As Crônicas dos Irmãos Hellscyth

1 Pimentões são péssimos demônios...


Notas iniciais
Esse é o primeiro capítulo que eu posto aqui no Nyah!, mas tenho outros já escritos.

Charlie estava em frente à loira, olhando para ela com seriedade e apreço. A garota estava com manchas de sangue pelo corpo e pela roupa: nas mãos, no cabelo loiro, na bochecha e no canto da boca, no vestido rosado que vestia e nas botas. Ela apontou a lâmina feita de sangue para ele, sorrindo de maneira maliciosa. A loira sabia que Charlie não iria aguentar muito mais tempo naquele combate.

Charlie tirou o cabelo negro da testa com o cabo da katana que empunhava na mão direita; ela, que estava com a ponta quebrada, ficando com um tamanho parecido com o das adagas da loira. Ele olhou para seu braço esquerdo, que estava virado em um ângulo bem desagradável; os dedos estavam em posições também incomuns, com as falanges quebradas; e sua mão estava cruelmente quebrada em um "S".

— Eu já disse que vou quebrar todos os seus ossos. — disse a loira que o encarava, passando a língua pelas presas de vampira. — Então, beberei todo seu sangue. Por que não desiste? O resultado não vai mudar mesmo.

— Você sabe que eu aguento isso o dia todo. — Charlie segurou a katana com firmeza, olhando a vampira nos olhos. — Já você, eu não sei.

— Você está sem um braço, o que pode fazer? — ela jogou uma das adagas de sangue, que Charlie desviou indo pra direita

— Se me atacar diretamente, vai descobrir.

Ele mal conseguiu responder: a Vampira investiu em um ataque pela direita, mas mudou a direção no último segundo ao girar com a segunda adaga apontada contra a costela de Charlie.

Ele aparou a lâmina dela por muito pouco, usando sua katana, mas ela mudou o golpe ao desfazer sua lâmina e faze-la ressurgir na mesma mão, mas indo em direção à perna dele, ressurgindo após mudar a direção.

Charlie não conseguiria desviar, porém, se defendeu: seu punho esquerdo atingiu o rosto da Vampira com o som de ossos quebrando, de novo, e fazendo a loira cair sentada.

— Vai ter que vir com tudo pra cima de mim se quiser me vencer, Alice! — gritou ele apontando a katana para o rosto dela.

A expressão de desafio dele superou a de dor pelo braço esquerdo. Alice percebeu que Charlie só conseguiu dar aquele golpe pois seu ombro e músculos das costas foram mais fortes que a dor naquele braço. Ela estava achando isso surpreendente.

— Certo. Vou com tudo, então. — uma aura avermelhada emanou de Alice, formando marcas por seu corpo e fazendo Charlie recuar. Ela se levantou em um salto contra ele, de forma rápida e cruel...

. . .

Charlie realmente não gostava dessas visões que ele tinha repentinamente. Elas geralmente vinham em situações que o lembrasse daquilo, o que não era bom, já que provavelmente o atrapalharia em algo. Por sorte, nesses momentos de aflição, a "consciência" de Charlie falava mais alto para acalma-lo.

Está sonhando acordado comigo?, dissera Alice em sua cabeça.

Você fala como se fossem sonhos agradáveis., Charlie respondeu.

Oh, que crueldade. Por isso não arruma uma namorada., a Vampira zombou dele.

Charlie não respondeu. Essa curta conversa que durou meros instantes deu tempo suficiente a ele para reagir à ameaça em sua frente: um par de homens com dois metros e meio de altura estava se aproximando dele, com grandes clavas-estrela nas mãos, um cruel olhar naquele único olho, um sorriso amarelado e o péssimo odor que acompanha os ciclopes desde os Tempos Antigos.

Eles estavam em um beco escuro e apertado. Os ciclopes não teriam mobilidade suficiente para atacarem em dupla, porém, nada os impedia de fugir. A distância do solo às escadas de emergência era de pelo menos dois metros. Estavam à esquerda de Charlie, porém, supondo que ele conseguisse mesmo subir, o que impediria os ciclopes de derrubaram ele? Para atrapalhar ainda mais os movimentos dos ciclopes, haviam pelo menos três latas de lixo enfileiradas na esquerda deles, e uns papelotes na direita. Havia algumas janelas na direita e na esquerda, mas Charlie não seria mais rápido que os ciclopes loucos por sangue.

A mania de Charlie sempre analisar todas as opções e tentar nunca deixar detalhe algum de lado quase lhe custou um momento precioso de ser captado por seus olhos. Se bem que, mesmo que ele não estivesse atento, ele veria aquilo. Sem deixar claras suas intenções, um dos ciclopes arremessou a clava contra o moreno e o fez ter que reagir em questão de segundos.

Foi puro instinto, mas funcionou: Charlie saltou como um acrobata para a parede atrás de si e com a mesma leveza que seus pés saíram do chão, eles se impulsionaram na parede e foram em direção às escadas suspensas, agarrando elas no momento que a clava atingiu a parede que anteriormente se apoiou, destruindo-a na forma de estrela e ainda fazendo desabar algumas partes dela.

Por sorte, Charlie já estava subindo a escada seguinte rapidamente, sem problemas com a parede que desabava. Continuou subindo com a graça e agilidade muito pouco vistas nos homens ao longo dos anos. Sua habilidade física era muito superior a de uma pessoa, por melhor que tenha treinado, já que fora adquirida a partir do mais rigoroso e mortal treinamento que algum ser humano já tenha sobrevivido.

Quando os ciclopes se deram conta de que Charlie havia fugido deles, ele já estava dois lances de escada acima. Eles não perderam tempo para persegui-lo, mas não tinha como. Charlie era muito mais ágil e habilidoso que ele em escaladas, fora que seu tamanho era uma tremenda vantagem que a força dos ciclopes não poderia sobrepujar. Quando os ciclopes estavam conseguindo subir com organização sem acabar se esbarrando, Charlie já estava no telhado.

Ele olhou em volta, despreocupado com seus perseguidores. Caso seus conhecimentos geográficos ainda eram bons como ele se lembrava que eram, não estava longe de seu destino: um hotel e cassino. Ah, onde ele está? Atualmente, em Las Vegas. A cidade continuava exatamente como é se lembrava. Sempre um show de luzes incessantes, hipnotizante e calorosa.

Se lutasse, sabe que evitaria problemas futuros, né?, disse uma voz mais fina e tímida que a da Vampira.

Errado., respondeu uma voz firme.

Se eu lutasse, existiam três opções: a primeira, seria eu vencer. Os corpos dos ciclopes ficariam ali e provavelmente começaria uma investigação., disse Charlie, com calma. A segunda, é que eles não estivessem sozinhos. Eu não analisei isso naquele momento... escapar era a prioridade. A terceira e última é a linha do tempo em que um deles chamasse reforços das redondezas, em que poderia vir qualquer tipo de ser mágico pra me matar. Eu tenho certa fama de causar confusão, e naquele beco seria péssimo. Poderia afetar a vida das pessoas em volta.

Você é sempre tão condescendente com todos. E analítico., a voz fina tinha um tom desistente.

Você deve estar se perguntando, quem são essas vozes? Ainda não é hora de aprofundados o assunto, mas saibam que todas elas são partes adoráveis de Charlie. Pelo menos a maioria. Nosso protagonista possui treze fiéis escuderias dentro de seu corpo, em que ele pode se transformar nelas, usar seus poderes e ver suas memórias. Enfim, esse não é assunto desse capítulo!

Ele começou a caminhar pelo telhado, na direção do cassino e parou ao ouvir os ciclopes se aproximando. Ele deu um largo sorriso travesso e correu na direção do prédio mais alto próximo do telhado em que estava. Pelo menos seis metros de diferença para a beira do telhado. Se ele quisesse pular até o topo, teria de pular oito metros.

Oito?, disse a voz de Alice.

O último foi de dez, né?, outra voz comentou.

Não, não. Foi de treze., Charlie abriu um sorriso ao responder e acelerou a corrida, colocando toda sua vontade naqueles passos.

Charlie passou por um treinamento que fez com que sue corpo atingisse diversas vezes seu limite, fazendo seus ossos parecerem gelatina e seus músculos, bombas em frequente cadeia de explosões. Mas agora ele estava completamente acostumado a usar todo seu corpo em mais do que cem por cento. Bem, ele imaginava que esse era seu cem por cento. Se fosse mais, ele tentaria voar qualquer dia.

Ao saltar, parecia um pássaro: os pés juntos na borda do prédio; os braços abertos e jogados para trás, como se fossem asas; os olhos fixos no alvo. Então saltou. Sentiu como se a gravidade tivesse desaparecido, seu peso era somente um número qualquer, o chão era uma plataforma, e o céu era seu objetivo, com os olhos fixos na lua.

Esse momento passou quando ele instintivamente se arrumou no ar para o pouso, caindo com os joelhos flexionados e as os braços abertos, para manter o equilíbrio. Soltou o ar em um suspiro e olhou em volta para conferir a segurança. Era noite, mas nunca se sabe quando vai ter um mendigo em cima de um telhado.

EU... — ele não conseguiu conter sua animação ao gritar. — NÃO CAIIIIIIIIII!

Charlie levantou com os braços abertos, comemorando com uma rápida dança e percebeu que logo era hora. Conteve sua animação e adorou o fato de estar em Vegas. A cidade cheia de outdoors era excelente para ele cruzar sem ser percebido, pulando de prédios a outdoors e vice versa como se fosse um gato correndo pelos telhados da vizinhança.

Ele não demorou nada para chegar ao seu destino: Hotel e Cassino Tesouro das Três Bermudas. O nome é bem idiota mesmo. Um grupo de demônios criou ele com esse nome estúpido exatamente porque eles acham que o Triângulo das Bermudas é um motivo perfeito para zombar dos humanos. Mal sabem eles que os habitantes daquele pedaço de mar não são nada para se levar na brincadeira.

Ele desceu em uma parte da rua menor movimentada, sem chamar atenção, e conferiu seu vestuário: Um terno perfeito, de longe. Porém, ao se analisar, a calça era um jeans, não uma calça social; sua camisa realmente era uma camisa, mas ela tinha mangas curtas e a gravata estava desenhada sobre a camisa, dando a ilusão de estar sendo usada; seu paletó era uma jaqueta com muito pouco detalhe chamativo; e seus coturnos. Perfeito com seu estilo.

Uma única garota, notou ele, em frente ao Cassino, ela estava entrando no restaurante do outro lado da rua. Tinha cabelos prateados e olhos azulados, já sua pele era muito clara. Charlie abriu um sorriso travesso e colocou o dedo sobre seus lábios, pedindo sem palavras que ela ficasse quieta quanto a ele.

Então, entrou. Sorrindo como sempre, com um olhar meio indefinido, misturado entre travessura e diversão. Ele sempre sorria assim. Era melhor que passasse uma impressão bondosa, já que dificilmente as pessoas confiaram em alguém que tem a cara fechada. Sem medo, avançou por aquele Cassino.

Tinha um carpete vermelho no chão do Cassino, o que fazia com que os passos já silenciosos do garoto não tivessem nem impacto. As paredes eram revestidas de quadro por cima da parede com tinta em um tom dourado. Lustres enormes pendiam do teto e forneciam toda a iluminação necessária, com globos de luz por dentro deles, imperceptíveis aos olhos mal treinados; mas Charlie tinha bons olhos.

Ele também percebeu que praticamente todas as pessoas naquele lugar não eram somente pessoas, com cabelos e corpos distintos. Muitos demônios, magos, feiticeiros, bruxas, vampiros e lobisomens que se reuniram naquele "Palácio" de apostas. Era belo ver como todo tipo de ser adora reunir-se com os outros para competirem entre si. Charlie praticamente dançava por entre as pessoas, pegando taças e petiscos das mais variadas mesas de jogos e garçons. Quase derrubou uma vampira de vestido roxo em cima de uma mesa de poker, mas conseguiu fugir antes dela o perceber.

Charlie achou seu alvo. Um homem alto e forte, com cabelos azul escuro, muito bem cortados ao estilo militar, e olhos de um cinza das nuvens de tempestade. Quando Charlie forçava os olhos para ver através da aparência dele, viu a auréola e asas negras que completavam sua descrição. O Anjo Caído, Cumulus. Charlie estava atrás dele pois suas fontes de informação o alertaram que ele estava envolvido em algum incidente que poderia levar até sua irmã, e ele não perderia tal chance. Estava em um terno preto bem chique.

Percebeu um homem na frente do Caído. Ele devia ser tão alto quanto o acompanhante, mas tinha um corpo muito maior na questão muscular. Tinha cabelos negros como a noite lisos e presos em um rabo de cavalo. Seus olhos eram dourados, brilhantes e ele era muito moreno. Percebeu, ao forçar seus olhos, que sua pele era vermelha como uma maçã. Um demônio vermelho, constatou Charlie. Ele poderia ser uma ameaça, mas não tão grande assim. Vestia um terno cinza escuro.

O moreno seguiu em frente, vendo que eles estavam iniciando uma partida de poker. Sem perder a deixa, ele sentou na cadeira vaga da mesa deles e bateu palmas uma vez, chamando a atenção de ambos.

— Com sua licença, eu gostaria de jogar com vocês! — o garoto sorria, todo animado.

— Negado. — o Caído foi bem direto.

— Ora, vamos. — reclamou o Demônio. — De trio pode ser melhor!

— Não vamos envolver meros mundanos nos nossos jogos. — Cumulus falou, seco, em uma das línguas demoníacas.

— Por que? — o Demônio falava na mesma língua. — Vai que conseguimos algo dele. Dinheiro, fama, mulheres!

Charlie decidiu que continuaria ouvindo, quieto, fingindo que não percebeu a discussão deles e ansiando uma resposta para o embate dos dois sobre a participação deles.

— Por isso, Varus, você perde tão fácil. É ganancioso demais. — o Caído conteve seu riso.

— A personalidade de um Demônio sempre segue seu pecado! — o tal Varus elevou a voz.

Então ele representa um pecado? Que medo!, brincou uma voz rouca. Deve ser bem forte!

Não vamos lutar., cortou Charlie. Ainda.

Sem que os homens percebessem, usando sua cautela e habilidades de ninja imperceptível, Charlie começou a embaralhar as cartas e distribuir entre eles, separando o dinheiro das apostas e deixando tudo pronto.

— Exatamente. É por isso que você não serve pra decidir nesse momento... — só quando Charlie terminou seu trabalho que os dois notaram o que ele havia feito. Cumulus voltou a falar inglês. — Garoto, nós recusamos você e...

— Não sou um garoto. Muito menos vocês sabem tudo que eu sei, ou possuem minha experiência. — Charlie falava no mesmo idioma demoníaco, surpreendendo os dois e sorrindo de forma maliciosa quando eles olharam para ele surpresos, percebendo que estavam em frente a uma cobra: mortal, silenciosa e destemida. — Agora, vamos apostar ou querem que eu realmente leve vocês a sério?

— O que... — Varus começou falando no idioma demoníaco, mas mudou para o inglês. — O que vamos apostar?

— Somente um idiota responde uma pergunta com outra pergunta. — Charlie não mudou seu tom de voz. — Quando eu vencer, vocês responderão três perguntas minhas. Caso vocês vençam, contarei a vocês o segredo da imortalidade.

Ambos se arrumaram em suas cadeiras. Varus estava tentado a pegar suas cartas, apesar de expressão de claro desgosto pelo insulto. Cumulus estava quieto durante a conversa, mas retomou a compostura com um sorriso orgulhoso.

— Por que acha que aceitamos essa condição? — o Caído parecia decido a negar o jogo.

— Bom... — Charlie parecia completamente distraído em suas cartas, arrumando sua mão com certa atenção e imparcialidade. — Imagino que todo mundo queira saber isso. Se quiserem, eu também posso responder a origem do universo; qual a real forma de Deus; como reviver os mortos sem torná-los em um zumbi ou um escravo sem alma; todos os locais no mundo onde habitam os Três Juízes do Inferno, a casa de Satanás; onde fica o templo que, caso destruído, pode exterminar a existência do Olimpo.

Quando terminou, Charlie estava limpando sua unha. Tinha um pouco de pó debaixo de uma delas. Ele notou suas palavras chamaram um certo público para a volta da mesa dos três, forçando os submundanos a tomarem logo uma decisão. Satisfeito com isso, Charlie sorriu com um cruel olhar de desafio.

— Aceitamos. — ambos falaram em uníssono.

— Vão querer saber o que? Ah, é claro, não pretendo perder, mas vocês podem fazer suas perguntas já. Talvez eu responda por cortesia. — Charlie adora provocar.

— Qual a vericidade de suas respostas? — o Caído expressou sua falta de crença em Charlie. Varus assentiu.

— Oh, são tão reais quanto ao fato de você ter assassinado quinze Anjos antes de cair do céu, além de ter atualmente dois filhos, duas mulheres e que pretende ter um terceiro filho com uma terceira mulher para então, mandar elas assassinaram os Três Juízes do Inferno e colocar seus filhos no lugar. — Cumulus pareceu que estava sentindo-se nu. — Ah, não se preocupe. Também sei que trabalhou, séculos atrás, no treinamento dos irmãos Hellscyth para eles serem a "Arma de Destruição em Massa Contra Deus", junto de mais um dos Juízes do Inferno, Radamanthys, e um seleto grupo de Caídos e Demônios.

Cumulus parecia ter levado um tapa. Porém, após alguns minutos em uma conversa silenciosa com o Demônio vermelho, eles olharam para Charlie com seriedade e mostraram suas cartas. O Caído tinha um grupo de cartas aleatório, nada de mais; Varus tinha uma Full House.

— Viram? Eu disse que não perderia. — virando suas cartas, Charlie mostrou seu Royal Straight Flush.

Um silêncio adorável cruzou a plateia e os jogadores. Quem acreditaria que o garoto teria essas cartas? Charlie não havia usado truques, foi pura sorte. O Demônio parecia derrotado. Enquanto o Caído estava com uma expressão de horror e de crueldade por cima daquela faceta orgulhosa.

— É um truque! — ele praticamente gritou.

— Isso... — Varus tentou se animar.

— Não, não. — Charlie pegou o baralho da mesa e espalhou as cartas, viradas para cima, onde antes ocorria um jogo. — Contem. Toquem minhas cartas. Verão que nenhuma delas tem magia alguma, nem há cartas sobrando.

Após longos minutos de procura do par de submundanos, Charlie ficou conversando com uma Vampira loira sobre tudo que ele sabia. Charlie não dava respostas concretas, simplesmente brincando com a vampira, que achava que sua lábia estava sendo efetiva contra ele. Que ultraje! Charlie era um mestre na lábia que superou diversos vampiros sem dificuldade alguma.

— Ele venceu... — concluiu Cumulus.

— Posso perguntar agora? — Charlie levantou uma sobrancelha.

— Não aqui. — o Demônio e o Caído levantaram e abriram espaço pelo grupo que os envolvia. — No meu quarto, onde não haverá plateia.

Charlie os seguiu, e eles levaram o garoto até a porta de um elevador. Neste momento, Charlie traquejo, e sentiu que tudo iria dar errado. Não tinha como ele conseguir sobreviver a um elevador e aqueles dois. Quase dando um passo atrás, Charlie começou a falar, suando frio.

— Podemos ir pelas escadas... eu não gosto de elevadores.

— Oh. — os dois viram uma forma de tirar proveito de Charlie. — Não.

Quando a porta do elevador se abriu, o Demônio empurrou Charlie pra dentro e a porta de fechou com os três ali. Tinha espaço de sobra, mas Charlie queria se encolher no canto do elevador e ficar ali em posição fetal até morrer. Porém, ele estava ofegante, com o batimento acelerado e o suor ligando de seus cabelos escuros e desgrenhados, quase surtando naquele espaço minúsculo e recluso...

Então a porta se abriu e Charlie se atirou para fora. Para ele, era uma eternidade; mas foram só uns quarenta segundos. Charlie respirou profundamente enquanto seu corpo se ajustava novamente, com seu pulso e respiração voltando às conformidades. Ele olhou para os homens, que estavam contendo seu riso.

— Hora das perguntas. — a voz de Charlie estava normal.

Eles estavam em um corredor iluminado por velas laranjas, que deixavam os olhos de Charlie brilhantes pela luz fraca. Varus assentiu levemente enquanto Cumulus tomava a frente em direção ao quarto dele, mandando Charlie perguntar logo.

— Primeiro: Você sabe onde os irmãos Hellscyth foram depois daquele ocorrido? — Charlie foi bem direto.

— Ah, Charlie e Cecilly. Não faço a menor ideia. Não cheguei a ficar até o final, nem vi quando tentaram fugir. — até que o Caído respondeu bem.

— Segunda pergunta: Você recentemente acobertou seu grupo de Anjos Caídos que vandalizaram uma Igreja em Manhattan, mas foram impedidos por uma garota com uma lança e um escudo, além de ser meio baixa e ter um cabelo escuro e liso. Sabe quem ela é?

— Aquela garota? Deve ser algum tipo de conhecedora do submundo. E muito destemida, pois conseguiu salvar a biblioteca sem grandes problemas além de umas feridas. — Cumulus deu de ombros. — Deve morar por lá.

— Terceira pergunta: — pararam na porta do quarto do Caído. — Como a forma real do Varus consegue ser tão horrível?

Depois, tudo se passou em milissegundos. Charlie foi atingido no estômago por um punho, e foi lançado através das paredes. O Demônio o acertou em fúria e resolveu descontar a raiva naquele soco. Charlie quebrou paredes de quartos onde todo tipo de ser vivo habitava: transando, jogando, matando, dormindo. Ele só parou quando não haviam mais paredes para ele quebrar e enfim caiu no meio da rua.

Ah, cara. Eu sabia que isso aconteceria., disse Alice, desdenhosa.

Charlie levantou, alongando os braços. Foi lançado vários quartos de distância dos submundanos, mas eles já estavam no buraco que seu corpo fez quando quebrou a parede. Ele olhou em volta e percebeu que deveria ter feito barulho, apesar de não ter gritado, pois o pessoal do restaurante ou se empoleirava nas janelas, ou já estava na calçada olhando ele e sabe Deus o que viam realmente.

Quando Charlie olhou em frente novamente, Varus já havia pulado e parecia crescer enquanto andava, com os músculos aumentando a cada passo que ele dava em direção ao moreno. Ele não conseguiu se conter: abriu seu sorriso travesso.

— Como você não morreu? — Varus urrou sem compreender como Charlie permanecia vivo.

— Sabe, eu sou bem resistente! — comemorou o moreno, animado, e batendo em sua cabeça com uma das mãos.

— E idiota. — comentou Cumulus.

— Ei, Cumulus, como esse pimentão consegue ser tão feio? — o Caído quase começou a rir.

Varus investiu em direção a Charlie, com seu terno rasgando já pelo corpo do Demônio pimentão, visando socar o rosto do moreno. Charlie se moveu sem problemas para desviar, saindo do caminho do grandalhão e ainda colocando o pé direito para ele cair. Varus caiu com os braços para proteger a queda, mas Charlie mudou seu pé de apoio e chutou com o calcanhar o queixo do Demônio, fazendo ele virar o rosto e cuspir um dente. Um humano normal perderia a dentição inteira com aquele golpe.

Charlie teve pouco instantes para dar um salto para trás, afastando-se do pimentão demoníaco. Seu instinto, ou melhor, Alice, fez com que Charlie baixasse sua cabeça a tempo de desviar de uma flecha negra. Ele olhou para onde estava Cumulus e o viu empunhando um arco feito de vento que girava em espiral, e Charlie percebeu que ele estava com uma aljava de flechas negras nas costas também. Por um instante, Charlie estava surpreso.

— Seu oponente sou eu. — Varus levantou com os dois braços envoltos em chamas, com a pele praticamente toda vermelha, o paletó e a camisa já em cinzas a sua volta.

— Eu sei. Não pretendo deixar de prestar atenção em você — Charlie colocou as mãos nos bolsos, sentindo ali os sacos mágicos que sempre leva. Abriu um sorriso travesso para seu oponente. —, Demônio da Feiura!

— MORRA! — mesmo com toda a velocidade da investida e a habilidade de combate de Varus, nada o Demônio pôde fazer para atingir o garoto.

Charlie era praticamente um dançarino. Abaixava o corpo, esquivava para os lados, saltava, girava; tudo com uma precisão, velocidade e agilidade impecáveis, como se estivesse prevendo todos os movimentos do pimentão demoníaco e simplesmente brincasse com uma criancinha. Ele não via dificuldade alguma em fugir daqueles golpes. Por mais fortes e rápidos que fossem, estavam banhados em fúria, além de que o próprio Varus estava hesitante quanto a sua vitória contra Charlie. Por mais irracional que o Demônio fosse, até o mais bravo guerreiro, desde que conheça o medo, teme a morte.

O moreno acertou um chute na barriga do Demônio, que fez ele recuar dois passos e então uma flecha cruzou sobre o ombro de Charlie, raspando nele de leve, o fazendo sentir o sangue escorrer por seu ombro. Olhou para Cumulus, que já estava aprontando uma nova flecha. Charlie tirou as mãos do bolso, comum par de peças de Xadrez: ambos peões negros. Ao segura-los com firmeza, o da mão direita de tornou uma adaga; o da esquerda, uma assassin's dagger. Ambas eram feitas de um metal negro desconhecido pelos submundanos.

— Você é um invocador de armas, então? — perguntou Varus.

— Eu? Oh, longe disso. Este é só um truque. — Charlie se colocou em posição para lutar, com a perna direita na frente da esquerda, e a adaga na frente do corpo.

Então ele deu um passo com a direita para trás, vendo uma flecha no canto de seu olho, ele passou a curva da lâmina da dagger como se fosse uma fita, simulando que enrolada a flecha negra com hábeis movimentos de seu punho, dedos e dos giros da lâmina curta em sua mão. O Demônio avançou contra ele, mas nem teve chance de atacar. O garoto já estava com a dagger no final da flecha, tendo alterado totalmente sua direção para o oponente avermelhado em sua frente, e usou da ponta da adaga no final da ponta da flecha para impulsionar o projétil com extrema força, como se tivesse sido disparada por um arco novamente. Um tiro certeiro: perfurou com precisão o ombro de seu oponente, abrindo um buraco do tamanho da flecha, e derrubou novamente Varus. A flecha estava presa no poste atrás do Demônio.

Estilo dos Hellscyth das lâminas duplas: Aliança dos Dragões Gêmeos!, entoou Alice, orgulhosa.

— Entendo. — comentou Cumulus. — Então você é ele. Charlie Hellscyth, o Ladrão de Almas.

— Demorou pra me reconhecer — Charlie soltou o ar que prendeu enquanto aplicava o golpe. —, Cumulus!

— Ainda estou.... de pé! — Varus levantou, cambaleando, e se preparou para um novo ataque.

— Vamos decidir isso, Pimentão! — Charlie flexionou os músculos dos braços e das pernas.

A troca de golpes ocorreu em alta velocidade. Foram poucas as pessoas da calçada que conseguiram ver o que aconteceu realmente, e na velocidade em que correu: Varus investiu, com o braço esquerdo já na altura do rosto de Charlie e estendido para o golpe; porém, o garoto foi tão ágil que ele teve tempo de esquivar e usar seu par de laminas para partir o braço de seu oponente em quinze pedaços, que ficaram suspensos no ar enquanto o garoto continuava correndo e cortando o corpo de seu oponente, sujando seu paletó e calça com o sangue negro dos demônios. Quando todas as partes cortadas estavam no chão, Charlie estava com linhas de sangue negro em seu rosto, e seu oponente estava no chão, jorrando sangue pelas laterais de seu corpo que anteriormente tinha membros.

Estilo dos Hellscyth das lâminas duplas: Retaliação dos Dragões Gêmeos!, Alice fez questão de entoar novamente.

O silêncio de seus observadores fez Charlie dar certo sorriso travesso e olhar diretamente para o Caído que assistiu o combate sem interferir. Charlie estava satisfeito por poder lutar daquela forma sem hesitação. Fazia muito tempo desde a última vez que ele encontrou um oponente que não corria no meio da luta ao descobrir sua identidade. Era provável Cumulus não teme a morte, para não ter fugido quando teve chance. Triste que agora ele não terá outra chance de escapar, refletiu Charlie.

— Sua vez, Caído! — o menino começou a caminhar até onde estava seu próximo oponente.

Porém, uma flecha disparada rapidamente fez Charlie parar para desviar. O Caído saltou pela escuridão e o moreno seguiu com o olhar onde ele iria pousar. Viu que ele ficou so lado do corpo de seu aliado, que já ia se dissolvendo em pó, e fechou os olhos do pimentão. Charlie sentiu uma flecha se cravar em seu ombro, e olhou intrigado para a flecha, tentando entender aquilo.

— Minhas flechas negras, somadas ao meu arco de vento, porem ser lançadas em qualquer velocidade. — Cumulus olhou Charlie, com apreço e raiva. — Então, você não pode prever de onde elas estão vindo, caso eu dispare e mude de lugar, pela falta de sentidos que ajudem com isso.

— Eu não teria tanta certeza quanto a parte dos sentidos. — Charlie soltou a adaga no ar, girou e agarrou uma flecha a poucos centímetros de sua nuca, completando o giro e arremessando a flecha contra o Caído, que teve seu cabelo perfurado velozmente pela ponta de sua própria munição. Antes da adaga cair no chão, Charlie a pegou. — Pois eu posso surpreender.

Este movimento só foi garantido por causa dos sentidos sobrepostos de suas consciências, que sempre mantinham uma segunda guarda quando Charlie estava sobre ameaça. Sem desfazer seu sorriso, Charlie começou a de aproximar de seu oponente. Sem medo de seus golpes que ele, sozinho, não poderia prever.

— Quem disse que eu só atirei em você? — comentou Cumulus.

Novamente, Charlie parecia um furacão. Ele correu pelas pessoas em volta em busca das flechas, cortando algumas e sendo atingido por outras. O vento anulava o som e impedia o tato de Charlie de sentir a proximidade dos projéteis. Apos garantir a segurança da plateia, ele olhou Cumulus, que apontava um trio de flechas para uma garota. A mesma menina de cabelos platinado que notou o moreno anteriormente.

— Caídos e seus reféns. — Charlie ficou parado no meio da rua, observando Cumulus e sua refém.

— Você e suas peças de Xadrez anti-magia também não são agradáveis. — retrucou o oponente.

— Sabe por que eu escolhi peões? — Charlie fez a adaga voltar a sua forma original de peão e mostrou para Cumulus.

— Não faço a menor ideia dos motivos de seus gostos. — Cumulus puxou o arco, fazendo-o parecer ter o disparo ainda mais mortal.

— É porque quando um peão chega ao limite do território inimigo, ele pode ser promovido! — ele jogou o peão em direção à garota, que foi mudando de forma no ar e assumindo a forma de um escudo do tamanho dela.

Charlie correu com a dagger, novamente em alta velocidade. Cumulus disparou uma das flechas na menina e virou as outras duas para o moreno, disparando em seguida. Mas ele não hesitou. Indo além do que qualquer humano normal poderia fazer, Charlie se abaixou para desviar das duas, que passaram longe de sua cabeça. Sua lâmina foi mudando de forma, até que segundos antes de seu oponente sacar outra flecha, a dagger era agora uma foice. Com a precisão de um Deus da Morte, Charlie cortou a cabeça de Cumulus e manteve ela sobre a lâmina, paralisada eternamente em uma face de horror e desespero. Charlie apoiou o cabo da foice nos ombros e olhou para a lua, com a cabeça do Caído deslizando em direção ao chão pela lâmina negra da arma.

— E quem conhece estes dois extremos é aquele capaz de sobreviver mais tempo... — falou para o nada. Não haveria sentido naquela frase à plateia, além de uma justificativa da vitória do garoto. Mas, para Charlie, ela tinha um sentido muito profundo. Ele olhou para a garota, que tinha uma flecha negra aos pés e um escudo negro em seus braços. Oh, também vale citar a multidão de seres do submundo atrás dela que estão enfurecidos com Charlie, mas isso não é assunto para agora, pois Charlie e a garota estavam um perdido nos olhos do outro.

Notas finais
Comentem, favoritem, divulguem pra ajudar esse contador de histórias aqui. sz