As Crônicas de Zahara: Livro I - A herança de Krig
2 Capítulo II - A morte Branca
Notas iniciais
Silêncio reinava no palácio de Uraven, ninguém se atrevia a cantar ou a falar alto enquanto Zahin, a grande rainha, permanecesse enferma. Não se sabia o nome da doença que acometera tantos nobres em tão pouco tempo, os sábios não a conheciam tampoco possuiam sua cura, se limitavam a aliviar a dor e o sofrimento de seus pacientes. Chamavam a moléstia de morte branca, pois a pobre vitima empalidecia até definhar: cabelos e unhas tornavam-se brancos e quebradiços, a pele e os próprios lábios e olhos esbranqueciam até que finalmente a morte chegava para findar o sofrimeto.
Um mensageiro sussurou algo nos ouvidos de Yin, o regente, encarregado de governar enquanto a rainha não estivesse em condições. Pela expressão preocupada de Yin, não eram boas notícias que chegavam.
–Sua Graça. — Yin aproximou-se da Rainha que agonizava no leito. Sua pele era clara como mármore, e seus olhos estavam tomados por uma cor branca e leitosa que não deixava transparecer as pupilas. — Temo que trago más notícias — Yin continuou. — O velho rei Gelion, de Glasdur está morto, e uma tempestade afundou o navio em que o príncipe Kveth, seu filho, retornava a casa.
–Há sobreviventes? — Perguntou Zia, a princesa, filha de Zahin. Uma mulher alta e altiva.
–Lamento, alteza, não há nenhum. — Yin fez uma pausa grave.- Os relatos falam do ataque de um monstro... Um Kraken foi visto atacando barcos pesqueiros há poucos dias. A principio pensamos que fossem apenas histórias de pescador, mas agora a lenda parece se confirmar.
A rainha Zahin suspirou, pesarosa. E esforçando-se para falar, ordenou:
–Saiam todos... Zia fica.
Todos no aposento obedeceram a ordem, Zia sentou-se ao lado da mãe, acariciando as mãos frágeis da velha rainha.
–Zia, querida. — Zahin parecia preocupada. — Há mais de duzentos anos, o tataravô de seu tataravô, o grande Rei Krig fundou os dez reinos de Iurra, lutando para conquistar esse continente. Embora estejamos reinando aqui por tanto tempo, nós, os Uravin, não somos nativos dessas terras... — a voz de Zahin fraquejou, enquanto ela buscava uma postura que a aliviasse das dores.
–Sim, mãe. — continuou Zia, impotente ante o sofrimento da Rainha. — Essa história nunca será esquecida. Nossos antepassados vieram de Zaharra, além do mar, em busca de terras melhores.
–Terras melhores... — A rainha murmurou. — É isso que estão contando? Krig veio para fugir das grandes prgas de Zaharra, conjuradas pelo Rei-Demônio, Moloch. Moloch clamava ser o rei de Zahara, e faria de tudo para matar a todos os Uravin: Moloch enviou toda sorte de monstros para atacar-nos, enviou demonios, maus espíritos e por fim a morte branca, ninguém podia pará-la, milhares pereceram. Por isso Kirg zarpou em direção ao mar, em direção ao desconhecido, na esperança de salvar seu povo. Aqui em Iurra estávamos seguros, longe de Moloch e suas pragas, porém agora, duzentos anos mais tarde, ele parece ter nos encontrado.
Zahin apertou as mãos de Zia, utilizando suas últimas forças.
–Querida, prometa que irás proteger nosso povo desse mal tão antigo. Não será fácil, mas você terá que ser forte.
–Eu prometo. — Afirmou Zia com lágrimas nos olhos.
–Muitos lhe negarão o trono, mas é você que deve comandar Iurra rumo à paz. — Zahin fazia certo esforço para falar. — Encontre a joia. É a única maneira de derrotar Moloch.
–Joia? — Zia parecia confusa.
–Triunfo... de Krig. No triunfo de Krig. — Zahir dava seu último suspiro, a morte branca fazia mais uma vítima. Estava morta Zahir da casa de Krig, trigésima quinta monarca de Uraven. Zia ajoelhou-se e chorou diante do pálido cadáver. Em verdade Zahir não teria mais que cinquenta anos, e estava apenas no sétimo ano de seu reinado, porém a doença lhe dreinara a vida.
–Que seu corpo descanse ao lado de Krig. — Anunciava o grande sacerdote ao acender a pira funerária. As labaredas arderam alaranjadas e o perfume dos incensos tomou o palácio. A fumaça rumou a leste, em direção a antiga terra de Zaharra, onde acredita-se que os antigos reis ainda vivem para combater o antigo mal. A comoção era grande em Uraven, porém havia um problema maior: a questão sucessória.
Zia era irmã gêmea de Hai, o principe. Hai, contudo nunca demonstrara grande aptidão para reinar, o jovem príncipe divertia-se com justas e corridas de cavalos, e no momento estava em Quigon para uma caçada. Desde sempre Zahin demonstrara preferência por Zia, que possuia as características de uma lider nata. O senado, entretanto acionava a lei do primogênito, que proclamava o primeiro filho homem como rei legítimo. Zahin, em verdade, só assumira o trono por não possuir outros irmãos ou primos.
O parlamento estava lotado. Homens velhos e jovens ocupavam as centenas de bancos aveludados que se dispunham no salão de marmore vermelho, a cor da dinastia real.
–Com todo respeito, o clamor de Zia ao trono configura um absurdo legal. — Levantou-se um velho senador empunhando um pergaminho muito antigo. — A lei é clara, tem preferencia o primogênito, o primeiro filho homem. O Principe Hai é o nosso rei.
–Senhor, a grande rainha Zia, que ela descanse em paz, foi uma das melhores monarcas que Uraven já testemunhou. — Interveio Yin. — Não há motivo para discriminar herdeiros pelo sexo.
–Julga que devemos jogar a tradição no lixo e sermos governados novamente por uma mulher? — Ironizou lorde Faur, filho de Lady Morea, e sobrinho de Zahin, que também havia estabelecido pretensão ao trono.
–Hai e eu somos gêmeos, porém eu sou mais velha por alguns minutos. O que define que um homem está mais apto a reinar? -Questionou Zia, lembrando-se da promessa que fez a Zahin.
–Como um homem direito e mantenedor das tradições é meu dever acusá-la de golpe contra seu irmão, princesa Zia. — Esbravejou o senador. — Por favor, escoltem a princesa para fora do parlamento.
–Vocês não podem fazer isso! — Interveio Yin. Respeitem a memória da rainha.
–Reconheço que a reivindicação da princesa é patética. -Interveio uma mulher magra e alta. Lembrava a Rainha Zahin em sua juventude, porém seu olhar era sombrio. Era Lady Morea, irmã mais nova da falecida rainha. -Contudo, senador, defender o principe Hai não é menos injusto. O mais velho descendente homem de nosso último rei, o saudoso rei Gaol, é meu filho, Faur, três anos mais velho que Hai.
O senador refletiu por um longo tempo as palavras de Morea, e proferiu.
–O senado irá deliberar as duas reivindicações, peço que todos os não senadores se retirem a fim de esperar uma decisão justa sobre qual será nosso próximo rei.
–Duas? -Interveio Zia — Zahim queria a mim no trono! A vontade dela não tem nenhum valor para vocês?-protestou a princesa com lágrimas nos olhos enquanto Yin e seus homens a retiravam do senado as pressas. A linhagem masculina era considerada mais forte. Não aceitariam uma mulher novamente no trono.
Zia trancou-se em seus aposentos esperando o resultado dos senadores.Cumprir a promessa de sua mãe seria mais dificil que pensara.
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