Notas iniciais
Capítulo novo, me amem.

A multidão de Submundanos furiosos com as ações de Charlie estavam sendo ignoradas pelo moreno, que fixou sua atenção ao azul dos olhos da garota que o encarava, também direto no dourado dos olhos de Charlie. Aquele azul fez com que ele se perdesse em uma lembrança, de muitos anos atrás... tempo em que o garoto ainda não sabia tudo o que sabe hoje, nem tinha todo o poder que possui hoje em dia. O azul daqueles olhos lembrou ele do azul do vestido de uma dama, que muito ele cortejara.

. . .

Charlie não poderia deixar de admitir: mesmo do lado de fora, Veneza era uma cidade linda. Superava facilmente todas as outras cidades da Itália, que o moreno, inclusive, já visitou todas, como bom historiador e escritor. Como assim, historiador e escritor? Bem, ele precisa de dinheiro, e ele tinha que cumprir seu papel como um escritor para manter as aparências. Seria estranho se ele cruzasse tanto a Europa sem um bom motivo para isso. As pessoas geralmente suspeitam dos nômades por sua vida em liberdade, e isso acarretaria problemas para Charlie, então, ao viajar, ele se passa de historiador e escreve tudo sobre as cidades que visita; às vezes em contos, noutras em livros didáticos. Unindo o útil ao agradável. Também já tentou a filosofia em certas noites, mas percebeu que para ser filósofo ele precisaria estudar um pouco mais as pessoas... talvez noutra ocasião.

Após essa breve reflexão, ele percebeu que precisaria ter que pagar sua entrada. Bem, o que ele poderia fazer? Estavam no meio de uma exploração naval para descobrir se o mundo é ou não plano, e em pleno ano de 1507, impostos para entrar em certas cidades da Europa era completamente comum. Sem demorar muito, Charlie burlou o pedágio usando da tão famosa arte de causar confusão para o guarda que estava cobrando o dinheiro ir apartar e dar a brecha pro garoto entrar sem problemas. Ele não gastaria dinheiro assim tão fácil. Ao adentrar os portões, subiu em um estabelecimento relativamente alto, que ficasse pelo menos uns quinze metros do chão para observar a cidade.

O moreno olhou em volta na cidade, memorizado precisamente os detalhes. A cidade das gôndolas tinha certas tendas nas calçadas, em frente às casas de seus próprios donos, facilitando o comércio; percebeu também que muitas pessoas tinham suas próprias casas como ambiente de trabalho, como o de certas costureiras; e como de costume, pela cidade toda era possível ver grupos de... prostitutas, basicamente. Não há outra forma de descrever elas. Saltou do seu ponto de observação em direção a um beco, onde ele traçou sua rota até o chão pulando entre as janelas e tijolos salientes. Aquele tipo de cidade era excelente pra suas corridas e "atividades" que necessitavam de ações por entre os prédios.

Contratou um gondoleiro para que o levasse pela cidade, como um guia turístico. Ele pagou um pouco a mais para que o gondoleiro contasse sobre Veneza, as pessoas e o estado atual da cidade, mas a viagem foi bem promissora no quesito aprendizado. Agora Charlie tinha uma noção do que acontecia em Veneza na cidade entre os comerciantes; entre os banqueiros; e entre as famílias ricas. O gondoleiro não deixou explícito, mas parece que alguns ricassos novos na cidade conseguiram dominar todos os banqueiros em dois anos, deixando a cidade economicamente mal por causa da importação exagerada de decoração para esses ricos. No final, o assunto se tornou o Carnaval, que os ricassos comemorariam em um palazzio, numa festa fechada ao público em que só aqueles do alto calão de Veneza entrariam. E, óbvio, os Submundanos de Veneza também iriam.

O gondoleiro não fazia ideia das ações Submundanos que aconteciam por detrás dos panos naquela cidade, e Charlie não o culpava por isso. Ele mesmo só sabia que os tais "ricassos" novos na cidade eram, em sua maioria, seres do Submundo que vieram à cidade para turismo, mas se impressionaram com o quão rica a população era, então resolveram investir para que a cidade fosse deles. E estão quase conseguindo esse feito. Charlie teria vindo mais cedo para a cidade, mas ele não podia ainda. Estava... resolvendo algo muito pessoal na Inglaterra para vir ao território italiano antes. Não tinha motivos para se culpar, porém, sentia-se triste pelo atraso.

Mas agora faria a diferença. Seu objetivo era salvar a cidade, independente dos males que estejam sobre ela.

"Uma festa de máscaras, com direito a convidados do Submundo.", pensou Charlie.

"Nada fora do comum.", o tom insolente de Alice soou. " As pessoas dessa época são mais fáceis de enganar que o Império Romano."

"Como você sabe...? Ah, esqueça.", encerrou o garoto.

Charlie continuou andando pela cidade, agora vagando sem sentido definido, em busca de algum ser do Submundo que tivesse patente o suficiente para ele roubar uma máscara. Os truques dele poderiam forjar a aparência que fosse necessária, mas não precisava fazer algo como isso. Iria entrar e de máscara, independente de quem fosse o dono original da máscara. Era só isso o necessário.

Então, ele viu algo que lhe chamou um pouco de atenção. Parecia ser um grupo de pessoas comuns, porém, carregando quinquilharias e possíveis decorações para algum lugar. Tinham poucas chances de serem os decoradores do palazzio em que ocorreria a festa mesmo, mas... ele tinha tempo e vontade de explorar, então resolveu seguir aquelas pessoas. Ele estava indo por cima de telhados, saltando por entre algumas ruas e tentando sobreviver à tentação de pular na água e ir nadando. Mas sabia que perderia seus alvos se fizesse aquilo, então descartou a opção.

Seria o destino que estava do lado do garoto, ou puramente sua sorte; mas quem ele seguia realmente eram decoradores. Eles foram em direção a um palazzio alto, com dois andares e totalmente pintado por uma cor em tom de caramelo, com janelas e persianas marrons e alguns outros detalhes ornamentais nas esquinas e na porta em branco. Era bem bonito, além de seu telhado ter uma leve semelhança com algumas torres de castelo.

Após perceber que na volta do palazzio em que entraram haviam alguns grupos de guardas separados a cada quinze metros, divididos em pares em frente às portas e quartetos de guardas nas esquinas do palazzio, que tinha somente a porta da frente e provavelmente alguma traseira, totalizando em torno de vinte guardas; ele também percebeu que todos tinham espadas na cintura e uma alabarda nas costas. Com isso, Charlie pressupôs que seria ali a tal festa; ou o palazzio de algum nobre, ou banqueiro, ou até de um ricasso.

Seu plano era simples: Entrar antes de todos na festa. Isso faria com que ele não precisasse da máscara. Agora, como ele faria isso, era outra história. Calculou que a distância entre os telhados mais próximos e o palazzio tinham uma distância que as pessoas da rua provavelmente desconfiariam se o vissem pulando. O mais inteligente seria ele pular e usar algum... truque. Porém, com essa opção tinha chances de sair pela culatra e os Submundanos descobrirem da presença dele. Desconsiderando esta ideia, ele pensou se poderia se passar de decorador. Era só dizer que estava atrasado e que seus colegas entraram com os materiais que ele usaria. Tecnicamente, não precisava de roupas específicas para isso. Tecnicamente.

Mas esta era sua melhor aposta. Ele levou pouco mais que uns cinco minutos para preparar tudo, correndo duas quadras até o palazzio onde aconteceria a festa para forjar que estava seguindo os decoradores de antes. Também bagunçou um pouco seu cabelo, abriu a gola da camisa e puxou as mangas. Esperava que isso contribuísse para seu disfarce, porque se falhasse, ele se sentiria um idiota. Mas aquele estilo não era ruim, pensou ele, ao desabotoar o colete e perceber que ficar despojado tinha certo charme. Ou fosse puro ego alimentado pelos olhares das prostitutas. Ele não refletiu mais a respeito, pois estava em frente ao par de guardas.

— Ei, ei. — chamou o da direita, com a mão indo para cima do cabo da espada. — Tem certeza que pode entrar?

— Oh! — Charlie fingiu certo espanto. — Desculpe por chegar assim do nada. É que acabei me atrasando. Sou um dos decoradores. — ele agradeceu mentalmente sua irmã por ter-lhe ensinado italiano anos atrás.

— Atrasado, é? — o segundo guarda observou o garoto dos pés à cabeça. — Não tenho tanta certeza assim se você é mesmo um decorador. Cadê seus materiais? — essa pegou ele de surpresa. Mas o garoto não perderia tamanha chance.

— Como assim "cade meus materiais?" — o moreno tentou soar como se estivesse sendo culpado por algo. — Eu pedi que enviassem minhas coisas com antecedência! Ou vai dizer que meus assistentes incompetentes não trouxeram minhas coisas ainda?! — Os guardas demonstraram surpresa com aquilo. Bem, Charlie tinha que concordar, ele não tem a cara de alguém escandaloso. — Não precisam se preocupar. Meus colegas têm coração bom, podem me emprestar algo.

— Então... — o guarda da direita pareceu hesitante. — Diga-nos seu nome e pode passar. — ambos deram espaço para ele.

— Podem anotar! Charlie Hellscyth passou por aqui! — então entrou, com as mãos balançando na altura do rosto, parecendo satisfeito com aquilo. Até que se saiu bem em seu papel de decorador exagerado.

Do lado de dentro, ele agiu rápido. Fechou as portas e observou rapidamente o saguão: uma escada no centro, que subia ao segundo andar; pilares circulares a cada dez metros de distância logo abaixo do que seria a visão "panorâmica" que as pessoas do segundo andar teriam; algumas portas nas paredes laterais e uma porta debaixo da escada, além das portas do que deveriam ser os quartos do segundo andar. Ele caminhou debaixo das sombras, tentando não chamar atenção dos decoradores que já estavam trabalhando. Descobriu que a porta da direita levava para a cozinha; enquanto a da esquerda, estava trancada. A porta debaixo da escada dava em uma biblioteca, e foi nela que Charlie entrou.

A biblioteca era... Como Charlie poderia a descrever?... Enorme. Essa palavra deixava clara qualquer dúvida sobre o lugar. Tinha três corredores no centro, com quatro prateleiras alinhadas em torno deles, formando-os; as paredes eram somente prateleiras de livros e mais livros; nos fundos havia uma grande mesa com diversas velas e uma janela; ao lado da mesa, uma escada em caracol levava para o segundo andar, que tinha as prateleiras revestidas em livros, cuidadosamente alinhados na parede.

Ele levou alguns instantes para perceber que as prateleiras do andar de baixo eram de livros mundanos, e as de cima, de livros Submundanos que não se restringiam aos dos demônios. Era uma literatura que provavelmente ia muito além do já conhecido pelo garoto. Ele calculou que tinha umas cinco horas até a festa, pela altura do Sol e suas informações. Charlie desejava muito ler tudo aquilo. Mas, mesmo ele estando motivado e tendo comida a seu dispor, levaria pelo menos um semana para ler a biblioteca inteira. Não gostava de recorrer a essa opção, mas era a única solução.

"Alice. Preciso de ajuda.", ele tentou não soar como se estivesse dando uma ordem à vampira.

"Não precisa pedir. Eu sei.", ela soou orgulhosa.

"Por que você me faz parecer tão previsível?", indagou Charlie.

"Porque eu ouço tudo que você pensa.", ela soou debochada.

"Cheque-mate."

Charlie tinha um poder. Isso é obvio. Ele não sobreviveria naquele mundo sem um poder. Mas ele não gostava de usar seu poder, pois ele não o considerava algo bom. Mas ele sabia que, naquele momento, dependeria de seu poder para ler todos os livros do segundo andar. Ele estendeu o braço direito, fazendo o círculo mágico rubro-negro surgiu em frente à sua mão, que estava espalmada no ar. O círculo era composto por diversos ornamentos e símbolos mágicos, que se ligavam uns aos outros. Então, uma garota atravessou o círculo, que se tornou em um portal. Era Alice, a vampira loira. Charlie tinha o poder de roubar a alma de algum indivíduo e atar a dele, tornando essa pessoa em alguém que ele poderia se transformar e ter todas as suas memórias, conhecimento e poderes, além da aparência. Porém, ele não matava suas "vítimas", de forma que todas mantém seu pensamento e sua "vida" dentro do corpo de Charlie. Esta é sua Steal Soul.

— É bem melhor quando posso sair. — Alice se referiu a esta técnica de Charlie, em que, por um certo período de tempo, ele conseguia manter uma das almas que roubou fisicamente fora de seu corpo, assim ela obedeceria à vontade do garoto, mas poderia se mover sozinha.

— Não vá se acostumar. — ele caminhou para a parede da direita e pegou o primeiro livro. — Você cuida da esquerda.

— Nos vemos do outro lado. — a vampira caminhou para sua prateleira, pegando um dos livros e começando a ler.

Eles se contrariam novamente só quando terminassem suas respectivas prateleiras laterais. Cinco horas e dezenas de livros para serem lidos. Eles precisavam ser rápidos, pois não sabiam se alguém se preocuparia em verificar todos os aposentos antes da festa. Charlie torcia que não, mas nunca se sabe. Então, sua tarde se resumiu em ler. E ler muito, sobre todo tipo de seres do Submundo que aquela biblioteca tinha documentado.

. . .

— Operação completa. — disse Alice, parando em frente ao garoto. Ele gradeceu mentalmente pela vampira conseguir ler livros em velocidades superiores a do som sem esquecer do conteúdo. O trabalho terminou com menos de meia hora para a festa restando. — Não tem de quê.

— Ah, é, você ouve. — ele deu de ombros e tocou o rosto de Alice, que se dissolveu como se fosse pura magia e desapareceu, voltando para dentro do garoto. Agora, tudo que ela leu atingiu a mente de Charlie, o sobrecarregando por alguns instantes. Pouco depois, ele se recuperou, com os pensamentos se organizando.

O próximo passo dele era esperar pela festa, para ver quem eram os anfitriões. O que ele ouviu do povo da cidade não chegava a lhe relatar quem era o anfitrião da festa, ou seus principais convidados; isso ele descobriria por si. Não queria sair pela porta que entrou, pois iria sair no meio do salão da festa. Então, Charlie subiu as escadas e saiu pela porta do segundo andar. Ela dava numa parte do segundo andar que era até que bem iluminada, porém, bem mais afastada de onde as pessoas poderiam ficar.

O garoto pensou que seria uma boa descobrir onde ficavam os banheiros, mas desistiu dessa ideia ao ver gente entrando no palazzio pela porta da frente. Ele se abaixou na amurada, ficando com os ouvidos atentos à conversa de quem quer que tenha entrado. Caminhou, abaixado e lentamente, praticamente sem fazer som, até um pilar, onde se levantou em sua sombra e observou quem entrou. Era um homem alto, muito bem vestido e com o cabelo, que parecia ter sido ensebado para trás, preso em um rabo de cavalo; sua barba era bem aparada, além de se completar com o bigode dele. Ele só podia ser um dos demônios da Luxúria, pela bela roupa e seus cuidados com a aparência. Mas o menino não sabia seu nome, muito menos podia comprovar algo.

"Este é alguém desagradável.", ele ouviu de Alice.

"Damon.", disse Clary, a demônio., "É tenente da Luxúria. Não o subestime num combate, Charlie. Talvez... não. Mas ele pode aguentar alguns rounds comigo sem sair morto no primeiro golpe."

"Diz para eu não o subestimar, mas mantém sempre a arrogância, né?", apontou ele. "Sem problemas. Eu fui bem treinado."

Sentindo que as Souls sabiam sobre o que ele estava falando, Charlie mudou seu olhar para a acompanhante do demônio. ela era... Insanamente linda. Usava um vestido roxo que deveria ser de outro mundo, pois não parecia ter armação: era completamente liso sobre o corpo sinuoso dela e se estendi em uma longa cauda; além de possuir uma abertura do lado da perna direita, e de usar sapatos com saltos muito altos. Uma flor branca completava seu decote, realçando os lábios imersos em algo que os tornavam mais vermelhos que o comum, e seus cabelos ruivos, ondulados em cachos muito bem dispostos e em cascata.

"E-ela... Aqui...", Charlie sentiu a voz de Clary tremer. Ela toda estava tremendo dentro de Charlie.

"Aposto que é a Luxúria em pessoa.", concluiu o garoto.

"Acertou.", a voz da Necromante saiu como um sussurro."Não é comum vermos um dos Sete por aí."

"Sete?", ele molhou os lábios, que estavam secos de tensão. "Não me diga que..."

"Sim.", confirmou Elizabeth, a Necromante."Morgana, a Luxúria dos Sete Pecados, está bem em sua frente."

O próprio Charlie estremeceu com aquilo. Ele sabia quem eram os Sete Pecados. Sete demônios de poder inigualavelmente grande, escolhidos a dedo por seja lá quem comande o Inferno. Eles nunca agem juntos, mas quando agem, há relatos da destruição de reinos inteiros. E são eles os causadores dos terrores de alguns anos atrás. Foram eles que fizeram aquilo com a família de Charlie. Se não fosse por eles, Charlie ainda estaria vivendo no campo com seus pais e Cecilly. Se não fosse por eles.

"Contenha sua sede de sangue!", ele ouviu a voz de ordem que Clary tinha quando Charlie errava no treinamento."Se foque somente no seu oponente e em como ele é atualmente. O que ele fez não lhe interessa. A raiva é uma chama, um impulso de poder; a fúria é um incêndio descontrolado."

Ele se aprumou. Uma gota de suor desce de sua têmpora para a maçã de seu rosto. Se até mesmo Clary, que tinha medo de todos os Sete, conseguiu manter a voz firme ao advertir o garoto, e as experiências dela com os Pecados eram ainda piores e mais assustadoras, como ele manteria a pose de "homem da casa" caso se deixasse levar pela sua vontade de vingança. Respirou fundo. As palavras dela haviam lhe dado consciência suficiente para ver que ambos os demônios estavam chegando ao meio da escada. Se ele os seguiria, teria de agir depressa.

Charlie se moveu abaixado, pelas sombras da amurada, até um próximo pilar. Ele não conseguia distinguir muito bem a conversa deles ainda, mas não iria perder mais tempo pensando. Iria agir e pensar ao mesmo tempo. Percebeu que eles só poderiam estar indo a algum aposento mais particular. O garoto nem prestou atenção em como todo o lugar estava bem arrumado, diferentemente de antes. Os decoradores trabalharam bem, mas isso não era o interessante agora.

Ele seguiu seus alvos com extrema cautela, e uma habilidade para ser silencioso e se esconder nas sombras que mesmo os vampiros mais experientes teriam inveja dele. Percebeu que o par de demônios entrou em um quarto, no final do corredor esquerdo do segundo andar Ele teria que ser mais rápido que antes, mas ainda silencioso. Correu pouco depois da porta se fechar, colocando o ouvido nela. A conversa estava abafada, mas ele conseguiu ouvir algumas coisas.

— Você precisa ser mais cauteloso com suas ordens. Agora o Hellscyth entrou aqui. — a voz que falava era claramente feminina, além de expressar autoridade. Ele sentiu um calafrio com a fala de seu sobrenome.

— Desculpe, Milady, não deixarei que ele escape com vida. — o homem praticamente suplicava em suas palavras.

— Como tens certeza de que ele já se fora? — ele ouviu um som grave. Como o de um tapa em uma mesa. — Como sabe se ele não está aqui, nos ouvindo, agora mesmo?

— Ele não seria louco... — começou o homem, com medo na voz. — E já tenho homens atrás dele pela cidade.

"Mal sabe ele, que eu sou louco.", concluiu Charlie.

— Você tem muita sorte por ainda me ser útil aqui... — ele sentiu uma tensão se formar naquele cômodo, escapando pelas frestas da porta. — Do contrário, já estaria morto.

Charlie não ouviu mais, seguindo pelo corredor até a porta que levava à biblioteca. Ele precisaria ficar em algum lugar até o início da festa... mas onde? Estavam à procura dele, é claro. Mas ele sabia se esconder muito bem. Seu cérebro começou a pulsar, fluindo rapidamente por todo o lugar, com ele lembrando de cada possível rota para a biblioteca, mesmo que do lado de fora. Caminhou até a janela e observou a parte de trás do palazzio, onde haviam quatro guardas conversando. Dali, não haviam muitas formas de chegar na biblioteca: a janela era a única entrada, e precisava pular pelo menos quatro metros de altura.

Ele poderia escapar, é claro, mas a opção de continuar lá até a festa o fez desistir de sua fuga. Ficou na biblioteca, longe da visão de qualquer um que abrisse a porta. Uma sensação ruim havia invadido seu nome desde que a Luxúria disse seu sobrenome. Era como se ela soubesse onde ele estava, e cada passo que o garoto dava dentro daquele palazzio era guiado pela mesma. Eliminando esses pensamentos de sua mente, ele tratou de elaborar um plano.

Charlie não havia percebido a hora passar enquanto traçou o plano mentalmente, com a ajuda das Souls(como ele chama as almas que rouba). Para ele, era sua melhor opção: o plano com as maiores chances de sair com vida, e matar o homem com quem Morgana falava, o tal de Damon. Agora estava um silêncio na biblioteca, que anteriormente fora recheada pelas vozes de todas as Souls ecoando em sua mente. Se bem que, a biblioteca sempre esteve silenciosa; era a mente de Charlie que possuía muitas vozes.

Ele abriu muito pouco da porta, colocando somente o olho na fresta que estava perante ele. Conseguiu ver o lustre do palazzio(tinha um lustre ali antes?), iluminado por diversas velas. O salão estava recheado de pessoas, com todos os tipos de roupas diferentes, e cores ainda mais vibrantes que a luz do lustre. Ele notou que ninguém se vestia como Luxúria estava, e concluiu que sua roupa deveria ser muito nova, ou algo muito além do que as pessoas tinham alcance por mais alto que fosse seu calão no Submundo. As quatro mesas, que estavam perfeitamente dispostas nas duas paredes laterais, estavam cobertas de todos os tipos de iguarias para festas, separadas em doces à direita; salgados à esquerda, Charlie percebeu. Num canto, um grupo de músicos tocava algo que fazia as pessoas terem um som ambiente agradável em suas conversas, mas que ofuscava sons da rua e dos arredores mais distantes. Sorte dele.

Ele notou que não conseguiria descer e agir livremente, pois haviam guardas em certos pontos estratégicos, como na escadas, e nas portas. Até mesmo ao redor da porta da biblioteca, havia um par de guardas. Ele rapidamente fechou a porta. Então, ele deu alguns passos para trás e respirou fundo. Era agora ou nunca. O Plano 3A seria o dessa noite. Charlie abriu a porta da direita até o final, fazendo ela dar a volta completa em suas dobradiças; abrindo com tanta força que ela bateu no guarda ao seu lado, o fazendo bater de costas na parede. Ele saiu como um ninja, rolando pelo chão e usando a amurada para se apoiar, levantando com um chute na lateral do corpo do segundo guarda, que curvou-se pro lado atingido e ele deu um soco no mesmo que o fez cair desacordado.

Charlie largou o corpo do alvo no chão com cautela, olhando o guarda atrás da porta, que retomava sua postura e colocava a mão no cabo da espada. Ele foi até ele em um salto e segurou a mão do mesmo sobre a espada, dando uma cabeçada em seu nariz e socando com a outra mão o abdômen de seu oponente, que se curvou à frente. Ele somente finalizou com uma joelhada no rosto do adversário, que cairia de costas, se o garoto não o tivesse segurado e deitado silenciosamente, se abaixando na amurada em seguida. Ele agradeceu mentalmente pelos guardas estarem vestindo armaduras tão leves e pouco protegidas como eram suas cotas de malha de ferro. Se eles estivessem com algo pesado, Charlie estaria encrencado.

"Não há tempo para comemorações.", lembrou a demônio.

Ele assentiu enquanto olhava em volta, pronto para fugir de novo para a biblioteca. Ela era seu porto seguro, pois tinha uma boa rota de fuga pela janela da mesma. Os corredores do segundo andar tinham uma iluminação boa, mas a música fez com que os sons do combate de Charlie não fossem ouvidos. Ele respirou fundo e conferiu os bolsos: estavam lá, suas armas, as peças de Xadrez. Colocou a cabeça pra fora da amurada, só na altura dos olhos, para ele observar qualquer movimento que pudesse vir em direção a ele. Percebeu um par de guardas se aproximando do corredor que levava às escadas...

"Alguém pode ter ido avisar Damon e... a Morgana.", disse Alice.

"Se eles vierem, pessoalmente, atrás de mim, saio correndo pela janela mais próxima.", ele tentou soar confiante.

"Não seja tão arrogante. Ela facilmente me vence.", retrucou a demônio.

"Deixe de ser pessimista.", alertou a vampira. "Charlie tem bons recursos para uma fuga com vida."

"Hoje é meu dia de sorte.", apontou ele.

"Se morrer, irei te amaldiçoar por ter-me feito confiar em você.", Clary soou definitiva, e se calou. Charlie sentia a angústia dela, somada a dele, de forma que ele sentia o dobro de angústia.

Ele sacou uma das peças de Xadrez: O peão negro, que se expandiu em um bastão de um metro e meio na mão de Charlie, que ele deixou em horizontal para não atrair atenção das pessoas abaixo dele. Rapidamente, avançou em direção de onde seus oponentes vinham. Quando o primeiro surgiu na esquina, onde ele já estava, Charlie usou do bastão para derruba-lo. O segundo foi pego de surpresa também, levando uma rasteira do garoto que o calou com um chute na garganta quando já estava no chão, enquanto o primeiro foi silenciado quando Charlie bateu sua cabeça na amurada.

Ele olhou na amurada novamente, usando da sombra de uma coluna pra se esconder, vendo que ainda haviam pelo menos seis guardas distribuídos pelo segundo andar; e pelo menos quatro deles estavam procurando Charlie. Por um único instante, ele se sentiu animado, por pensar que sua cabeça era um alvo, e que ele estava cercado de predadores, pois adorava caçar. O sentimento de caçar que sentia quando era o caçador era excelente, mas ser a presa era... um desafio ainda maior que ser o caçador. Ele formulou sua nova trajetória, que visava manter-se escondido e pegar o ponto cego dos perseguidores.

A música cessou lá em baixo, com um tilintar de taças. Contra seus instintos, mas a favor de sua curiosidade, ele se levantou na sombra de uma coluna pra observar. Era Damon, que estava chamando a atenção de seus convidados para o topo da escadaria. Charlie estava no extremo oposto de Damon, atualmente. Isso era bom, pois ele seria sua presa depois de terminar com os guardas. Um bastão, seis guardas... Não era uma situação tão ruim assim. O pior era o espaço mesmo.

— Senhoras e senhores! — começou Damon, em seu discurso. Charlie abaixou-se e continuou andando rente à amurada, se aproximando da esquina de onde os guardas estavam vindo. — Gostaria de agradecer a vocês por terem vindo aqui, prestigiando a mim com sua presença.

Um dos guardas chegou a ficar em frente a Charlie, que atingiu o oponente no queixo com o bastão, e o fez cambalear para trás. Rapidamente, ele rolou para próximo da parede, onde tinha mais sombra. Os guardas já se reuniam em sua volta. Ele não poderia deixar que muitos deles se aproximassem; seria problemático. Girando o bastão, ele derrubou o que estava mais próximo, que foi o atingido anteriormente no queixo.

— Quero que saibam que, se não fosse por uma única pessoa, seria impossível eu oferecer-lhes uma festa com comes e bebes de tão alto calão. Imagine só esta nossa festam, sem esta magnífica música,. — Damon apontou para os músicos, que sorriram sem jeito enquanto acenavam.

Quando o alvo caiu em um baque surdo, o segundo guarda se aproximou, já com a espada de folha larga em punho. O garoto se concentrou, e o bastão foi mudando sua forma: Tornou-se em um sabre, com sua lâmina cursiva e de prata escura; a proteção para mãos era de um tom de prata claro, que formava um círculo entre a lâmina e a empunhadura e terminava em uma linha do aço que descia em direção a outra extremidade da empunhadura, que era preta por inteiro. O garoto calculou que a arma toda deveria ter uns noventa centímetros, e a lâmina não refletia.

Agora com sua nova arma, ele a empunhou em mão única, aparando o golpe do oponente, girando suas lâminas e deslizando pelo lado cursivo de sua arma, a espada do oponente, que viu sua cota de malha de ferro ser perfurada pela lâmina de Charlie. Até hoje, o garoto se pergunta qual é o material de suas armas, pois elas cortavam praticamente qualquer coisa e quase nada conseguia as quebrar.

— Se não fosse por essa bela dama, que hoje nos agraciará por algum tempo com sua presença, nenhum de meus esforços e criados conseguiriam dar uma tão bela festa. — apesar do exagero de elogios, Charlie estava com uma má sensação sobre o rumo do discurso.

Ele foi atingido nas costas por um dos guardas, e sentiu sua pele abrir rapidamente em um corte longo e fino, que o fez cambalear para perto da amurada, com um suspiro de dor. Atrás dele, encontravam-se dois guardas bem armados. Ele percebeu que não poderia defender os golpes com sua lâmina para não chamar atenção dos participantes da festa, então se colocou a desviar, com agilidade e experiência se evidenciando, era como se seus atacantes estivessem sendo lidos pelo garoto: seus movimentos, por mais mínimos que fossem, eram palavras que ele juntava e formava em sua mente na forma da descrição do ataque.

Em pouco tempo mantendo a defensiva, Charlie já conseguiu encontrar uma brecha muito boa para dar uma finta com seu sabre e cortou a garganta do primeiro atacante, olhando o terceiro com uma malícia que, creu o garoto, fez o mesmo se assustar e fugir. Porém, não era de Charlie que o guarda teve medo. Foi de quem se encontrava o garoto. Esta pessoa, que se aproximou silenciosamente do garoto que não baixava a guarda. Ele sentiu primeiro a mão gelada tocar suas costas, então um braço fino e claramente feminino passou em frente a seu peito, com a mão, ainda mais fria que a primeira, tocando o pescoço dele. Era como se uma cobra tivesse se enroscado no pescoço dele.

— Irá descer comigo lá em baixo, para que morra calado. — a voz ao pé de se ouvido era claramente reconhecível: ele foi encurralado por Morgana. Por um instante, se perguntou o motivo dela não ter usado seu charme, e sim, dito casualmente aquela frase.

— E se eu não quiser? — valia a pena tentar, constatou ele.

— Oh, seria péssimo se você morresse aqui em cima. — a voz da mulher ficou mais infantil, com deboche. — Não teria diversão alguma.

Ele suspirou pesadamente e assentiu com a cabeça. Segurou com mais firmeza o cabo de seu sabre, que foi retornando a forma de uma simples peça do peão de Xadrez. A Luxúria acompanhou ele por cima dos corpos dos guardas mortos e desacordados, além de olhar para os guardas que ainda tinham consciência com extremo desprezo. O discurso de Damon chegou ao fim.

— Quero que conheçam, meus amigos, Lady Morgana! — ele apontou para a escada, onde Charlie se encontrava de braços cruzados com a mulher. Ele sentiu os olhos de todos sobre ele, e a dúvida em alguns deles. "Por que aquele maldito garoto estava com ela?", era o que a expressão de muitos descrevia. Ele sentiu um aperto no estômago. Por puro desconforto do sangue escorrer suas espinhas dado o corte e a pressão que ela fizera nele anteriormente. Respirou fundo e manteve a pose. Se era pra ele ser "refém" de uma mulher demônio de alto calão, ele poderia ao menos conter sua dor.

— Todos sejam muito bem vindos. — disse ela, soando extremamente simpática.

— E quem seria o honrado cavalheiro ao seu lado? — Damon sabia quem era, mas perguntou mesmo assim.

— Oh, este é o Sr. Charlie Hellscyth. — ela anunciou, com certo orgulho... Mas de quem? Dele?... Não, pensou ele, deveria ser orgulho de si mesma por ter conseguido capturá-lo.

— Ele veio aproveitar nossa calorosa festa? — o demônio sabia fingir muito bem que estava afim de falar algo. Claramente hábil com seu charme.

— Sim. Como meu acompanhante, é claro. — Morgana e Charlie desceram as escadas, chegando próximos a Damon e o resto de quem estava lá. — Podem voltar às suas festividades.

Então, como se ela tivesse dado uma ordem, praticamente todos voltaram a conversar, enquanto a música voltava a compor o som ambiente do recinto. Praticamente, todas as pessoas. Exceto por uma garota, ele notou. A garota manteve os olhos azulados sobre a demônio da Luxúria por longos instantes, e em Charlie, antes de voltar sua atenção para quem pareciam ser seus parentes. A garota tinha cabelos cacheados e em um tom escuro do castanho; sua pele também era morena, o que surpreendeu ele um pouco; seus olhos, castanhos como amêndoas, pareciam, no mínimo, sagazes; seu corpo não tinha muito o que se ver debaixo do vestido azul, que chamava fez Charlie viajar em cada detalhe como Cristóvão Colombo viaja pelo mar atrás do Novo Mundo. Ah, aquele belo azul...

— Você deu azar, garoto. — Damon falava sem conter seu deboche. ele continuou olhando para a garota.

— Sabe — começou Charlie, voltando os olhos para o demônio. Ele percebeu, ao olhar nos olhos de Damon, que íris dele tinha um tom de roxo escuro. -, hoje é meu dia de sorte.

— Você é muito confiante, para alguém que está perante a morte.- concluiu o demônio.

— Calados. Os dois. — ordenou a Luxúria. — Ambos têm muita confiança no que fazem. Isso é bom, Damon. Mas não deixe a arrogância te dominar.

— Certo, Milady. — o garoto percebeu que ele se conteve para não baixar a cabeça.

— E você, Charlie... — ele foi fisgado pelos olhos dela. Vermelhos, vibrantes e mortais. — Saiba que não pretendo deixar que saia daqui com vida. Estava na biblioteca. Deve ter lido algo. Sabe demais. Que pena.

Ele manteve os olhos fixos no dela, atento em suas palavras. Então era por isso que ele tinha de morrer? Por saber demais? Pelo menos, ele soube que ela sempre teve consciência de onde ele esteve. Se o deixou ficar, foi por pura diversão. Poderia ter acabado com isso facilmente, mas não o fez.

— E quem lhe dá garantais de que pode me deter? — ele soou provocativo. Se ela queria lutar, ele aceitaria de bom grado. — Eu tenho Clary. Esqueceu?

— A pirralha que é irmã do Ganância e você considera um mérito de possuir não é nem de longe o suficiente para me deter. — ela sorriu, maliciosa. — Ela já tem experiência em perder pra mim.

— Engraçado. — Charlie sentiu que Clary estremecia dentro dele. — Você fala com tanta arrogância, mas aposto que perderia pra mim, mesmo sem as Souls.

— A graça aqui é você e sua arrogância. — disse Damon, mas Morgana levantou sua mão, impedindo ele de continuar.

— Charlie, Charlie... — era como se a cada palavra dela, a Luxúria se banhasse mais em fúria. — Se lutarmos, inocentes sairão feridos. Tem certeza que quer isso?

— Inocentes? — ele olhou em volta, observando cada pessoa no salão e levantando uma sobrancelha para a demônio. Ele levou alguns instantes a mais quando avistou a morena de azul, mas voltou a olhar para Luxúria. — O requisito mínimo para estar aqui não é ser culpado de algo? Ah, espera, é a máscara o requisito.

— Pode continuar com suas piadinhas. — disse a Luxúria. — Mas você se preocupa com quem pode ser afetado pelas suas lutas.

— Talvez. Quer tirar a prova? — como resposta de sua pergunta, ele foi agarrado pelo pescoço e levantado alguns centímetros no ar. Quem fez isso foi Morgana, usando sua mão direita. Ela apertava de forma que o garoto não conseguia falar direito, só reclamar tossindo.

— Você é arrogante demais. — disse ela, socando o estômago do menino. — Irá aprender onde é seu lugar. À força.

Ele tentou chutar ela, mas seu golpe foi aparado pelo braço livre de Morgana. Ela era rápida, ele percebeu isso pela facilidade com a qual seu golpe foi defendido. Porém, de repente, ele foi solto no chão enquanto uma faca subitamente surgia perfurando o ombro da Luxúria. Charlie olhou para trás, vendo a garota do vestido azul em posição de quem atirou. Porém, pelo ângulo do braço dela, parecia que ela mirava a perna da demônio.

— Reforços? — ele perguntou, rolando para longe dos demônios e se aproximando da garota. — Ou faz parte do clubinho que quer me matar?

— Nem uma, nem outra. — a menina respondeu, com uma voz tão firme quanto era doce. Ele levantou a sobrancelha, e ela prosseguiu. — Vítima das consequências.

"Belo arremesso.", comentou Alice.

— Vai lutar comigo ou ficar me encarando? — a garota olhou de Charlie para os demônios. Morgana já havia arrancado a faca de seu ombro, que começava a se regenerar. Damon chamava os guardas. — Eles não parecem propensos a desistir depois do meu ataque.

— Consegue proteger minha retaguarda? — um círculo mágico surgiu abaixo dele, que brilhava em vermelho.

"Vamos fazer isso, Clary!", ele suplicou.

"Não posso!", ela praticamente chorava."Não consigo. Ela... é muito superior! Viu como ela te imobilizou!"

"Fui pego desprevenido. O charme dela me tirou a atenção de seus movimentos.", explicou Charlie.

"Vocês conseguem.", quem falou foi Lizbeth, para surpresa de todos. "Juntos."

— Posso dar um jeito. Aguenta aqueles dois? — a garota parecia estar reunindo todos os talheres e pratos pequenos da mesa. Seria ela uma arremessadora muito hábil?

— Sem problemas. — com Lizbeth a motivando, Clary sobrepujou seu medo e deixou que Charlie a guiasse. O corpo dele foi mudando, ficando com em torno de um metro e meio; os cabelos pretos dele cresceram em um rabo de cavalo baixo que ia até o meio das costas, enquanto uma bandana surgia em sua cabeça para impedir os outros fios de caírem; a camisa dele se adaptou ao corpo novo, tendo um nó do tecido ao lado da cintura de Clary, o colete ficou fechado, e a calça parecia mais curta, assim como as botas; o rosto da garota que surgiu no lugar de Charlie era belo, com maçãs do rosto visíveis, a pele branca e um sorriso travesso no canto da boca que parecia natural; seus olhos eram de íris vermelha brilhante. Já estavam em posição, com as mãos na altura do rosto e o pé direito na frente do esquerdo. Os punhos e as mãos dele estavam revestidas por um pano.

— E não é que você veio, querida. — disse a Luxúria, observando a transformação. — Pretendem conversar quanto tempo mais?

— É nossa vez, agora. — Charlie, com o corpo de Clary, investiu o primeiro ataque. Ele agradeceu pela demônio se mover em alta velocidade, para o ataque ter mais força. Ela dizia a Charlie o que poderia ser feio, e ele conduzia a luta. Era assim que eles lutavam: Um time, do início ao fim. O primeiro ataque deles foi um soco direto na boca da demônio, que jogou a cabeça para trás. O golpe foi seguido por uma sequência de outros golpes, sendo eles: um direto no estômago dela com a esquerda, um gancho de direita, um direto no peito dela e uma cotovelada no maxilar da mesma, jogando a demônio numa das mesas. A diferença de altura praticamente não existia; graças à velocidade que os golpes tiveram, foram executados antes de tocarem o chão.

As pessoas em volta, que assistiam abismadas tudo que acontecia, começavam a tomar partido no combate, se juntando em torno de Charlie a garota que o ajudava com arremessos estupidamente precisos. Ele levou pouco tempo para entender que ela arremessava os itens e, em seguida, os teleportava para próximo do alvo, impedindo um desvio. Isso era muito inteligente, constatou ele, lembrando-se de falar novamente com ela quando tudo aquilo terminasse.

— Nada mal. — Morgana já estava de pé novamente, com a ajuda de Damon, que foi quem falou. A Luxúria estava com um pedaço de gelo tampando sua boca. O demônio olhou para as mãos dele, que estavam com faíscas pulsando ao redor. Essa era a magia de Clary: Ela controlava o frio e o calor; o fogo e o gelo; a terra e o ar; os dois extremos opostos dentre os elementos. — Serão um excelente objeto de estudo.

"Não pare agora.", alertou Clary. "Se deixar eles se recuperarem, vão atacar com o dobro de força.", então ele deu dois socos no ar, gerando um par de bolas de fogo que foram contra os dois demônios. "Bom. Mantenha eles atentos com os socos de longa distância e mude pra curta distância subitamente."

Os demônios desviaram facilmente, como ele sabia que o fariam porém, também desapareceram. Se manteve atento, mas relaxou os braços ao lado do corpo, balançando as mãos. Respirou fundo, deu dois saltos baixos e se virou para onde a morena mantinha os oponentes afastados de Charlie. Ele também percebeu que ela protegia seus parentes. Então, o trabalho dela estava sendo duro. Mas ele precisava manter a atenção na tarefa de vencer os líderes. Ele poderia ajudá-la depois.

— Onde está a Morgana?! — gritou Charlie, procurando pelo salão.

— Onde vocês não podem alcançá-la.

Damon lhes acertou com um cajado nas costas, sobre o machucado, o que fez ele soltar um suspiro. Então o cajado os atingiu na perna, os derrubando de joelhos.

— Ah! — exclamou o demônio. — Sempre quis que um demônio do nível de um Pecado se ajoelhasse perante minha presença. — ele foi para a frente deles.

Charlie apoiou a mão no chão, e usou isso a seu favor. Torne suas fraquezas em força, e vire a mesa antes que seu oponente perceba suas ações, dizia sua irmã. O chão em torno deles foi congelado em torno de dez metros, e com um giro rápido, Damon caiu, recebendo uma rasteira de seus adversários. Charlie virou de ponta cabeça, plantando bananeira, e caiu, com a perna direita sobre a barriga do demônio em um chute machado.

— Engraçado. — ele deu uma cambalhota para trás e se levantou. — Sempre quis patinar no gelo com um demônio também.

Com um grunhido de fúria, Damon tentou se levantar, mas foi acertado por outro chute na altura do ombro e caiu deslizando pelo gelo, indo até uma de suas extremidades. Charlie pisou forte no chão, fazendo uma pedra subir abaixo do oponente e o jogar no ar; ele bateu as mãos e girou a direita e torno da esquerda, fazendo Damon girar em uma esfera de ar o jogou longe com uma explosão dessa esfera. Ele tentou se recuperar rapidamente, mas Charlie já estava avançando, com calma.

— Vocês não são nem um pouco ruins... — ele limpou o sangue negro que escorria por sua boca. — Mas eu também não posso perder. — com um movimento de mãos, símbolos mágicos surgiram em torno do cajado, e o mesmo lançou um raio contra Charlie. Foram os instintos de Clary que fizeram ele desviar.

— Cuidado pra onde aponta isso, tio. — ele levantou a tempo de esquivar de outro raio. Não olhou para trás, mesmo preocupado com "o que os raios atingiram após ele desviar?", mas sua resposta veio em seguida. Os raios de Damon voltaram contra ele mesmo, arrancando sem permissão seus braços.

— O que?! — vociferou ele, olhando para o mesmo lugar que Charlie. Olhando para a garota no vestido azul, que soava e respirava ofegante. Ela deu um sorriso para Charlie antes de jogar o cabelo para trás do ombro.

— Eu fale que ia cuidar da sua retaguarda. — então, ela voltou sua atenção pro grupo de Submundanos que formavam um semi círculo em torno dela.

— Olhe, sabe... Eu nem queria tanto ver vocês ajoelhados e... — Charlie moveu o braço ao lado, lançando com vento o demônio à parede e usando a própria parede para prender o pescoço e os membros que restavam do mesmo.

— Reze para eu voltar antes que você morra sem seu sangue. — ele olhou a trilha de sangue negro ali e seguiu em uma investida para junto da garota de azul, já pronto pra continuar com o combate.

Ao se aproximar, viu que um dos guardas, armado com um arco e flecha, seja lá de onde ele o tenha tirado, apontava um tiro para a menina. Charlie pulou no ar, formando bolsões de vento e os estourando para tomar impulso, como se subisse uma escada invisível e, com uma cambalhota, acertou com ambos os pés no peito do guarda, que caiu de costas no chão do segundo andar. Charlie pousou ao lado da garota e sorriu para ela, olhando dela pros inimigos.

— Hora de retribuir o favor. — disse ele, antes de investir contra o grupo.

Ele e Clary soltaram todos os sentimentos que estavam segurando: a fúria por ter deixado que Morgana fugisse; a felicidade por terem conseguido superar, pelo menos, um dos traumas da garota. Seus pensamentos também fluíram ainda mais durante o combate. Charlie se perdeu na luta, com todas as suas ideias que se formavam com o novo conhecimento adquirido montavam um enorme quebra-cabeças em sua mente. Ele não sabia quanto tempo lutou, mas só parou quando Charlotte parou em sua frente, com a mão estendida, para ajudá-lo a se levantar.

— Aceita uma mãozinha? — ela deu uma piscadela pra ele.

— Como eu... parei aqui? — ele olhou para si mesmo, sentado em frente à porta do salão, olhando ela fixamente. Já estava em sua forma comum novamente, e não lembrava quando havia se desfeito a transformação em Clary.

— Você gritou pros Submundanos que eles tinham uma hora pra fugirem, mas que não conseguiriam ir longe o suficiente, e que você encontraria todos eles e mostraria a eles o fim da linha. — ela deu de ombros. — Como você não era mais... aquela garota, foi bem mais assustador.

— Oh... E faz quanto tempo que estou aqui? — ele aceitou a mão dela pra se levantar. — Damon?

— Pelo menos uns trinta minutos. Não parei pra ver o que você estava fazendo, fui ajudar os feridos inocentes. — ela olhou para o corpo do demônio, que ainda estava preso na parede, em uma expressão de quem estava sendo torturado. Morto, Charlie notou. Isso era ruim, mas era bom também.

— Fico agradecido de você ter tomado as rédeas quando eu... — ele pensou sobre o que seu aconteceu. — Apaguei.

— Não foi nada. — ela ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — A propósito, sou Charlotte. Charlotte Morgan. — disse a morena, sorrindo para Charlie, como se ver o garoto ali fosse algo que iluminasse aquela noite. Mal sabia ela, que aquele sorriso foi para Charlie, muito maior que a lua no céu. — Obrigado por me salvar. Sabe, estaria em maus bocados se você não intervisse e roubasse toda a diversão.

— Charlie Hellscyth, a seu dispor. — ele fez uma reverência, pegou a mão dela e beijou suavemente a luva por cima da mão dela. — Ajudar é um de meus prazeres, então, não tem de que. E você também me salvou. Estamos quites.

— É, eu sei. Os demônios anunciaram quando chegou. — ela deu um sorriso tímido, desviando o olhar. Mas pareceu decidida ao fazer sua pergunta. — Então, você é um herói? — a contestação dela fez Charlie refletir sobre suas ações, e como ele poderia ser considerado por aqueles que acaba ajudando.

— Verdade, né. Acho que não. Eu faço o bem, quando me convém. Não é como se meu objetivo fosse ajudar as pessoas, entende? — ele tentou não desiludir a garota com aquelas palavras. E sentiu certo aperto quando ela pareceu desanimar um pouco. — Mas, pretendo salvar esta cidade daqueles que a governam de maneia cruel.

— Então, é um herói? — concluiu Charlotte, com a animação voltando para seu rosto.

Ele deu as costas para ela, com um sorriso no rosto. Não tirou os olhos dela enquanto a observava por cima do ombro e abria as grandes portas do palazzio.

— Não. — ele começou a andar, acenando para ela. — Heróis usam máscaras. Eu sou... só um cara com muito tempo livre. Até algum dia, Charlotte.

— Até... Charlie... — as palavras dela se perderam ao vento, que soprou em uma brisa agradável naquela noite.

A morena pareceu satisfeita, levando sua mão à máscara que usava, involuntariamente pensando em como Charlie ficaria vestindo uma. Ela murmurou um baixo "Tomara que o encontre novamente." antes de voltar para seus parentes. O garoto a ouvira. Naquele dia, nenhum dos dois imaginou que haveriam tantos reencontros entre eles.

. . .

Notas finais
Sim, é um flashback. Me amem mais ainda por isso.