Notas iniciais
Comecei a trabalhar nesta história em particular tem um tempo. Ela tem uma temática que me agrada muito, um universo bem especial e personagens pelos quais possuo muito respeito e admiração. Espero conseguir apresentá-los da forma correta para vocês neste prólogo. - Emerich Asper

Fazia frio. As montanhas estavam tomadas por espessas camadas de neve. Em todas as direções, apenas via-se a imensidão branca. Houvera uma nevasca há pouquíssimo tempo, o que apenas realçava a aparência tristonha por entre as grandiosas montanhas. O calor é associado à vida e o frio à morte. Sempre foi assim. E estando num lugar como aquele, era simples entender o porquê. Parecia impossível imaginar que alguma forma de vida pudesse sobreviver num cenário daqueles.

E por entre a imensidão pálida imaculada, havia o peregrino. Passos firmes, com os pés furando e afundando para dentro da neve. Suas mãos tremiam involuntariamente pelo frio. Seus músculos doíam pelo esforço de continuar se movendo, com o corpo praticamente congelado por dentro. Estava envolto em diversas camadas de trapos puídos, revelando que enfrentara uma jornada difícil. Apoiava-se num cajado de madeira simples, e podia-se ver nitidamente os dedos feridos pelos esforços. Por debaixo de tantos panos, pouco podia distinguir-se sobre ele. Tinha uma barba escura com alguns fios grisalhos, os dentes que rangiam estavam amarelados e os olhos pretos profundos de olheiras e cansaço.

Porém, era seu olhar o que mais tomaria a atenção de qualquer um. Antigo. Tão velho quanto o tempo poderia ser. Havia ali, sem expressar nada, um turbilhão de emoções que poderíamos ter olhando para ele. Seu olhar carregava amores, alegrias e sorrisos. Também carregava ódios, tragédias e sofrimentos. E acima de tudo, morte. Seu olhar vazio carregava o peso inexplicável da morte consigo.

O peregrino estava exaurido. O frio tão intenso que estava queimando sua carne por dentro. Sentia como se a qualquer momento seus músculos fossem parar de obedecer e deixá-lo para morrer congelado. Mas ele sabia que isso jamais aconteceria. Mesmo que pensasse estar no seu limite, ele sabia que jamais iria perder as forças. Há muito tempo percebeu que não poderia simplesmente cair, como todos os outros. Há muito tempo ele aprendeu que mesmo que ele não quisesse mais seguir em frente, ele iria seguir. Acima de todas as coisas, havia uma vontade que lhe guiava por caminhos os quais ele nunca quis seguir.

Aproximou-se de uma grande rocha, e ali lhe veio uma forte sensação. Respirou fundo. Primeiro, suas narinas foram castigadas pelo frio indescritível, mas logo depois, ele distinguiu o cheiro de madeira. E então o cheiro de carne podre, o de água suja, o de pessoas e o intenso cheiro de sangue. Sempre fora assim. Capaz das coisas que os outros jamais sonhariam fazer.

Seguiu. Contornou a grande rocha, esforçando-se para subir uma íngreme ladeira. Apoiou-se com uma das mãos no cajado e a outra na rocha. Sentiu um arrepio ao tocar a pedra tão fria, como se fosse o próprio gelo. Sentiu um dos joelhos oscilar com o esforço, mas sabia que não cairia, e foi em frente. Caminhou para o alto com um grunhido de força e alcançou o topo da ladeira arfando. Lá, ele avistou o precário casebre.

Feio. Muito mal construído. Madeiras rústicas mal pregadas. Haviam diversos buracos e o lugar parecia velho o suficiente para desabar a qualquer momento. Se não fosse uma região tão mortalmente fria, os cupins teriam o destruído com uma facilidade inacreditável. E mesmo assim, com nevascas tão cruéis, o casebre estava de pé. Horrível, mas forte.

Aquela visão trouxe memórias ao peregrino. Num outro tempo teria sorrido com aquilo. Lhe era familiar, mas hoje já não lhe sobrava grande espaço para o senso de humor. Respirou profundamente o ar congelado e começou a descer a ladeira, rumando para o casebre.

Foi apoiando-se no cajado para manter o equilíbrio. Estava bem na encosta da montanha. O casebre parecia ter sido construído para esconder-se do caminho principal. Naturalmente, difícil acreditar que alguma coisa pudesse passar por ali, ainda mais algo que representasse perigo. Porém, o peregrino sabia o que havia lá. Sabia que as pessoas que viviam ali dentro não tinham ideia, mas realmente corriam grande perigo. Provável que tivessem decidido erguer moradia num lugar daqueles por serem desconfiados. Mas ele sabia a verdade. Haviam sido influenciados, mesmo sem terem noção disso.

O peregrino então lembrou-se do que estava fazendo ali. Tanto tempo viajando, apenas pensando no caminho e, agora que estava tão próximo, não havia pensado no que iria encontrar. De repente, sentiu um arrepio. Apertou com ainda mais força o cajado, ferindo os dedos cortados e conseguindo sentir o desconforto conhecido na palma das mãos. O coração acelerara e ele estava praticamente diante da porta.

Parou. Respirou profundamente. Expirou devagar. Começou a ouvir vozes, abafadas pelas paredes e pelo ensurdecedor som do vento por entre as montanhas. Distinguiu gritos intensos de dor. Distinguiu gritos, e não sabia se eram de ódio ou temor. Levou a mão lentamente a porta sem maçaneta. Quando tocou a madeira, pode sentir. Poderia enxergar de onde aquela madeira veio, qual foi sua história, de qual árvore foi extraída antes de tornar-se porta. Mas limitou-se. Tocou-a e sentiu a velhice, a idade, a fraqueza e as placas que foram pregadas contra ela do lado de dentro. A porta estava trancada. Seria mais difícil dessa forma. O peregrino então respirou fundo pela última vez.

De uma só vez, arrebentou a porta com um chute.

A madeira cedeu. As placas de madeira pregadas contra ela, não tão velhas quanto, cederam também com tremenda facilidade. O peregrino sabia que assim seria. Não perdeu tempo e partiu para dentro do casebre no mesmo movimento, protegendo os olhos dos estilhaços de madeira.

Entrou e deparou-se com olhares assustados. O primeiro par de olhos eram de um homem. Vestia-se com trapos esfarrapados, mas grossos, propícios para o frio. Estava imundo. Era pálido e muito magro, com mãos ossudas. Estava sentado num pequeno banco improvisado de madeira, ao lado de uma cama, onde estava o segundo par de olhos. Pertenciam a uma mulher. Ela estava deitada na cama. As pernas flexionadas e os joelhos apontados para o teto. Vestia-se com trapos, mas estavam levantados até a cintura, revelando suas pernas e sua boceta. Tinha a pele pálida como a do homem e cabelos pretos muito curtos. Seus olhos eram de um verde opaco e ela estava fraca. Os lençóis da cama estavam manchados em sangue, assim como a vulva e a vagina. Ela estava em trabalho de parto.

O peregrino viu ali de onde sentiu o cheiro de sangue, e numa bancada mal-feita onde deveria ser a cozinha deles, pendiam partes de animais ainda repletas de pelo e rodeadas por insetos. Dali ele sentira o cheiro podre.

Como se saísse de um transe, o homem levantou-se do banco. Seu olhar temeroso assumiu um brilho protetor e ele cerrou as duas mãos, o olhar inquisidor para o peregrino. Ele era alto.

O peregrino sentia o medo dele. O homem estava incerto e desesperado. Mas além disso, havia um ódio dentro dele. Como uma doença que ele já carregava há muito tempo. Viu naquele homem uma amargura profunda, e quando os olhares dos dois se cruzaram, enxergou quem ele realmente era. Viu sofrimento, tristezas, incertezas e viu no que aquilo o transformaram. Um homem cruel. Viu o ódio pela mulher que estava na cama. Viu todas as vezes em que ele a feriu, violentou e maltratou. Viu todas as vidas que ele colocou nela, e viu todas elas serem mortas por ele antes que pudessem ter uma chance de conhecer o mundo. Tinha medo desta que estava vindo. O peregrino viu todas as vezes que ele tentou que ela morresse antes de vir. Viu todas as vezes que espancou a barriga da mulher até que ela perdesse a consciência, com uma violência e brutalidade dignas de um animal selvagem. Mas a criança recusava-se a morrer e ele estava com medo dela.

O homem por um instante sentiu-se atônito. Então, sacudiu a cabeça e percebeu o que tinha acontecido. Não sabia explicar, mas conseguiu sentir quando o peregrino viu quem ele era. Aquilo trouxe à ele o ódio. Destravou nele a amargura incurável que sempre trouxe consigo. Cerrou os dentes, apertou os punhos com mais força e investiu como um animal sedento.

O peregrino esperou que se aproximasse. Não reagiu impulsivamente. O homem estava diante dele, e então, com um movimento rápido, o peregrino o empurrou com o cajado. A força da investida do próprio homem o fez perder o equilíbrio, acertando a parede. Bateu com a testa com intensidade e quase tombou no chão, a visão turva. O peregrino deu um passo para o lado, afastando-se dele. O homem recobrou a compostura e se voltou para o peregrino, ainda com mais raiva.

Desta vez, armou-se primeiro. Agarrou um dos pedaços da porta quebrada no chão e o segurou como um bastão. O apertou com ódio e partiu mais uma vez, desta vez ele urrava como um animal, brandindo o pedaço de madeira de um lado para o outro.

O peregrino esperou. O homem o alcançou e tentou lhe desferir um golpe dissimulado. O peregrino esquivou-se e então golpeou com o cajado as mãos nuas do homem. O pedaço de madeira oscilou nas mãos do homem. O peregrino moveu o cajado com naturalidade e atingiu a madeira, que escorregou para fora das mãos do homem, indefeso mais uma vez. Cego de ódio, o homem partiu contra o peregrino. Desta vez, o peregrino tirou o cajado do caminho e deixou que visse. Antes que o homem pudesse tocá-lo, o peregrino esticou o braço e agarrou o pescoço do homem.

Quando as pele dos dedos do peregrino tocaram na pele do pescoço do homem, ele sentiu algo inexplicável. Uma onda de sentimentos atingiu seu corpo. Ele assistiu num piscar de olhos as atrocidades que havia feito durante a vida por olhos que o julgavam, e sentiu nojo de si mesmo.

O peregrino o ergueu do chão sem nenhum esforço, como se ele não tivesse peso. O homem sentiu sufocado pelo aperto e aço, e cada vez mais era tomado por sentimentos como nojo, medo, vergonha e um ódio que nunca havia experimentado. Ódio de si mesmo. Aquilo o atingiu com tamanha força e intensidade que ele não se deu conta que se debatia indefeso, espumava uma gosma amarga e chorava lágrimas tão ácidas que pensou que seus olhos estivessem derretendo.

E então ele morreu.

O homem parou de se debater. O peregrino sentiu quando o coração dele parou de bater e simplesmente o soltou. Os olhos do cadáver estava corroídos, escorrendo para fora dos olhos. E por sua boca, escorria para o chão um liquido pastoso e negro como a noite.

O peregrino lançou ao homem morto no chão um último olhar inexpressivo, que trazia centenas de emoções nele, e então voltou-se para a mulher na cama. Ela estava completamente imóvel. Seus olhos olhavam para o peregrino da mesma forma como no momento em que ele adentrou o casebre. Não emitiu nenhum som, não gritou. Apenas continuou lhe encarando assustada.

Ela sabia quem ele era. O peregrino tinha consciência disso. Ele a olhou nos olhos, mas não quis ver sua vida. Ele apenas a olhou com seu olhar inexpressivo, e ela lhe olhou de volta, assustada.

─ Não vou lhe fazer mal. ─ O peregrino disse. Estranhou o som da própria voz. Já havia muito tempo que não a ouvia.

A mulher pareceu relaxar. O peregrino sabia que assim seria. Aproximou-se da cama calmamente e sentou-se ao lado da mulher. Quando aproximou-se dela, o peregrino sentiu um calor. Uma sensação calorosa e viva que parecia emanar dela. Mas ele sabia que não era ela.

A mulher engoliu em seco. O peregrino reparou na pele repleta de cicatrizes dela. A mulher parecia hipnotizada com os olhos dele. O peregrino já vira aquele mesmo olhar milhares de vezes. Não importava quanto tempo passasse, eles sempre se perdiam dentro de seus olhos.

O peregrino tirou os trapos que serviam como uma luva improvisada de sua mão esquerda. De repente a mulher pareceu sair do transe e seguiu o movimento com os olhos, e surpreendeu-se quando o peregrino revelou as mãos feridas, principalmente pela grande cicatriz na palma dela. Uma cicatriz vivida, como se fosse uma ferida ainda em cicatrização.

O peregrino então levou a mão até o rosto da mulher. Ela tentou sair do toque dele, como se fugisse, mas o peregrino continuou e lhe tocou o rosto. A mulher sentiu uma sensação inebriante percorrer cada centímetro de sua carne. A dor intensa das contrações que vinha sentido cessaram, e ela sentiu-se como nunca antes em sua vida. Foi como se o mundo se silenciasse e, pela primeira vez, ela sentisse a paz dentro de si. Sem nem mesmo perceber, a mulher sorria. Sentiu o gosto salgado e quente das lágrimas descerem pelos olhos. Não sabia explicar o porquê delas, mas sentia-se bem.

O peregrino estão desceu a mão lentamente pelo corpo dela. Desceu do rosto para o pescoço, então pelo meio de seus seios até sua barriga. O peregrino puxou as vestes da mulher e tocou a barriga diretamente. A mulher chorava e sorria. Então o peregrino fechou os olhos. Respirou fundo e pressionou devagar a barriga da mulher para baixo. Pode sentir a dilatação, pode sentir a criança cruzando por entre o ventre da mulher e ouviu quando a criança saiu de dentro dela.

A criança estava deitada na cama, por entre as pernas da mãe, mas não chorava. O peregrino afastou a mão do corpo da mulher, abriu os olhos e viu o recém-nascido. Tão pequeno. Seus olhos estavam fechados e estava encolhido, como se estivesse num sono profundo.

Então o recém-nascido abriu seus olhos. Verdes, como os da mãe. Mas os dele eram brilhantes, um verde vivo, surreal. Os olhos dele assimilaram o ambiente em volta com uma consciência adulta, piscaram algumas vezes e então procuraram os olhos do peregrino.

Seus olhares se encontraram, e os dois sentiram tudo. Todas as memórias, todas as sensações, todos os pensamentos. O peregrino assistiu pelos olhos do recém-nascido uma vida em um lugar que ele conhecia, mas já não visitava há tanto tempo que nem mesmo se lembrava como era. E o recém-nascido assistiu pelos olhos do peregrino uma vida que mudou o curso do mundo, mais de uma vez.

─ Ele viverá? ─ A mulher perguntou. Falava com uma voz fraca e carregada.

O peregrino não voltou-se para ela.

─ Sim. E serás grande. ─ O peregrino respondeu, e soube assim que disse que as palavras não eram dele. Como se outro alguém falasse através dele.

Tomou o recém-nascido no colo, que não chorou nem assustou-se com o toque. Aninhou o pequenino em seus braços e continuou a olhá-lo, seus olhos intensos. Possuíam a mesma carga em seus olhos. Antigos, daqueles que já viram e viveram de todas as coisas.

A mulher tentou mover-se na cama. Estava extremamente fraca e debilitada. Chorava profundamente, como se soubesse o que estava por vir. Porém, estava em paz. Não chorava de tristeza.

Tentou falar com o peregrino, mas nem para isso mais tinha forças. Sentia-se cada vez mais e mais fraca, prestes a sucumbir. Pensou que viria um desespero junto daquela sensação do fim inevitável, mas estava numa paz inexplicável. No fundo de seu coração, sentia que havia desempenhado seu papel. Naquele momento estranho, em seu último fio de vida, sentia como se tudo tivesse valido à pena para viver aquele momento, mesmo que tivesse durado frações de segundos.

O peregrino virou-se para ela, e a mãe pode ver seu filho. Ele moveu a cabeça pequena e encontrou os olhos dela. A mulher viu seus brilhantes olhos verdes e sorriu outra vez, tomada por um carinho que nunca havia sentido antes. Sentiu como se a pequena criança a abraçasse, e quase conseguia ouvir uma voz lhe agradecendo. Ela nunca se sentiu tão amada em sua vida quanto naquele momento.

Então a mulher conseguiu sentir a vida lhe deixando. Sua visão foi tornando-se um borrão, os sons ao redor foram diminuindo e as sensações em seu corpo sumiam como se nunca tivessem estado lá. Porém, antes que partisse, viveu para ouvir o nome de seu filho:

─ Ele é Chadash. ─ O peregrino falou com convicção, como se já estivesse decidido muito antes.

E então ela morreu.

Notas finais
Se você chegou até aqui, espero que a trama lhe tenha agradado. Devo dar continuidade em breve. O que será que nos aguarda neste mundo que criei?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.