As Crônicas dos Doze - O corpo Astral
4 Arabelle
Era uma noite de primavera na cidade de Killarney, estava quase no fim do mês de março. Uma pequena casinha situada no interior da cidade, coberta de flores nos arredores e o cheiro de madressilva sempre era presente. No interior da casa encontravam-se quatro irmãos, Joseph o mais velho de todos. Aquele que ia do trabalho para casa todos os dias, ele que sustentava a casa. Mika, o segundo irmão, o menino prodígio da casa, inteligente e aplicado. Cory, o mais novo e mais alegre dos irmãos, a alegria da casa. E, não menos importante, Arabelle, a única menina. Com a morte de seus pais numa terrível tragédia automobilística, a jovem garota de apenas 14 anos tomou para si as responsabilidades da casa. Ela cozinhava, passava, cuidava e ainda reclamava com os três homens. Apesar da pouca idade, a terceira irmã era, sem sombra de dúvidas, a mais responsável dos quatro.
Estava ainda frio naquela época do ano, mesmo sendo primavera, o frio se estendera até agora. O vento assoprava tanto fora da janela que faziam os galhos das árvores aranharem os vidros e fazer um grande barulho. Numa das janelas, o pequeno Cory estava próximo, ele dormia tranquilamente, mas com o barulho que os galhos faziam, ele acordou assustado. Olhou para a janela e viu o reflexo que as árvores faziam. Correu para o quarto de sua irmã mais velha pulando de medo.
— Belle!? Belle!? – chama o garoto.
A menina não responde de imediato, estava ainda imersa nos sonhos, mas ainda assim acaba acordado. A cabeleira ruiva por todo o rosto a fez parecer ainda mais aterrorizante que os galhos na janela. Ela focou os olhos no irmão e olhou para o relógio.
— Cory! Ainda está de madrugada. O que você está fazendo em pé? – ela olha para o garotinho assustado.
— Eu ouvi um barulho na janela, Belle. Fiquei assustado. Posso dormir aqui com você?
— Meu Deus! De novo? Você se assusta toda noite. – ela fala já o repreendendo. Mas assim que ela repara no rosto do irmão, percebe que ele ainda é uma criança como qualquer outra, com medos e frustações, apenas uma criança. – Ok, você pode dormir aqui, mas essa será a última vez que eu deixo. Você tem que crescer, garoto.
— Certo. – ele pula em cima da cama. – Belle, você acredita que há monstros lá fora?
Ela abraça o pequeno e acaricia sua cabeça e pensa numa ótima resposta.
— Sabe, Cory, eu não sei ao certo se monstros existem. Mas sabe de uma coisa? Se eles existem, você tem que enfrenta-los. Os monstros são, aparentemente, só nossos medos refletidos. Se eu tenho medo de altura, meu mostro será a altura, então, só cabe a mim derrota-la.
— Então, eu tenho que derrotar o meu mostro. – ele fala e pensa um pouco. — Acho que o meu mostro é o escuro. Como se derrota o escuro, Belle?
— Uma vez eu li em Harry Potter, quando os dementadores ameaçavam o Harry, o Dumbledore falou assim para todos: “A felicidade pode ser encontrada mesmo nas horas mais difíceis, se você lembrar-se de acender a luz”. – ela fala colocando o lençol no irmão. – Com essa frase, ele fala que, apesar das horas difíceis, mesmo na escuridão, nós sempre podemos acender uma luz. Acender algo de bom em nós, lembrar que não estamos sozinhos, que o escuro é nada mais nada menos, que o mesmo lugar, porém com a ausência de luz, então, Cory, acenda-a.
...
Assim que o novo dia começa, a menina acorda, apesar da pouca idade, ela prepara o café dos irmãos, arruma um pouco a casa e ainda consegue se preparar para o início das aulas.
Os demais acordam e saem ao mesmo tempo. Com ela fica, como sempre, o trabalho de levar o mais novo até a escola. Quando eles saem, Arabelle percebe que algo está diferente nela. Ela sente vibrações e padrões de uma nova sensação que nunca tinha notado antes. Como se corações pulsassem em seus ouvidos, ela viu e sentiu sentimentos diversos, diferentes e variados, todos ao mesmo tempo. Ela pegou a mão do irmão mais novo e na mesma hora algo como a sensação de preguiça e sono tomou conta dela, não queria ir para a escola hoje, estava muito chateada por ter acordado tão cedo. Assim que soltou a mão do pequeno Cory, o sentimento desapareceu.
Arabelle fitou o rosto do irmão por mais de um minuto até perceber que todo repentino sentimento de preguiça passara por completo. Ela se concentra e segue para a escola, não dando importância ao ocorrido.
...
A garota estava na sua terceira aula do dia, no exato momento o professor falava sobre cossenos, senos e tangentes, a aula favorita da menina. Sua amiga, Laurel, estava do seu lado como sempre, tentando não dormir na aula de matemática.
— Não sei como você consegue gostar de uma tortura dessas, Belle. É sério, você é estranha. – cochicha Laurel.
— Então, eu gosto de matemática porque é uma matéria universal, em todos os lugares é a mesma, não muda, então é algo que nunca vou precisar me adaptar.
— Nossa, garota! Você foi profunda agora, quase me fez gostar, mas só quase mesmo.
As duas riram, porém algo volta a Arabelle. A sensação de mais cedo, todos os alunos presente parecem mais nítidos. Eles foram tomados por áureas de tonalidades diferentes. Raiva, medo, preguiça, sono, animação,... Vários sentimentos foram sentidos pela garota. Todos ao mesmo tempo e de forma intensa. Então, do nada, ela sai correndo da sala deixando Laurel e todos os outros a olhando com espanto e preocupação.
Ela entra no banheiro e se olha no espelho. Tudo parece normal, as sardas, o cabelo enorme e ruivo, sua baixa estatura. Tudo certo. Porém, olhando novamente, ela percebe que a cor dos seus olhos mudou. Estava um tom esmeralda brilhante. Com isso, uma enorme dor na cabeça começou. Seus olhos puxavam, sua mente ficou mais pesada e ela se deita no chão. A garota se encolhe e põe as mãos na cabeça. Enquanto ela se contorce, percebe que se conectou com todas as mentes daquele lugar. Pensamentos e emoções variadas brotam em sua mente, todas ao mesmo tempo, todos os sentimentos, cada medo e cada decepção. Tudo. Então ela se lembra da conversa da noite passada com seu irmão. “Eu tenho que derrotar o meu mostro... Acho que o meu mostro é o escuro. Como se derrota o escuro, Belle?”
A escuridão. Ela lembrou-se da escuridão. O medo do seu irmão se tornou o seu. Logo esse medo se tornou de todos na escola. Todas as pessoas presentes só enxergavam a escuridão. Arabelle só enxergava a escuridão. O medo do oculto era transmitido por todos. Portanto, com esse fenômeno, a escola se tornou um lugar de pessoas que passaram a temer o escuro, estavam agachados, olhando para o nada, suando e sofrendo de um medo que não era deles.
Passados vários minutos, Arabelle volta a lembrar do irmão — Como se derrota o escuro, Belle? – Então ela se lembrou do que falou ao menino. — “A felicidade pode ser encontrada mesmo nas horas mais difíceis, se você lembrar-se de acender a luz”... Com essa frase, ele fala que, apesar das horas difíceis, mesmo na escuridão, nós sempre podemos acender uma luz. Acender algo de bom em nós, lembrar que não estamos sozinhos, que o escuro é nada mais nada menos, que o mesmo lugar, porém com a ausência de luz, então, Cory, acenda-a.
Acender. Era a vez dela de acender a luz. Arabelle precisava acender, precisava encontrar a felicidade. A menina se pôs de pé e encarou o vazio. Lembrou-se dos seus pais, dos irmãos, de Laurel, viu rostos desconhecidos: uma menina em chamas num parque vazio, um garoto cheio de poeira, outro garoto que voava, ela viu todos.
Uma enorme luz se acendeu em sua mente. Percebeu que se conectou com os outros na escola. Então sentiu uma energia dentro de si, ela poderia controlar aquilo que acabara de acontecer. Contudo, a pequena de cabelos cheios e ruivos fez com que todos voltassem ao normal. A escuridão desapareceu e, aos poucos, as pessoas iam recuperando a consciência.
Um formigamento surge na palma de Arabelle, linhas se formam criando um 69 bem no centro de sua mão. Mas não é só isso de estranho que acontece, uma figura envolta de uma luz branca surge no meio do banheiro feminino. Uma mulher estende a mão e se comunica com ela.
“Arabelle, minha querida. Você hoje recebeu o dom da constelação de Câncer. Tu és a décima segunda geração de Caranguejo. Venha me encontrar. Venha para Ilha astral...”
A imagem desaparece. A mulher se fora. Ela volta sua atenção para a marca da mão e reconhece o símbolo. Era o seu signo. Câncer. O que ele representava, a menina ainda não sabia. Então, de repente, ela sente a cabeça pesar mais uma vez, mas agora sua consciência está esvaindo e ela desmaia ali mesmo, no banheiro feminino da sua escola.
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