia seguinte sempre seria melhor do que o anterior.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.