P.O.V. Marius.

Ela se parecia muito com Maharet.

—Você tem irmãos ou irmãs Jessica?

—Não. Mas, você já sabia disso.

—O que?

—Não te disse meu nome. Você se entregou. Eu não me lembro de você, mas você se lembra de mim.

—Devia ter uns sete anos quando a vi pela primeira vez.

—É. Foi na época em que eu morava naquele lugar, o lugar que vive assombrando os meus sonhos. Eu me lembro, do loiro, daquele que parecia um ancião e da moça indiana. Sempre achei os vestidos dela muito lindos. Me lembro da tia Maharet brincar de rocambole comigo.

—Rocambole?

—Aqueles vestidos indianos que enrolam. Sari, ela me enrolava e me desenrolava. Mas, o que eu mais me lembro é do dia em que me mandaram embora. Me lembro da minha tia chorando, sangrando. Dizendo que eu tinha que ir viver com os mortais. Eu usava um vestido branco ele era lindo.

Falou nostálgica e magoada. Então seus olhos se perderam por uma fração de segundo.

—Vai haver um blackout. Se tem velas ai sugiro comecem a acender.

—Pode prever o futuro por acaso?

—Posso. Pior que posso.

Lestat começou a espalhar velas pela casa, mas antes que pudesse começar a acender veio o apagão.

—Oh, céus!

—Relaxem. Eu já faço isso a um bom tempo.

—Faz o que?

De repente todas as velas se acenderam sozinhas.

—Você fez isso?

—Fiz. Eu já nem preciso mais usar palavras.

Ela se levantou pegou um candelabro e saiu andando.

—Onde vai?

—Procurar a cozinha.

—Isso pode ser um problema.

—Não tem cozinha?

—Tem, mas...

—Não tem comida. Faz sentido, vocês não comem.

—Você não pode... criar o que quer que queira comer?

Perguntei. Ela riu.

—Fico realmente lisonjeada por me considerar tão poderosa, mas eu sou só uma bruxa. Não sou Deus. O máximo que eu posso fazer é transformar uma coisa em outra.

—Consegue transformar algo em comida?

—Eu não sei. Eu nunca tentei. Mas, transformei um castiçal numa galinha uma vez.

—Um castiçal em uma galinha?

—É. E eu nem sei como. Eu não queria que acontecesse, só meio que aconteceu.

—Pode transformar alguém numa galinha?

—Provavelmente. Um coelhinho!

Ela pegou o coelho branquinho.

—Own, como você é bonitinho. Você é a coisinha mais lindinha que eu já vi.

—Obrigado.

Respondeu Lestat, mas ela deu uma rebatida que foi espetacular:

—Eu tava falando do coelho.

Ela pegou o telefone celular e pediu uma pizza.

—Não se preocupe sanguessuga, eu pago. Agora, precisamos de um nome pra você.

—Eu tenho um nome.

—De novo, tava falando com o coelho. Já decidi, como você é menina vai chamar Gigi.

—Não é como se o coelho fosse responder.

—Ela já respondeu. Eu falo todas as línguas conhecidas pelo homem, peixe, crustáceo e muitas variedades de animais.

—Eu não quero um coelho na minha mansão!

—E eu não moro na sua mansão! Oh, minha pizza chegou. Toma segura a Gigi.

Ela colocou o coelho no colo de Lestat.

—Eu odeio esse coelho.

O coelho fez um barulho ameaçador para Lestat. Jessica voltou carregando a pizza e um punhado de rúcula.

—Onde arrumou a rúcula?

—Eu pulei o muro e roubei da casa do vizinho. Toma Gigi, é só pra você.

Ela falou aquilo com tanta naturalidade que eu ri.

—Qual é a graça?

Perguntou mordendo um pedaço de pizza.

—Por um segundo pensei mesmo que estivesse falando sério.

Ela engoliu e perguntou:

—Sobre?

—Sobre ter pulado o muro e roubado a rúcula da casa do vizinho.

—É porque eu pulei e eu roubei. Relaxa, sua vizinha é uma bruxa, ela não vai querer se meter comigo.

—A minha vizinha é uma bruxa?

—É. Não bebam o sangue dos moradores da vizinhança.

—Porque não?

—Estão cheios de verbena. É inofensivo para os humanos, mas letal pra vocês.

—Veneno anti vampiro?

—Por ai. Geralmente só intoxica e deixa vocês inconscientes, mas é tempo suficiente pra alguém enfiar uma estaca no seu coração.

—Quanto tempo?

—Algumas horas.

—E porque a vizinha não iria querer se meter com você?

—Porque eu sou a última descendente viva dos necromantes de Asheron e ela é uma bruxa medíocre?

Quando vimos ela já tinha comido a pizza inteira.

—Como conseguiu comer tudo aquilo?!

—É por causa dos poderes. Preciso de mais do que uma pessoa normal pra viver. Bem mais. Mas, você sabe onde mora minha tia?

—Sei.

—Pode me levar até lá?

—Claro.

—Vocês por acaso são... namorados?

—Não! Ele é o meu criador.

—Eu sei. Mas, eu tinha que perguntar. A eletricidade vai voltar.

Mal ela falou e a eletricidade voltou. Então todas as velas se apagaram.

—Você é uma necromante?

—Ah, dã!

—Isso quer dizer?

—Sim. Sou, mas eu não curto muito mexer com essas coisas. Esse tipo de magia trás consequências ruins. Bruxos necromantes podem não só se comunicar com os espíritos, mas manipular a morte em si. Por tanto, posso manipular vampiros porque vocês estão mortos e eu posso controlar vocês se eu quiser.

—Duvido.

—Ta bem.

Logo Lestat segurava uma estaca, apontou-a para si mesmo e estava em pânico.

—Tudo bem eu acredito!

—Eu avisei.

Ele largou a estaca.

—Não mexa com as garotas Reeves! Agora eu vou dormir. Boa noite, vamos Gigi.

—Impressionante.

—Ela me dá medo, mas ainda assim eu desenvolvi um certo fascínio por ela. Faz sentido pra você?

—Faz.

—Você me falou sobre isso, mas nunca entendi até conhecê-la. Acho-a linda porque é um ser humano, sua fragilidade, sua juventude, seu coração mesmo quando ela pensa que está partido.

—Fragilidade Lestat? A garota é uma máquina de matar.

—Não acho que Jesse já tenha matado alguém.

—Ela parece muito animada para reencontrar Maharet.

—Imagino que sim. Ela não a vê a dezoito anos.

De repente, Jessica acorda gritando de pavor.

—O que foi? O quarto tá pegando fogo!

—Desculpe. Shuta Incendea! Ficou um pouco chamuscado, mas eu posso consertar.

—Porque estava gritando?

—Ela está vindo. Sou a única que pode detê-la, tem uma razão para a minha linhagem ter sido caçada até a quase extinção. Eu sou uma descendente de uma das duas bruxas que lançaram essa praga de vampiros por sob a terra. Eu sou a única que pode matar Akasha. A única que pode. E eu vou. Por isso preciso da tia Maharet. Ela vai me ensinar a fórmula da cura. Vai me ensinar a reverter.